Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




quarta-feira, 24 de junho de 2020

A Mulher Leoa

Naquele ano, o sol escaldava toda aquela vasta região. À míngua de água, as plantas morriam e os animais, que com elas se sustentavam, fugiam para longe em busca de alimento, ou pereciam no mato, reduzidos a pele e osso. Ora os leões, que se nutrem de carne, já nada tendo para caçar, resolveram reunir-se, a fim de encontrar solução para tão angustioso transe.
-Que fazer? - perguntavam uns aos outros. - À nossa roda só vemos ossos, e nós, reis da selva, não vamos ficar para aí a rilhá-los, quais desprezíveis rafeiros ...
Como sempre acontece quando a fome aperta, a barafunda era geral, os rugidos abalavam a floresta e as garras dos mais impacientes estendiam-se como que a rasgar os corpos de presas invisíveis ... Nisto, o mais velho dos leões, que até aí se mostrara indiferente, ergueu a bela e majestosa cabeça. Fez-se silêncio. E o velho leão disse:
-Amigos, toda essa discussão não serve para nada, pois o nosso caso só pode resolver-se pela astúcia. Como sabeis, a aldeia onde vivem os homens não fica muito longe daqui - um dia de caminho. Ora os homens, que sabem abrir poços e desviar as águas, têm gado em abundância, que será nosso, desde que consigamos desfazer-nos de Negana Kimona, que é o dono dele. E como? Pensei neste ardil: uma leoa tomará a aparência de mulher, atravessará a aldeia e, ao passar junto da casa de Negana Kimona, dirá:
-Vou para longe, à procura de meu irmão.
-Negana Kimona não deixará de lhe falar em casamento, que ela aceitará. Uma vez casados, a leoa matará Negana, e nós apoderamo-nos do gado.
Todos aprovaram o engenhoso plano. Industriaram a leo e, quando chegaram perto da aldeia, deram àquela a aparência de mulher, vestindo-a e penteando-a convenientemente.
Atravessada a povoação, a mulher leoa avistou, sentado na varanda, Negana Kimona, que lhe perguntou:
-Aonde vais?
-Vou para longe, à procura de meu irmão. Mas estou cansada e com sede. Dá-me um pouco de água.
Negana Kimona deu-lhe a água, esperou que bebesse e perguntou:
-És casada?
-Não!
-Queres casar comigo?
-Não me desagradas. Aceito!
E logo ele lhe ofereceu uma casa no outro extremo da aldeia e uma cabra para comer.
Acontecia, porém, que Negana Kimona tinha, de outro casamento, um filho, chamado Nedalja Kimona. Quando este ouviu que o pai ia viver para outra casa pediu para o acompanhar e dormir com ele. Negana, a princípio, recusou-se a satisfazer o desejo do filho, mas a criança tanto insistiu, com rogos e lágrimas, que acabou por convencê-lo. Chegados a casa da noiva, esta estranhou a presença do pequeno, mas Negana explicou-lhe o que se passava. Quando se recolheram para dormir, o pai ficou no chão, junto do filho. Alta noite, a falsa mulher levantou-se e, de novo leoa, dispôs-se a atacar Negana. A criança, que vira a transformação, acordou o pai:
-Pai, acorda, que o chão está a morder!
Negana ergueu-se, mas, como a leoa se transformara outra vez em mulher, não ligou importância ao que o filho lhe dissera.
Na manhã seguinte a mulher observou ao marido:
-Esta criança acordou-te de madrugada. Porque o deixaste vir contigo?
-Porque tive pena dela!
-Vinda a noite, a falsa mulher parecia escutar, trazida no sussurro do vento, a recriminação dos leões:
-Foste para matar Negana Kimona. Porque não cumpriste?
Enraivecida, volta a tomar forma de leoa, e de novo tenta apoderar-se de Negana.
A criança, aterrada, sacode o pai:
-Pai, o chão está a morder!
-Como pode ser isso, meu filho, se a casa é nova e não tem bichos?
E tornou a deitar-se.
Outra vez, o vento trouxe o apelo longínquo dos leões:
-Porque não matas Negana Kimona?
-Pai, acorda, está aqui um animal feroz!
Irritado, Negana disse ao pequeno:
-Vou levar-te para a outra casa. Aqui, contigo, não se pode dormir.
E saíram, apesar de ser noite alta.
No caminho, Nedalja avisou o pai:
-A tua mulher transformou-se em leoa.
-Filho, estás louco! Como é isso possível?
-Afianço-te que se transforma em leoa. Se queres a prova, voltemos para trás e finjamos que dormimos.
Assim fizeram. Como a falsa mulher estranhasse o regresso da criança, Negana explicou que a não convencera a partir. Deitaram-se de novo, mas, desta vez, Negana cobriu a cabeça de forma a poder observar o que se passava. Escutando o apelo dos leões, a mulher transformou-se em leoa, pronta a devorar o homem. Ao vê-la, Negana acreditou então no filho. Levou-o para a outra casa e disse aos seus homens:
-A mulher que desposei costuma transformar-se em leoa, com o fito de me matar. Parti imediatamente, cercai a casa e lançai-lhe fogo.
E assim morreu assada a mulher leoa.

