Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

fazem música aqui e ali

as gotas e os pingos
andam por aí

umas vezes visíveis
outras

vezes não

brilham ao Sol
ou infiltram-se
entre a gola e a pele
do pescoço
e descem

quer sejam belíssimas
quer sejam desagradáveis
existem

passam

caem
e evaporam-se

podem ser gordos
ínfimas
ou congelados
e rolam
ou escorregam
ou deslizam

podem ser bebidos
lambidas
reflectidos
fotografadas

nem duram muito
nem desaparecem

são incontáveis
e imprevisíveis

são gotas
são pingos

voam
ou condensam-se

libertam-se
ou fundem-se

existem aos milhões
e cada uma por si

e fazem música
aqui e ali

são primas das
pintas

e coroas do i

e lavam
mas não são lavadas

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Iniji (Henri Michaux)

(Este poema tem feito parte da página inicial deste Blog quase desde o início. Quero agora removê-lo. Publico-o aqui para que possa continuar a ser encontrado mas já não esteja sempre visível.) 


Não pode mais, Iniji

Esfinges, esferas, falsos signos,
obstáculos no caminho de Iniji

Movem-se margens
Fundações afundam-se

Mundo. Não mundo
só o amálgama

As pedras já não sabem ser pedras

Entre todos os leitos da terra
onde está o leito de Iniji?

Menina
pá pequena
Iniji não pode fazer força

Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpo
um corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo

Fluidos, fluidos
tudo o que passa
passa sem parar
passa

Ariadne mais fina que o seu fio
não consegue reencontrar-se

Vento
sopra vento em Arraô
vento

Ananoá Iniji
Anâã Animá Iniji
Orrenaniâã Iniji
e Iniji inanimada

Sai meio corpo
meio corpo morto

Ananejá Iniji
Anajetá Iniji
Anamajetá Iniji

A bilha não entorna a ciência
O fogo não derrama o leite

A chave,
onde está a chave?
Os insectos passam-na uns aos outros
As vassouras varrem-na

Tu sim, tu; mas eu não tem

Eva sou eu
orfã da ideia
saída, portas fechadas

Já não agarra, Iniji

Iniji fala com palavras
que não são as suas palavras

Djã
Djã Djã
Djã dã dã
que tornam Iniji inânime
sem regresso nos carris de Irritilili

Quantos vespões no verão da sua cabeça

Não te detenhas nele, Iniji

Se tu vais Njeu
Njá vá dá

Se tu não njá
njarrá rá vais

Reboques
que a rebocam
que ela reboca

Aonde regressar?
Foi-se o coração do quarto

Repetição sempre repetida

Oh Dormir, dormir numa ânfora

Paralisia nas águas
Paralisia nos campos

Sofre-se aqui a suprema fealdade
o ataque das agulhas voadoras

O avesso do perfume, não sabem, eles

O raio não é feito para cabeças de crianças
mas está lá
recreando-se, para ele, para nada, para criar um trovão

As montanhas de Niniji estão condenadas
Recôncavos, depressões, poços

Segundo o mundo, os males

Fechou-se a porta das viagens
no túmulo jaz Iniji

Misturados ao insalubre dos fundos
contrários caracteres ficaram nela,
o torturante do fogo junto ao monótono da água
junto ao inconsistente, ao imperceptível do ar.

E sempre
o corpo sem vida como a rotação da mó

Lá onde não exite nenhuma clareira
nascentes, oferendas
os infindáveis bordados da teia da aranha invisível
tecem árvores com os meus pensamentos
não posso fazer nada

Somente as amarguras grandes
somente a contínua continuação

As escalas devoram a melodia
debaixo do tecto, o telhado
debaixo do soalho, o leito
na estopa os sinos

Uma salamandra devorou o meu fogo...

Este coração já não se entende com os corações este coração
não reconhece ninguém na turba dos corações

Corações cheios de gritos, de ruídos,
de bandeiras
este coração não é desenvolto com estes corações
este coração esconde-se destes corações
este coração não se compraz com estes corações.

Oh cortinas, cortinas e ninguém vê Iniji

Stella, Stella constelada
já te não levantas para mim, Aurora

Tão pesados
tão pesados
tão taciturnos seus monumentos
tão impérios, tão quadriláteros
tão esmagadores bárbaros, tão vociferantes,
e nós tão nenúfar
tão espiga ao vento
tão longe do cortejo
tão mal na cerimónia
tão pouco da nossa idade e tanto a passear
tão farinha
tão peneirada

e sempre na peneira
asas de morcego
batendo sempre contra a cara

Bifurcações
e desuniu-se o uno

liames ligam lugares Lorenzo

O cisne erguido ao rés das águas não disse «minha filha»

Porque os gelos
porque a fuga dos espíritos
aconteceu

Quem agora há-de aportar à ilha?

