Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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terça-feira, 19 de julho de 2022

Enquanto há sorriso

Generalizar

é singularizar a pluralidade.

Cor singulariza todas as cores.

Uma escada reúne degraus.

Precisamos de palavras para nos entendermos mas o efeito colateral é criarem mal entendidos,  por isso precisamos de aprender sempre com quem não fala: pessoas, animais, plantas, pedras, nuvens e estrelas.

Generalizar é uma uma propriedade da linguagem muito problemática. Pretende condensar conhecimento mas muitas vezes é o principal obstáculo à compreensão. O paradoxo é que "não generalizar" é também uma generalização. Não é, Zenão de Eleia? O que é, é e não pode não ser. A deusa de Parmênides ensinou-lhe que também precisava de aprender o que não é. Precisamos de aprender o que não é porque as palavras o criam. Do que se pode falar ainda não é do que é. E temos que falar. Sorri. Enquanto há sorriso.

terça-feira, 31 de março de 2015

terça-feira, 1 de outubro de 2013

No céu da meia-noite um anjo voava

Citação do poema de Lermontov "O Anjo" (1831) que abre o prólogo do livro "As Bagas Silvestres da Sibéria" publicado por Evguéni Evtouchenko na Rússia em 1981, traduzido de uma tradução francesa e publicado pela Presença em Lisboa em 1985.

Prólogo

"Esta frase veio ao espírito do astronauta, que sorriu tristemente e pensou, para consigo: «É bonito, o anjo...»

Voltado para a vigia da sua nave espacial, o rosto do astronauta estava fatigado, prematuramente envelhecido, mas cheio de uma viva curiosidade infantil. Ainda nunca tinha ido ao estrangeiro e eis que, de súbito, o seu olhar abarcava todos os países ao mesmo tempo. As fronteiras tinham desaparecido. Todos os postos fronteiriços bicolores, essas no man's lands cuidadosamente arranjadas, o arame farpado, os comités fronteiriços com os seus pastores alemães, os postos alfandegários, tudo soçobrara no nada. Vista do cosmos, a existência de todos esses seres, de todas essas instituições parecia de um absurdo contranatural. Um termo como o de propiska, pelo qual se designa o registo obrigatório de todos os cidadãos soviéticos no posto de milícia do seu bairro, tornava-se subitamente grotesco, totalmente inconcebível...

Abaixo dele, punhado de poalha de ouro semeada num campo de veludo negro, Paris cintilava com miríades de luzes."


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Iniji (Henri Michaux)

(Este poema tem feito parte da página inicial deste Blog quase desde o início. Quero agora removê-lo. Publico-o aqui para que possa continuar a ser encontrado mas já não esteja sempre visível.) 


Não pode mais, Iniji

Esfinges, esferas, falsos signos,
obstáculos no caminho de Iniji

Movem-se margens
Fundações afundam-se

Mundo. Não mundo
só o amálgama

As pedras já não sabem ser pedras

Entre todos os leitos da terra
onde está o leito de Iniji?

Menina
pá pequena
Iniji não pode fazer força

Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpo
um corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo

Fluidos, fluidos
tudo o que passa
passa sem parar
passa

Ariadne mais fina que o seu fio
não consegue reencontrar-se

Vento
sopra vento em Arraô
vento

Ananoá Iniji
Anâã Animá Iniji
Orrenaniâã Iniji
e Iniji inanimada

Sai meio corpo
meio corpo morto

Ananejá Iniji
Anajetá Iniji
Anamajetá Iniji

A bilha não entorna a ciência
O fogo não derrama o leite

A chave,
onde está a chave?
Os insectos passam-na uns aos outros
As vassouras varrem-na

Tu sim, tu; mas eu não tem

Eva sou eu
orfã da ideia
saída, portas fechadas

Já não agarra, Iniji

Iniji fala com palavras
que não são as suas palavras

Djã
Djã Djã
Djã dã dã
que tornam Iniji inânime
sem regresso nos carris de Irritilili

Quantos vespões no verão da sua cabeça

Não te detenhas nele, Iniji

Se tu vais Njeu
Njá vá dá

Se tu não njá
njarrá rá vais

Reboques
que a rebocam
que ela reboca

Aonde regressar?
Foi-se o coração do quarto

Repetição sempre repetida

Oh Dormir, dormir numa ânfora

Paralisia nas águas
Paralisia nos campos

Sofre-se aqui a suprema fealdade
o ataque das agulhas voadoras

O avesso do perfume, não sabem, eles

O raio não é feito para cabeças de crianças
mas está lá
recreando-se, para ele, para nada, para criar um trovão

As montanhas de Niniji estão condenadas
Recôncavos, depressões, poços

Segundo o mundo, os males

Fechou-se a porta das viagens
no túmulo jaz Iniji

Misturados ao insalubre dos fundos
contrários caracteres ficaram nela,
o torturante do fogo junto ao monótono da água
junto ao inconsistente, ao imperceptível do ar.

