Vladimir Kush
Rumi
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.
Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI
terça-feira, 15 de março de 2016
caçadores de mel louco nos Himalaias
sábado, 5 de março de 2016
Ligação aérea Vila Nova de Milfontes - Macau. 1924
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
O homem do tempo
«Vista para o Mar de Barents de uma janela do navio Mikhail Somov, o navio que leva comida e outros abastecimentos para a estação de Korotki uma vez por ano, durante a temporada de navegação de verão. Durante a viagem de meses de duração, os tripulantes têm direito a uma laranja por semana.» (tradução da legenda da fotografia)
terça-feira, 25 de junho de 2013
cigarros para a asma
O anúncio diz que "aliviam temporariamente os ataques de asma e efectivamente tratam asma, febre dos fenos, mau hálito, todas as doenças da garganta, constipações, aftas e irritações dos brônquios. Não são recomendados a crianças com menos de seis anos."
A primeira coisa que pensei foi que a publicidade é capaz de nos convencer de qualquer coisa; mas parece que os cigarros para a asma eram realmente bons: continham ervas medicinais secas e esmagadas. Talvez venha a traduzir mais informação - não encontrei nada em português - mas, para já, se souberem ler inglês e quiserem saber mais, podem começar por aqui.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Acendemos os nossos cachimbos e sentámo-nos, a olhar para a noite calma, e conversámos.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
a razão pela qual não se vê maldade em Amã
Era uma vez uma velha mulher que se dirigia do campo à cidade de Amã para visitar o seu neto. Era verão, e no encalorado e poeirento caminho encontrou-se com um homem de semblante cansado e ao mesmo tempo sinistro, que se cobria com um capote negro.
"Bom dia", disse a mulher, porque não tinha nada melhor para dizer e as pessoas do campo sempre se cumprimentam entre si.
"E um mau dia para a senhora!", respondeu o homem.
"Que modo bem educado de se falar com as pessoas!" Disse a velha senhora. "Que tipo de homem é você para falar assim aos filhos de Adão?".
"Eu sou Lúcifer! E odeio os descendentes de Adão".
A velha mulher não ficou nem um pouco assustada.
"E por que você está a caminho da cidade grande?" - perguntou a velha.
"Oh, tem muitas coisas que posso fazer num lugar assim". Disse o diabo.
"Você não parece tão diabo assim e creio que posso igualar qualquer coisa que você faça, a qualquer hora".
"Muito bem, eu lhe darei três dias em Amã e se você puder fazer coisas piores do que eu, ai então deixarei a cidade tranqüila pelo resto dos meus dias".
Assim fecharam o trato e os dois chegaram juntos à cidade.
"Quando vai começar"? Perguntou o diabo, porque estava ansioso para ver umas maldades.
"Começarei logo, e você pode me observar, supondo que possa ficar invisível".
"Assim"? Perguntou o diabo.
E a velha se deu conta que o diabo tinha desaparecido de sua vista, ainda que pudesse sentir seu hálito quente no pescoço.
"Agora, mãos a obra", disse ele asperamente.
A velha dirigiu-se à tenda de um dos maiores comerciantes de tecidos finos da cidade e sentou-se na entrada, pedindo ao comerciante que lhe mostrasse alguma peça de seda realmente boa.
"Tem que ser algo verdadeiramente insólito. Meu neto está enamorado de uma certa mulher casada e quer fazer-lhe um presente de que ela nunca se esqueça, de forma a abrandar o seu coração. Ela disse que só se entregará a ele se tiver uma peça da mais formosa seda que se possa encontrar".
"Para que a queres não é assunto meu, de modo que, por favor, não me contes os detalhe sórdidos", replicou o homem. "Mas acontece que tenho aqui uma peça do mais fino tecido do mundo. Até outro dia havia duas peças. Então vendi uma para o Palácio Real, de forma que podes imaginar a qualidade e formosura do tecido".
Enquanto examinava o corte de seda a velha disse:
"É um tecido muito caro e é bem possível que o compre. Mas, como é que não me estás tratando com o respeito que é devido a um cliente valioso?"
"Que queres dizer?", perguntou o comerciante.
"Ao menos deverias pedir um narguilé para mim, de maneira que eu possa fumar enquanto me decido"...