As formas fogem em farrapos
mergulham, alongam-se, deformam-se
luas nos bordos de uma nuvem negra.

Tiram-se as luvas cheias de sangue
tira-se a camisa cheia de sangue

ah lasciate
lasciate

Silêncio

silêncio

Deixai-me nadar pelas paredes fora
Ouço murmúrios que me chamam
É ele. É o momento.
Enfim!

Espelhos recolhem-nos
Espelhos trocam-nos
a perdida deste mundo, a morte do outro mundo

Deixai-nos

Rorraá Roá Roarrá Rorrâã

Hoarre hoâã

Tornou-se depois tudo tão duro
tão detestável
velha mão nodosa
sobre um rosto de têmporas raiadas de veias
outrora
o rio de júbilo não tinha o leito ressequido
Iniji não vivia ainda atrás das portas de chumbo

Não acontecera ainda.

Vida, extremidade de um galho...

Ah o terrível, o trémulo que tão fácil dissipa o universo inteiro

Estes esgares à minha roda
sempre, sempre
que desejam eles?

Papéis sempre sempre redistribuídos
perdizes, folhas, loucas



Vapor
apenas vapor
pode acaso o vapor voltar a ser migração?
o fio passa
repassa
fio sem fim a fiar-se
casulo que me enclausura

Ah! O Juízo
sofrida sentença semelhante à síncope
vagas fustigantes
dedos aduncos
tudo são tormentos para a órfã

Iniji hóspeda efémera das covas,
pais, pinças, palavras

Eis a estrada longínqua que não vem de volta.

Dorme o seio de onde jorrou o leite.

Apagou-se o contorno... e a opala...

Ficou a sombra só o suspiro dos lábios

Vem, vem, vento de Aúrraú
tu, vem!

Herberto Helder, poemas mudados para português, in "Poesia Toda", p. 469, Assírio & Alvim, 1996



quarta-feira, 14 de março de 2012

sonhos de cavalos

Castelos
e livros velhos.
Sonhos de cavalos.
Damas ruivas
e searas.
Às vezes as falas são claras.
Outras mergulham
e correm.
Veios debaixo dos pés.
Nuvens no ar.
Crinas de vento
tingidas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Salgueirinho

Xilogravura de Jacques Hnizdovsky, Salgueirinho (Young Willow), 1961

para outras entradas deste blog sob o tema salgueiro




sábado, 23 de abril de 2011

Canta alto...!

Conselhos não ajudam quem ama!
Quem ama não é como o ribeiro da montanha
para que se possa construir uma barragem atravessada.

Um intelectual não sabe
o que o embriagado sente!
Não tentes adivinhar
o que os que estão perdidos dentro do amor
farão a seguir.

Quem estivesse a mandar daria todo o seu poder,
se lhe chegasse um leve aroma do almíscar desse vinho
do quarto onde os que amam
estão a fazer sabe-se lá o quê!

Um deles tenta cavar um buraco na montanha.
Outro foge dos louvores académicos.
Outro ri dos bigodes famosos!

A vida gela se não lhe chega o sabor
deste bolo de amêndoa.
As estrelas levantam-se girando
todas as noites, maravilhadas de amor.

Haviam de cansar-se
desse girar se não estivessem.
Diriam
"Durante quanto tempo teremos de fazer isto!"
Deus pega no mundo flauta de cana e sopra.

Cada nota é uma necessidade chegando através de um de nós,
uma paixão, uma saudade.
Lembra-te dos lábios
onde o vento-respiração teve origem,
e deixa que a tua nota seja clara.
Não tentes pôr-lhe fim.

Sê a tua nota.
Vou mostrar-te como isso é suficiente.
Sobe ao telhado à noite
nesta cidade da alma.
Deixa que todos subam aos seus telhados
e cantem as suas notas!

Canta alto...!

RUMI

imagem de flauta de cana aqui

domingo, 29 de agosto de 2010

cântico do irmão Sol

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,

a ti o louvor, a glória,

a honra e toda a bênção.

A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar

e nenhum homem é digno de te nomear.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

com todas as tuas criaturas,

especialmente o meu senhor irmão Sol,

o qual faz o dia e por ele nos alumias.

