Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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terça-feira, 28 de novembro de 2023

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

terça-feira, 19 de julho de 2022

Enquanto há sorriso

Generalizar

é singularizar a pluralidade.

Cor singulariza todas as cores.

Uma escada reúne degraus.

Precisamos de palavras para nos entendermos mas o efeito colateral é criarem mal entendidos,  por isso precisamos de aprender sempre com quem não fala: pessoas, animais, plantas, pedras, nuvens e estrelas.

Generalizar é uma uma propriedade da linguagem muito problemática. Pretende condensar conhecimento mas muitas vezes é o principal obstáculo à compreensão. O paradoxo é que "não generalizar" é também uma generalização. Não é, Zenão de Eleia? O que é, é e não pode não ser. A deusa de Parmênides ensinou-lhe que também precisava de aprender o que não é. Precisamos de aprender o que não é porque as palavras o criam. Do que se pode falar ainda não é do que é. E temos que falar. Sorri. Enquanto há sorriso.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Foi passear ao luar

Foi passear ao luar. Não encontrou ninguém. Saiu das ruas para os caminhos e chegou ao campo onde os vizinhos são animais tímidos que não se deixam ver. Tinha calçado meias castanhas porque podia haver poças de lama onde lhe apetecesse mergulhar os pés. Encontrou-as e foi o que fez. No céu sem nuvens as estrelas debruçaram-se quando ouviram chapinhar e as unhas saudaram-nas, sem falar. Somos dez e vós milhares, oh astros! E eu, só uma, passou a lua. Quando calçou os sapatos e voltou para casa ainda faltava muito para amanhecer. Acenou ao céu e foi-se deitar.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Nevoeiro crepuscular



Entre o nevoeiro diurno
E o nevoeiro noturno
No nevoeiro crepuscular
É que gosta de morar

Escapa do dia e da noite
Por essa fresta sem nome
Às vezes da cor do leite
Outras da cor da fome

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Poema aos hexágonos

Esdrúxulos
Ângulos de 120º
 
Favos de mel
Olhos de insetos
Carapaças de tartarugas
Flocos de neve

O lápis que isto escreve

Futebolistas
Lusos e não lusos
Chutam hexágonos

Porcas de parafusos
E outros
Usos

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Breve referência à introdução do pinheiro bravo no continente português

«Quem calcorrear as nossas estradas e percorrer veredas e caminhos deparará com uma árvore esguia, que se propaga sem grandes cuidados por meio da sua semente alada que vagueia ao sabor dos ventos até repousar, por fim, em qualquer pequena fenda onde se reproduz - é o pinheiro bravo.

Semente de Pinheiro Bravo
Luis Fernandés Garcia
2000

Parece certo que o aparecimento em Portugal desta espécie florestal se deve ao facto de os mareantes portugueses, vindos de França, terem metido nas suas embarcações, como combustível, as pinhas, as braças e o lenho de alguns pinheiros bravos originários daquele País. As pinhas ter-se-iam aberto com o calor e a tripulação, habituada a comer os pinhões do nosso pinheiro manso e estranhando a semente muito mais pequena e com uma amêndoa que não podia servir de alimento, contou o sucedido à Rainha Santa que, nessa altura, vivia em Leiria, em terras que lhe haviam sido doadas em 1300, por seu marido, o Rei D. Dinis. À Rainha, que todos escutava, foram mostradas as sementes com a descrição dos pinheiros e com a afirmação de que eles vegetavam bem em terreno arenoso.

Deliberou lançar a semente à terra, e teria sido a Rainha que transportou a «arregaçada de penisco» até uma clareira existente nos seus domínios e, aí, a lançou no areal.

Passaram-se meses, a semente vingou, e quando D. Dinis voltou a aparecer em Monte Real, a Rainha foi mostrar-lhe não só os trabalhos levados a cabo no reguengo de Ulmar, que fazia parte daquela doação, como a sementeira que tinha feito por suas mãos,.

D. Dinis, entusiasmado com o desenvolvimento nascedio, e desejoso de ter em abundância material lenhoso para a construção naval, diz aos mareantes que para a outra viagem lhe tragam mais semente daquela.

Vindo então mais semente - o «penisco» - é lançado noutras clareiras, e o povo, sempre cheio de curiosidade e amor à terra, passou a ir ver o «Pinhal do Rei» e o desenvolvimento que ia tomando.

Depois a semente alada, transportada pelo vento e pelo Homem, foi-se espalhando por toda a costa portuguesa ao norte do Tejo, penetrou nas Beiras e deu-se tão bem nas nossas terras que o pinheiro bravo bem parece ser originário de Portugal.»

Manuel Martins da Cruz, A Resina, Selecção Educativa - Série N - Número 18, Ministério da Educação Nacional, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1966 


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Os seres alados noctívagos

Os seres alados noctívagos - corujas, morcegos, meteoritos - são observados do solo por seres noctívagos não alados contra o fundo estrelado da escuridão enquanto nas padarias coze pão. 

O tempo do sonho

Quando se adormece e sonha em andamento podemos saber que em muito pouco tempo, quase instantaneamente, tivemos um sonho que pareceu durar muito tempo. 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Rocha alada

 Estamos todos no mesmo barco, a «winged rock» de Mr. Herbert Trench.

