Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

A forma da Terra

«Donde se conclui que a Terra não é plana, como opinaram Empédocles e Anaxímenes, nem timpanóide* como afirmava Leucipo, nem em forma de taça como dizia Heraclito, nem de maneira nenhuma côncava como ensinava Demócrito. Também não é cilíndrica como Anaximandro julgava, nem a sua parte inferior se prolonga indefinidamente segundo a opinião de Xenófanes, mas é dotada de perfeita rotundidade como os filósofos pensam.»

Nicolau Copérnico, As Revoluções dos Orbes Celestes, Fundação Calouste Gulbenkian, p.23  

*em forma de tímpano, tambor

quarta-feira, 22 de abril de 2020

a ofensa arrasta com ela a rixa

«(...) Está na natureza que à ofensa se responde pela astúcia ou pela violência, que a ofensa arrasta com ela a rixa que põe o ofensor na posição de ofendido. Se Denissov tivesse agido como homem, quer dizer, se se sentisse vexado, se se tivesse batido, se tivesse apresentado queixa, se o juiz o tivesse condenado à prisão ou anulado aquilo por "falta de provas", Kouzma sentir-se-ia calmo; mas assim, sempre a acompanhar a carroça, tinha o ar de alguém a quem faltasse qualquer coisa.
-Eu não roubei o teu dinheiro - disse ele.
-Está bem, não roubaste. Estamos de acordo.
-Vamos a Tolileievo, eu irei ter com o regedor. Para que ele trate do assunto...
-Não há nada a resolver. O dinheiro não é assunto dele. Vais largar-me meu velho, segue o teu caminho. Não quero ver-te mais!
-Toleirão, nem sequer se pode brincar contigo, que logo te zangas... vá... toma lá o teu dinheiro! Eu só queria rir-me!
Kouzma tirou da algibeira umas quantas notas de rublo e entregou-as a Denissov. Este não se mostrou surpreendido nem alegre e, com ar de quem já esperava por aquilo, pegou no dinheiro e sem uma palavra meteu-o no bolso.
-Eu estava a brincar - continuava Kouzma, lançando um olhar interrogador para o rosto impassível de Denissov. (...)»

Contos e Narrativas de Tchekov, volume IV, "Encontro", p. 313, 314

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

A cadeira da sereia

Uma princesa de Brest chamada Asenora, era casada com um rei bretão. Quando estava grávida o rei acusou-a de adultério e atirou-a ao mar dentro de um barril. Visitada por um anjo, quando flutuava no mar da Cornualha, deu à luz um filho nas ondas. Deram à costa e sobreviveram. Mais tarde ela fundou uma capela em Zennor. A cadeira da sereia está nesta capela. (Lenda e fotografias na Wikipedia) 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

a morte não é um mito

"Não tenho filhos ainda, mas quando os tiver quero vê-los a brincar com caixões e mais tarde a tomar conta da empresa, sem verem a morte como um bicho-de-sete-cabeças ou um mito, como a maioria das pessoas."
Mylena Cooper (notícia de hoje no Diário de Notícias)

A «Funerária Cooper» foi criada nos anos 20 no Sul do Brasil por um emigrante irlandês que fazia caixotes de madeira para alimentos até lhe pedirem que fizesse um caixão. O filho desenvolveu a empresa acrescentando o serviço de cremação, revoada de pombas e chuva de rosas. Abriu também sucursais noutras cidades. Agora Mylena Cooper, a neta, propôs o serviço de enviar cinzas para o espaço - uma cooperação com a NASA - mas no Brasil não resultou: «ninguém quer mandar os parentes para longe».  

quinta-feira, 15 de maio de 2014

certezas

imaginem um misto de coisas que se dizem na televisão e nas acções de formação com os discursos das testemunhas de Jeová que nos batem à porta - durante mais de uma hora o motorista do Expresso resolveu brindar os passageiros com certezas ... foi um bocado penoso 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

antepassados

1 (eu) - 2 (pai e mãe) - 4 (avós) - 8 (bisavós) - 16 (trisavós) - 32 (tetravós) - se continuarmos chegaremos em breve a um número superior à totalidade dos habitantes da Terra nessa altura. Se continuarmos sempre o número dos nossos antepassados será infinito e nenhum deles morreu antes de se reproduzir. Lógica estrita e matemática aplicada. A ciência assenta nestes pilares - não em pilhas de tartarugas nem em ombros de Atlas.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

