Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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terça-feira, 19 de julho de 2022

Enquanto há sorriso

Generalizar

é singularizar a pluralidade.

Cor singulariza todas as cores.

Uma escada reúne degraus.

Precisamos de palavras para nos entendermos mas o efeito colateral é criarem mal entendidos,  por isso precisamos de aprender sempre com quem não fala: pessoas, animais, plantas, pedras, nuvens e estrelas.

Generalizar é uma uma propriedade da linguagem muito problemática. Pretende condensar conhecimento mas muitas vezes é o principal obstáculo à compreensão. O paradoxo é que "não generalizar" é também uma generalização. Não é, Zenão de Eleia? O que é, é e não pode não ser. A deusa de Parmênides ensinou-lhe que também precisava de aprender o que não é. Precisamos de aprender o que não é porque as palavras o criam. Do que se pode falar ainda não é do que é. E temos que falar. Sorri. Enquanto há sorriso.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

A Mulher Leoa

Naquele ano, o sol escaldava toda aquela vasta região. À míngua de água, as plantas morriam e os animais, que com elas se sustentavam, fugiam para longe em busca de alimento, ou pereciam no mato, reduzidos a pele e osso. Ora os leões, que se nutrem de carne, já nada tendo para caçar, resolveram reunir-se, a fim de encontrar solução para tão angustioso transe.
-Que fazer? - perguntavam uns aos outros. - À nossa roda só vemos ossos, e nós, reis da selva, não vamos ficar para aí a rilhá-los, quais desprezíveis rafeiros ...
Como sempre acontece quando a fome aperta, a barafunda era geral, os rugidos abalavam a floresta e as garras dos mais impacientes estendiam-se como que a rasgar os corpos de presas invisíveis ... Nisto, o mais velho dos leões, que até aí se mostrara indiferente, ergueu a bela e majestosa cabeça. Fez-se silêncio. E o velho leão disse:
-Amigos, toda essa discussão não serve para nada, pois o nosso caso só pode resolver-se pela astúcia. Como sabeis, a aldeia onde vivem os homens não fica muito longe daqui - um dia de caminho. Ora os homens, que sabem abrir poços e desviar as águas, têm gado em abundância, que será nosso, desde que consigamos desfazer-nos de Negana Kimona, que é o dono dele. E como? Pensei neste ardil: uma leoa tomará a aparência de mulher, atravessará a aldeia e, ao passar junto da casa de Negana Kimona, dirá:
-Vou para longe, à procura de meu irmão.
-Negana Kimona não deixará de lhe falar em casamento, que ela aceitará. Uma vez casados, a leoa matará Negana, e nós apoderamo-nos do gado.
Todos aprovaram o engenhoso plano. Industriaram a leo e, quando chegaram perto da aldeia, deram àquela a aparência de mulher, vestindo-a e penteando-a convenientemente.
Atravessada a povoação, a mulher leoa avistou, sentado na varanda, Negana Kimona, que lhe perguntou:
-Aonde vais?
-Vou para longe, à procura de meu irmão. Mas estou cansada e com sede. Dá-me um pouco de água.
Negana Kimona deu-lhe a água, esperou que bebesse e perguntou:
-És casada?
-Não!
-Queres casar comigo?
-Não me desagradas. Aceito!
E logo ele lhe ofereceu uma casa no outro extremo da aldeia e uma cabra para comer.
Acontecia, porém, que Negana Kimona tinha, de outro casamento, um filho, chamado Nedalja Kimona. Quando este ouviu que o pai ia viver para outra casa pediu para o acompanhar e dormir com ele. Negana, a princípio, recusou-se a satisfazer o desejo do filho, mas a criança tanto insistiu, com rogos e lágrimas, que acabou por convencê-lo. Chegados a casa da noiva, esta estranhou a presença do pequeno, mas Negana explicou-lhe o que se passava. Quando se recolheram para dormir, o pai ficou no chão, junto do filho. Alta noite, a falsa mulher levantou-se e, de novo leoa, dispôs-se a atacar Negana. A criança, que vira a transformação, acordou o pai:
-Pai, acorda, que o chão está a morder!
Negana ergueu-se, mas, como a leoa se transformara outra vez em mulher, não ligou importância ao que o filho lhe dissera.
Na manhã seguinte a mulher observou ao marido:
-Esta criança acordou-te de madrugada. Porque o deixaste vir contigo?
-Porque tive pena dela!
-Vinda a noite, a falsa mulher parecia escutar, trazida no sussurro do vento, a recriminação dos leões:
-Foste para matar Negana Kimona. Porque não cumpriste?
Enraivecida, volta a tomar forma de leoa, e de novo tenta apoderar-se de Negana.
A criança, aterrada, sacode o pai:
-Pai, o chão está a morder!
-Como pode ser isso, meu filho, se a casa é nova e não tem bichos?
E tornou a deitar-se.
Outra vez, o vento trouxe o apelo longínquo dos leões:
-Porque não matas Negana Kimona?
-Pai, acorda, está aqui um animal feroz!
Irritado, Negana disse ao pequeno:
-Vou levar-te para a outra casa. Aqui, contigo, não se pode dormir.
E saíram, apesar de ser noite alta.
No caminho, Nedalja avisou o pai:
-A tua mulher transformou-se em leoa.
-Filho, estás louco! Como é isso possível?
-Afianço-te que se transforma em leoa. Se queres a prova, voltemos para trás e finjamos que dormimos.
Assim fizeram. Como a falsa mulher estranhasse o regresso da criança, Negana explicou que a não convencera a partir. Deitaram-se de novo, mas, desta vez, Negana cobriu a cabeça de forma a poder observar o que se passava. Escutando o apelo dos leões, a mulher transformou-se em leoa, pronta a devorar o homem. Ao vê-la, Negana acreditou então no filho. Levou-o para a outra casa e disse aos seus homens:
-A mulher que desposei costuma transformar-se em leoa, com o fito de me matar. Parti imediatamente, cercai a casa e lançai-lhe fogo.
E assim morreu assada a mulher leoa.

