Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Maçã e tomate

Maçã e tomate

Lado a lado à janela
Vêem um combate
De ceroulas de flanela
Na corda da roupa
Da casa em frente
Chega uma poupa
De olhar abrangente
E a tarde cinzenta
Fica transparente

quinta-feira, 18 de março de 2021

A floresta e o pomar

Entre a floresta e o pomar
há dois dedos de conversa.
Ela é mais alta e vê melhor,
ele dá-lhe fruta diversa.

A floresta e o pomar 
trocaram de lugar 
com o charco e a montanha. 
Andam a brincar 
ao jogo do quem me apanha. 
Caiu uma avalanche 
e a paisagem ficou muda. 

quarta-feira, 15 de julho de 2020

D. Pedro e D. Inês

Trazendo o infante D. Pedro consigo D. Inês e não se sabendo ao certo se era sua mulher ou não, fizeram entender a el-rei seu pai que o infante se preparava para mandar pedir ao Santo Padre que lhe desse licença para casar com D. Inês. Foi isto uns três anos antes de D. Inês ser morta. El-rei D. Afonso que então estava em Alenquer, quando isto ouviu ficou descontente de tal embaixada e escreveu secretamente ao arcebispo de Braga, que então estava em Roma, que conseguisse que o Papa não deferisse o requerimento do infante, que era para el-rei grande ódio e prejuízo.

As Crónicas de Fernão Lopes, Seleccionadas e transpostas em português moderno, António José Saraiva, Gradiva, Lisboa, 3ª edição, Março de 1993, p. 278 (Crónica de D. João I, A eleição do rei nas Cortes de Coimbra, Do recado que el-rei D. Afonso IV enviou à Corte do Papa para o infante seu filho não casar com D. Inês)  