G. K. Charleston, Disparates do Mundo, Sabedoria e Meteorologia, p.70, Moraes Editores

sexta-feira, 30 de abril de 2021

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Mohandas Karamchand Gandhi

Mohandas Karamchand Gandhi, nascido em Porbandar em 1869, veio a ser conhecido no final da vida por Mahatma, o da Grande Alma. O pai foi um alto funcionário administrativo no governo anglo-indiano. A educação familiar ensinou-lhe o ahimsa, o princípio do respeito por todos os seres vivos. Casou com 13 anos e teve quatro filhos. Gandhi foi enviado para Londres para estudar direito, que praticou durante pouco tempo no tribunal de Bombaim. 

Em 1893 obrigações profissionais levaram-no à África do Sul, onde permaneceu durante vinte e um anos. Um homem branco pediu-lhe que abandonasse um compartimento de 1ª classe de um comboio em que viajava no Natal, o que ele fez. Este incidente marcou um ponto de viragem na sua vida, sendo na prática responsável pelo início das suas actividades políticas.

Abraham Pais, Einstein viveu aqui, p. 135, Gradiva, 1996

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Dormir na terra

Deitava-se na terra,
na primavera, 
em cima de flores 
que cheiravam tão bem 
que desmaiava 
e acordava num além 
que depois não recordava.

terça-feira, 30 de março de 2021

antenascida

metamorfosear-se-á, sabe-lo bem

mas não em quê ou em quem

há-de vir a ser antenascida

alma sem nome, atrevida

quarta-feira, 24 de março de 2021

Dos delfins e dos amores deles com as delfinas

Agora, saibamos dos delfins e dos amores deles com as delfinas.

Nascem nas ondas estes simpáticos brutos. Gostam infinitamente de música e são muitíssimo amoráveis com os homens. Do teor como eles amam, ninguém o dizia melhor que o padre Bernardino, e seria inveja da minha parte furtar ao leitor o regalo desta descrição: «Os amores destes insignes marítimos viventes, decantados em muitos clarins de fama, têm claros exemplos na história. Arde seu afecto nas águas, conservando-se o seu coração abrasado no líquido elemento, e na mesma jurisdição do maior inimigo do fogo; mas como afectos ardentes dificultosamente entram nos corações, obstando a contradição nos olhos, na idade florente da puerícia, são os indivíduos humanos de mais agradável aspecto, ordinários objectos das suas inclinações.»

Isto é bonito; mas custa a perceber. Era o caso do padre, puxado algum tanto ao lirísmo teutónico, dizer com Petrarca:

Intendemi chi púo che m'intend'io.

Refere-nos a história dum delfim chamado Simão, o qual amava um lindo menino, e andava com ele às cavaleiras de praia em praia, até que, morrendo o menino, o delfim «faleceu de amores depois de uma vida toda de afectos!» Que delfim Simão! Faz chorar a gente com o seu falecimento de amores!

Outro delfim, que por nome não perca, praticava familiarmente com os soldados do procônsul de África Flaviano. Este romano deu-lhe na veneta untar de certos unguentos o delfim, os quais tiraram os sentidos ao amável bicho. «Despertado do letargo, diz o lente de Coimbra em 1743, envergonhou-se de sorte que se ausentou por muito tempo para o profundo do mar.»

Que pudor tinha o peixe! Envergonhou-se de desmaiar! Parece que a vergonha já naquele tempo se tinha feito aquática!

Passados tempos, voltou o delfim desenvergonhado, e «continuou as suas antigas afectuosas expressões.»

Outro delfim, apaixonado e não correspondido de um menino de singular beleza, deu consigo moribundo numa praia, à vista do ingrato amado e expirou, dando «eterna fama às mesmas praias, com mais extremosa fineza do que a celebrada ama de Eneias às de Caeta».

Se estes peixes morrem assim de amores da gente qual não será a ternura do seu afecto às suas delfinas? Como nem todos são Simões, algum haverá que possa chamar-se Romeu, outro Paulo, outro Werther, analogias deduzidas das suas meiguices e choradeiras. Aquilo é que há-de ser amarem-se idealmente, lá onde o pudor é do feitio que vimos! O tempo não vai senão para eles. Os peixes a quererem-se como os humanos já não se querem; e nós, humanos e cristãos, a amarmo-nos, pouco mais ou menos como carapaus e tainhas! O reviramento é completo!

Camilo Castelo Branco,


Cousas leves e pesadas
, p. 112-114, Parceria A. M. Pereira, 1971

quinta-feira, 18 de março de 2021

A floresta e o pomar

Entre a floresta e o pomar
há dois dedos de conversa.
Ela é mais alta e vê melhor,
ele dá-lhe fruta diversa.

A floresta e o pomar 
trocaram de lugar 
com o charco e a montanha. 
Andam a brincar 
ao jogo do quem me apanha. 
Caiu uma avalanche 
e a paisagem ficou muda. 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Um mundo já sem nomes.

O mundo com nomes surgiu de um mundo sem nomes, é razoável prever um mundo onde já não há nomes

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Questão

 A calma paciência

de quem escreve à mão

um longo poema 

de sol e sossego 

numa casa

levantada do chão

com janelas para o céu

e para uma questão

que se põe a toda a gente

sem palavras

e com elas 

não se consegue

responder.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

uma longa série de coincidências

Como resultado de uma longa série de coincidências entrei oficialmente na profissão de programador na primeira manhã de primavera de 1952 e tanto quanto fui capaz de averiguar, fui o primeiro holandês a fazê-lo no meu país.

Edsger W. Dijkstra