Contos adaptados da tradição popular por Fernando de Castro Pires de Lima, Edições Majora, Porto, Maio 1990

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Mãe dos Exílios

O Novo Colosso 

Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas.
"Mantenham antigas terras a sua pompa histórica!" grita ela
Com lábios silenciosos "Dai-me os vossos fatigados, os vossos pobres,
As vossas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das vossas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado."

Emma Lazarus, 1883

Poema escrito para angariar fundos para a construção do pedestal da Estátua da Liberdade.

A fotografia (Nova York - Por dentro da Estátua da Liberdade) encontrei-a aqui.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Herder



Da praia longínqua, na areia doirada,
O Cisne pensava, fitando a Alvorada:

– «Que imensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fosse cantar uma vez!

Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hinos mais altos à glória do Sol...

Não é das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;

É quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minha alma de luto.

Se a Aurora se lança do cume dos montes,
Até de alegria murmuram as fontes;

Só eu, passeando o meu tédio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.

O Sol, que já vejo surgindo do Mar,
Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!» –

E o Cisne, em silêncio, chorava, escutando
A orquestra das aves que passam em bando.

Das águas rompia a quadriga de Apolo,
E o pobre a cabeça escondia no colo...

Mas Febo detém-se nas nuvens ao vê-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabelo,

E diz-lhe, sorrindo, num halo de fogo:
– «No Olimpo sagrado ouviu-se o teu rogo...» –

E nesse momento a Lira Sem Par
Da mão luminosa deixou resvalar...

O Cisne, orgulhoso da graça divina,
Da Lira de Apolo as cordas afina,

E rompe cantando... Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves... As urzes dos montes

Tremiam de gozo a ouvi-lo cantar...
E o vento sonhava na espuma do Mar.

O Cisne cantava, tirando da Lira
Um hino que nunca na terra se ouvira;

Não pára, nem sente, na sua emoção,
Que a vida lhe foge naquela canção.

Mas quando, entre nuvens, a tarde caía
no enlevo do canto que a essa hora gemia,

E Apolo no seio de Tétis desceu,
O pobre do Cisne, cantando, morreu...

Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,

E o mar soluçava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.

Solícita espera-o, das águas à beira,
Do Cisne, já morto, fiel companheira;

Espera que o Esposo de pronto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite já desce...

As águas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
Um pano de enterro picado de estrelas.

Então, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;

Mergulha nas águas, coleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,

Que ao longe parece que vão a voar...
E o Cisne não volta, não pode voltar!

Chorosa viúva, nas águas desliza,
Levada na fresca salsugem da brisa...

No seu abandono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,

Chorando o perdido, desfeito casal...
Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,

Que o peito sentindo de dor estalar,
– De dor e de angústia começa a cantar!

E canta com tanta ternura e paixão,
Que a Vida lhe foge naquela canção.