Contos adaptados da tradição popular por Fernando de Castro Pires de Lima, Edições Majora, Porto, Maio 1990

quinta-feira, 4 de junho de 2020

As avós

A avó materna era a mais bonita e asseada menina daqueles lugares da Serra. Tinha um quarto só para ela, onde não havia pulgas, numa casa cheia delas. Merecia casar com o rapaz mais bonito e rico da região e era isso que esperava. Em vez disso quem se apaixonou por ela foi o rapaz mais bonito mas não tão rico. Embora tenha conseguido que ele comprasse uma casa com terreno e árvores para viverem para sempre, nunca se livrou do desgosto de não ter casado com o rapaz mais rico.

A avó paterna ficou órfã de mãe quando era criança e teve que cuidar das irmãs e dos irmãos porque o pai não lhes ligava nenhuma. Ela odiava o pai de tal maneira que quando cresceu até mudou de apelido. Uma das irmãs tinha um namorado que ia embarcar num navio para África e pediu a um amigo que fosse com ele despedir-se dela e garantir que esperaria pelo seu regresso para casarem. Esse amigo confundiu os nomes das irmãs. Apaixonou-se pela namorada do amigo pensando que se tinha apaixonado pela irmã. De África mandaram cartas de amor. Quando regressaram casaram com a que tinha o nome para quem tinham escrito. A avó detestou o marido quase tanto como tinha detestado o pai e nunca aprendeu a ler.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

A primeira descrição de surf registada

29 de maio de 1769 - A PRIMEIRA DESCRIÇÃO DE SURF REGISTADA

No nosso regresso ao barco, vimos os índios divertirem-se ou  exercitarem-se de uma maneira verdadeiramente surpreendente. Era  num lugar em que a costa não era protegida por um recife, como é habitualmente o caso; consequentemente, uma onda alta caiu sobre a praia, uma mais mortífera não vi muitas vezes: nenhum barco europeu poderia ter desembarcado com ela e acho que nenhum europeu que tivesse sido apanhado por ela poderia ter salvo a sua vida, pois a costa estava coberta de seixos e pedras grandes. No meio dessas rebentações, 10 ou 12 índios estavam a nadar, que sempre que uma onda chegava ao pé deles mergulhava sob ela com infinita facilidade, subindo do outro lado; mas a diversão deles era levada na popa de uma velha canoa; com isso, à frente deles, nadavam até à ondulação mais exterior, então um ou dois entravam nela e, opondo-se ao extremo abrupto da onda, eram levados ​​com incrível rapidez. Às vezes eram levados quase até terra, mas geralmente a onda rebentava sobre eles antes de chegarem a meio caminho; nesse caso os mergulhadores rapidamente subiam do outro lado com a canoa nas mãos, que era rebocada novamente e o mesmo método repetido. Ficámos a admirar essa cena maravilhosa durante meia hora, período em que nenhum dos actores tentou desembarcar, mas todos pareciam muito entretidos com a sua estranha diversão.

Extracto do Diário Endeavour de Joseph Banks
Traduzido de «Extracts from the Endeavour Journal of Joseph Banks (1769)» em The Public Domain Revue consultado hoje: 28 de Maio de 2020

Retrato de Akhmatova por Modigliani

A 1911 portrait of Akhmatova by Amedeo Modigliani: she addressed him in a poem with the lines ‘When you’re drunk it’s so much fun/Your stories don’t make sense’ (Credit: Alamy)
Retrato de Akhmatova por Modigliani