O mercador mandou buscar imediatamente um narguilé com carvão ardente no recipiente. Também colocou próximo à velha um prato de pastéis de mel, 'baklavas'.
Murmurando para si a velha manuseou o tecido, comeu os pastéis e, entre uma coisa e outra, deu umas tragadas no narguilé. De repente o comerciante percebeu consternado que ela havia passado um pouco de mel de seus dedos para o valioso tecido e, pior ainda, inclinado o cachimbo permitindo que uma brasa caísse na seda, fazendo um buraco na mesma.
"Ai, estúpida mulher!", exclamou o mercador. "Estás arruinando o tecido"!
"De modo algum. Tudo o que tenho a fazer é cortá-lo de modo certo e assim eliminar a mancha e o buraco, porque vou comprá-lo de qualquer maneira. Quanto disseste que valia"?
"Cem dinares", disse ele, esperando fechar negócio em cinqüenta, mas a velha aceitou imediatamente sem regatear, pagou-lhe em dinheiro e se foi da tenda.
Quando descia a rua o diabo sussurrou ao seu lado:
"Eu não chamaria a isso um truque. É verdade que você lhe deu um pequeno susto, mas lhe pagou muito e, ele pensa que você é uma tola. Ele é mais diabo que você"!
"Silêncio!", ciciou a velha, "e tenha um pouco de paciência, por favor. Veja o que vou fazer agora."
Dizendo isso, a velha começou a perguntar as pessoas em um café até conseguir o endereço da casa do mercador de tecidos.
Era uma casa grande e de aparência opulenta. A velha se deteve ali, salmodiando orações, e logo chamou à porta.
A mulher do comerciante veio atender e perguntou:
"Quem está ai e o que deseja?"
"Que a paz esteja contigo, generosa dama", disse a velha dirigindo-se à janela, "sou apenas uma pobre mulher do campo que veio visitar o seu filho. Encontro-me aqui na rua bem na hora das minhas orações especiais e não posso achar um lugar tranqüilo e limpo para recitá-las".
A esposa do comerciante, convidou a piedosa mulher a entrar, conduzindo-a até uma espaçosa sala no andar térreo.
"Generosa mulher, como último favor, te peço um tapete de oração em que possa me ajoelhar".
A esposa do comerciante procurou ao redor, voltou com o 'sajjadah' de seu esposo e o entregou à velha.
A velha fingia dizer as orações enquanto a mulher do comerciante se retirava da sala. Então, a velha enrolou o tapete junto com o tecido que havia comprado e o devolveu com mil palavras e gestos de agradecimento e humildade.
Ao sair da casa o diabo novamente lhe perguntou, irritado, "que tipo de jogo é esse?", a velha respondeu do mesmo modo que antes.
Quando o comerciante voltou para casa à noite e pegou seu tapete para fazer as suas orações, a peça de tecido caiu. Tinha a mesma marca e o mesmo buraco daquela que tinha sido vendida à velha mulher. A peça, ele lembrava, era um presente para uma mulher casada que, em troca, se entregaria ao seu neto...
Sua própria esposa! O comerciante arde em fúria, enquanto o diabo o contemplava, invisível, ele expulsou sua mulher de casa, recusando-se a escutar qualquer coisa que ela dissesse.
"Isto está melhor!", ria para si o diabo.
A velha seguia a perplexa esposa para ver aonde ela ia e, viu que corria para casa de sua prima, onde se jogou sobre uma cama soluçando amargamente e recusando-se a dar qualquer explicação a quem quer que fosse.
Na manhã seguinte a velha foi ver seu neto, um robusto jovem luxurioso, que não era melhor do que parecia ser.
"Vem, meu querido e formoso jovem", vou te apresentar uma dama bela e inteligente que está solitária e perplexa..."
Ela levou o jovem até a casa onde a esposa do comerciante estava descansando e aproveitando-se da ansiedade e confusão da dama, insistiu para que os dois permanecessem juntos. Tal era a perplexidade de ambos que simplesmente se sentaram no aposento olhando um para o outro, como se houvessem sido hipnotizados pela velha.