quarta-feira, 24 de junho de 2020

A Mulher Leoa

Naquele ano, o sol escaldava toda aquela vasta região. À míngua de água, as plantas morriam e os animais, que com elas se sustentavam, fugiam para longe em busca de alimento, ou pereciam no mato, reduzidos a pele e osso. Ora os leões, que se nutrem de carne, já nada tendo para caçar, resolveram reunir-se, a fim de encontrar solução para tão angustioso transe.
-Que fazer? - perguntavam uns aos outros. - À nossa roda só vemos ossos, e nós, reis da selva, não vamos ficar para aí a rilhá-los, quais desprezíveis rafeiros ...
Como sempre acontece quando a fome aperta, a barafunda era geral, os rugidos abalavam a floresta e as garras dos mais impacientes estendiam-se como que a rasgar os corpos de presas invisíveis ... Nisto, o mais velho dos leões, que até aí se mostrara indiferente, ergueu a bela e majestosa cabeça. Fez-se silêncio. E o velho leão disse:
-Amigos, toda essa discussão não serve para nada, pois o nosso caso só pode resolver-se pela astúcia. Como sabeis, a aldeia onde vivem os homens não fica muito longe daqui - um dia de caminho. Ora os homens, que sabem abrir poços e desviar as águas, têm gado em abundância, que será nosso, desde que consigamos desfazer-nos de Negana Kimona, que é o dono dele. E como? Pensei neste ardil: uma leoa tomará a aparência de mulher, atravessará a aldeia e, ao passar junto da casa de Negana Kimona, dirá:
-Vou para longe, à procura de meu irmão.
-Negana Kimona não deixará de lhe falar em casamento, que ela aceitará. Uma vez casados, a leoa matará Negana, e nós apoderamo-nos do gado.
Todos aprovaram o engenhoso plano. Industriaram a leo e, quando chegaram perto da aldeia, deram àquela a aparência de mulher, vestindo-a e penteando-a convenientemente.
Atravessada a povoação, a mulher leoa avistou, sentado na varanda, Negana Kimona, que lhe perguntou:
-Aonde vais?
-Vou para longe, à procura de meu irmão. Mas estou cansada e com sede. Dá-me um pouco de água.
Negana Kimona deu-lhe a água, esperou que bebesse e perguntou:
-És casada?
-Não!
-Queres casar comigo?
-Não me desagradas. Aceito!
E logo ele lhe ofereceu uma casa no outro extremo da aldeia e uma cabra para comer.
Acontecia, porém, que Negana Kimona tinha, de outro casamento, um filho, chamado Nedalja Kimona. Quando este ouviu que o pai ia viver para outra casa pediu para o acompanhar e dormir com ele. Negana, a princípio, recusou-se a satisfazer o desejo do filho, mas a criança tanto insistiu, com rogos e lágrimas, que acabou por convencê-lo. Chegados a casa da noiva, esta estranhou a presença do pequeno, mas Negana explicou-lhe o que se passava. Quando se recolheram para dormir, o pai ficou no chão, junto do filho. Alta noite, a falsa mulher levantou-se e, de novo leoa, dispôs-se a atacar Negana. A criança, que vira a transformação, acordou o pai:
-Pai, acorda, que o chão está a morder!
Negana ergueu-se, mas, como a leoa se transformara outra vez em mulher, não ligou importância ao que o filho lhe dissera.
Na manhã seguinte a mulher observou ao marido:
-Esta criança acordou-te de madrugada. Porque o deixaste vir contigo?
-Porque tive pena dela!
-Vinda a noite, a falsa mulher parecia escutar, trazida no sussurro do vento, a recriminação dos leões:
-Foste para matar Negana Kimona. Porque não cumpriste?
Enraivecida, volta a tomar forma de leoa, e de novo tenta apoderar-se de Negana.
A criança, aterrada, sacode o pai:
-Pai, o chão está a morder!
-Como pode ser isso, meu filho, se a casa é nova e não tem bichos?
E tornou a deitar-se.
Outra vez, o vento trouxe o apelo longínquo dos leões:
-Porque não matas Negana Kimona?
-Pai, acorda, está aqui um animal feroz!
Irritado, Negana disse ao pequeno:
-Vou levar-te para a outra casa. Aqui, contigo, não se pode dormir.
E saíram, apesar de ser noite alta.
No caminho, Nedalja avisou o pai:
-A tua mulher transformou-se em leoa.
-Filho, estás louco! Como é isso possível?
-Afianço-te que se transforma em leoa. Se queres a prova, voltemos para trás e finjamos que dormimos.
Assim fizeram. Como a falsa mulher estranhasse o regresso da criança, Negana explicou que a não convencera a partir. Deitaram-se de novo, mas, desta vez, Negana cobriu a cabeça de forma a poder observar o que se passava. Escutando o apelo dos leões, a mulher transformou-se em leoa, pronta a devorar o homem. Ao vê-la, Negana acreditou então no filho. Levou-o para a outra casa e disse aos seus homens:
-A mulher que desposei costuma transformar-se em leoa, com o fito de me matar. Parti imediatamente, cercai a casa e lançai-lhe fogo.
E assim morreu assada a mulher leoa.

Contos adaptados da tradição popular por Fernando de Castro Pires de Lima, Edições Majora, Porto, Maio 1990

quinta-feira, 23 de abril de 2020

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Duas palavras ...

Sim, duas palavras antes que se levante a cortina da história que te vou contar. De facto, para melhor compreenderes e apreciares o que se segue, gostaria que lesses estas poucas linhas destinadas, como é vulgar dizer-se, a compor o cenário!


O PAÍS DOS FARAÓS

A origem da civilização egípcia, uma das mais prodigiosas da Antiguidade, perde-se na noite dos tempos. Na verdade, quando no ano 3500 a. C., com o rei Menes, surgiram os primeiros faraós, o vale do Nilo tinha já atrás de si um grandioso período pré dinástico, que se estendia por milhares de anos. Para te dar uma ideia da imensidão do espaço de tempo que a história do Egipto abarca, dir-te-ei apenas que entre o faraó Quéops, o construtor da Grande Pirâmide que figura nesta história, e o faraó Akhenaton, decorreram cerca de dois mil anos, isto é, tanto tempo quanto aquele que nos separa do nascimento de Jesus Cristo!...

Além disso, apesar da inestimável descoberta de Champollíon, a quem devemos a decifração da escrita hieroglífica, e dos enormes progressos da egiptologia, os escassos conhecimentos que temos são parciais. Há períodos inteiros dos quais não sabemos grande coisa, e das trinta dinastias que se seguiram ao trono dos faraós, apenas onze são suficientemente conhecidas por nós! Ora, um homem poderia ter-nos esclarecido... Esse homem homem chamava-se Máneton...


