Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Quando era cavaleiro

E passava debaixo das árvores

Caíam-lhe mulheres nuas no colo 

E tinha que as levar a casa delas






quinta-feira, 29 de abril de 2021

Mohandas Karamchand Gandhi

Mohandas Karamchand Gandhi, nascido em Porbandar em 1869, veio a ser conhecido no final da vida por Mahatma, o da Grande Alma. O pai foi um alto funcionário administrativo no governo anglo-indiano. A educação familiar ensinou-lhe o ahimsa, o princípio do respeito por todos os seres vivos. Casou com 13 anos e teve quatro filhos. Gandhi foi enviado para Londres para estudar direito, que praticou durante pouco tempo no tribunal de Bombaim. 

Em 1893 obrigações profissionais levaram-no à África do Sul, onde permaneceu durante vinte e um anos. Um homem branco pediu-lhe que abandonasse um compartimento de 1ª classe de um comboio em que viajava no Natal, o que ele fez. Este incidente marcou um ponto de viragem na sua vida, sendo na prática responsável pelo início das suas actividades políticas.

Abraham Pais, Einstein viveu aqui, p. 135, Gradiva, 1996

sexta-feira, 19 de março de 2021

Frades de pedra

«Os frades de pedra, que servem para interceptar a passagem de uma rua, para amparar o cunhal de uma casa, etc, representâo, como direi a seu tempo, um velho culto phallico, já hoje nâo comprehendido do vulgo.»

Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitania na parte que principalmente se refere a Portugal, p. 127

quarta-feira, 15 de julho de 2020

D. Pedro e D. Inês

Trazendo o infante D. Pedro consigo D. Inês e não se sabendo ao certo se era sua mulher ou não, fizeram entender a el-rei seu pai que o infante se preparava para mandar pedir ao Santo Padre que lhe desse licença para casar com D. Inês. Foi isto uns três anos antes de D. Inês ser morta. El-rei D. Afonso que então estava em Alenquer, quando isto ouviu ficou descontente de tal embaixada e escreveu secretamente ao arcebispo de Braga, que então estava em Roma, que conseguisse que o Papa não deferisse o requerimento do infante, que era para el-rei grande ódio e prejuízo.

As Crónicas de Fernão Lopes, Seleccionadas e transpostas em português moderno, António José Saraiva, Gradiva, Lisboa, 3ª edição, Março de 1993, p. 278 (Crónica de D. João I, A eleição do rei nas Cortes de Coimbra, Do recado que el-rei D. Afonso IV enviou à Corte do Papa para o infante seu filho não casar com D. Inês)  

quarta-feira, 24 de junho de 2020

A Mulher Leoa

Naquele ano, o sol escaldava toda aquela vasta região. À míngua de água, as plantas morriam e os animais, que com elas se sustentavam, fugiam para longe em busca de alimento, ou pereciam no mato, reduzidos a pele e osso. Ora os leões, que se nutrem de carne, já nada tendo para caçar, resolveram reunir-se, a fim de encontrar solução para tão angustioso transe.
-Que fazer? - perguntavam uns aos outros. - À nossa roda só vemos ossos, e nós, reis da selva, não vamos ficar para aí a rilhá-los, quais desprezíveis rafeiros ...
Como sempre acontece quando a fome aperta, a barafunda era geral, os rugidos abalavam a floresta e as garras dos mais impacientes estendiam-se como que a rasgar os corpos de presas invisíveis ... Nisto, o mais velho dos leões, que até aí se mostrara indiferente, ergueu a bela e majestosa cabeça. Fez-se silêncio. E o velho leão disse:
-Amigos, toda essa discussão não serve para nada, pois o nosso caso só pode resolver-se pela astúcia. Como sabeis, a aldeia onde vivem os homens não fica muito longe daqui - um dia de caminho. Ora os homens, que sabem abrir poços e desviar as águas, têm gado em abundância, que será nosso, desde que consigamos desfazer-nos de Negana Kimona, que é o dono dele. E como? Pensei neste ardil: uma leoa tomará a aparência de mulher, atravessará a aldeia e, ao passar junto da casa de Negana Kimona, dirá:
-Vou para longe, à procura de meu irmão.
-Negana Kimona não deixará de lhe falar em casamento, que ela aceitará. Uma vez casados, a leoa matará Negana, e nós apoderamo-nos do gado.
Todos aprovaram o engenhoso plano. Industriaram a leo e, quando chegaram perto da aldeia, deram àquela a aparência de mulher, vestindo-a e penteando-a convenientemente.
Atravessada a povoação, a mulher leoa avistou, sentado na varanda, Negana Kimona, que lhe perguntou:
-Aonde vais?
-Vou para longe, à procura de meu irmão. Mas estou cansada e com sede. Dá-me um pouco de água.
Negana Kimona deu-lhe a água, esperou que bebesse e perguntou:
-És casada?
-Não!
-Queres casar comigo?
-Não me desagradas. Aceito!
E logo ele lhe ofereceu uma casa no outro extremo da aldeia e uma cabra para comer.
Acontecia, porém, que Negana Kimona tinha, de outro casamento, um filho, chamado Nedalja Kimona. Quando este ouviu que o pai ia viver para outra casa pediu para o acompanhar e dormir com ele. Negana, a princípio, recusou-se a satisfazer o desejo do filho, mas a criança tanto insistiu, com rogos e lágrimas, que acabou por convencê-lo. Chegados a casa da noiva, esta estranhou a presença do pequeno, mas Negana explicou-lhe o que se passava. Quando se recolheram para dormir, o pai ficou no chão, junto do filho. Alta noite, a falsa mulher levantou-se e, de novo leoa, dispôs-se a atacar Negana. A criança, que vira a transformação, acordou o pai:
-Pai, acorda, que o chão está a morder!
Negana ergueu-se, mas, como a leoa se transformara outra vez em mulher, não ligou importância ao que o filho lhe dissera.
Na manhã seguinte a mulher observou ao marido:
-Esta criança acordou-te de madrugada. Porque o deixaste vir contigo?
-Porque tive pena dela!
-Vinda a noite, a falsa mulher parecia escutar, trazida no sussurro do vento, a recriminação dos leões:
-Foste para matar Negana Kimona. Porque não cumpriste?
Enraivecida, volta a tomar forma de leoa, e de novo tenta apoderar-se de Negana.
A criança, aterrada, sacode o pai:
-Pai, o chão está a morder!
-Como pode ser isso, meu filho, se a casa é nova e não tem bichos?
E tornou a deitar-se.
Outra vez, o vento trouxe o apelo longínquo dos leões:
-Porque não matas Negana Kimona?
-Pai, acorda, está aqui um animal feroz!
Irritado, Negana disse ao pequeno:
-Vou levar-te para a outra casa. Aqui, contigo, não se pode dormir.
E saíram, apesar de ser noite alta.
No caminho, Nedalja avisou o pai:
-A tua mulher transformou-se em leoa.
-Filho, estás louco! Como é isso possível?
-Afianço-te que se transforma em leoa. Se queres a prova, voltemos para trás e finjamos que dormimos.
Assim fizeram. Como a falsa mulher estranhasse o regresso da criança, Negana explicou que a não convencera a partir. Deitaram-se de novo, mas, desta vez, Negana cobriu a cabeça de forma a poder observar o que se passava. Escutando o apelo dos leões, a mulher transformou-se em leoa, pronta a devorar o homem. Ao vê-la, Negana acreditou então no filho. Levou-o para a outra casa e disse aos seus homens:
-A mulher que desposei costuma transformar-se em leoa, com o fito de me matar. Parti imediatamente, cercai a casa e lançai-lhe fogo.
E assim morreu assada a mulher leoa.