a discussão duma tese

"Calculando, ingènuamente, que na discussão duma tese, que compreendia o estudo de um texto, fosse necessária a ferramenta do nosso ofício, empenhei-me em levar para a pugna as armas com que sei lutar, os meus livros. Vi, a breve trecho e com fundo desalento, que não eram precisos e que poderiam ser perfeitamente substituídos por uma hábil gesticulação, loquela canora e olhares lançados à galeria. Compreendi a inutilidade do meu esforço, indignei-me e tomei uma atitude de corajosa reprovação (...)"
Rodrigues Lapa, Em tôrno da «Demanda do Santo Graal» Reparos a uma crítica, Separata de «A Língua Portuguesa», Vol. II - Fasc. III, Lisboa, 1931

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Eufrosinia Kersnovskaya

"Nós temos lutado, passado fome, sofrido muito durante 23 anos para levar a liberdade aos trabalhadores do mundo inteiro. Mas vocês aqui fazem salsichas e pão branco!"

"Nós pedimos-lhe que passasse fome durante 23 anos para nos libertar de salsichas e pão branco?"

Eufrosinia Kersnovskaya (1908-1994) nasceu em Odessa numa família da nobreza russa. A revolução expulsou-as de casa, a ela e à mãe, e ela foi enviada para trabalhos forçados.

Libertada em 1953, escreveu e ilustrou as suas memórias em 12 álbuns dos quais fez três cópias.

Este é um dos 680 desenhos.  

Parcialmente publicada em 1990, a obra completa em seis volumes "Quanto vale uma pessoa?" foi publicada na Rússia em 2006. 

O site dedicado a Eufrosinia Kersnovskaya está em russo e inglês, tem a obra na íntegra, informações e fotografias.

Este desenho é do primeiro álbum, segunda secção. Está aqui.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Velhos Crentes


Em 1666 a Igreja Ortodoxa Russa fez reformas que os "Velhos Crentes" não aceitaram. Esta igreja de "Velhos Crentes" foi construída no início do séc. XX na aldeia de Bogushovka (Богушовка), distrito de Bobruisk, Mogilev, Bielorrussia.

As fotografias são de 2006, carregar aqui para ver mais.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Dão crédito a palavras que são ventos

Quanta incerta esperança, quanto engano!
Quanto viver de falsos pensamentos,
Pois todos vão fazer seus fundamentos
Só no mesmo em que está seu próprio dano! 

Na incerta vida estribam de um humano; 
Dão crédito a palavras que são ventos;
Choram depois as horas e os momentos 
Que riram com mais gosto em todo o ano. 

Não haja em aparências confianças; 
Entendei que o viver é de emprestado; 
Que o de que vive o mundo são mudanças. 

Mudai, pois, o sentido e o cuidado, 
Somente amando aquelas esperanças 
Que duram pera sempre co'o amado.

(Sonetos acrescentados pela edição de Faria e Sousa, de 1685)

Soneto de Camões pintado na parede em Leiden em 1996 - desapareceu quando fizeram obras no prédio em Junho de 2002. Ver aqui.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

graças à gruta Chauvet


«Graças à gruta Chauvet, os historiadores e os cientistas admitem a partir de agora (2006) que a arte já não deve ser lida como um movimento histórico linear durante o qual os homens teriam adquirido  conhecimentos e técnicas de representação parietais cada vez mais complexos que lhes permitiram desenhar objectos cada vez mais complexos. A arte pode ser vista como uma sequência de apogeus e declínios na qual a gruta Chauvet é já um ponto alto de sucesso estético e técnico.

A presença de numerosos desenhos de animais predadores, sem interesse para a caça, pôs também em questão a teoria, até agora muito popular, de que as representações estariam sistematicamente ligadas a ritos mágicos de caçadores.»

Rémy Wenger, Denis Blant, Michel Blant et Pierre-Yves Jeannin, "Cavernes : Face cachée de la Terre", Nathan, colecção « Les rendez-vous de la nature », 12 de Outubro de 2006, p. 239

traduzido de francês, ver aqui

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

aldeia Warli

Papel artesanal, pigmentos naturais e aguarelas.

«A imagem de marca da pintura Warli é o uso de figuras geométricas tais como triângulos, círculos, quadrados, pontos e linhas quebradas que são usadas para representar figuras humanas, figuras de animais, casas, plantações, etc. A arte Warli é conhecida pelas suas representações monocromáticas que reflectem a vida popular dos hábitos sócio-religiosos, imaginações e crenças. Predomina o uso da côr branca sobre um fundo côr de barro.»