A velha bruxa correu então à tenda do comerciante. Logo que a avistou ele começou a soluçar e golpear o peito, gritando:
"Oh, mensageira da má sorte! Por que me escolheste para ser o instrumento de sedução da minha própria esposa, por meio do teu neto infernal e mal-nascido? Por que regressaste para me atormentar? Vá embora antes que eu te mate! E ainda disse muito mais no mesmo estilo.
A velha mulher se manteve firme até que o comerciante ficou sem fôlego e, então disse:
"Oh rei dos comerciantes! Realmente não tenho ideia do motivo de tuas palavras. A única coisa que posso dizer é que estou aqui para te pedir a devolução da minha seda, que parece deixei cair por um descuido em tua casa. Mas, não há ninguém lá".
O diabo começou resfolegar na orelha da velha, quando escutou isso, sufocando de riso.
"Que?! Queres dizer que não era minha esposa que tinha de ser seduzida por meio da seda?".
"Claro que não ! O que aconteceu é que, por casualidade, encontrei tua casa quando estava procurando um lugar para rezar e, por negligência, deixei o tecido ali..."
Quase fora de si com o que ainda lhe restava de sua fúria, com pesar e angustia pela injustiça que havia cometido contra sua esposa, o mercador exclamou:
"Oh, se eu pudesse fazer regressar a minha amada esposa!"
"Bem, pode ser que eu seja capaz de te ajudar nisto."
"Se pudesses fazê-la regressar, amável mulher, eu te daria mil dinares de ouro!
"Feito!", exclamou a velha bruxa e saiu precipitadamente da tenda.
"Não me diga que vai fazer um favor a alguém sua velha doida", sussurrou o diabo no seu ouvido.
"Afaste-se de mim, estúpido, deixa que uma verdadeira especialista possa fazer o seu trabalho!", guinchou a bruxa, enquanto um ar de total astúcia se espalhou sobre o seu rosto.
O diabo a seguiu furtivamente quando ela se dirigiu à prisão onde seu neto e a esposa do comerciante estavam detidos.
Assim que avistou o carcereiro na porta da prisão, a velha começou um jogo de astúcia e discussão.
"Oh vós, o mais nobre dos guardiães da justiça do rei! E pensar que na minha idade fui levada a isto... Mas, quem sabe, bom senhor, amável e ilustre cavalheiro, vós sejais capaz de me ajudar..."
A velha mostrou um dinar de ouro e, o carcereiro começou a olhá-la com maior atenção.
"O que queres?", perguntou asperamente.
"Somente que me seja permitida a entrada por alguns momentos para ver o meu neto, que foi, com certeza, justamente preso e entregue a vosso cargo, bravo defensor da justiça!".
"Bem, se tiveres outra moeda igual a esta quem sabe se posso arranjar alguma coisa"
Rápido como um raio, a velha lhe passou duas peças de ouro e o carcereiro a deixou entrar.
Assim que chegou ao calabouço onde o par de acusados estavam presos em celas contíguas, a velha se dirigiu ao lugar onde se encontrava a esposa do comerciante e destrancou a porta.
"Apressa-te, pega o meu manto e o meu véu e dá-me os teus, sai da prisão fingindo que sou eu e reúne-te ao teu esposo, isto é, se estás disposta a me recompensar por te haver salvo e fazer com que ele te perdoe".
"Tenho mil peças de ouro em casa. Isto será bastante?".
"Muito bem , isto será bastante, mas te advirto de que não voltes atrás na tua palavra, ou terei de dizer ao mercador que no fim de tudo eras realmente culpada", ameaçou a velha.
Desse modo a mulher do comerciante colocou as roupas da velha bruxa, que se vestiu como a jovem mulher. Então ela e seu neto ficaram no calabouço enquanto a mulher se apressava a regressar para casa, onde encontrou seu esposo, que se encheu de alegria.
Nessa mesma tarde, de acordo com a lei, o magistrado examinador visitou o cárcere, averiguando se havia motivo verdadeiro para a prisão dos detidos. Quando chegou em frente à cela onde se encontrava a velha, perguntou:
"Por que prenderam estas pessoas?"
"Foram presas sob acusação imoralidade, senhor juiz."