E sempre
o corpo sem vida como a rotação da mó

Lá onde não exite nenhuma clareira
nascentes, oferendas
os infindáveis bordados da teia da aranha invisível
tecem árvores com os meus pensamentos
não posso fazer nada

Somente as amarguras grandes
somente a contínua continuação

As escalas devoram a melodia
debaixo do tecto, o telhado
debaixo do soalho, o leito
na estopa os sinos

Uma salamandra devorou o meu fogo...

Este coração já não se entende com os corações este coração
não reconhece ninguém na turba dos corações

Corações cheios de gritos, de ruídos,
de bandeiras
este coração não é desenvolto com estes corações
este coração esconde-se destes corações
este coração não se compraz com estes corações.

Oh cortinas, cortinas e ninguém vê Iniji

Stella, Stella constelada
já te não levantas para mim, Aurora

Tão pesados
tão pesados
tão taciturnos seus monumentos
tão impérios, tão quadriláteros
tão esmagadores bárbaros, tão vociferantes,
e nós tão nenúfar
tão espiga ao vento
tão longe do cortejo
tão mal na cerimónia
tão pouco da nossa idade e tanto a passear
tão farinha
tão peneirada

e sempre na peneira
asas de morcego
batendo sempre contra a cara

Bifurcações
e desuniu-se o uno

liames ligam lugares Lorenzo

O cisne erguido ao rés das águas não disse «minha filha»

Porque os gelos
porque a fuga dos espíritos
aconteceu

Quem agora há-de aportar à ilha?

As formas fogem em farrapos
mergulham, alongam-se, deformam-se
luas nos bordos de uma nuvem negra.

Tiram-se as luvas cheias de sangue
tira-se a camisa cheia de sangue

ah lasciate
lasciate

Silêncio

silêncio

Deixai-me nadar pelas paredes fora
Ouço murmúrios que me chamam
É ele. É o momento.
Enfim!

Espelhos recolhem-nos
Espelhos trocam-nos
a perdida deste mundo, a morte do outro mundo

Deixai-nos

Rorraá Roá Roarrá Rorrâã

Hoarre hoâã

Tornou-se depois tudo tão duro
tão detestável
velha mão nodosa
sobre um rosto de têmporas raiadas de veias
outrora
o rio de júbilo não tinha o leito ressequido
Iniji não vivia ainda atrás das portas de chumbo

Não acontecera ainda.

Vida, extremidade de um galho...

Ah o terrível, o trémulo que tão fácil dissipa o universo inteiro

Estes esgares à minha roda
sempre, sempre
que desejam eles?

Papéis sempre sempre redistribuídos
perdizes, folhas, loucas



Vapor
apenas vapor
pode acaso o vapor voltar a ser migração?
o fio passa
repassa
fio sem fim a fiar-se
casulo que me enclausura

Ah! O Juízo
sofrida sentença semelhante à síncope
vagas fustigantes
dedos aduncos
tudo são tormentos para a órfã

Iniji hóspeda efémera das covas,
pais, pinças, palavras

Eis a estrada longínqua que não vem de volta.

Dorme o seio de onde jorrou o leite.

Apagou-se o contorno... e a opala...

Ficou a sombra só o suspiro dos lábios

Vem, vem, vento de Aúrraú
tu, vem!

Herberto Helder, poemas mudados para português, in "Poesia Toda", p. 469, Assírio & Alvim, 1996



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

papéis riscados com letras

EMPTINESS


Forjar na polpa das palavras
a sintonia suculenta do morfema
e sair nu cantando lavras
semeadas na cor do poema
ondulando liberdades e savanas
com olhos molhados de punhais
e vozes quentes de calema.

Vivemos um momento
vazio e frio de sentidos
há, como dizem os ingleses,
uma cruel emptiness, um vácuo
castrado de utopias e sonhos
suspensos, ideais na diáspora...

À varanda pálida dos lábios
sequiosos da alma, rosa aflita,
esta infame e crua certeza:

                     A POESIA

                         NÃO SERVE

                              PARA NADA!

Os poemas, como as cartas de amor
do Campos, o tal louco de muitas pessoas,
(ou o tal Pessoa de muitos loucos)
são papéis riscados com letras...

© by Namibiano Ferreira

terça-feira, 2 de agosto de 2011

linha dobrada

O rouxinol diz ao botão de rosa,
"Diz-me, quem está no teu coração?
Não há aqui ninguém, estamos sós."