Traduzido do inglês, ver aqui.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

papéis riscados com letras

EMPTINESS


Forjar na polpa das palavras
a sintonia suculenta do morfema
e sair nu cantando lavras
semeadas na cor do poema
ondulando liberdades e savanas
com olhos molhados de punhais
e vozes quentes de calema.

Vivemos um momento
vazio e frio de sentidos
há, como dizem os ingleses,
uma cruel emptiness, um vácuo
castrado de utopias e sonhos
suspensos, ideais na diáspora...

À varanda pálida dos lábios
sequiosos da alma, rosa aflita,
esta infame e crua certeza:

                     A POESIA

                         NÃO SERVE

                              PARA NADA!

Os poemas, como as cartas de amor
do Campos, o tal louco de muitas pessoas,
(ou o tal Pessoa de muitos loucos)
são papéis riscados com letras...

© by Namibiano Ferreira

terça-feira, 5 de julho de 2011

o filho do tempo presente

ao ler uma história que Rumi escreveu no séc. XIII, "O Príncipe e a Criada", (The Prince and the Handmaid), encontrei na nota 6 que "o filho do tempo presente" é "um Energúmeno, ou instrumento passivo movido pelo impulso divino do momento"

surpreendida, porque a palavra "energúmeno" me sugeria um brutamontes e não um sábio, consultei a internet, enciclopédias e dicionários para saber, se possível, a etimologia da palavra e que significados se lhe atribuem

"O Principe e a Criada" foi escrito em persa, de modo que seria interessante saber que palavra persa foi traduzida como energúmeno, se alguém souber agradeço que deixe comentário, se eu conseguir descobrir ponho aqui ...


Parece então que a palavra "energúmeno" é de origem grega, ενεργούμενος (energoúmenos) e, claro, tem a ver com a palavra "energia" (trabalho, obra, acção)

descobri também que este assunto é mais actual e importante do que eu pensei, em 2006 o JN publicou esta notícia: O que quer dizer "energúmeno" que muito me divertiu :)

a seguir alguns apontamentos retirados de livros:
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Tomo VIII, p. 3282, Temas e Debates, Lisboa, 2005

'que está a ser influenciado, dirigido', já no séc. IV 'que está possuído pelo demónio'
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Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, I Volume, p. 1408, Academia das Ciências de Lisboa, Verbo, 2001
do latim energumême-, do grego ενεργούμενος

Pessoa que se supõe estar possessa do demónio = ENDEMOINHADO, POSSESSO
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. IX, p. 698, Editorial Enciclopédia, Lda.; Lisboa, Rio de Janeiro, s/ data mas posterior a 1942 e anterior a 1960

   Por este nome se designaram, primeiro, certas pessoas cuja ideia fixa lhes perturbava a razão e aquelas cujo espírito, demasiadamente esclarecido, ofendia as crenças ou superstições religiosas do seu tempo. Os escritores da antiguidade cristã consideravam os pecadores endurecidos ou incrédulos contumazes sob a influência especial dum espírito maligno, geralmente o Diabo.
   Outros aplicavam esta designação a simples doentes, em atenção ao número extraordinário de energúmenos que apareceram nos primeiros tempos do Cristianismo. Actualmente consideram-se energúmenos não só os fanáticos e exaltados de todos os sistemas políticos e religiosos, mas ainda aquêles que se entregam a entusiasmos excessivos, falam com arrebatamento e cólera, gesticulam com veemência, etc. Na sequência do seu apostolado a Igreja determinou organizar uma disciplina especial para energúmenos, cujos principais pormenores nos foram conservados. Êsses energúmenos eram, umas vezes como catecúmenos, outras como baptizados, inscritos numa lista pelos exorcistas, a quem se confiavam, depois de severamente examinados àcerca do seu estado e principalmente da posse diabólica.  (...)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