MANÉTON, O HISTORIADOR

No século III a. C., quando o Egipto estava sob o domínio grego, o sacerdote Máneton elaborou uma história desse país a pedido de Ptolomeu I, o antigo general de Alexandre, o Grande, que se tornou rei do Egipto.

Recolhidas na origem, nas bibliotecas dos templos e nos arquivos reais, as suas anotações formavam um conjunto de grande valor. Infelizmente, esta história perdeu-se! Imagina qual a importância e o valor que a descoberta de um fragmento desta obra teria para o historiador moderno!


O PLANALTO DE GIZÉ

Mas voltemos ao principal elemento do nosso cenário, aquele que ocupará o centro da acção: a GRANDE PIRÂMIDE!...

Túmulo real, a Grande Pirâmide de Quéops, tal como as suas duas vizinhas gigantescas, as pirâmides de Quéfren e Miquerinos, ergue-se no planalto de Gizé, a uma dezena de quilómetros da cidade do Cairo.

Os Egípcios, que nos tempos mais remotos adoravam o Sol, do qual um dos seus nomes, Hórus, será várias vezes citado nesta história, consideravam este um dos locais mais privilegiados do culto celeste. Se observares o mapa aqui representado, ficarás certamente com uma noção clara deste planalto de Gizé, cujo solo deve guardar ainda muitos segredos, como o prova a recentíssima descoberta, junto da Grande Pirâmide, de uma enorme Barca Solar, incrivelmente antiga!...


A GRANDE PIRÂMIDE

Com a sua espantosa massa de seis milhões de toneladas, a Grande Pirâmide domina toda a região limítrofe. Com 138 metros de altura, e uma base de 227 metros de largura, é constituída por um conjunto de dois milhões de blocos calcários, cuja maior parte pesa, pelo menos, duas toneladas.

Esses blocos (alguns atingem 10 metros de comprimento) estão tão bem ajustados que, se lhe passarmos com a palma das mãos, a sua união não se sente!...

Esta massa de pedra ultrapassa em 77 metros as torres de Notre Dame de Paris e, se a pirâmide fosse oca, a basílica de S. Pedro de Roma, seria completamente absorvida por ela!

Esta maravilha, infelizmente a única que subsiste das «Sete Maravilhas» da Antiguidade, em nada se parece, no entanto, com o que era no tempo em que foi construída. Atingia então 148 metros de altura e os seus quatro lados estariam revestidos de fino calcário branco, liso e polido, reflectindo o sol com tanto brilho, que os Egípcios lhe chamavam «A LUZ».

Nos finais do século XII esse revestimento ainda existia mas, quando um tremor de terra devastou a cidade do Cairo, os Árabes, para reconstruirem a sua cidade, retiraram pura e simplesmente, da Grande Pirâmide, os materiais necessários.


O MISTÉRIO DA GRANDE PIRÂMIDE

Durante dezenas de séculos, o colosso que desafiava vitoriosamente os Hicsos, os Assírios, os Persas, os Gregos e os Romanos, guardou ciosamente o seu segredo. Mas, no ano 820 d. C., o Califa Al Mamum (filho do famoso Califa Harun Al Rachid das «Mil e Uma Noites») decidiu verificar se, como rezava a lenda, a pirâmide escondia ou não fabulosos tesouros.

O gigante foi invadido por um exército de operários. Mas quando estes, após inúmeros esforços, aí conseguiram penetrar, descobriram apenas três câmaras a que abusivamente chamaram «Câmara do Rei», Câmara da Rainha» e «Câmara Subterrânea». Só a primeira guardava uma grande pia de granito vermelho!...

Os engenheiros passaram as câmaras e os corredores a pente fino, examinando em vão as paredes e calcetamentos, mas o famoso tesouro continuou por encontrar!...

Depois disso, os séculos continuaram a transcorrer sobre este imponente monumento que vigia a sua silenciosa companheira, a Esfinge, ela própria tão velha, que já no tempo de Quéops era considerada um enigma... E o «Mistério da Grande Pirâmide continua por desvendar!...

É dele, caro leitor, que o professor Mortimer e o capitão Blake se vão ocupar.

A cortina vai subir! Boa leitura... e boa viagem!

A história vai começar!!!...

