Vladimir Kush
Rumi
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.
Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
O santo que voava
Engolir o peixe com espinha e tudo
"Para mim e para meu povo, ler e escrever é uma técnica, da mesma maneira que alguém pode aprender a dirigir um carro ou a operar uma máquina. Então a gente opera essas coisas, mas nós damos a elas a exacta dimensão que têm. Escrever e ler para mim não é uma virtude maior do que andar, nadar, subir em árvores, correr, caçar, fazer um balaio, um arco, uma flecha ou uma canoa. Acredito que quando uma cultura elege essas actividades como coisas que têm valor em si mesmas está excluindo da cidadania milhares de pessoas para as quais a actividade de escrever e ler não tem nada a ver. Como elas não escrevem e não lêem, também nunca serão parte das pessoas que decidem, que resolvem. E quando aceitei aprender a ler e escrever, encarei a alfabetização como quem compra um peixe que tem espinha. Tirei as espinhas e escolhi o que eu queria. Acho que a maioria das crianças que vão hoje para a escola e que são alfabetizadas é obrigada a engolir o peixe com espinha e tudo. É uma formação que não atende à expectativa delas como seres humanos e que violenta sua memória. Na nossa tradição, um menino bebe o conhecimento do seu povo nas práticas de convivência."
Ailton Krenak, do povo Krenak, Brasil
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Pensamento cheio de esquecimento
Os espíritos xapiripë dançam para os pajés desde o primeiro tempo e assim continuam até hoje. Eles parecem seres humanos mas são tão minúsculos quanto partículas de poeira cintilantes. Para poder vê-los deve-se inalar o pó da árvore yãkõanahi muitas e muitas vezes. Leva tanto tempo quanto para os brancos aprender o desenho de suas palavras. O pó do yãkõanahi é a comida dos espíritos. Quem não o "bebe" assim fica com olhos de fantasma e não vê nada.
Os xapiripë dançam juntos sobre grandes espelhos que descem do céu. Nunca são cinzentos como os humanos. São sempre magníficos: o corpo pintado de urucum e percorrido de desenhos pretos, suas cabeças cobertas de plumas brancas de urubu rei, suas braçadeiras de miçangas repletas de plumas de papagaios, de cujubim e de arara vermelha, a cintura envolta de rabos de tucanos.
Milhares deles chegam para dançar juntos, agitando folhas de palmeiras novas, soltando gritos de alegria e cantando sem parar. Seus caminhos parecem fios de aranhas brilhando como a luz do luar e seus ornamentos de plumas mexem lentamente ao ritmo de seus passos. Da alegria de ver quanto são bonitos!
Os espíritos são tão numerosos porque eles são as imagens dos animais da floresta. Todos na floresta têm uma imagem utupë: quem anda no chão, quem anda nas árvores, quem tem asas, quem mora na água. São estas imagens que os pajés chamam e fazem descer para virar espíritos xapiripë. Esta imagens são o verdadeiro centro, o verdeiro interior dos seres da floresta. As pessoas comuns não podem vê-los, só os pajés. Mas não são imagens dos animais que conhecemos agora. São imagens dos pais destes animais, são imagens dos nossos antepassados.
No primeiro tempo, quando a floresta estava ainda jovem, nossos antepassados eram humanos com nomes de animais e acabaram virando caça. São eles que flechamos e comemos hoje. Mas suas imagens não desapareceram e são elas que agora dançam para nós como espíritos xapiripë. Estes antepassados são verdadeiros antigos. Viraram caça há muito tempo mas seus fantasmas permanecem aqui. Têm nomes de animais mas são seres invisíveis que nunca morrem. A epidemia dos brancos pode tentar queimá-los e devorá-los, nunca desaparecerão. Seus espelhos brotam sempre de novo.
Os brancos desenham suas palavras porque seu pensamento é cheio de esquecimento. Nós guardamos as palavras dos nossos antepassados dentro de nós há muito tempo e continuamos passando-as para os nossos filhos. As crianças, que não sabem nada dos espíritos, escutam os cantos do pajés e depois querem ver os espíritos por sua vez. É assim que, apesar de muito antigas, as palavras dos xapiripë sempre voltam a ser novas. São elas que aumentam nossos pensamentos. São elas que nos fazem ver e conhecer as coisas de longe, as coisas dos antigos. É o nosso estudo, o que nos ensina a sonhar. Deste modo, quem não bebe o sopro dos espíritos tem o pensamento curto e enfumaçado; quem não é olhado pelos xapiripë não sonha, só dorme como um machado no chão.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
COMO DIRIGIR-NOS AOS GATOS
Vós já haveis lido acerca de muitas espécies de gato
E agora a minha opinião é a de que
Não precisais de intérprete
Para compreender o seu carácter.
Haveis aprendido o suficiente para verem
Que os gatos são muito parecidos convosco e comigo
E com outras pessoas que encontramos
Possuídas por várias espécies de espírito.
Pois algumas são sãs e outras são loucas
E algumas são boas e outras são más
E algumas são melhores, outras são piores –
Mas todas podem ser descritas em verso.
Haveis visto os gatos tanto no trabalho como em jogos,
E haveis aprendido os seus correctos nomes,
Os seus hábitos e o seu habitat:
Mas
********Como nos devemos dirigir a um gato?
(...)