E ele é belo e radiante,

com grande esplendor:

de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pela irmã Lua e as Estrelas:

no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pelo irmão Vento

e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno,

e todo o tempo,

por quem dás às tuas criaturas o sustento.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água,

que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pelo irmão Fogo,

pelo qual alumias a noite:

e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pela nossa irmã a mãe Terra,

que nos sustenta e governa,

e produz variados frutos,

com flores coloridas, e verduras.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

por aqueles que perdoam por teu amor

e suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados aqueles

que as suportam em paz,

pois por ti, Altíssimo, serão coroados.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

por nossa irmã a Morte corporal,

à qual nenhum homem vivente pode escapar.

Ai daqueles que morrem em pecado mortal!

Bem-aventurados aqueles

que cumpriram a tua santíssima vontade,

porque a segunda morte não lhes fará mal.

.

Louvai e bendizei a meu Senhor,

e dai-lhe graças

e servi-o com grande humildade.

.

S. Francisco de Assis

(Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

ó fadas minerais

EXORCISMO PARA AS MÃES VOLTAREM DOS MONTES

.

Cesse o ímpio desterro, ó Mães, e redivivo

Restaure o rito as torres das primeiras crenças!

Vossa espectral ausência foi-nos tempo perdido

Em factícias ciências.

.

Fomos nós que fugimos ou vós as foragidas

De um descarnado credo? e em vagos horizontes

Do nosso sangue errais, a prantear-nos longínquas...

Ó Mães, descei dos montes!

.

Estorcem-se em batalhas os campos dolorosos

E, numa correria por sonhos maus, em trânsito,

De uma guerra em guerra, somos um vaguear de autómatos

Numa névoa de sangue.

.

Perdulários perdemos os nossos nomes próprios

E nas cinzas do verbo os números ensinam

A lógica mais triste de sermos uns para os outros

Motivos de chacina.

.

Antes que as flores expirem numa lenta agonia,

Passe um bando de mísseis e nos leve nas garras,

De iluminar o nada a luz fique vazia

E apodreçam as águas.

.

Antes que o tempo venha morrer nos nossos olhos,

Voltai do monte, ó nácar das madrugadas rústicas!

Ó Mães! Se os próprios deuses são vossos filhos pródigos,

Perdoai nossas culpas!

.

Das moradas do ser éreis o muro e a telha,

Lençol tecido por mistérios femininos;

Numa inocência agrária, a lenha, o linho e a ideia

Segura dos caminhos.

.

Éreis, de madrepérola, os pilares dos deuses claros,

A pureza do pão e a limpeza dos ventos.

Foi isto há tanto tempo. Para que estrela mudastes

As colunas do templo?

.

Onde cantam as aves que emudeceis nos ecos?

Nascem e morrem os deuses. Só vós que os procriais

E lhes fiais os fados sois por cima dos séculos

Puramente imortais.

.

Vinde, sábias de novo, inspirar os oráculos,

Expulsar dos vaticínios os restos funerários.

Apressai-vos, ó Mães! que as pestes já estão prontas

Nos nossos calendários.

.

No tráfego da ira, semáforos nucleares

Já impedem o trânsito para as últimas esperanças.

Vinde, meigas e mágicas ó fadas minerais

De perdidas lembranças!

.

Com a frescura da origem voltai e novamente

Brilhe o ovo de prata de que somos nascidos,

A paz entre nos sonhos; e à casta nascente

Retrocedam os rios.

.

Cesse o nosso castigo, Mães, despregai da cruz

A estampa triste deste agonizar infindo.

O deus prostrado e tétrico que ensanguentou a luz

Também é vosso filho.

.

Que pomba nos trará notícias do armistício,

Que rosa nos trará um perfumado rasto

Quando um deus condenado à lição do suplício

Diviniza o holocausto?

.

Libertai-o e entre os deuses dai-lhe o lugar sadio

De filho humilde às vossas sentenças naturais.

Adorar só um deus é um orgulho sacrílego

Que não nos perdoais.

.

Vinde fartas e férteis, claras vogais do verbo

Formosíssimas ânforas de bondade uterina!

Esconjurai, ó frutíferas!, os senhores dos ponteiros

Que marcam a chacina.

.

