Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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quinta-feira, 22 de abril de 2021

As jovens nuvens

As jovens nuvens iam de bicicleta 

numa estrada do campo, 

sem árvores nas bermas. 

Em sentido contrário vinha o velho sol 

numa carroça 

puxada por um burro pachorrento.

Quando viu as jovens nuvens gritou:

«Onde vão com tanta pressa?» 

«Para lá do sol posto.» 

responderam elas. 

O grande e gordo sol riu com gosto. 

«Então deem meia volta e venham comigo.» 

Elas rodearam-no em arco íris.

A manhã ensombrou-se.


A jovem nuvem mais escura 

afastou-se

por um atalho.

Choveu e trovejou.

Ficou aliviada.


quarta-feira, 22 de abril de 2020

a ofensa arrasta com ela a rixa

«(...) Está na natureza que à ofensa se responde pela astúcia ou pela violência, que a ofensa arrasta com ela a rixa que põe o ofensor na posição de ofendido. Se Denissov tivesse agido como homem, quer dizer, se se sentisse vexado, se se tivesse batido, se tivesse apresentado queixa, se o juiz o tivesse condenado à prisão ou anulado aquilo por "falta de provas", Kouzma sentir-se-ia calmo; mas assim, sempre a acompanhar a carroça, tinha o ar de alguém a quem faltasse qualquer coisa.
-Eu não roubei o teu dinheiro - disse ele.
-Está bem, não roubaste. Estamos de acordo.
-Vamos a Tolileievo, eu irei ter com o regedor. Para que ele trate do assunto...
-Não há nada a resolver. O dinheiro não é assunto dele. Vais largar-me meu velho, segue o teu caminho. Não quero ver-te mais!
-Toleirão, nem sequer se pode brincar contigo, que logo te zangas... vá... toma lá o teu dinheiro! Eu só queria rir-me!
Kouzma tirou da algibeira umas quantas notas de rublo e entregou-as a Denissov. Este não se mostrou surpreendido nem alegre e, com ar de quem já esperava por aquilo, pegou no dinheiro e sem uma palavra meteu-o no bolso.
-Eu estava a brincar - continuava Kouzma, lançando um olhar interrogador para o rosto impassível de Denissov. (...)»

Contos e Narrativas de Tchekov, volume IV, "Encontro", p. 313, 314

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Viajar em Espanha no final do séc. XIX

Gravura de guia de viagem em Espanha publicado em S. Petersburgo em 1896. p. 27

Online no site da Biblioteca Estatal Russa com o nome de Lenine, Moscovo.

Ver aqui


terça-feira, 17 de março de 2009

O som da carroça

De tempos a tempos passa uma carroça, com rodas de madeira e aro em aço, aqui na rua que é empedrada. O som faz-me ir à janela.

Às vezes é só o senhor mas quase sempre vem acompanhado da mulher. Passam calmamente e nunca levantam os olhos para a janela do primeiro andar de onde os observo.

Quando os perco de vista olho para o quintal dos escuteiros que fica mesmo em frente e onde, por vezes, posso ver galinhas. Olho também para as árvores que são variadas. Algumas perdem as folhas no inverno, outras não, mas todas se modificam... Vejo os pássaros e os insectos que voam entre as árvores ou nelas pousam. Vejo o céu. Reparo se há ou não há vento. Hoje há.

Este bocadinho em que olho através da janela, porque o som das ferraduras e das rodas nas pedras me chamou, acontece muito de vez em quando. Cada vez que acontece lembro-me de outras vezes...

A carroça é cor-de-laranja.

sábado, 6 de dezembro de 2008

A mesma ideia, diferentes imagens

No "Dicionário das Ideias Feitas" à palavra Viagem segue-se: Deve ser feita rapidamente. Tendo em conta que Flaubert (1821-1880) é do tempo das carruagens puxadas por cavalos podemos imaginar que a mesma ideia feita já não evoca a mesma imagem.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Porque é que os ciganos estão espalhados pelo mundo

Isto passou-se há muito tempo.

Um cigano e a sua família andavam em viagem. O seu cavalo estava pele e osso e pouco firme nas pernas e à medida que a família cigana ia aumentando era-lhe cada vez mais difícil puxar a pesada carroça. Em breve a carroça ficou tão cheia de crianças aos trambolhões que o pobre cavalo mal conseguia arrastar-se pelo caminho às covas.

A carroça lá ía aos tombos, ora tombando para a esquerda, ora para a direita, tachos e panelas a caír, e uma vez por outra uma criança descalça era atirada ao chão de cabeça.

Não era tão mau à luz do dia, pois podiam ir apanhar as panelas e as criancinhas; mas no escuro não se viam. Aliás, quem é que era capaz de fazer as contas a uma tribo daquelas? E o cavalo lá seguia, penosamente.

O cigano deu a volta à Terra e onde quer que fosse deixava ficar um filho: mais um, e mais um, e mais um.

E foi assim, estão a ver?, que os ciganos se espalharam pela Terra.

Contos Populares Ciganos, Diane Tong, Editorial Teorema, 1998