Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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quarta-feira, 7 de abril de 2021

Baralha

«Baralha, com o sentido de baralho de cartas, foi feminino em época mais recuada da história linguística do Português: D. Francisco Manuel de Melo (Apólogos Dialogais, p. 209) e o Pe. António Vieira (Ali, 1964) utilizam ainda a forma feminina: «As cartas não hão de ser de outra baralha, senão as mesmas» (Sermões, 8, 261). J. P. Machado (Machado, 1987) já documenta o masculino no século XVIII: «inimiga mão lhe foi batendo/C’ um baralho de cartas pela cara» (Nicolau Tolentino, O Bilhar, em Obras Poéticas, I, p. 128).»

A categoria gramatical de género do português antigo ao português actual, Maria Carmen de Frias e Gouveia

https://core.ac.uk/download/pdf/19129463.pdf

PDF p.4

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Nível médio da água do mar

 

"A maior parte dos cartógrafos serve-se do nível médio das águas do mar, isto é, da altura média das águas em todas as marés, como plano de comparação, ou nível de referência. Sabendo-se que o nível médio do mar varia de um lugar para outro, cada país decidiu escolher um ponto onde deve ser medido. Em França regula-se pelo marégrafo de Marselha. Em Portugal há marégrafos instalados junto do porto de Lisboa, em Cascais, Portimão, Aveiro, etc. Desse modo a altitude média a partir do nível médio do mar nos diferentes países, poderá ser comparada. Para os Estados Unidos, esse nível médio geral obtém-se em Galveston, no Texas. A altitude medida a partir do nível médio do mar chama-se «altitude absoluta»."


Segredos e mistérios das cartas geográficas, texto de J.-A. Hathway, Editorial Verbo, Lisboa, 1965

quarta-feira, 15 de julho de 2020

D. Pedro e D. Inês

Trazendo o infante D. Pedro consigo D. Inês e não se sabendo ao certo se era sua mulher ou não, fizeram entender a el-rei seu pai que o infante se preparava para mandar pedir ao Santo Padre que lhe desse licença para casar com D. Inês. Foi isto uns três anos antes de D. Inês ser morta. El-rei D. Afonso que então estava em Alenquer, quando isto ouviu ficou descontente de tal embaixada e escreveu secretamente ao arcebispo de Braga, que então estava em Roma, que conseguisse que o Papa não deferisse o requerimento do infante, que era para el-rei grande ódio e prejuízo.

As Crónicas de Fernão Lopes, Seleccionadas e transpostas em português moderno, António José Saraiva, Gradiva, Lisboa, 3ª edição, Março de 1993, p. 278 (Crónica de D. João I, A eleição do rei nas Cortes de Coimbra, Do recado que el-rei D. Afonso IV enviou à Corte do Papa para o infante seu filho não casar com D. Inês)  

quinta-feira, 22 de março de 2018

escreve, diz ela

Catálogo de manuscritos iluminados da Biblioteca Britânica.

Royal 10 E IV f. 307
Seated man taking dictation from a woman

Descrição da página de imagens «homis assis à la dictée d'une femme.
Origine: França, S. (Toulouse?)»

quinta-feira, 8 de março de 2018

segunda-feira, 21 de julho de 2014

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Alt-Breisach

"Antigamente, o Alt Breisach, uma fortaleza rochosa por onde corre o rio, ora de um lado, ora do outro - pois, na sua juventude inexperiente, parece que o Reno não estava ainda bem seguro do seu caminho -, devia ser, como local de residência, do agrado exclusivo de quem gostasse de mudança e agitação. Entre quem quer que fosse a guerra, e qualquer que fosse a razão dela, o Alt Breisach estava condenado a participar. Toda a gente o cercou, a maior parte capturou-o; a maior parte voltou a perdê-lo, e ninguém era capaz de o manter. O habitante do Alt Breisach nunca tinha bem a certeza a quem pertencia e o que era. Um dia era francês e, antes de conseguir aprender o francês suficiente para pagar os impostos, passava a ser austríaco. Enquanto tentava perceber o que era preciso para se ser bom austríaco, descobria que já não era austríaco mas alemão, embora fosse sempre duvidoso que espécie de alemão seria, entre as doze espécies que havia. Um dia descobria que era católico, no dia seguinte protestante fervoroso. A única coisa que lhe pode ter dado alguma estabilidade à existência deve ter sido a monótona necessidade de pagar alto o privilégio de ser o que quer que fosse no momento. Mas quando se começa a pensar nestas coisas, perguntamo-nos como é que alguém, na Idade Média, fora os reis e os cobradores de impostos, se dava sequer ao trabalho de viver."

