Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ide ao Sétimo Céu!

"Sétimo Céu", de Caryl Churchill, no Teatro Mirita Casimiro, com encenação de Fernanda Lapa.

Tradução de "Cloud Nine", Sétimo Céu é uma peça sobre a vontade e o ser: o que queremos e não queremos ser e o que somos, o que queremos e não queremos que os outros sejam e o que são, o que julgamos que queremos e não queremos e o que queremos, o que julgamos que somos e não somos, etc. etc. etc.: as trágicas e cómicas relações humanas de umas pessoas com as outras e consigo mesmas, quer sejam adultas quer sejam crianças, homens ou mulheres, pretas ou brancas.

Os actores e as actrizes (Amadeu Neves, Fernanda Lapa, João Grosso, Luis Gaspar, Marta Lapa, Sérgio Praia, Sofia Nicholson) não representam necessariamente os papéis do seu sexo, raça ou idade o que, ao questionar o querer e o ser, nos mostra que representar é também revelar o que não é observável.

Esta peça em dois actos está em cena até 22 de Fevereiro.

VEJAM-NA!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Árvores do leite

Fazendo uma incisão no tronco de certas árvores elas escorrem uma substância semelhante ao leite na cor, no sabor e no valor alimentar. Este leite de árvore consome-se imediatamente ou deixa-se coalhar tornando-se semelhante ao queijo, às pastilhas elásticas e à borracha ou látex.

Eis algumas árvores do leite:

Brosimum galactodendron, Galactodendron utile

Lacmellea utilis, Tabernaemontana utilis

Manilkara hexandra, Mimusops hexandra

Euphorbia balsamífera

Gymnema lactiferum, Asclepias lactifera

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Oh!... Oh!...

"-Acredite que vale a pena, para qualquer turista, deter-se algum tempo na nossa aldeia! – observou o juiz Koltz.

-Contudo, parece ser pouco frequentada – replicou o jovem conde – e isso deve-se provavelmente a que os seus arredores não têm nada de interessante…

-Com efeito, nada com interesse – disse o biró, pensando no castelo.

-Não… nada de interesse – repetiu o magister.

-Oh!... Oh!... – disse o pastor Frick, a quem esta exclamação escapou involuntariamente.

Que olhares lhe deitaram o juiz Koltz e os outros – e mais particularmente o estalajadeiro! Seria urgente pôr um estrangeiro ao corrente dos segredos da região? Desvendar-lhe o que se passava no planalto de Orgall, chamar a sua atenção para o castelo dos Cárpatos? Não significaria isto querer assustá-lo, dar-lhe vontade de deixar a aldeia? E, de futuro, que viajantes quereriam seguir a estrada do desfiladeiro de Vulkan para penetrar na Transilvânia?

Na realidade, este pastor não revelava mais inteligência que o último dos seus carneiros.

-Mas cala-te, imbecil, cala-te lá! – disse-lhe a meia voz o juiz Koltz.

Contudo a curiosidade do conde fora despertada, e ele dirigiu-se directamente a Frick perguntando-lhe o que significavam aquelas interjeições «Oh! Oh!».

O pastor não era homem para recuar e, no fundo, talvez pensasse que Frank de Télek poderia dar um bom conselho, vantajoso para a aldeia.

-Eu disse: Oh!... Oh!... Sr. Conde – replicou ele – e não me desdigo."

Júlio Verne, "O Castelo dos Cárpatos", p. 88 e 89, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1989

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Para nos governarmos

"Coitadinhas das crianças, tão pequeninas e já sofrem tanto! Logo de manhãzinha, às sete e meia, com o frio que está, lá têm que ir para a creche... Por isso não me posso admirar de eles me porem no lar quando for velha. Eu também não os pus na creche para me governar? Eles depois também me põem no lar para se governarem!"

Ouvido hoje à empregada da limpeza do meu local de trabalho que o disse com o ar alegre e seguro de si que lhe é habitual.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Um só instante

"No momento em que a minha essência se transformar em oceano universal

A beleza dos átomos será para mim luminosa.

É por isso que eu me inflamo, como a vela, para que, na via do amor,

Todos os instantes para mim se tornem um só instante."

Djalâl-od-Dîn Rûmî, "Rubâi'yât", p. 32, Éditions Albin Michel, Paris, 2007

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Imaginação e lógica

"Introduzi numa garrafa meia dúzia de moscas e meia dúzia de abelhas; depois, com a garrafa deitada horizontalmente, voltai-lhe o fundo para a janela do aposento. As abelhas labutarão, durante horas, até que morrem de fadiga ou de inanição, a procurar uma saída através do fundo de cristal, ao passo que as moscas, em menos de dois minutos, terão saído todas do lado oposto pelo gargalo. Sir John Lubbock concluiu daí que a inteligência da abelha é extremamente limitada, e que a mosca é muito mais hábil em se livrar de apuros e encontrar o seu caminho. Esta conclusão não parece irrepreensível. Voltai alternadamente para a claridade, vinte vezes a seguir se quiserdes, umas vezes o fundo, outras vezes o gargalo da vasilha transparente, e vinte vezes seguidas as abelhas se voltarão ao mesmo tempo para o lado da janela. O que as perde, na experiência do sábio inglês, é o seu amor à luz, e é a luz a razão do seu proceder. Imaginam evidentemente que, em qualquer prisão, a libertação está do lado da claridade mais viva; procedem assim por consequência, e obstinam-se em proceder logicamente. Nunca tiveram conhecimento desse mistério sobrenatural que é para elas o vidro, essa atmosfera subitamente impenetrável, que não existe na natureza, e o obstáculo e o mistério devem ser tanto mais inadmissíveis, tanto mais incompreensíveis, quanto mais inteligentes elas são. E as moscas estouvadas, sem cuidarem da lógica, do apelo da luz, do enigma do cristal, volteiam ao acaso dentro da garrafa, e, encontrando a boa fortuna dos simples, que às vezes se salvam por onde perecem os sábios, acabam necessariamente por encontrar na sua passagem o bom gargalo que as liberta."

Maurício Maeterlinck, "A Vida das Abelhas", p. 86 e 87, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1961

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sabes e ignoras

Para saber isto é preciso ignorar aquilo e para ignorar isto é preciso saber aquilo. Quanto mais sabes mais sabes que ignoras, quanto mais ignoras mais ignoras que sabes. E assim, tudo junto, és tu.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Secretos e patentes

Dentro do casulo quentinho a lagarta transforma-se em borboleta sem ninguém ver.

Dentro de uma cova no gelo ártico a ursa hiberna grávida e aí nascem os ursinhos.

As tocas e os ninhos onde se dorme e a vida começa são lugares mágicos e secretos, são sementes.

Nas nossas casas também nós nos escondemos para delas saírmos diferentes: com o corpo e as roupas lavadas, alegres e felizes vamos para a rua.

E, oh, como estamos contentes!, quando regressamos ao nosso buraquinho e nos ocultamos no sono onde somos todos iguais e de onde emergimos todos diferentes como as flores do campo na primavera!