Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O calendário Tuscarora da Tartaruga

  • O calendário do povo Tuscarora, da América do Norte, baseia-se na carapaça da tartaruga: 13 meses lunares de 28 dias cada. Na imagem estão indicados os meses ocidentais (mais ou menos) correspondentes. Os meses rodam no sentido contrário ao dos ponteiros dos nossos relógios, com um mês a mais entre Novembro e Dezembro. As 28 divisões à volta da carapaça são os dias. Em cada mês é celebrada a festa lunar correspondente.

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  • Se calcularmos 13 vezes 28 obtemos um ano de 364 dias. Suponho que o facto de o mês lunar servir de guia para as festas fará com que a (pequena) diferença que, a acumular-se, poderia desorganizar o calendário deve ser corrigida com um dia intercalar, mais ou menos uma vez por ano. Continuo a supor que esse dia deve ser considerado grátis ;)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Nasrudin

Nasrudin estava a conversar com um amigo, que lhe perguntou:

- Mullah, porque é que nunca te casaste?

- Ah, meu amigo, quando eu era jovem procurei a mulher ideal. Atravessei o deserto, cheguei a Damasco, e conheci uma mulher lindíssima e espiritualmente muito evoluída, mas que se atrapalhava com as coisas triviais, do dia a dia. Procurei então em Isfahan onde conheci uma mulher com dom para as coisas materiais, da vida caseira, e que além disso se mostrou muito espiritualizada, mas não era bonita. Resolvi então ir ao Cairo. Cheguei e fui apresentado a uma linda jovem, que também era religiosa, boa cozinheira e conhecedora dos afazeres do lar. Ali estava a minha mulher ideal.

- E porque é que não casaste com ela?

- Ah, meu caro amigo, ela também andava à procura do homem ideal.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

No verão era dia às três e meia.

"Agora no verão é já dia às três e meia. (...) No pequenino largo que desafoga das mais casas a frontaria da minha velha habitação, já o velho Zé Félix tem pigarreado a sua velha catarreira, sentado em mangas de camisa nos degraus do velho adro, e rolando os polegares num moto-contínuo satisfeito.

-Ora bons dias!

O velho Laurentim, que está à espera que a loja abra, vai descerrando o postigo da porta, e cumprimenta. E duas ou três velhas mulheres começam a varruscar sobre as soleiras hipotéticos grãos de pó que pela noite devem ter vindo macular a escrupulosa pintura de almagre, que elas renovam em todas as manhãs de Nos'Senhor. (...)

Quatro horas da manhã. É dia claro. (...) Pela estrada engrossam ranchos, dando bons-dias, trocando chufas, começando cantigas; ceifeiras que requebram a marcha num dengoso meneio de quadris, moleiros, com as suas récuas de machos, todos cobertos de farinha, carrejões trazendo espigas das courelas, ou carreteando a palha das eiras... (...)

Os primeiros fumos de almoço saem das chaminés quase a direito; os hortelões apregoam na rua feijão-verde e pepinos novos: à esquina da igreja o pregoeiro avisa o povo que se perdeu a burrinha branca do Pisco, quem a achar deve ir restituí-la a seu dono. E subitamente a rua anima-se, a grande rua fidalga da vila, que até se chama Rua de Lisboa, quando ao portelo da forja surge o Patana em mangas de camisa, o maior homem da terra, espreguiçando a sua corpulência de carvalho, e troando o vozeirão, num bocejar de fazer tremer a casaria."

Fialho d'Almeida, O País das Uvas, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1893

É verdade. Até 1911, em Portugal, as horas eram as do meridiano local, dos relógios de sol. Agora as horas são legais.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A sede que só a poesia pode saciar

"aquela sede que só a Poesia pode saciar, sem – como deve ser – a matar de todo: sede de Beleza, de Bondade, de Amor, de Sonho, de Entendimento, - verdadeira dignidade do homem"

José Régio, Poesia de ontem e de hoje para o nosso povo ler, Ministério da Educação Nacional, Plano de Educação Popular, LXIV, 1969

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UMA GAIVOTA ÊXUL...

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Uma gaivota êxul morreu no mar...

E o seu corpo, de cândida energia,

Sobre uma onda veio naufragar

Ao cais donde partira, certo dia...

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Tinha as asas abrindo ao vento... O peito

Arqueado ainda, como se aspirasse

O perfume do largo - e insatisfeito

Mais distância quisesse e conquistasse.

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E em seus olhos, que a morte não cerrara,

Tanto a sede do ignoto os desvairou

-Fiquei-me a adivinhar a visão clara

Do mundo que só ela desvendou...

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Nesta doce manhã de Primavera

Não entristece vê-la morta assim:

-Voo quebrado à hora da quimera,

Quando a vida parece não ter fim...

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É que nesse cadáver pequenino,

Crispado num tormento quase humano,

Não se apaga a alegria de um destino

Que foi Sol, que foi Céu, que foi Oceano!...