Jerome K. Jerome, "Três Homens de Bicicleta" (publicado em 1900), p. 170, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 1992

A imagem é de um cartão postal escrito e enviado em 1914 - aqui

terça-feira, 4 de junho de 2013

a interpretação desejada

extracto da 

Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil 

Primeiro de Maio de 1500

"Um deles viu umas contas brancas de rosário, acenou que lhas dessem e folgou muito com elas; lançou-as ao pescoço, depois as tirou e embrulhou-as no braço; e acenava para a terra e então para as contas e para o colar do capitão, como que dariam ouro por aquilo. Isto tomávamo-lo assim por o desejarmos, mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar isto nós não queríamos entender, porque não lho havíamos de dar. Depois tornou as contas a quem lhas deu."


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

papéis riscados com letras

EMPTINESS


Forjar na polpa das palavras
a sintonia suculenta do morfema
e sair nu cantando lavras
semeadas na cor do poema
ondulando liberdades e savanas
com olhos molhados de punhais
e vozes quentes de calema.

Vivemos um momento
vazio e frio de sentidos
há, como dizem os ingleses,
uma cruel emptiness, um vácuo
castrado de utopias e sonhos
suspensos, ideais na diáspora...

À varanda pálida dos lábios
sequiosos da alma, rosa aflita,
esta infame e crua certeza:

                     A POESIA

                         NÃO SERVE

                              PARA NADA!

Os poemas, como as cartas de amor
do Campos, o tal louco de muitas pessoas,
(ou o tal Pessoa de muitos loucos)
são papéis riscados com letras...

© by Namibiano Ferreira

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

poesia vietnamita

A língua vietnamita é tonal e a poesia, além da rima, usa também os tons; neste poema as palavras francesas são inseridas no esquema.

Lý Lãng Nhân que escreveu a "Introdução à Poesia Vietnamita" onde este poema é citado, diz que é a história do crime que a personagem principal sofreu às mãos da sua ex-mulher tal como ele o conta a um chefe da polícia francesa:

..............................
Jouer la carte luy? ðánh bài,
Perdu cu?a moa? mô.t hai tram ðô`ng.
Fini l'argent lu?y dong.
Parti ðuo`ng lô. lâ´y chô`ng Hàng Sao.
Thua buô`n malade moa? ðau,
Ne pas dormir nhu~ng thao thúc hoài.

Vô Danh



Jogar às cartas era o que ela fazia
e perdeu muitas centenas de piastras do meu dinheiro.
Então deixou-me pobre,
e foi para Hàng Sao para arranjar marido.
Deste infortúnio fiquei tão doente
que perdi completamente o sono.

Anónimo

quinta-feira, 7 de julho de 2011

HISTÓRIA DO JOÃO SOLDADO QUE METEU O DIABO NUM SACO

Era uma vez um rapaz bem nascido, mas sem leira nem beira, a quem tocou a sorte de ser soldado. Terminado o tempo de praça, que foram oito anos, alistou-se por mais oito e, terminados estes, por mais oito.

Quando completou os últimos oito anos, já era velho e como nem para andar com as marmitas servia, deram-lhe baixa e entregaram-lhe tudo o que restava do soldo: um pão e quatro vinténs.

Era tudo isto que vos estou narrando no tempo em que o dinheiro se contava por vinténs e por patacos, valendo cada pataco dois vinténs, no tempo em que “ir à tropa” era “ir às sortes” e o soldado era soldado porque recebia um soldo mas tão pequeno que, como aconteceu ao nosso herói, ao fim de tantos anos só lhe restavam quatro vinténs.

João Soldado pôs-se a caminho e ia dizendo para consigo:

“Sempre te declaro que tiraste um lucro de arregalar o olho! Depois de servires o Rei durante vinte e quatro anos, ficas com um pão e quatro vinténs! Mas é andar com Deus e nada ganhas em desesperar senão criares mau sangue.”