Natália Correia, O Armistício, Col. Autores de Língua Portuguesa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1985

.

in: Matilde Rosa Araújo, A infância lembrada, Livros Horizonte, Lisboa, 1986

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

fenícios pós-modernos

O Phoenicia é uma réplica de um barco fenício. A tripulação está a tentar descobrir possíveis navegações fenícias cerca de 600 a.C.. Estiveram nos Açores porque estão a tentar dar a volta à África e os ventos os levaram para lá...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

caleidoscópio

Eu estava em posição de desvantagem e ele aproveitou para me desenraizar, puxando-me para si com a força do seu braço. Podia ter-me desvanecido então mas a proximidade era tão avassaladora e a sua alegria de vencer tão irradiante que era impossível sucumbir como queria. Em vez disso enchi-me de calor e fechei os olhos porque não podia suportar tanta beleza. Foi assim que ele me venceu e conquistou e talvez não o devesse ter feito porque fez de mim um farol sem o qual já não sabia navegar. Nunca me censurou mas eu sentia o que ele sentia e sabia que tinha saudades de se perder no vasto oceano da ignorância e do desapego depois de nos elevarmos juntos ao sétimo céu e voltarmos a cair no frio e na fome. Quis então transformar-me na vela do seu barco e deixar que o vento nos levasse. Ele julgou que era seu dever proteger-me do perigo e disse que preferia navegar sempre à vista da costa que permitir que o vento e as tempestades me envelhecessem e desgastassem, mas eu fiz-lhe ver que não era nem tão nova nem tão bela que tivesse que ser preservada, pelo contrário. Apesar de tantos anos de cautelas já não conservava a juventude e devia agora por-me ao serviço de algo que me transcendesse e não arruinar-me lentamente à beira-mar. O amor dele não era maior que o vigor e o seu desejo acabou por vencer e partimos.

Estava uma bela manhã de nevoeiro rosa e dourado, que se abria aqui e ali deixando ver o azul. O vento era fraco mas a minha vontade era grande e abri-me de modo que toda eu fui tomada pelo vento. Saímos lentamente, ele manobrou com cautela enquanto saiamos do porto e contornávamos o cabo, mas quando o vasto oceano se abriu à nossa frente... ah... tomados da vertigem da vastidão perdemo-nos no azul.

De volta ao moinho ele estava branco de farinha e sabia-me a bolo. Eu já não era as velas e também não era a mó. Era, lá em cima, a câmara escura onde ele se revelava um perfeito desconhecido que pela primeira vez ali se abrigava. Noites estreladas após noites estreladas, noites habitadas e desabitadas de Lua, todas nos eram propícias. Eu despojava-o da farinha, ele despojava-me da vergonha. Gruta e rainha eu aceitava-o como animal e senhor. Trovão e homem ele deslumbrava-me, aquecia-me, transportava-me no éter eterno de um amor que não nos pertencia mas nos mantinha e consentia sem cessar. Quando as nuvens nos permitiam brincávamos às escondidas, com o silêncio riamos músicas de trovadores. Inventávamos tudo e distribuíamos às mãos cheias as graças que inspiravam os poetas.

De tanto habitar o etéreo perdíamos a consistência e eu tinha saudades de ser esmagada pelo seu peso. Não caímos, viemos descendo, pairando como as folhas de outono vermelhas e castanhas. Olhos nos olhos dissolvemo-nos em consistências cada vez mais pesadas, até que nos tornámos um com a terra. As nossas raízes misturadas absorviam e as seivas corriam nos nossos membros entrelaçados até à superfície do mundo. Oh... vieram Invernos, vieram os Verões. Calores e chuvas, tudo nos foi alimento. Confundidos e satisfeitos já não nos distinguíamos, éramos ao mesmo tempo vermes e borboletas, os insectos e as aves que os comiam. Desaparecíamos e regressávamos com a regularidade do Sol. Éramos e não éramos adultos, crianças e muito antigos.

Quando de todo já não se via nem a terra nem vestígios dela e não havia nada à vista senão água e céu descansámos por fim naquele embalo feliz que só raramente nos é dado e nunca dura muito. O barco era um sorriso duradouro. Os golfinhos vieram saltar e cantar à nossa volta. Era possível supor que algum peixe haveria de morder o anzol para que nós depois pudéssemos também mordê-lo, mas nesta pausa de Sol e alegria dançámos para os golfinhos com tanta energia que caímos do barco no meio deles e aprendemos a suster a respiração para os acompanhar quando passavam por baixo do casco. Sem limites para a ousadia descemos com eles na escuridão das águas e conhecemos mundos mais ou menos pequenos e exóticos e seus ingénuos e vorazes habitantes. Até mesmo os mundos inóspitos nos agradavam. Não temíamos nada, tínhamos já desaparecido tantas vezes que esse jogo já não nos espantava. Íamos e vínhamos ao sabor das ondas calmas ou desesperadas de oceanos mais ou menos molhados.

