Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Onde está o meu suor?

Num daqueles dias muito quentes, um gordo muito gordo, e não menos rico, não parava de transpirar; por isso decidiu chamar um dos seus criados para o refrescar com um enorme leque que jazia na varanda aos pés duma cadeira de descanso.

O empregado obedeceu e o homem, que nadava em banhas e em dinheiro, recostou-se na cadeira de baloiço e deixou os pensamentos voar para bem longe. Não muito depois, o senhor verificou, com grande espanto, que toda a sua transpiração desaparecera; por isso apressou-se a perguntar:

-Onde está o meu suor?

O criado, enxugando as grossas gotas que lhe escorriam pela testa, respondeu muito calmo:

-Senhor, o seu suor está todo comigo!

Contos da Terra do Dragão, p. 14, selecção, adaptação e tradução de WANG SUOYING e ANA CRISTINA ALVES, Caminho, Lisboa, 2000

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Cantar o calor do verão

Habitualmente durmo no meu quarto e na minha cama, mas no verão as noites podem ser tão quentes que vou dormir ou para o andar de baixo, que é mais fresco, ou para a varanda, quando até em baixo faz demasiado calor. Há verões em que não é necessário ir dormir para a varanda, a última vez que lá dormi já foi há uns anos. Há verões em que não preciso de sair do quarto, parece-me que no ano passado e no anterior não mudei, mas já não tenho a certeza.

Este ano ainda não dormi fora da minha cama, mas a noite passada comecei a pensar seriamente em ir para o rés-do-chão.

Quer isto dizer que o verão está no seu auge, que a casa já está a acumular calor para o inverno. Toda esta energia me enche de espanto.

Estiveram uns amigos a passar uns dias em minha casa e a filha deles disse-me que gosto muito de dizer: "É fantástico, não é!?" Nunca tinha dado por isso e achei graça. Pois é isso mesmo que me apetece dizer do calor do verão: é fantástico!

Não há calor tão bom como o do verão! Este é o meu cântico de louvor às noites quentes! Porque o verão também é breve e é preciso cantá-lo enquanto está.

Talvez esta noite ainda fique na minha cama. Se não conseguir dormir vai ser bom descer e dormir no velho colchão de campismo, no chão. Se a noite estiver mesmo muito, muito quente, monto a rede na varanda. Em qualquer caso tenho motivos para dar graças!

Benditas sejam as cigarras e as perseíades que cantam o verão!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Lua cheia ao Sol da meia-noite

79º N, menos de uma hora antes da meia-noite, a parte superior do glaciar estava banhada pela luz cor de rosa do Sol enquanto a Lua cheia surge do gelo. Tudo - mar, montanhas, glaciar, céu e Lua, todos tinham a sua nuance rosa dourada. A distância da máquina fotográfica ao primeiro dos bancos de gelo do glaciar à esquerda da Lua é quase exactamente 40 km.

(O topo do glaciar sai horizontalmente dos bancos, mal se reconhece)

A imagem é digitalizada de um slide, sem nenhum tratamento.

Texto e imagem de jan.of.norway no Flickr

Sol feminino e Lua masculina

No Ártico, Sol e Lua não sobem muito acima do horizonte. Andam à volta. No verão há Sol durante 24 h ou quase, no inverno não se vê ou talvez se veja só durante 1h... A importância do luar no inverno é, portanto, muita. É bom ter isto em conta para compreender melhor esta história inuit:

Sol e Lua

Sol e Lua eram irmã e irmão. Participavam sempre nos jogos de cópula da casa dos jovens. Mas uma noite, quando Lua estava a tentar decidir qual das jovens ia tentar encontrar quando a luz enfraquecesse, os seus olhos caíram sobre a irmã, e ele pensou que ela era a mais bonita de todas.

Tomou atenção a como a sua roupa estava feita e quando a luz se apagou encontrou-a pelo tacto. Fez isto muitas vezes. Por fim Sol ficou desconfiada e tirou um pouco de fuligem da candeia com os dedos. Durante a cópula ela pressionou os dedos contra a testa do homem com quem estava e quando a lâmpada foi novamente acesa ela viu o seu irmão Lua com fuligem na cara.

Sol ficou vermelha e quente de vergonha. Tirou um pouco de turfa do monte ao pé da candeia, mergulhou-o no óleo de baleia, acendeu-o e fugiu.

Lua quis ir atrás dela, mas estava com tanta pressa que a sua turfa não ficou muito bem acesa.

"Temos de correr para muito longe e nunca mais nos vermos", disse Sol. Nesse momento tornaram-se espíritos e subiram ao céu, onde continuaram a sua fuga. Mas Sol tem uma luz mais forte e mais quente porque o seu pedaço de turfa arde claramente. O seu irmão Lua, que a persegue mas nunca a consegue apanhar, tem a luz mais fraca e fria.

Peter Freuchen's Book of the Eskimos

A fotografia da mulher inuit, é a fotografia nº 75 deste site; a fotografia Sol da meia-noite, daqui.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Quem me dera a selva!

Este post tem a ver com o de ontem mas vou tentar escrevê-lo de maneira a não ser necessário ler o outro.