As aves despertam; calaram-se as fontes
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;

A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora...

Na terra, no espaço, nos astros, no céu,
Mais alta harmonia ninguém concebeu;

E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cisne que expira a cantar...

Desde esse momento, no Olimpo onde entraram,
Em honra dos Cisnes que tanto se amaram,

Das almas que foram leais e sinceras,
se Vénus se mostra, surgindo da bruma,
São eles que tiram, nas altas esferas,
A concha de nácar, cercada de espuma...


António Feijó, Sol de Inverno, 1922


Mais poemas de António Feijó na página do Projecto Vercial, carregar aqui

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Cristina Mirabilis

A Maravilhosa Cristina (1150-1224) morreu pela primeira vez aos 22 anos. Na missa antes do funeral elevou-se até ao tecto. Quando desceu disse que não podia suportar o cheiro dos pecadores e contou que tinha estado no Purgatório, no Inferno e no Paraíso. Que tinha voltado à vida por amor, para libertar os pecadores. Viveu depois uma vida tão fora do comum que lhe chamaram Cristina Admirável.

Ilustração de Melissa West (2010) - Saint Christina the Astonishing.

Detalhes sobre a vida de Cristina (em inglês) aqui.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Nossa Senhora das Cobras

Na ilha grega de Cefalónia, na igreja de Nossa Senhora na aldeia de Markopoulo, de 6 a 15 de Agosto, surgem cobras que curam as pessoas. Imagens aqui e aqui.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

relatórios

«O patrão teve um apetite sexual e ligou à secretária a perguntar se lhe podia escrever um relatório, ela disse-lhe que não porque estava na pausa mensal. Passado um bocado teve pena dele e ligou-lhe a perguntar se podia fazer o relatório retroactivo ou verbal. Ele disse-lhe que não era preciso, já tinha feito um manuscrito.» :). 

domingo, 29 de junho de 2014

a chorar

sonhei que estava numa estação do Metropolitano com uma amiga que me disse: «julgas que ela gosta de ti mas sabes o que disse?»  e eu, antes que ela continuasse, caí de joelhos a chorar, pus a testa no chão, e sempre a chorar, disse: «se Deus quisesse que soubéssemos o que os outros pensam tinha feito isso (e imaginei os pensamentos a passar escritos na testa das pessoas), mas nós, como se ainda não fossemos suficientemente maus, queremos melhorar o mundo»

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Mazeppa

a imagem encontrei-a aqui - na exposição online sobre o teatro burlesco (Mulheres Soltas em Meias-calças) "Loose Women in Tights"

mas Mazeppa foi um guerreiro cossaco

Lord Byron escreveu um poema sobre ele que publicou em 1819; nesse poema Mazeppa conta que se apaixonou por uma jovem mulher casada e que o castigo que o marido dela lhe deu foi expulsá-lo da Polónia nu e atado a um cavalo selvagem; sofreu horrores e esteve quase à morte mas o cavalo levou-o para a Ucrânia onde foi socorrido pelos cossacos acabando por se tornar o melhor cavaleiro e guerreiro e, portanto, o chefe

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A inútil dor humana

Branco e Vermelho

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaímento. 

Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim! 

Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila) 

Na areia imensa e plana,
Ao longe, a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte,
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.
 
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados, 
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis. 

A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Pàvidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra. 

Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor... 

E ali fiquem serenos,
De costas e serenos...
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas,
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas! 

A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaímento. 

Ó Morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...

Clepsidra e outros poemas de Camilo Pessanha, p. 253 - 256, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa, 1969

Imagem aqui

não sei porque é que um dos meus poetas e poemas favoritos ainda não estava no blog!

sexta-feira, 19 de abril de 2013

salvar estrangeiros

Embora o caso de Aristides de Sousa Mendes seja razoavelmente conhecido houve outros portugueses que salvaram estrangeiros durante os anos de guerra das décadas de 30 e 40 do séc. XX. No Alentejo contaram-me casos de espanhóis fugidos da Guerra Civil Espanhola e de crianças austríacas que vieram viver com famílias portuguesas durante a II Guerra Mundial.
Nesta altura houve também pescadores
portugueses, no continente e nas ilhas,  que salvaram marinheiros e aviadores.

Na imagem os três pescadores que salvaram seis tripulantes de um bombardeiro norte-americano que se despenhou ao largo de Faro em 1943.

Ver notícia e fotografia aqui.