A velha retirou o véu e choramingou:
"Nobre juiz, sou uma mulher de 90 anos de idade e este é o meu neto, que não tem mais do que 16 anos. Aqui estão os papéis para prová-lo. Estávamos sentados juntos, conversando inocentemente, quando algum infiel nos denunciou à polícia com esta acusação absurda. por favor, nobre senhor, ordene nossa libertação agora mesmo, porque já sofremos bastante."
O magistrado, furioso, voltou-se para o carcereiro e o policial encarregado do caso e gritou:
"É este o modo pelo qual a justiça é feita em nosso país? Libertem está anciã e o seu jovem neto imediatamente! E em seguida, disse à sua escolta: "Dêem dez chibatadas no carcereiro e no policial!"
Quando a velha mulher e o seu neto estavam se afastando da prisão, encontraram o diabo.
"Estou indo, porque depois de ver tal actuação sei que não posso competir com você!"
O diabo abriu suas asas e voou de volta a jehennúm, a morada infernal.
Esta é a razão pela qual não se vê maldade em Amã, já que a velha mulher não se dispôs a tentar novamente.
Retirado do livro “Histórias da Tradição Sufi” - Edições Dervish – 1993 – Instituto Tarika
O Diabo e a Velha (ligeiramente alterado, sobretudo a grafia do nome da cidade, que foi alterada para Amã)
sábado, 11 de agosto de 2012
Passamaquoddy
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Passamaquoddy, 1920 |
Tribo Passamaquoddy
segunda-feira, 11 de julho de 2011
quinta-feira, 7 de julho de 2011
HISTÓRIA DO JOÃO SOLDADO QUE METEU O DIABO NUM SACO
Quando completou os últimos oito anos, já era velho e como nem para andar com as marmitas servia, deram-lhe baixa e entregaram-lhe tudo o que restava do soldo: um pão e quatro vinténs.
Era tudo isto que vos estou narrando no tempo em que o dinheiro se contava por vinténs e por patacos, valendo cada pataco dois vinténs, no tempo em que “ir à tropa” era “ir às sortes” e o soldado era soldado porque recebia um soldo mas tão pequeno que, como aconteceu ao nosso herói, ao fim de tantos anos só lhe restavam quatro vinténs.
João Soldado pôs-se a caminho e ia dizendo para consigo:
“Sempre te declaro que tiraste um lucro de arregalar o olho! Depois de servires o Rei durante vinte e quatro anos, ficas com um pão e quatro vinténs! Mas é andar com Deus e nada ganhas em desesperar senão criares mau sangue.”
E pôs-se a cantarolar:
Não há vida mais rendosa
Do que a vida de soldado.
É rancho, mochila e arma,
E morrendo está arrumado!
Era também esse o tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo andava pelo mundo e trazia por moço a São Pedro. Encontrou-se com eles João Soldado e São Pedro, que era o do saco, pediu-lhe esmola.
-Eu que lhe hei-de dar – disse João Soldado – se, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, não fiquei com mais do que um pão e quatro vinténs?
São Pedro era teimoso e insistiu.
-Enfim – disse João Soldado – ainda que, depois de servir o Rei vinte e quatro anos só tenha por junto um pão e quatro vinténs, repartirei o pão com vossemecês.
E puxando da navalha, cortou o pão em três bocados, deu-lhes dois e ficou com um.
Daí a duas léguas, encontrou-se outra vez com São Pedro que tornou a pedir-lhe esmola.
-Quer parecer-me – disse João Soldado – que lá adiante vi vossemecês e que conheço essa calva. Mas enfim… é andar com Deus ainda que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, só tenha um pão e quatro vinténs e do pão não me reste senão este bocado que vou repartir com vossemecês.
Assim o fez e, em seguida, comeu a sua parte para que não tornassem a pedir-lha.
Ao pôr do sol, terceira vez se encontrou com o Senhor e São Pedro, que lhe pediram esmola.
-Ia jurar que já lha dei – disse João Soldado. – Mas enfim… é andar com Deus ainda que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, me vi só com um pão e quatro vinténs. E vou repartir com vossemecês estes quatro vinténs como já reparti o pão.
Pegou nas duas moedas de pataco, deu uma a São Pedro e ficou com a outra.
“Que hei-de fazer com um pataco?” disse João Soldado para os seus botões. “O remédio é deitar-me a trabalhar, se quero ter de comer.”