E pôs-se a cantarolar:

Não há vida mais rendosa
Do que a vida de soldado.
É rancho, mochila e arma,
E morrendo está arrumado!

Era também esse o tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo andava pelo mundo e trazia por moço a São Pedro. Encontrou-se com eles João Soldado e São Pedro, que era o do saco, pediu-lhe esmola.

-Eu que lhe hei-de dar – disse João Soldado – se, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, não fiquei com mais do que um pão e quatro vinténs?

São Pedro era teimoso e insistiu.

-Enfim – disse João Soldado – ainda que, depois de servir o Rei vinte e quatro anos só tenha por junto um pão e quatro vinténs, repartirei o pão com vossemecês.

E puxando da navalha, cortou o pão em três bocados, deu-lhes dois e ficou com um.

Daí a duas léguas, encontrou-se outra vez com São Pedro que tornou a pedir-lhe esmola.

-Quer parecer-me – disse João Soldado – que lá adiante vi vossemecês e que conheço essa calva. Mas enfim… é andar com Deus ainda que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, só tenha um pão e quatro vinténs e do pão não me reste senão este bocado que vou repartir com vossemecês.

Assim o fez e, em seguida, comeu a sua parte para que não tornassem a pedir-lha.

Ao pôr do sol, terceira vez se encontrou com o Senhor e São Pedro, que lhe pediram esmola.

-Ia jurar que já lha dei – disse João Soldado. – Mas enfim… é andar com Deus ainda que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, me vi só com um pão e quatro vinténs. E vou repartir com vossemecês estes quatro vinténs como já reparti o pão.

Pegou nas duas moedas de pataco, deu uma a São Pedro e ficou com a outra.

“Que hei-de fazer com um pataco?” disse João Soldado para os seus botões. “O remédio é deitar-me a trabalhar, se quero ter de comer.”

-Mestre! – dizia entretanto São Pedro ao Senhor – Faça Vossa Majestade alguma coisa em favor desse desgraçado que serviu vinte e quatro anos o Rei e não tirou outro proveito mais do que um pão e quatro vinténs que repartiu connosco.

-Está bem – concordou o Senhor. – Chama-o e pergunta-lhe o que quer ele.

Assim fez São Pedro, e João Soldado, depois de muito pensar, respondeu que o que queria era que, no bornal que levava vazio, se metesse tudo o que ele quisesse meter nele. Isso lhe foi concedido. E João Soldado seguiu caminho.

Ao passar por uma aldeia, avistou numa tenda umas broas de pão mais alvo que jasmins e umas linguiças que estavam mesmo a dizer: comei-me.

-Salta para o bornal! – ordenou João Soldado em voz de comando.

E era coisa de pasmar ver as broas dando voltas como rodas de carreta e as linguiças arrastando-se como cobras a encaminharem-se para o bornal.

João Soldado, que comia mais do que um cancro e naquele dia tinha mais fome do que Deus tem paciência, apanhou um fartote, daqueles de dizer “não posso mais”.

Ao anoitecer chegou ele a outra aldeia. Como era soldado com baixa, tinha direito a alojamento, a que lhe dessem boleto. Por isso se dirigiu ao regedor a quem disse:

-Senhor, eu sou um pobre soldado que, ao fim de ter servido o Rei 24 anos, achei-me só com um pão e quatro vinténs que se gastaram no caminho.

O regedor respondeu-lhe que, se ele quisesse, o alojaria numa herdade próxima, para onde ninguém queria ir habitar porque nela havia morrido um condenado e, desde então, andava lá coisa ruim. Mas que se ele era animoso e não tinha medo de coisas ruins, podia ir lá e encontraria lá tudo do bom e do melhor pois o condenado tinha sido riquíssimo. Falou João Soldado:

-Senhor! João Soldado não deve nem teme e portanto posso encaixar-me lá enquanto o diabo esfrega um olho.

Na tal herdade, achou-se João Soldado no centro da abundância. A adega era das mais excelentes, a dispensa das mais providas e os madureiros estavam atestados de fruta.