Para ler o resto:
T. S. Eliot, Antologia Poética, p. 104, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988
domingo, 14 de setembro de 2008
Sabor pensado
É vulgar acreditar que os pensamentos são palavras. Hoje de manhã, antes de me levantar da cama, pus-me a pensar no sabor da salada de alface que comi ontem ao jantar - só hoje de manhã, depois de sentir o seu sabor no pensamento, é que pensei, com palavras, que estava óptima. Ontem apenas a comi e senti.
É neste tempo, entre o acordar e o levantar-me da cama, que me acontecem os pensamentos mais inesperados. Depois já não sei se me acontecem se sou eu que quero pensá-los...
sábado, 13 de setembro de 2008
Internet
Ninguém a previu até aparecer, excepto, talvez, os profetas da era de aquário que previam uma nova era em que o mais importante seria a comunicação.
Até quando haverá internet?
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Era uma vez um leão
“Enquanto os leões não tiverem historiadores, as histórias de caça glorificam o caçador.” Provérbio do Chade
Era uma vez um leão. Os leões não se preocupam com o tempo nem com o lugar, por isso não se sabe quando nem onde aconteceu esta história nem isso é importante. O leão nasceu numa família de três leoas, um leão e quatro leõezinhos. No início mamava e aprendia a ver e compreender e logo começou a brincar e a aprender a caçar. Lá em cima estava o céu e cá em baixo a terra. O leão gostava de tudo, mas do que ele gostava mais era da mãe. A mãe dele era muito carinhosa e também uma excelente caçadora por isso a vida era boa e o leãozinho crescia feliz e contente no seio da sua família.
*
Quando a juba lhe começou a crescer também algo nele cresceu que o fez alargar as suas explorações e o território a percorrer era imenso. Descobriu então outras famílias de leões e também mais animais do que aqueles que caçava e comia. Descobriu paisagens diferentes e passeava. O leão passeava. *
Quando estava cansado dormia. Os seus sonhos e as suas aventuras misturavam-se e não se misturavam. O leão vivia o que sentia e sentia o que vivia. Tornou-se um grande leão e conheceu leoas de quem gostou e com quem constituiu família. Teve filhos. Brincou com eles. Lutou com outros leões. Conheceu fome e fartura, doença e saúde. Conheceu as cores, os cheiros, os ventos, a música do mundo. Conheceu o seu próprio rugido e as vozes de inúmeros animais assim como a textura de muitos silêncios diurnos e nocturnos. Conheceu o entusiasmo e o cansaço. O leão corria, o leão bocejava. O leão fechava os olhos e não dormia. O leão pensava. O leão perdia o contacto com a realidade.
*
O estar do ser é música. Um eterno agora que se repete e não se repete, como os espectáculos ensaiados. Também lhes podemos chamar estados de espírito. E há tantos que não há nomes que cheguem, são como as cores que vemos e como as cores que já não vemos mas podemos acreditar que existam. Os estados de espírito são como os cheiros do ar de que só nos apercebemos quando se alteram e que, se nos acostumamos a eles, deixamos de sentir.
*
As metamorfoses dos estados de espírito, espontâneas e calculadas, são tão espantosas quanto as das plantas e dos animais e acompanham-nas, estão-lhes afectas. De todas as metamorfoses são as das nuvens as mais rápidas e radicais. Acompanhá-las abre o espírito aos sinais. Os modos como a luz do sol lhes toca, as atravessa, se reflecte nelas e os modos como elas o ocultam, o descobrem, correm ao seu encontro, ou dele se afastam, os modos como descem em nevoeiro e sobem encostas de montanhas como se fossem animais grandes, esfarrapados, em transformação, assim os estados de espírito se desmancham ou tomam forma.
*
E então já não é o leão que pensa com os olhos fechados, mas toda a família pensa agitando as caudas para afastar as moscas. Nós não voamos como as aves mas também nós, como elas, andamos atrás das metamorfoses da nossa alimentação. Levantamo-nos e vamos e, enquanto vamos, existimos em bando, reconhecemo-nos, chamamo-nos, esperamos uns pelos outros e os nossos estados de espírito comungam o Sol que se põe, o Sol que nasce, a Lua que se torna fina e desaparece e regressa e arredonda. Nós, leoas e leões, conhecemos as aves que pousam ao pé de nós e em cima de nós nos desparasitam, uma por uma, com os olhos fechados.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Cair das nuvens
"Não te irrites se te pagarem mal um benefício; antes cair das nuvens que de um terceiro andar."
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Adivinha
Qual é a coisa
qual é ela,
quanto mais rota está
menos buracos tem?
Imagem do filme "Aquele querido mês de Agosto"
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Inteligência?
O significado das palavras é um tema interessante e a crença nos dicionários também mas não será esse o tema principal deste post. Vamos admitir o significado habitual de inteligência para colocar estas questões:
Porque é que as máquinas são inteligentes e os animais têm instintos?
Porque é que o universo e a origem da vida são atribuídos ao acaso e não à inteligência?
Se perguntarmos para quê, em vez de porquê, compreendemos melhor?