O MISTÉRIO DA GRANDE PIRÂMIDE, Blake & Mortimer, E. P. Jacobs, 1986

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

o ponto mais chuvoso à face da terra

A ilha Kaua'i no Havai é considerada o ponto mais chuvoso à face da Terra com 365 dias de chuva por ano. Algumas cenas dos filmes Jurassic Park e King Kong foram filmadas lá. A fotografia é da galeria fotográfica dos safaris em  helicópteros: Safari Helicopters Photo Gallery

terça-feira, 26 de julho de 2016

o tigre riscadinho

o meu livro favorito quando era pequenina :)

mencionava tâmaras - eu não sabia o que era e nessa altura não se vendiam ou, pelo menos, não era fácil encontrá-las

desde que as tâmaras se tornaram acessíveis que gosto delas 

domingo, 30 de agosto de 2015

Mooreeffoc

foi visto e descrito por Dickens, mencionado por Chesterton e comentado por Tolkien.

Encontrei esta palavra primeiro aqui (em francês) depois aqui (em inglês) e a imagem aqui.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

a tia Emília

«A minha tia Emília levava-me consigo para as aldeolas onde dava aulas: S. Pedro de Valbom, Valdezende... Tempo ainda de iluminação a petróleo, de carros de bois a lamuriar por caminhos primitivos... Acompanhei minha tia nos meus cinco, seis anos.»

«Era uma aventura, um deslumbramento. Ir às segundas-feiras de Braga para essas aldeias era para mim, criança ávida de descoberta, verdadeira magia, magia pura. Mal nos apeávamos da camioneta, lá estavam os garotos à nossa espera. As miúdas ofereciam à senhora professora ramos de flores silvestres e os rapazitos exibiam-se em gritaria heróica, descalços, limpando o monco (risos) à manga do casaco e deixando nela uma espécie de rasto de lesma...»

«(...) era uma festa. Nós por aqueles caminhitos rumo à escola, à velha escola, minha tia à frente com aquelas flores todas como uma santa num andor. Parecia uma galinha seguida pelos pintos. (Risos). As mocinhas muito compenetradas e sorridentes, os rapazitos aos pinotes, com berros de assustar índios...»

«Viajavam numa camioneta incrível, focinhuda, que largava fumo e poeirada e nas subidas gemia que metia dó. De aldeia em aldeia, a camioneta ia parando e em cada paragem apeava-se uma professora, com o respectivo bando à espera. Até que chegava a nossa vez.»

«(...) eu ia ao cinema com a minha tia, já que por esses tempos não havia classificações etárias. Aos nove anos, por exemplo, vi o Hamlet, do Shakespeare, numa admirável adaptação cinematográfica de Lawrence Olivier.»

«À noite, rezávamos o terço. Minha tinha era muito religiosa. Orações, orações... aquilo nunca mais acabava. Depois do rosário propriamente dito, havia que rezar pelas almas dos parentes já falecidos, uma legião interminável, e depois em prol das almas mais abandonadas. Dava-me o sono, mas eu sabia que a seguir vinha o encantamento, porque minha tia contava-me histórias antes de adormecermos. Contava-as como só ela sabia contar. Tinha um dom para contar histórias como nunca vi em mais ninguém.»

«Tomemos como exemplo A Branca de Neve e os Sete Anões, quando a princesa é abandonada na floresta. Minha tia "colocava-me" no local, falava de medos, de ameaças, de rumores sinistros. Usando onomatopeias, introduzia em mim o bracejar lamentoso do arvoredo ao luar, à hora em que pia o mocho. Tinha uma capacidade invulgar para me pôr no local da acção, com todos os sentidos alerta.»

Entrevista de Altino do Tojal a «A Página da Educação» em Outubro de 2001. A fotografia de Altino do Tojal veio daqui.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O teatro de Odessa

Театр оперы и балета. Зал
"No dia seguinte repartiram entre os velhos do asilo quatro pedaços de açúcar e carne para a sopa. À noite levaram-nos ao teatro da cidade, a um espectáculo dado pelo seguro social. Era a ópera «Cármen». Pela primeira vez na vida os inválidos e os espantalhos sociais viram os palcos dourados do teatro de Odessa, o veludo dos seus balcões, o brilho azeitado dos seus candeeiros. Nos intervalos deram a cada um uma sande de miúdos."

Isaac Babel, Contos de Odessa, p. 71, Editorial Inova Limitada, Porto, Setembro, 1972