A primeira coisa que fez, como prevenção para o que desse e viesse, foi encher uma cântara de vinho porque considerou que aos bêbados costuma tapar-se a veia do medo. A seguir, acendeu uma vela e sentou-se a fazer umas migas de toucinho.

Mal se tinha sentado, ouviu uma voz que vinha pela chaminé abaixo e dizia:

-Caio?

-Pois cai, se tens vontade – respondeu João Soldado que já estava meio pitosga com as emborcações daquele vinho precioso. – Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não deve nem teme.

Ainda não tinha acabado de falar e já caía pela chaminé abaixo a exacta perna de um homem. João Soldado sentiu tal arrepio que se lhe eriçaram os cabelos como a um gato assanhado. Pegou na cântara e bebeu um trago.

Mais animoso, perguntou à perna:

-Queres que te enterre?

A perna fez sinal de que não com o dedo gordo do pé.

-Pois apodrece para aí – disse João Soldado.

Daí a nada, tornou a ouvir a mesma voz, que vinha da chaminé, a perguntar:

-Caio?

-Pois cai, se tens vontade – respondeu ele dando outro beijo na cântara. – Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não teme nem deve.

Caiu então a outra perna, ao lado da companheira que já lá estava. Para rematar em poucas palavras: como caíram as pernas, caíram os quatro quartos de um homem e, por último, a cabeça, que se uniu aos quartos, e então se pôs em pé uma peça, não um cristão, mas um assombroso espectro que parecia dever ser o próprio condenado em corpo e alma.

-João Soldado – disse ele com um vozeirão capaz de gelar o sangue nas veias – vejo que és um valente.

-Sim, senhor. Sou um valente, não há dúvida. Pela vida de Cristo, nunca João Soldado conheceu nem fartura nem medo. Apesar disso, saberá Vossa mercê que, ao fim de ter servido vinte e quatro anos o Rei, o proveito que tirei foi um pão e quatro vinténs.

-Não te entristeças por isso. Porque se fizeres o que eu te vou dizer, salvarás a minha alma e serás feliz. Aceitas fazê-lo?

-Sim senhor, sim senhor.

-O pior – observou o espectro – é que me parece que tu estás bêbedo…

-Não senhor, não senhor. Estou assim “tem-te não caias”. Pois saberá Vossa Mercê que há três classes de bebedeira. A primeira é “tem-te não caias”, a segunda é de fazer SS e RR e a terceira é de cair. Ora eu, senhor, não passei do “tem-te não caias”.

-Se assim é, vem comigo.

João Soldado levantou-se. Ficou a balouçar como um santo num andor. Mas lá conseguiu pegar na vela. O espectro, porém, estendeu o braço como uma garrocha e apagou a luz. Não era precisa porque os olhos dele alumiavam como duas forjas acesas,

Quando chegaram à adega disse o espectro:

João Soldado, pega numa enxada e abre aqui uma cova.

-Abra-a Vossa Mercê com toda a força que tem, se faz gosto nisso. Eu não servi o Rei vinte e quatro anos, sem outro proveito que um pão e quatro vinténs, para me pôr agora a servir outro amo que pode ser que nem isso me dê.

O espectro pegou na enxada, cavou e tirou três talhas. Disse a João Soldado:

-Esta primeira talha está cheia de cobre, que repartirás pelos pobres. Esta segunda talha está cheia de prata, que empregarás em mandar rezar missas pela minha alma. E esta terceira talha está cheia de ouro, que será para ti se me prometeres entregar as outras conforme acabo de dispor.

-Fique Vossa Mercê descansado – afirmou João Soldado. – Vinte e quatro anos passei cumprindo as ordens que me davam sem tirar outro proveito que um pão e quatro vinténs. Já vê Vossa Mercê se o não farei agora que tão boa recompensa me promete.

E na verdade, João Soldado cumpriu tudo o que lhe recomendou o espectro e, de contente, ficou metido num sino. Quem não ficou nada contente foi o Diabo-Mor, Lúcifer, o qual perdeu a alma do condenado pelo muito que por ela rezaram a igreja e os pobres. Mas não sabia como vingar-se de João Soldado.