-Mestre! – dizia entretanto São Pedro ao Senhor – Faça Vossa Majestade alguma coisa em favor desse desgraçado que serviu vinte e quatro anos o Rei e não tirou outro proveito mais do que um pão e quatro vinténs que repartiu connosco.
-Está bem – concordou o Senhor. – Chama-o e pergunta-lhe o que quer ele.
Assim fez São Pedro, e João Soldado, depois de muito pensar, respondeu que o que queria era que, no bornal que levava vazio, se metesse tudo o que ele quisesse meter nele. Isso lhe foi concedido. E João Soldado seguiu caminho.
Ao passar por uma aldeia, avistou numa tenda umas broas de pão mais alvo que jasmins e umas linguiças que estavam mesmo a dizer: comei-me.
-Salta para o bornal! – ordenou João Soldado em voz de comando.
E era coisa de pasmar ver as broas dando voltas como rodas de carreta e as linguiças arrastando-se como cobras a encaminharem-se para o bornal.
João Soldado, que comia mais do que um cancro e naquele dia tinha mais fome do que Deus tem paciência, apanhou um fartote, daqueles de dizer “não posso mais”.
Ao anoitecer chegou ele a outra aldeia. Como era soldado com baixa, tinha direito a alojamento, a que lhe dessem boleto. Por isso se dirigiu ao regedor a quem disse:
-Senhor, eu sou um pobre soldado que, ao fim de ter servido o Rei 24 anos, achei-me só com um pão e quatro vinténs que se gastaram no caminho.
O regedor respondeu-lhe que, se ele quisesse, o alojaria numa herdade próxima, para onde ninguém queria ir habitar porque nela havia morrido um condenado e, desde então, andava lá coisa ruim. Mas que se ele era animoso e não tinha medo de coisas ruins, podia ir lá e encontraria lá tudo do bom e do melhor pois o condenado tinha sido riquíssimo. Falou João Soldado:
-Senhor! João Soldado não deve nem teme e portanto posso encaixar-me lá enquanto o diabo esfrega um olho.
Na tal herdade, achou-se João Soldado no centro da abundância. A adega era das mais excelentes, a dispensa das mais providas e os madureiros estavam atestados de fruta.
A primeira coisa que fez, como prevenção para o que desse e viesse, foi encher uma cântara de vinho porque considerou que aos bêbados costuma tapar-se a veia do medo. A seguir, acendeu uma vela e sentou-se a fazer umas migas de toucinho.
Mal se tinha sentado, ouviu uma voz que vinha pela chaminé abaixo e dizia:
-Caio?
-Pois cai, se tens vontade – respondeu João Soldado que já estava meio pitosga com as emborcações daquele vinho precioso. – Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não deve nem teme.
Ainda não tinha acabado de falar e já caía pela chaminé abaixo a exacta perna de um homem. João Soldado sentiu tal arrepio que se lhe eriçaram os cabelos como a um gato assanhado. Pegou na cântara e bebeu um trago.
Mais animoso, perguntou à perna:
-Queres que te enterre?
A perna fez sinal de que não com o dedo gordo do pé.
-Pois apodrece para aí – disse João Soldado.
Daí a nada, tornou a ouvir a mesma voz, que vinha da chaminé, a perguntar:
-Caio?
-Pois cai, se tens vontade – respondeu ele dando outro beijo na cântara. – Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não teme nem deve.
Caiu então a outra perna, ao lado da companheira que já lá estava. Para rematar em poucas palavras: como caíram as pernas, caíram os quatro quartos de um homem e, por último, a cabeça, que se uniu aos quartos, e então se pôs em pé uma peça, não um cristão, mas um assombroso espectro que parecia dever ser o próprio condenado em corpo e alma.
-João Soldado – disse ele com um vozeirão capaz de gelar o sangue nas veias – vejo que és um valente.
-Sim, senhor. Sou um valente, não há dúvida. Pela vida de Cristo, nunca João Soldado conheceu nem fartura nem medo. Apesar disso, saberá Vossa mercê que, ao fim de ter servido vinte e quatro anos o Rei, o proveito que tirei foi um pão e quatro vinténs.
-Não te entristeças por isso. Porque se fizeres o que eu te vou dizer, salvarás a minha alma e serás feliz. Aceitas fazê-lo?