Contos adaptados da tradição popular por Fernando de Castro Pires de Lima, Edições Majora, Porto, Maio 1990

quinta-feira, 4 de junho de 2020

As avós

A avó materna era a mais bonita e asseada menina daqueles lugares da Serra. Tinha um quarto só para ela, onde não havia pulgas, numa casa cheia delas. Merecia casar com o rapaz mais bonito e rico da região e era isso que esperava. Em vez disso quem se apaixonou por ela foi o rapaz mais bonito mas não tão rico. Embora tenha conseguido que ele comprasse uma casa com terreno e árvores para viverem para sempre, nunca se livrou do desgosto de não ter casado com o rapaz mais rico.

A avó paterna ficou órfã de mãe quando era criança e teve que cuidar das irmãs e dos irmãos porque o pai não lhes ligava nenhuma. Ela odiava o pai de tal maneira que quando cresceu até mudou de apelido. Uma das irmãs tinha um namorado que ia embarcar num navio para África e pediu a um amigo que fosse com ele despedir-se dela e garantir que esperaria pelo seu regresso para casarem. Esse amigo confundiu os nomes das irmãs. Apaixonou-se pela namorada do amigo pensando que se tinha apaixonado pela irmã. De África mandaram cartas de amor. Quando regressaram casaram com a que tinha o nome para quem tinham escrito. A avó detestou o marido quase tanto como tinha detestado o pai e nunca aprendeu a ler.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

a ofensa arrasta com ela a rixa

«(...) Está na natureza que à ofensa se responde pela astúcia ou pela violência, que a ofensa arrasta com ela a rixa que põe o ofensor na posição de ofendido. Se Denissov tivesse agido como homem, quer dizer, se se sentisse vexado, se se tivesse batido, se tivesse apresentado queixa, se o juiz o tivesse condenado à prisão ou anulado aquilo por "falta de provas", Kouzma sentir-se-ia calmo; mas assim, sempre a acompanhar a carroça, tinha o ar de alguém a quem faltasse qualquer coisa.
-Eu não roubei o teu dinheiro - disse ele.
-Está bem, não roubaste. Estamos de acordo.
-Vamos a Tolileievo, eu irei ter com o regedor. Para que ele trate do assunto...
-Não há nada a resolver. O dinheiro não é assunto dele. Vais largar-me meu velho, segue o teu caminho. Não quero ver-te mais!
-Toleirão, nem sequer se pode brincar contigo, que logo te zangas... vá... toma lá o teu dinheiro! Eu só queria rir-me!
Kouzma tirou da algibeira umas quantas notas de rublo e entregou-as a Denissov. Este não se mostrou surpreendido nem alegre e, com ar de quem já esperava por aquilo, pegou no dinheiro e sem uma palavra meteu-o no bolso.
-Eu estava a brincar - continuava Kouzma, lançando um olhar interrogador para o rosto impassível de Denissov. (...)»

Contos e Narrativas de Tchekov, volume IV, "Encontro", p. 313, 314