Ora havia no Inferno um Satanás pequeno, astuto e ladino, que garantiu a Lúcifer ser capaz de lhe trazer João Soldado. Causou isto muita alegria ao Diabo-Mor. E prometeu ao diabinho que, se ele conseguisse fazer o que dizia, o presentearia com um molho de enfeites e de ditos para seduzir e perder as filhas de Eva e com uma porção de baralhos de cartas e garrafas de vinho para tentar e perder os filhos de Adão.

Estava João Soldado sentado no seu quintal, quando vê chegar junto de si, todo lépido, o diabinho, que o saúda:

-Bons dias, Senhor Dom João!

-Estimo ver-te macaquinho. Que feio que tu és! Queres uma fumaça?

-Não fumo, Dom João, senão palhas.

-Vai um copo?

-Não bebo senão água-forte.

-Pois, então, que vens tu cá fazer?

-Venho levar Vossa Mercê comigo.

-Em boa hora seja. Não servi vinte e quatro anos o Rei, para bater em retirada diante de um macaquito de má morte como tu. João Soldado não deve nem teme, percebes? Olha, sobe a essa figueira que está cheia de belos figos, enquanto eu vou pelos alforjes porque me parece que a o caminho que temos a andar é comprido.

O Satanás pequeno, que era guloso, subiu à figueira e pôs-se a comer figos. João Soldado foi buscar o bornal que deitou às costas, voltou para junto do diabrete e gritou-lhe:

-Salta para o bornal!

Dando gritos de assombrar o diabrete não teve outro remédio senão enfiar-se dentro do bornal.

João Soldado fechou o saco, e pôs-se a desancar o diabrete até lhe deixar os ossos num feixe. Depois, mandou-o ir-se embora. Quando, chegado ele à sua presença, o Diabo-Mor viu o seu benjamim naquele estado, e partido, pôs-se vermelho de fúria e desatou aos gritos:

-Irra! Três mil vezes irra! Juro que esse descarado do João Soldado mas há-de pagar todas de uma vez! Eu mesmo lá vou em pessoa!

João Soldado já esperava esta visita. Estava prevenido e tinha o bornal às costas. Logo que Lúcifer se apresentou, deitando lume pelos olhos e foguetes pela boca, avançou para ele muito tranquilo e disse-lhe:

-Compadre Lúcifer! Fizeste bem em vir. Mas é preciso que saibas que João Soldado não deve nem teme!

-Tu, meu fanfarrão das dúzias é que vais saber. Meto-te no inferno num abrir e fechar de olhos.

-Tu a mim? Tu, Lúcifer, a João Soldado? Não há-de ser fácil … tem cuidado.

O Diabo bufava: “Vil guzano terrestre!”

E João Soldado a rir-se:

-Grande estafermo! Vou enfiar-te no meu bornal. A ti, ao teu rabo e aos teus cornos.

-Basta de bravatas! – rugiu o Diabo, estendendo o enorme braço e mostrando as unhas tremendas e negras.

-Salta para o bornal! – ordenou João Soldado na voz de comando que aprendera na tropa.

E por mais que Lúcifer se torcesse, por mais que se arrepelasse e pusesse num novelo, foi direitinho de cabeça para dentro do bornal.

João Soldado fechou o saco e foi buscar um masso. Pôs-se a descarregar cada pancada que onde batia fazia uma cova. Lúcifer ficou mais chato que uma folha de papel.

Quando sentiu os braços cansados abriu o bornal, deixou cair o miserável e disse-lhe:

-Por agora contento-me com isto. Mas se te atreves a voltar a aparecer diante de mim, grande desavergonhado, arranco-te o rabo, os cornos e as unhas, e nunca mais metes medo a ninguém.

O Diabo lá se arrastou como pôde até ao Inferno. Quando a corte infernal o viu chegar naquele estado, derrubado, encolhido, transparente, com o rabo entre as pernas, todos aqueles farricocos se puseram a vomitar sapos e cobras.

-Que havemos de fazer depois disto, Senhor? – perguntavam eles.

-Mandar vir serralheiros para que façam ferrolhos para as portas, mandar vir pedreiros para taparem todos os buracos e fendas das paredes, a fim de que não entre, não surja, nem aporte ao Inferno o grande insolente do João Soldado!