-Sim senhor, sim senhor.
-O pior – observou o espectro – é que me parece que tu estás bêbedo…
-Não senhor, não senhor. Estou assim “tem-te não caias”. Pois saberá Vossa Mercê que há três classes de bebedeira. A primeira é “tem-te não caias”, a segunda é de fazer SS e RR e a terceira é de cair. Ora eu, senhor, não passei do “tem-te não caias”.
-Se assim é, vem comigo.
João Soldado levantou-se. Ficou a balouçar como um santo num andor. Mas lá conseguiu pegar na vela. O espectro, porém, estendeu o braço como uma garrocha e apagou a luz. Não era precisa porque os olhos dele alumiavam como duas forjas acesas,
Quando chegaram à adega disse o espectro:
João Soldado, pega numa enxada e abre aqui uma cova.
-Abra-a Vossa Mercê com toda a força que tem, se faz gosto nisso. Eu não servi o Rei vinte e quatro anos, sem outro proveito que um pão e quatro vinténs, para me pôr agora a servir outro amo que pode ser que nem isso me dê.
O espectro pegou na enxada, cavou e tirou três talhas. Disse a João Soldado:
-Esta primeira talha está cheia de cobre, que repartirás pelos pobres. Esta segunda talha está cheia de prata, que empregarás em mandar rezar missas pela minha alma. E esta terceira talha está cheia de ouro, que será para ti se me prometeres entregar as outras conforme acabo de dispor.
-Fique Vossa Mercê descansado – afirmou João Soldado. – Vinte e quatro anos passei cumprindo as ordens que me davam sem tirar outro proveito que um pão e quatro vinténs. Já vê Vossa Mercê se o não farei agora que tão boa recompensa me promete.
E na verdade, João Soldado cumpriu tudo o que lhe recomendou o espectro e, de contente, ficou metido num sino. Quem não ficou nada contente foi o Diabo-Mor, Lúcifer, o qual perdeu a alma do condenado pelo muito que por ela rezaram a igreja e os pobres. Mas não sabia como vingar-se de João Soldado.
Ora havia no Inferno um Satanás pequeno, astuto e ladino, que garantiu a Lúcifer ser capaz de lhe trazer João Soldado. Causou isto muita alegria ao Diabo-Mor. E prometeu ao diabinho que, se ele conseguisse fazer o que dizia, o presentearia com um molho de enfeites e de ditos para seduzir e perder as filhas de Eva e com uma porção de baralhos de cartas e garrafas de vinho para tentar e perder os filhos de Adão.
Estava João Soldado sentado no seu quintal, quando vê chegar junto de si, todo lépido, o diabinho, que o saúda:
-Bons dias, Senhor Dom João!
-Estimo ver-te macaquinho. Que feio que tu és! Queres uma fumaça?
-Não fumo, Dom João, senão palhas.
-Vai um copo?
-Não bebo senão água-forte.
-Pois, então, que vens tu cá fazer?
-Venho levar Vossa Mercê comigo.
-Em boa hora seja. Não servi vinte e quatro anos o Rei, para bater em retirada diante de um macaquito de má morte como tu. João Soldado não deve nem teme, percebes? Olha, sobe a essa figueira que está cheia de belos figos, enquanto eu vou pelos alforjes porque me parece que a o caminho que temos a andar é comprido.
O Satanás pequeno, que era guloso, subiu à figueira e pôs-se a comer figos. João Soldado foi buscar o bornal que deitou às costas, voltou para junto do diabrete e gritou-lhe:
-Salta para o bornal!
Dando gritos de assombrar o diabrete não teve outro remédio senão enfiar-se dentro do bornal.
João Soldado fechou o saco, e pôs-se a desancar o diabrete até lhe deixar os ossos num feixe. Depois, mandou-o ir-se embora. Quando, chegado ele à sua presença, o Diabo-Mor viu o seu benjamim naquele estado, e partido, pôs-se vermelho de fúria e desatou aos gritos:
-Irra! Três mil vezes irra! Juro que esse descarado do João Soldado mas há-de pagar todas de uma vez! Eu mesmo lá vou em pessoa!