Ainda havia a casa onde um dia ele me encontrara, lá estava naquela aba da montanha, protegida dos ventos do norte e aberta ao calor do sul. Arruinara-se e fora reconstruída algumas vezes. Era habitada por pessoas que lhe ignoravam a história mas sabiam que era velha e conservava amores, nascimentos, saúde, tempos amargos, mortes, enfim: tudo. Regressávamos por vezes como morcegos ou corujas durante a noite, ou andorinhas na primavera. Também como sapos e cobras entre as ervas e podia acontecer que os cães e os gatos, ou até mesmo as pessoas, nos matassem. Que importava isso, se ao mesmo tempo navegávamos, mergulhávamos, crescíamos como raízes, vogávamos como nuvens, nos dissolvíamos cinzentos em névoas abstractas? Pelo meio, pelo centro radiante de um vínculo de prazer, retomávamos histórias interrompidas, terminávamos histórias começadas, começávamos outras ainda por inventar. Cantávamos ou chorávamos, quem poderia dizer o que fazíamos se de nós mesmos esquecidos éramos aves pernaltas e também patas de elefantes e colunas de templos?

E foi assim que tudo começou...

sexta-feira, 19 de março de 2010

a alma e o mundo

a mente é uma flor

de primavera,

veio devagarinho

desde a semente,

das raízes,

caules,

folhas,

da própria terra,

veio silenciosamente,

veio invisível

e invisível continua,

por mais que se lhe chame flor

ou cérebro

a mente,

a psique,

a alma,

não é coisa,

não tem forma nem limites,

é amor.

tão frágil

o amor,

tão frágil

a mente...

basta um vento

para sofrer enormemente,

universalmente...

e basta uma brisa para desabrochar,

sorrir,

abraçar,

embalar o mundo...

ah, o mundo...

a dureza,

a crueldade brutal

das palavras

e dos actos

que ferem a alma

que a negam

que a ignoram

que a desfazem em mil pedaços

invisivelmente...

e no entanto somos almas

mentes

psiques

amor

e o amor não morre

mesmo quando a mente se perde

ou é presa

afastada

desprezada

amesquinhada

amachucada...

não, o amor não intimida

não exige

não se impõe

não ganha.

gera

cria

ampara

espera

terça-feira, 27 de outubro de 2009

a neve ladroa

Não era desta neve que doba mansa do céu e parece, bailando, o esflorar das pereiras na Primavera; era a neve ladroa - como para aí lhe chamam - a neve das moscas brancas que voltejam, giram, rodopiam, vêm de trás, de diante, de baixo, dos lados, metem-se por todas as fisgas e grelhas à busca de coiro vivo em que ferrar. Soprava-lhes o nordeste, o grande bufador, e era vê-las de asas ligeiras, enchendo o céu, a voar, a voar umas atrás das outras, ora muito juntas, ora desenrodilhadas, num vira sem fim.

Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas, p. 94, Bertrand Editora, 1985

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

um salgueiro jovem

Há um passeio que gosto de fazer: saio da vila por uma estrada e vou até onde se encontra com outra estrada que volta para a vila. Ambas são pequenas estradas secundárias quase sem trânsito. A mais pequena e menos frequentada está a ser atravessada por uma circunvalação que também vai destruir os restos de uma fortaleza de pedra cuja idade é calculada em cerca de 5.000 anos.

Hoje à hora de almoço fiz este passeio e reparei num salgueiro jovem muito bonito. O verde claro das folhas e dos ramos que caem era agitado pelo vento, fazia lembrar água. Uma videira trepa pelo tronco. As folhas da videira são maiores e mais escuras e fazem lembrar vinho.

É extraordinário: escolher palavras para dizer isto é um exercício difícil, o que fica dito é uma possibilidade entre muitas e nenhuma delas vos mostra o que eu vi.

Não tenho máquina fotográfica mas, se tivesse, nenhuma fotografia possível vos mostraria o movimento dos ramos e das folhas do salgueiro. Um filme poderia mostrar, mas em nenhum filme poderiam sentir o calor do Sol. Foi o calor do Sol que me chamou para este passeio.

Não sei a quem pertence o salgueiro, há-de pertencer a alguém, estava dentro de uma propriedade com muros.

A beleza do salgueiro, que se me revelou quando passei, ainda não tinha visto. Sim, eu passei e parei um pouco mais à frente à sombra de uma oliveira, que o Sol estava forte, para olhar um pouco mais para o salgueiro. Não era preciso. Revelou-me toda a sua beleza quando passei.