E assim se fez com toda a pontualidade.

Quando João Soldado viu aproximar-se a hora da sua morte, pegou no bornal e encaminhou-se para o céu. À porta encontrou São Pedro.

-Ora viva! Seja benvindo! – disse-lhe São Pedro – Onde é a ida, amigo?

-Aonde vê – respondeu João Soldado muito ancho e emproado.

E ia entrando.

-Alto lá, compadre! No céu não entra assim qualquer um como se entrasse em sua casa. Vejamos. Que merecimentos traz Vocemecê?

-Pois diga-me, Senhor São Pedro… Pois diga-me se lhe parece regular que eu, depois de lá em baixo ter servido o Rei vinte e quatro anos sem tirar outro proveito mais do que um pão e quatro vinténs, diga-me se, depois disso, não há no céu um lugar para mim?

São Pedro sorriu e João Soldado entrou.

HISTÓRIA DO JOÃO SOLDADO QUE METEU O DIABO NUM SACO, Edições Ledo, s/ data, mas possivelmente 1989

sábado, 19 de dezembro de 2009

"Sonetos dos Portugueses"

Em 1845/6 Elizabeth Barrett Browning escrevia sonetos àquele que viria a ser o seu marido, mas não lhos deu a conhecer senão três anos depois de casarem. O marido achou que deviam ser publicados e ela, para os disfarçar, sugeriu que fossem apresentados como traduções de bósnio, mas ele preferiu chamar-lhes "Sonetos dos Portugueses" porque ela admirava Camões e já tinha publicado o poema "Catarina a Camões".

Em "A Garganta da Serpente" podem ler-se traduções de alguns Sonetos, feitas por Sérgio Duarte e Manuel Bandeira, assim como a tradução de "Catarina a Camões" feita por Fernando Pessoa.

A imagem veio daqui.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Poesia para crianças

"Um parvo houve por bem
Ir correr a Rússia a fundo
Para ver se via o mundo
E dar nas vistas também
*
Pelo caminho encontrou
Duas isbas isoladas
E nem vivalma lá dentro.
Foi ver à cave e que viu?
Uns diabos mafarricos
De bigodes eriçados,
Olhos grandes esbogalhados,
A cabeça muito em bico,
Dedos compridos em garra,
Ali a jogar às cartas,
A chocalharem os dados,
A contarem o dinheiro.
Diz-lhes o Parvo, lampeiro:
«Ora Deus seja convosco!
Convosco, gente de bem!»
*
Isto não lhes caiu bem
Aos diabos, não gostaram
E ao Parvo se agarraram.
Desataram a bater-lhe,
Por pouco que o não esganaram;
Ficou mais morto que vivo,
Só então eles o largaram.
*
Então o Parvo lá voltou
Lavado em pranto pra casa,
E grandes gritos soltava.
Logo a mãe barafustou,
A mulher o insultou
E a irmã acrescentava:
-Que grande burro és, Babine!
És mesmo um parvo chapado!
Não lhes soubeste dizer
O que era mais indicado;
Devias ter dito assim:
«Oh! Deus Nosso Senhor,
Sê maldito, ó inimigo!»
Logo os verias pelas costas,
Nada mais queriam contigo
E era pra ti, grande parvo,
O dinheiro das apostas!
*
-Está entendido, mulheres!
Fica assente, mulher minha,
Lukéria, minha mãezinha
E Tchernava, minha irmã...
Hoje fui parvo, pois fui;
Não o serei amanhã!
(...)"
*
Leão Tolstoi, Babine o Parvo, ilustrado por Claude Lapointe, tradução de Luíza Neto Jorge, Contexto, Lisboa, 1985

quinta-feira, 24 de maio de 2007

fumar e jogar às cartas

Sobre os efeitos da presença portuguesa no Japão diz Wenceslau de Moraes:
"Caiu por terra a doutrina dos padres; mas o tabaco e as cartas de jogar - oh, pestezinha da alma humana! - persistiram..."
(Os Serões no Japão, 2ª ed., 1973)
Para alguns homens o paraíso é um interminável jogo de cartas com os amigos:
"Mas só o simples facto de se jogar às cartas é D'homem. Ponto final."