Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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terça-feira, 14 de março de 2023

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Foi passear ao luar

Foi passear ao luar. Não encontrou ninguém. Saiu das ruas para os caminhos e chegou ao campo onde os vizinhos são animais tímidos que não se deixam ver. Tinha calçado meias castanhas porque podia haver poças de lama onde lhe apetecesse mergulhar os pés. Encontrou-as e foi o que fez. No céu sem nuvens as estrelas debruçaram-se quando ouviram chapinhar e as unhas saudaram-nas, sem falar. Somos dez e vós milhares, oh astros! E eu, só uma, passou a lua. Quando calçou os sapatos e voltou para casa ainda faltava muito para amanhecer. Acenou ao céu e foi-se deitar.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Breve referência à introdução do pinheiro bravo no continente português

«Quem calcorrear as nossas estradas e percorrer veredas e caminhos deparará com uma árvore esguia, que se propaga sem grandes cuidados por meio da sua semente alada que vagueia ao sabor dos ventos até repousar, por fim, em qualquer pequena fenda onde se reproduz - é o pinheiro bravo.

Semente de Pinheiro Bravo
Luis Fernandés Garcia
2000

Parece certo que o aparecimento em Portugal desta espécie florestal se deve ao facto de os mareantes portugueses, vindos de França, terem metido nas suas embarcações, como combustível, as pinhas, as braças e o lenho de alguns pinheiros bravos originários daquele País. As pinhas ter-se-iam aberto com o calor e a tripulação, habituada a comer os pinhões do nosso pinheiro manso e estranhando a semente muito mais pequena e com uma amêndoa que não podia servir de alimento, contou o sucedido à Rainha Santa que, nessa altura, vivia em Leiria, em terras que lhe haviam sido doadas em 1300, por seu marido, o Rei D. Dinis. À Rainha, que todos escutava, foram mostradas as sementes com a descrição dos pinheiros e com a afirmação de que eles vegetavam bem em terreno arenoso.

Deliberou lançar a semente à terra, e teria sido a Rainha que transportou a «arregaçada de penisco» até uma clareira existente nos seus domínios e, aí, a lançou no areal.

Passaram-se meses, a semente vingou, e quando D. Dinis voltou a aparecer em Monte Real, a Rainha foi mostrar-lhe não só os trabalhos levados a cabo no reguengo de Ulmar, que fazia parte daquela doação, como a sementeira que tinha feito por suas mãos,.

D. Dinis, entusiasmado com o desenvolvimento nascedio, e desejoso de ter em abundância material lenhoso para a construção naval, diz aos mareantes que para a outra viagem lhe tragam mais semente daquela.

Vindo então mais semente - o «penisco» - é lançado noutras clareiras, e o povo, sempre cheio de curiosidade e amor à terra, passou a ir ver o «Pinhal do Rei» e o desenvolvimento que ia tomando.

Depois a semente alada, transportada pelo vento e pelo Homem, foi-se espalhando por toda a costa portuguesa ao norte do Tejo, penetrou nas Beiras e deu-se tão bem nas nossas terras que o pinheiro bravo bem parece ser originário de Portugal.»

Manuel Martins da Cruz, A Resina, Selecção Educativa - Série N - Número 18, Ministério da Educação Nacional, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1966 


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Parlamento

 «O Parlamento foi, alguma vez, aquilo que a palavra realmente significa: lugar onde o povo tinha autorização para falar.»

