Maçã e tomate
Lado a lado à janela
Vêem um combate
De ceroulas de flanela
Na corda da roupa
Da casa em frente
Chega uma poupa
De olhar abrangente
E a tarde cinzenta
Fica transparente
Maçã e tomate
Lado a lado à janela
Vêem um combate
De ceroulas de flanela
Na corda da roupa
Da casa em frente
Chega uma poupa
De olhar abrangente
E a tarde cinzenta
Fica transparente
Recomeça o dia
Recomeça a noite
As mesmas estrelas
Outras nuvens
Outras e as mesmas aves
Sob o mesmo céu:
Prato invertido
Que não caíu
Assim como o ponto de exclamação se eleva
A pulga e a sardinha
Passaram à reserva
Generalizar
é singularizar a pluralidade.
Cor singulariza todas as cores.
Uma escada reúne degraus.
Precisamos de palavras para nos entendermos mas o efeito colateral é criarem mal entendidos, por isso precisamos de aprender sempre com quem não fala: pessoas, animais, plantas, pedras, nuvens e estrelas.
Generalizar é uma uma propriedade da linguagem muito problemática. Pretende condensar conhecimento mas muitas vezes é o principal obstáculo à compreensão. O paradoxo é que "não generalizar" é também uma generalização. Não é, Zenão de Eleia? O que é, é e não pode não ser. A deusa de Parmênides ensinou-lhe que também precisava de aprender o que não é. Precisamos de aprender o que não é porque as palavras o criam. Do que se pode falar ainda não é do que é. E temos que falar. Sorri. Enquanto há sorriso.
As hermenêuticas disponíveis não são suficientes e uma nova nova hermenêutica só acrescentaria a insuficiência.
A poetisa foi entrevistada para a televisão e perguntaram-lhe quando e onde é que tinha momentos de inspiração. Ela teve vergonha de dizer que às vezes era quando lia os ambientadores da casa-de-banho e, como não queria dizer isto, de repente ficou sem fala. Finalmente conseguiu lembrar-se de dizer que a inspiração não fazia inscrição prévia.
Um animal ou uma planta ou um cogumelo, que não é uma coisa nem outra, fotografados pela primeira vez ou pela enésima mas numa fotografia surpreendente, alcançam a fama.
Cresceram verdes entre as folhas verdes.
Quase invisíveis.
Aparecem agora.
O verde está a transformar-se em amarelo.
| Lucas Cranach, Vénus e Cupido a roubar mel |