João Soldado já esperava esta visita. Estava prevenido e tinha o bornal às costas. Logo que Lúcifer se apresentou, deitando lume pelos olhos e foguetes pela boca, avançou para ele muito tranquilo e disse-lhe:
-Compadre Lúcifer! Fizeste bem em vir. Mas é preciso que saibas que João Soldado não deve nem teme!
-Tu, meu fanfarrão das dúzias é que vais saber. Meto-te no inferno num abrir e fechar de olhos.
-Tu a mim? Tu, Lúcifer, a João Soldado? Não há-de ser fácil … tem cuidado.
O Diabo bufava: “Vil guzano terrestre!”
E João Soldado a rir-se:
-Grande estafermo! Vou enfiar-te no meu bornal. A ti, ao teu rabo e aos teus cornos.
-Basta de bravatas! – rugiu o Diabo, estendendo o enorme braço e mostrando as unhas tremendas e negras.
-Salta para o bornal! – ordenou João Soldado na voz de comando que aprendera na tropa.
E por mais que Lúcifer se torcesse, por mais que se arrepelasse e pusesse num novelo, foi direitinho de cabeça para dentro do bornal.
João Soldado fechou o saco e foi buscar um masso. Pôs-se a descarregar cada pancada que onde batia fazia uma cova. Lúcifer ficou mais chato que uma folha de papel.
Quando sentiu os braços cansados abriu o bornal, deixou cair o miserável e disse-lhe:
-Por agora contento-me com isto. Mas se te atreves a voltar a aparecer diante de mim, grande desavergonhado, arranco-te o rabo, os cornos e as unhas, e nunca mais metes medo a ninguém.
O Diabo lá se arrastou como pôde até ao Inferno. Quando a corte infernal o viu chegar naquele estado, derrubado, encolhido, transparente, com o rabo entre as pernas, todos aqueles farricocos se puseram a vomitar sapos e cobras.
-Que havemos de fazer depois disto, Senhor? – perguntavam eles.
-Mandar vir serralheiros para que façam ferrolhos para as portas, mandar vir pedreiros para taparem todos os buracos e fendas das paredes, a fim de que não entre, não surja, nem aporte ao Inferno o grande insolente do João Soldado!
E assim se fez com toda a pontualidade.
Quando João Soldado viu aproximar-se a hora da sua morte, pegou no bornal e encaminhou-se para o céu. À porta encontrou São Pedro.
-Ora viva! Seja benvindo! – disse-lhe São Pedro – Onde é a ida, amigo?
-Aonde vê – respondeu João Soldado muito ancho e emproado.
E ia entrando.
-Alto lá, compadre! No céu não entra assim qualquer um como se entrasse em sua casa. Vejamos. Que merecimentos traz Vocemecê?
-Pois diga-me, Senhor São Pedro… Pois diga-me se lhe parece regular que eu, depois de lá em baixo ter servido o Rei vinte e quatro anos sem tirar outro proveito mais do que um pão e quatro vinténs, diga-me se, depois disso, não há no céu um lugar para mim?
São Pedro sorriu e João Soldado entrou.
HISTÓRIA DO JOÃO SOLDADO QUE METEU O DIABO NUM SACO, Edições Ledo, s/ data, mas possivelmente 1989
terça-feira, 14 de junho de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
a chama azul
Os três visitantes encararam-no.
-É fantástico! - murmurou Jack Dorman.
-Nessa altura ainda não tínhamos o rádio - continuou Slim - Apaguei o fósforo imediatamente, selei o cavalo e pus-me a caminho do Jig. Assim que lá cheguei, peguei no telefone e pedi uma chamada para Mr. Considine, que era o chefe dos serviços. Disse-lhe que o meu fósforo dava uma chama azul ao ar livre e ele limitou-se a perguntar se eu não estava bêbado nem nada. Antes de desligar informou-me de que o incêndio que lavrava no monte Buller se dirigia para a minha zona e aconselhou-me a evacuar toda a gente que ainda se encontrava no vale e a procurar refúgio em local seguro."
Nevil Shute, O País Longínquo, p. 137, Editorial Minerva, Lisboa (sem data mas o original é de 1952)
sábado, 11 de dezembro de 2010
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 24 de maio de 2007
fumar e jogar às cartas