Teria 14 anos quando vi o documentário "Woodstock" e até então cinema era sinónimo de história com princípio, meio e fim. "Woodstock" não é nada disso. Esperava um filme com jovens e afinal eram todos adultos e alguns até tinham filhos - ou seja: eram velhos! Uma porção de acontecimentos desgarrados e pessoas que não se sabia quem eram, nem de onde tinham vindo nem o que é que lhes acontecia depois. Era um filme que se parecia com o telejornal que também era coisa de adultos.

Quando tinha 7 anos não compreendi porque é que nunca tinham ido à Lua e resolveram ir nesse dia, mas gostei muito da ideia de ficar acordada pela noite fora. O programa, no entanto, não prestava. Os astronautas pareciam bonecos com um espelho em vez de cara. Estavam vestidos de branco e saltavam em câmara lenta num fundo também branco. Via-se mal, a imagem falhava. Ouvia-se uma língua incompreensível e em vez de porem legendas falavam em português ao mesmo tempo. Além disso tinha sono!

A minha primeira ida ao cinema, porém, foi um deslumbramento. Teria uns 6 anos e fui ver "O Livro da Selva". Acho que nunca tinha visto desenhos animados, ainda não tínhamos televisão. Passado o primeiro assombro era como se tudo aquilo fosse real e eu estivesse lá. A selva era linda e vivi a história toda como se fosse o Mogli, excepto no final. Como é que o Mogli podia ir atrás daquela menina parvinha e trocar a selva pela aldeia? Via-se bem que não sabia o que era viver com pessoas!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Do quintal dele ao Jardim do Campo Grande

A 20 de Julho de 1969 estava de férias em Portimão e só me fui deitar depois de ver os astronautas andarem na Lua...

No mês seguinte, a 15, 16 e 17 de Agosto, reuniram-se em Woodstock milhares de jovens para ouvir a música da época e fazer amor e não guerra (mas disto não soube nada). Na véspera cerca de 80 pessoas prepararam-se para gravar imagens e sons do acontecimento. No ano seguinte "Woodstock" ganhou o Óscar de Melhor Documentário.

Lembro-me de o ter visto no cinema Caleidoscópio no Jardim do Campo Grande em Lisboa, depois do 25 de Abril. Seria 1975, poderia ser 76 ou um pouco mais tarde... Não me lembro. Lembro-me sim que fui com colegas do Liceu - provavelmente faltámos às aulas ou aproveitámos faltas de professores, ambas as coisas eram frequentes nessa altura - e logo que o filme começou fomos sentar-nos em monte no chão, lá à frente, atitude que achámos muito mais adequada do que conformar-nos às cadeiras...

O que é engraçado é que quando fomos ver o filme, embora com grande entusiasmo, para não dizer quase fanatismo, achávamos que o Woodstock já tinha acontecido há imenso tempo... (!?)

Foi provavelmente o primeiro documentário que vi(mos) no cinema o que acrescentou estranheza à estranheza com que já contávamos...

O Woodstock e o 25 de Abril são célebres por serem grandes acontecimentos pacíficos. As erupções de liberdade não têm regras e suportam mal comemorações e homenagens. Em 1984 foi colocada uma placa comemorativa no local do Woodstock que se assemelha bastante a uma pedra tumular... O próprio guia do museu (Bethel Woods Center for the Arts), um dos que estiveram lá e lá ficaram, lhe chama o "túmulo do hippie desconhecido"...

Este ano o realizador Ang Lee pegou no livro "Recebendo Woodstock" (Taking Woodstock) de Elliot Tiber e Tom Monte e fez um filme com o mesmo nome cuja frase guia é "No quintal dele começou uma geração". Passou em Cannes sem prémios* e estreia em Portugal a 3 de Setembro deste ano.

*(No primeiro ano em que Portugal ganhou uma Palma de Ouro, o que não tem nada a ver, claro.)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

a elegância das camponesas de Shimla

Na estrada para Dharamsala, parámos perto de um lugar onde uma mãe e as suas duas jovens filhas estavam a limpar um alqueive; possivelmente são as camponesas mais elegantemente vestidas que já vi em qualquer sítio do mundo.

On the road to Dharamsala, we stopped near the place where a mother and her two young daughters were clearing a fallow field; they are possibly the most elegantly dressed farmers I have ever seen anywhere in the world.

No site das viagens de Michael Palin, fotografia e texto de Basil Pao

terça-feira, 4 de agosto de 2009

4 de Agosto de 1578

Dois anos antes desta data El Motaouakil, Rei de Marrocos, foi destronado pelo seu tio Abd el-Malik que se tornou Rei. El Motaouakil pediu auxílio a D. Sebastião para reconquistar o trono. A batalha de Alcácer Quibir (Ksar el Kebir, que significa Grande Castelo) que também ficou conhecida como a "Batalha dos Três Reis" teve lugar de ambos os lados do Oued al Makhazin (que significa Rio da Podridão). A vitória coube ao exército de Abd el-Malik mas todos os Reis morreram na Batalha. Muitos combatentes, derrotados e vitoriosos, se afogaram no rio. A Batalha terá durado cerca de 4 horas.

escola estéril

Se a criatividade fosse realmente acolhida, assumida e praticada numa instituição de ensino, em breve esta se veria obrigada a rever os seus estatutos e regulamentos internos... Porque a criatividade põe em causa o imobilismo dos conceitos dominantes, a resistência à mudança, a passividade dos estereotipos, enfim, um conformismo resignado à rotina colectiva.

Teresa Vergani, Educação Matemática, p. 61, Universidade Aberta, Lisboa, 1993