*

Ah! pudesse eu morrer de igual loucura,

Na avidez de voar e de partir,

Com asas de ansiedade e de aventura

Entre a graça de espumas a florir!...

*

Mas que o embalo das ondas não me traga

Ao porto onde embarcar o meu desejo:

-Que uma vaga me leve, que uma vaga

À distância me enleie o último beijo...

*

Pois eu quero julgar que o ritmo ardente

Do meu sangue, sequioso de paixão,

Fica no mar pulsando eternamente:

-Como se fosse o mar, que sonha e sente,

O sangue do meu próprio coração!...

*

João de Barros

domingo, 24 de agosto de 2008

Canção Grata

Por tudo o que me deste:

-Inquietação, cuidado,

(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)

Noites de insónia, pelas ruas, como um louco...

-Obrigado, obrigado!

*

Por aquela tão doce e tão breve ilusão,

(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,

Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita

A minha gratidão!

*

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!

-Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...

Sem ironia, amor: -Obrigado, obrigado

Por tudo o que me deste!

*

Carlos Queiroz (1907-1949)

sábado, 23 de agosto de 2008

Ler

Antes de os livros serem escritos foram escritas pedras e ossos, e antes talvez já se escrevesse na areia e nas peles.

Mas ainda antes de se inventar a escrita já se lia.

Liam-se nas nuvens os ventos e no céu as direcções donde chegam os astros e para onde vão e como se orientam os percursos.

Liam-se nos cheiros presenças e ausências, comida e perigos.

Liam-se pistas, pegadas, vestígios.

Liam-se os sons e os animais falavam porque os compreendíamos como eles nos compreendem.

Liam-se cursos de água, até mesmo subterrâneos.

Liam-se os corpos, os rostos, e os olhares de toda a gente.

E tudo isto que se lia antes de haver livros também se lê agora, como sempre.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A ignorância da origem

Aconselho vivamente a toda a gente este livro sobre a ignorância científica da origem das espécies que habitualmente se oculta com explicações mais ou menos simplistas ou complexas:

"«Estas considerações, declara Darwin, fazem-me tender a atribuir menos importancia à acção directa das condições ambientes que a uma tendência para a variação, devida a causas que ignoramos absolutamente.» Também os discipulos de Darwin consideravam que as variações se produziam ao acaso." pag. 57

Émile Guyénot, "L'origine des espèces", col. que sais-je?, Presses Universitaires de France, 1966

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Luna Lovegood

Luna Lovegood numa fotografia promocional de "Harry Potter e o Príncipe Misterioso" e Albus Dumbledore numa fotografia da rodagem do filme.

Não sou tão entusiasta dos filmes de Harry Potter como sou dos livros mas gostei destas fotografias.

Luna Lovegood é talvez a personagem com quem me identifico mais. Embora a Luna que eu imagino não seja bem assim gostei desta imagem. Acho que a vou adoptar para o meu perfil ;)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A realidade e a falta de amor

"A realidade é um efeito provocado pela falta de amor" é o nome de uma das páginas humorísticas de Maitena que continua assim: "Quando estás enamorada tudo te parece possível (...) E tudo o que queres é... Ele: «ser feliz?» Ela: «Não! Tua!»"

As pesquisas científicas provam que o amor provoca a alteração do ambiente químico no cérebro e altera a percepção.

O importante parece ser que a alteração química do cérebro provocada pelo amor pressupõe um estado "normal" sem amor.

A ciência propõe-se, portanto, como conhecimento obtido sem amor.

Isto dá-me que pensar...

Hoje é dia de São Bernardo de Claraval, que escreveu: "O amor não busca outro motivo e nenhum fruto fora de si; ele é seu próprio fruto, seu próprio deleite. Amo porque amo; amo para poder amar."

terça-feira, 19 de agosto de 2008

PUSHKIN

  • "Quando, lá fora, a neblina
  • Cobria as vidraças,
  • Reuniam-se todos.
  • Valia a pena vê-los, Deus tenha as suas almas!
  • Encarniçando-se no jogo,
  • Dobrando as paradas,
  • Ganhando,
  • E marcando as jogadas
  • Com giz.
  • Assim, nesses tempos sombrios,
  • Os víamos absortos,
  • Em tão séria ocupação."

*

"-Quero um romance onde o herói não esgane o pai ou a mãe e onde não haja afogados. Tenho um medo horrível dos afogados.

-Oh! Romances desse género já não se fazem!"

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"Como não possuía fé autêntica, tinha uma porção de superstições."

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"-Espere!

-Como te atreves a dizer-me: «Espere!»

-Perdão, Excelência: o que eu disse foi: «Queira vossa Excelência esperar»."

*

"Duas ideias fixas não podem coexistir no mundo moral, assim como no mundo físico dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço."

Pushkin, A Dama de Espadas, 1834