Estive a ver na net e creio que é salix babylonica, muito jovem. Talvez com o dobro da minha altura.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

um cavalo de várias cores

Reinaldo Ferreira foi a vibração excessiva e intensa de quem tinha pouco tempo para fazer o seu «voo cego a nada».

«Quero um cavalo de várias cores,

Quero-o depressa, que vou partir.

Esperam-me prados com tantas flores,

Que só cavalos de várias cores

Podem servir.

......

Deixem que eu parta, agora, já,

Antes que murchem todas as flores.

Tenho a loucura, sei o caminho,

Mas como posso partir sozinho

Sem um cavalo de várias cores?»

E foi ao mesmo tempo a contenção e o rigor seco, sem enfeites. Noutro dos seus poemas diz-nos:

«Se nunca disse que os teus dentes

São pérolas,

É porque são dentes.»

Esta juventude de fogo e este rigor colheu-os o vento cedo. A sua vida, meteórica, balizou-se entre 1922, quando nasceu em Barcelona e 1959, data da sua morte em Moçambique, com 37 anos! Sem tempo de rever e de publicar a sua obra, reunida e dada a lume por alguns amigos.

Luísa Dacosta, De mãos dadas, estrada fora... 3, pp. 115 e 116, Figueirinhas, Porto, 1980

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O Charles Morgan no Faial

"Após seis semanas de travessia, o Charles-Morgan fizera escala pelos Açores, ancorando no Faial. Embarcou laranjas, cebolas, batatas, frangos. Os homens foram a terra, beberam vinho generoso, que acharam extraordinariamente barato; alguns discutiram, brigaram com os Portugueses, enfim o usual. O respeitável capitão Sampson transformou-se, durante algumas horas, em contrabandista. Uma noite, o Charles-Morgan mudou discretamente de ancoradouro; uma barca silenciosa veio buscar a bordo vinte pacotes com cento e dez libras de tabaco americano cada um. Os Portugueses davam novecentos dólares por pacote; em Nova Bedford, pela mesma quantidade, pagavam-se duzentos e sessenta dólares."

Georges Blond, A Grande Aventura das Baleias, p. 97, Editorial Aster, Lisboa, s/ data. O Copyright do original francês é de 1965

A acção, que não é inteiramente histórica nem inteiramente fictícia, decorre em 1849. O Charles-Morgan é um barco à vela de três mastros, que partiu de New Bedford para caçar cachalotes à volta do mundo numa viagem de quatro anos, com 32 homens a bordo, dos quais metade nunca tinham visto o mar. Depois de sair do Faial dirigiu-se ao Sul, passou o Equador e só então encontrou e matou o seu primeiro cachalote.

Este livro tem fotografias tiradas nos Açores de cachalotes a serem desmanchados: as legendas indicam Graciosa e Faial (Porto Pim).

Aqui encontra-se uma fotografia de um modelo do Charles Morgan no Museu de Angra do Heroísmo.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Feitian

Feitian é uma palavra chinesa composta por fei (voar) e tian (céu). Estas figuras aéreas que na Índia se chamam Apsáras são comuns na arte oriental. Relacionam-se com a música, a dança, as nuvens e as fragrâncias. São geralmente femininas mas também as há masculinas ou de sexo indefinido. Há representações muito antigas pintadas ou esculpidas em grutas e templos. No Japão estes seres celestes chamam-se Tennin.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

os passageiros do vento continuam a viajar...!

"Os Passageiros do Vento" é uma banda desenhada de François Bourgeon que foi sendo publicada nos anos 80.

Ainda me lembro de aguardar com ansiedade e expectativa o livro seguinte e ter feito poupanças para conseguir ter os 5 volumes.

Acabo de saber que em Setembro próximo vai sair em francês um novo livro desta aventura: ver aqui!

Vou ficar à espera...

Como é que será 20 anos depois? Será que o autor retoma a aventura onde a tinha deixado? (Isa tinha então 18 anos e toda a vida à sua frente...) Ou faz uma nova abordagem? Numa aventura que decorre quase sempre dentro de navios do séc. XVIII qualquer abordagem é bem vinda!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ventanias

Bóreas, o Vento Norte, apaixonou-se por Orítia, princesa de Atenas. Agarrou nela e levou-a para a Trácia, tornando-a deusa dos ventos gelados das montanhas. Diz-se que tiveram duas filhas e dois filhos.