"Não estamos sós aqui," responde a rosa,
"Enquanto estiveres contigo.
Não esperes nada de mim,
Livra-te primeiro de ti."

Fica a saber:
O buraco da agulha da ausência é muito pequeno,
Não permite a passagem de linha dobrada.

Rumi

quarta-feira, 29 de junho de 2011

uma corda de Inconsciente

Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.

Mas um terror antigo, que insepulto
Trago no coração, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneio e sem insulto.

E eu sinto a minha vida de repente
Presa por uma corda de Inconsciente
A qualquer mão nocturna que me guia.

Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
De um vulto que não vejo e que me assombra,
E em nada existo como a treva fria.

Fernando Pessoa (1917), Obra Poética, in Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, p. 15, Editorial Inova, Porto, 1973

Na imagem: maternidade em Bali; placenta pronta para levar para casa para ser lavada e enterrada.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

outro modo de ouvir

Quebra e abre o teu próprio eu
Para saborear a história da alma amêndoa.

Estas vozes vêm desse chocalhar
contra a casca exterior.

...

A amêndoa e o óleo interior
têm vozes que só podem ser escutadas
com outro modo de ouvir.

Se não fosse pela doçura da amêndoa,
a conversa interior, quem agitaria alguma vez o caroço?

Escutamos palavras
para podermos silenciosamente
chegar uns aos outros.
Deixa que ouvido e boca se aquietem
para que este sabor chegue ao lábio.

Há demasiado tempo que dizemos poesia,
fazemos discursos, explicamos o mistério em voz alta.

Tentemos uma experiência muda......!

Rumi

"Uma experiência muda"

sábado, 29 de janeiro de 2011

toma-me

Abdicação

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços

E chama-me teu filho.
                                Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa, Cancioneiro

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

quod nihil scitur

"Se eu a (proposição "que nada se sabe") souber provar, com razão concluirei que nada se sabe; se não souber tanto melhor, pois isso afirmava eu."

De multum nobili et prima universali scentia. Quod nihil scitur (Do mais nobre e universal primeiro saber. Que nada se sabe)

Francisco Sanches, Doutor em Filosofia e Medicina, 1580

embora já tenha feito um post sobre Francisco Sanches (carregar aqui) nunca é demais lembrar :)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

gente que parecia que sabia tudo e demonstra não saber nada

"É uma crise causada, fomentada, por comportamentos irracionais de gente branca, de olhos azuis, que antes da crise parecia que sabia tudo e que, agora, demonstra não saber nada" - Lula da Silva em 2009, ao premier britânico, Gordon Brown.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

o sangue dele

uma papoila floriu-lhe na boca e eu queria

que queria eu?

.

o Sol iluminou-a

e eu desviei os olhos para ocultar o desejo

que se cristalizou em permanente "deja vu"

.

foi sobre a alta fortaleza

e junto à santa

que a beleza do sangue se fez flor de luz

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

criar obstáculos

O homem que forja na alma

O Sim e Não

Cria os obstáculos

Do Ser e do Nada.

.

Como poderiam detê-lo

Actos e Qualidades

Se, criado livre,

Ele próprio os cria?

.

Rubaiyat de Jalal Al-Din Rumi

traduzido da tradução para inglês de A.J. Arberry, 1949

poema 4 de "Loucura" (Folly)

a imagem é de Demakersvan

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

道德經

Para todas as pessoas que se interessam pelo livro clássico chinês "Tao Te Ching" ou "Daodejing" que são as formas mais comuns de o traduzir, deixo aqui este link. É uma lista de traduções em inglês de cada linha de cada capítulo.

A imagem vem daqui.

domingo, 22 de agosto de 2010

as qualidades do silêncio

Mozart terá dito: "Aquilo que me faz mais feliz é a aprovação silenciosa."

O ar e o pensamento são invisíveis, mas as suas acções tornam-se visíveis.

Chamamos acções ao que surge do silêncio invisível por um salto que atravessa a ignorância.

Platão (Fedro, 242 c) atribui a Sócrates: "A alma tem, camarada, um poder incontestável de adivinhação."

Será possível regressar à primordial disponibilidade de aprender? É preciso esquecer tudo... é preciso morrer...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

o que me dói

O que me dói não é

O que há no coração

Mas essas coisas lindas

Que nunca existirão…

.

São as formas sem forma

Que passam sem que a dor

As possa conhecer

Ou as sonhar o amor.

.

São como se a tristeza

Fosse árvore e uma a uma,

Caíssem suas folhas

Entre o vestígio e a bruma.

.

Fernando Pessoa