nocebo

estamos mais ou menos familiarizados com o efeito placebo - se acreditamos que algo nos faz bem isso faz-nos realmente bem
mas estamos menos familiarizados com o efeito nocebo, que é o oposto - se acreditamos que algo nos faz mal isso faz-nos realmente mal
que é então acreditar? e até que ponto podemos escolher aquilo em que acreditamos?
ou melhor: podemos nós perceber que acreditamos em algo?
parece que sim, que podemos ... embora não seja muito fácil, porque aquilo em que acreditamos nos parece ser verdade
é comum incentivar as pessoas a ter pensamentos positivos, acreditar no bem, etc. para que isso se torne realidade, supõe-se portanto que podemos escolher aquilo em que acreditamos
também o proselitismo, o marketing e a propaganda pretendem convencer as pessoas a acreditar em qualquer coisa e muitas vezes conseguem, embora também provoquem o efeito contrário e algumas pessoas acreditem então que tudo o que vem de determinada fonte é mentira
mas basta ser possível dizer o que estou a dizer para compreender que há uma distância entre acreditar e ser verdade, distância essa que é mais perceptível nos outros :)
é mais fácil perceber que outras pessoas acreditam em coisas em que não deviam acreditar :)
já aquilo em que nós acreditamos ... enfim ... é a verdade :)
e porque esperaria eu que acreditassem no que estou aqui a escrever? ;)
deixem-me só acrescentar que é precisamente isto que me entusiasma na brincadeira, este acreditar sem acreditar :)
mas também não acreditar acreditando ;)
e experimentar para ver o que acontece ...
quer acreditemos quer não vivemos num mundo maravilhoso onde nunca se sabe o que vai acontecer ...
oh, dirão talvez alguns de vocês, mas as companhias de seguros ganham muito dinheiro precisamente porque apostam na probabilidade de não acontecer nada de mal aos seus segurados ... eh, eh, eh, isto também tem graça, porque na verdade as companhias de seguros vivem das cláusulas que impedem os segurados de beneficiar do seguro se lhes acontecer alguma coisa ...
e, como vêem, eu divirto-me com estes diálogos imaginários ... :)
excepto quando me ponho triste ou ansiosa ou deprimida ou outra coisa qualquer precisamente por causa dos pensamentos com que me entretenho ...
e esta distância entre mim e os pensamentos com que me entretenho também me dá que pensar ...
espero ter conseguido explicar, mais ou menos, o meu amor ao vazio ...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

gente que parecia que sabia tudo e demonstra não saber nada

"É uma crise causada, fomentada, por comportamentos irracionais de gente branca, de olhos azuis, que antes da crise parecia que sabia tudo e que, agora, demonstra não saber nada" - Lula da Silva em 2009, ao premier britânico, Gordon Brown.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

avaliações

-Vendemos seiscentos ou setecentos carneiros por ano - respondeu Jane - e também umas boas centenas de ovelhas. Mas o dinheiro provém principalmente da lã, claro.

-Não era no dinheiro que eu estava a pensar - redarguiu a rapariga. - Deve ser uma satisfação produzir tão grande quantidade de matéria nutritiva.

-Uma satisfação? ...

-Evidentemente. Não se sente feliz por poder abastecer o mercado de tanta carne?

Jane sorriu.

-Confesso que nunca encarei a questão sob esse aspecto. Limitamo-nos a enviar os animais para o matadouro e, na parte que nos diz respeito, consideramos terminada aí a nossa intervenção, restando-nos apenas depositar o cheque no Banco quando ele nos chega às mãos.

-É um belo trabalho o vosso... belo e útil - declarou Jennifer.

Jane Dorman encarou-a, intrigada. Era a primeira vez que ouvia alguém atribuir valor moral à missão que ela e Jack tinham desempenhado desde a sua chegada à Austrália. Nos primeiros anos haviam-nos olhado com desdém, como se fossem simples provincianos incapazes de ganhar a vida na cidade e que, por isso mesmo, se viam constrangidos a viverem do trabalho da terra. Durante o difícil período que mediara entre as duas guerras, quando o quilo de lã não valia mais que três xelins, nunca ninguém mostrara a preocupação de saber se eles tiravam lucros do negócio ou se, pelo contrário, caminhavam para a ruína. Ultimamente, porém, com a lã dez vezes mais cara, havia muito quem os acusasse de oportunistas, exploradores e outras coisas quejandas. Contudo, ainda ninguém se atrevera a afirmar que o trabalho por eles realizado tinha algum valor social.

Nevil Shute, O País Longínquo, p. 161, Editorial Minerva, Lisboa (sem data, o original é de 1957)

Na imagem activistas da PETA - Pessoas para o Tratamento Ético dos Animais, 2006: "A Nudez É Melhor Que Usar Lã Australiana"