Era lá longe
Vivia na Serra
Sozinho um monge
Generalizar
é singularizar a pluralidade.
Cor singulariza todas as cores.
Uma escada reúne degraus.
Precisamos de palavras para nos entendermos mas o efeito colateral é criarem mal entendidos, por isso precisamos de aprender sempre com quem não fala: pessoas, animais, plantas, pedras, nuvens e estrelas.
Generalizar é uma uma propriedade da linguagem muito problemática. Pretende condensar conhecimento mas muitas vezes é o principal obstáculo à compreensão. O paradoxo é que "não generalizar" é também uma generalização. Não é, Zenão de Eleia? O que é, é e não pode não ser. A deusa de Parmênides ensinou-lhe que também precisava de aprender o que não é. Precisamos de aprender o que não é porque as palavras o criam. Do que se pode falar ainda não é do que é. E temos que falar. Sorri. Enquanto há sorriso.
uma papoila floriu-lhe na boca e eu queria
que queria eu?
.
o Sol iluminou-a
e eu desviei os olhos para ocultar o desejo
que se cristalizou em permanente "deja vu"
.
foi sobre a alta fortaleza
e junto à santa
que a beleza do sangue se fez flor de luz
«Atrás de uma cortina ensanguentada, o amor espalhou os seus jardins.
Os amorosos ocupam-se com a beleza do amor que está para lá da explicação.
O intelecto diz: 'As seis direcções são o limite, não há nada para lá delas.'
O amor diz: 'Há um caminho, e eu percorri-o muitas vezes.'
O amor detectou mercados para lá do mercado.
O intelecto diz: 'Não ponhas o pé na terra da aniquilação;
Não há lá nada senão espinhos.'
O amor diz: 'Esses espinhos que sentes estão apenas dentro de ti!
Não digas nada! retira o espinho da existência do pé do coração;
Para que possas ver jardins interiores.'
Ó Shams de Tabriz! tu és o Sol oculto pela nuvem do discurso;
Quando o teu Sol nasceu, todas as palavras se derreteram!»
.
Jalal al-Din Rumi
(Divan 132:1-3, 6-8)
.
traduzido da tradução para inglês de Fatemeh Keshavarz,
'Reading Mystical Lyric: The Case of Jalal al-Din Rumi', University of South Carolina Press, 1998
.
este é o poema de hoje em Daily Poems from Rumi
"Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor
.
sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal
.
todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler
.
teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura
.
e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale
.
até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião
.
que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira
.
alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto
.
se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia
.
deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro."
.
Agostinho da Silva
porque elas se formam e deslizam e é possível reprimi-las às vezes e outras vezes não...
porque nada dói mais que ser abandonada
e essa dor maior é a pedra, é o chão
é a realidade indesmentível
inquestionável, impossível e real no mais alto grau.
.
chegadas e partidas da vida...
não poder confiar nunca mais no amor, na protecção...
.
estranha entre estranhos cujas palavras e acções são surpreendentes
e convencionais
.
há sílabas que fazem chorar
sílabas que nos dão prazer e alegria
mas o abandono... o chão frio da ausência... está sempre lá
nada é mais confiável
que a dor
sempre absolutamente real
e sempre cá
.
apenas os milagres abrem subitamente percepções mais vastas
para lá da dor...
.
e esses milagres...
de raros e maravilhosos
são estrelas no escuro
estrelas...
.
como alcançá-las senão com o amor?
o mais vasto de todos os estados de espírito?
.
a palavra amor é ao mesmo tempo bela e envilecida pelo uso
não sagrado
.
a falta de respeito torna infame...
.
lágrimas... regatinhos... Chuva
cai sobre as faces tristes todas... lava, alivia, salva...!
.
ou tu Sol seca-as... leva-as, dissolve-as no ar... que chovam noutro lugar
.
lágrimas, gotas de orvalho, bálsamo, prazer
.
.
viajar pelos caminhos rectos e paralelos da escrita habitua a mente à geometria das formas regulares
e claramente distintas do fundo
.
a estética das formas geométricas pode ser bela contra um fundo selvagem,
como algumas plantas num espaço geométrico
na individualidade dos seus vasos
são ainda assim belas selvagens
.
oh, mas as lágrimas... sem cor, sem forma, sem nada de definido...
selvagens lágrimas das florestas húmidas
das existências desmesuradas... estrelas... e nuvens...
noites caladas
dias muito lentos...
.
lentas lágrimas
.
límpidas e invisíveis agonias gritantes mas caladas...
.
espaços secretos nos corações não visíveis
prazeres indesmentíveis... milagres...
.
e uma vasta escuridão suave e profunda para onde a água vai
seguindo a linha do menor esforço,
que num mundo em relevo raramente é recta
mas sempre cai
excepto quando se eleva ao céu... cheia das lágrimas
.
que alguém ainda não chorou
mas vão revelar sagradas e divinas as dores humanas
e os seus prazeres na Terra...
...
celestes!