G. K. Chesterton, «Disparates do Mundo», Moraes, 2ª edição, p.159

quarta-feira, 24 de junho de 2020

A Mulher Leoa

Naquele ano, o sol escaldava toda aquela vasta região. À míngua de água, as plantas morriam e os animais, que com elas se sustentavam, fugiam para longe em busca de alimento, ou pereciam no mato, reduzidos a pele e osso. Ora os leões, que se nutrem de carne, já nada tendo para caçar, resolveram reunir-se, a fim de encontrar solução para tão angustioso transe.
-Que fazer? - perguntavam uns aos outros. - À nossa roda só vemos ossos, e nós, reis da selva, não vamos ficar para aí a rilhá-los, quais desprezíveis rafeiros ...
Como sempre acontece quando a fome aperta, a barafunda era geral, os rugidos abalavam a floresta e as garras dos mais impacientes estendiam-se como que a rasgar os corpos de presas invisíveis ... Nisto, o mais velho dos leões, que até aí se mostrara indiferente, ergueu a bela e majestosa cabeça. Fez-se silêncio. E o velho leão disse:
-Amigos, toda essa discussão não serve para nada, pois o nosso caso só pode resolver-se pela astúcia. Como sabeis, a aldeia onde vivem os homens não fica muito longe daqui - um dia de caminho. Ora os homens, que sabem abrir poços e desviar as águas, têm gado em abundância, que será nosso, desde que consigamos desfazer-nos de Negana Kimona, que é o dono dele. E como? Pensei neste ardil: uma leoa tomará a aparência de mulher, atravessará a aldeia e, ao passar junto da casa de Negana Kimona, dirá:
-Vou para longe, à procura de meu irmão.
-Negana Kimona não deixará de lhe falar em casamento, que ela aceitará. Uma vez casados, a leoa matará Negana, e nós apoderamo-nos do gado.
Todos aprovaram o engenhoso plano. Industriaram a leo e, quando chegaram perto da aldeia, deram àquela a aparência de mulher, vestindo-a e penteando-a convenientemente.
Atravessada a povoação, a mulher leoa avistou, sentado na varanda, Negana Kimona, que lhe perguntou:
-Aonde vais?
-Vou para longe, à procura de meu irmão. Mas estou cansada e com sede. Dá-me um pouco de água.
Negana Kimona deu-lhe a água, esperou que bebesse e perguntou:
-És casada?
-Não!
-Queres casar comigo?
-Não me desagradas. Aceito!
E logo ele lhe ofereceu uma casa no outro extremo da aldeia e uma cabra para comer.
Acontecia, porém, que Negana Kimona tinha, de outro casamento, um filho, chamado Nedalja Kimona. Quando este ouviu que o pai ia viver para outra casa pediu para o acompanhar e dormir com ele. Negana, a princípio, recusou-se a satisfazer o desejo do filho, mas a criança tanto insistiu, com rogos e lágrimas, que acabou por convencê-lo. Chegados a casa da noiva, esta estranhou a presença do pequeno, mas Negana explicou-lhe o que se passava. Quando se recolheram para dormir, o pai ficou no chão, junto do filho. Alta noite, a falsa mulher levantou-se e, de novo leoa, dispôs-se a atacar Negana. A criança, que vira a transformação, acordou o pai:
-Pai, acorda, que o chão está a morder!
Negana ergueu-se, mas, como a leoa se transformara outra vez em mulher, não ligou importância ao que o filho lhe dissera.
Na manhã seguinte a mulher observou ao marido:
-Esta criança acordou-te de madrugada. Porque o deixaste vir contigo?
-Porque tive pena dela!
-Vinda a noite, a falsa mulher parecia escutar, trazida no sussurro do vento, a recriminação dos leões:
-Foste para matar Negana Kimona. Porque não cumpriste?
Enraivecida, volta a tomar forma de leoa, e de novo tenta apoderar-se de Negana.
A criança, aterrada, sacode o pai:
-Pai, o chão está a morder!
-Como pode ser isso, meu filho, se a casa é nova e não tem bichos?
E tornou a deitar-se.
Outra vez, o vento trouxe o apelo longínquo dos leões:
-Porque não matas Negana Kimona?
-Pai, acorda, está aqui um animal feroz!
Irritado, Negana disse ao pequeno:
-Vou levar-te para a outra casa. Aqui, contigo, não se pode dormir.
E saíram, apesar de ser noite alta.
No caminho, Nedalja avisou o pai:
-A tua mulher transformou-se em leoa.
-Filho, estás louco! Como é isso possível?
-Afianço-te que se transforma em leoa. Se queres a prova, voltemos para trás e finjamos que dormimos.
Assim fizeram. Como a falsa mulher estranhasse o regresso da criança, Negana explicou que a não convencera a partir. Deitaram-se de novo, mas, desta vez, Negana cobriu a cabeça de forma a poder observar o que se passava. Escutando o apelo dos leões, a mulher transformou-se em leoa, pronta a devorar o homem. Ao vê-la, Negana acreditou então no filho. Levou-o para a outra casa e disse aos seus homens:
-A mulher que desposei costuma transformar-se em leoa, com o fito de me matar. Parti imediatamente, cercai a casa e lançai-lhe fogo.
E assim morreu assada a mulher leoa.

Contos adaptados da tradição popular por Fernando de Castro Pires de Lima, Edições Majora, Porto, Maio 1990

terça-feira, 7 de abril de 2020

A vizinha de cima

A vizinha de cima quer chatear quando anda com tamancos de madeira a meio da noite? Ninguém sabe. Talvez queira não se sentir tão sozinha na sua insónia.

quinta-feira, 5 de março de 2020

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

As estações

«Uma menina de seis anos vai para a escola. Na entrevista, perguntam-lhe quantas estações do ano conhece ... Ela pensa por um momento e diz com confiança:
-Seis!
O director com tacto sugere:
-Pense melhor.
A menina pensa novamente por um momento e diz:
-Sinceramente, não me lembro de mais ... Seis!
O director olha expressivamente para a mãe da menina que ficou vermelha, e diz-lhes que saiam por um minuto para o corredor ...
Lá, a mãe indignada pergunta à filha:
-Bem, Lena, o que foi isso?!
-Mas mãe ... - responde a filha com lágrimas nos olhos - Eu realmente não me lembro de mais, só "As estações" de Vivaldi, Haydn, Piazzola, Lucier, Tchaikovsky e Glazunov! ...
Mãe:
-Lena! E Desyatnikov e Cage!?»

Traduzida. Não sei quem escreveu.