Vladimir Kush
Rumi
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.
Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
As coisas para que nasci
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Estátua de índio na ilha do Corvo - 2
«Logo Áureo viu a alma do convertido transformar-se em estrela brilhante, voando sobre a nuvem que fugia no ar. O cadáver do velho índio voava também ao lado da alma que o habitara, envolto em bruma. E a própria bruma o depôs no cume da montanha do Corvo, onde, batido do vento frio que a neve da altura mais esfria, ao sol, ao gelo e à chuva, se tornou de pedra, eterna e rija como mármore. E ei-lo ali, de arco na mão, de diadema de plumas na cabeça, vermelho na face, velho no aspecto, a apontar as plagas brasileiras aos portugueses que por aquelas regiões navegavam.
«Dir-se-ia que lhes mostrava o caminho do país prodigioso, que os incitava à gloriosa empresa de descobrir e conquistar mais essa terra de maravilha, depois de tantas que já tinha conquistado! E foi essa a sepultura, a aérea sepultura do selvagem convertido, por milagre de Deus feito estátua de pedra!...»
João de Barros, CARAMURU, Aventuras prodigiosas dum português colonizador do Brasil, Adaptação em prosa do poema épico de Frei José de Santa Rita Durão, p.23 e 24, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa (A primeira edição desta obra é de 1931)
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
"Causaram-me tanto mal que me conduziram ao bem"
O Pregador
Havia um pregador que, nas suas orações, nunca se esquecia de elogiar os bandidos e de lhes desejar as maiores felicidades possíveis. Levantava as mãos ao céu e dizia:
«Oh Senhor: concede a tua misericórdia aos caluniadores, aos rebeldes, aos corações endurecidos, aos que enganam as pessoas de bem e aos idólatras!»
Concluía assim a arenga, sem desejar uma réstia de bem aos homens justos e puros. Um dia, os fiéis disseram-lhe:
«Não se costuma rezar assim! Todos esses bons votos dirigidos aos malvados não serão ouvidos.»
Mas ele explicou:
«Devo muito a essa gente de quem falais e por isso rezo por eles. Torturaram-me tanto e causaram-me tanto mal, que me conduziram ao bem. Cada vez que me senti atraído pelas coisas deste mundo, maltrataram-me. E todos esses maus tratos foram o motivo porque me dediquei à fé.»
Rumi, Parábolas Sufis, p.9, Fim de Século Edições, Lisboa, 2000
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Estátua de índio na ilha do Corvo
CARAMURU
CANTO I
LXIII
E quer na nuvem própria, que te indico, Que esse cadáver meu vá transportado, E na Ilha do Corvo, de alto pico O vejam numa ponta colocado; Onde acene ao país do metal rico, Que o ambicioso Europeu vendo indicado, Dará lugar, que ouvida nele seja A doutrina do Céu, e a voz da Igreja.
LXIV
Disse; e cessando a voz, e a visão bela, Viu da nuvem Áureo, que o rodeava, Trasformar-se a bela Alma em clara estrela, E viu que a nuvem sobre o mar voava: O cadáver também sublime nela, Ao cume do grão-pico já chegava; Onde a névoa, que no alto se sublima, Depõe como uma Estátua o corpo em cima.
LXV
Ali batido do nevado vento, De Sol, de gelo, e chuva penetrado, Efeito natural, e não portento É vê-lo, qual se vê, petrificado. Um arco tem por bélico instrumento (15), De pluma um cinto sobre a frente ornado: Outro onde era decente: em cor vermelho, Sem pêlo a barba tem; no aspecto é velho.
LXVI
Voltado estava às partes do Ocidente, Donde o Áureo Brasil mostrava a dedo, Como ensinando a Lusitana Gente, Que ali devia navegar bem cedo: Destino foi do Céu Onipotente, A fim que sem receio, ou torpe medo À piedosa empresa o Povo corra; E que quem morrer nela, alegre morra.
Notas (as notas 11, 12, 13 e 14 não estão assinaladas no texto)
(11) Estátua. — É estimada por prodigiosa a estátua que se vê ainda na ilha do Corvo, uma dos Açores, achada no descobrimento daquela ilha sobre um pico, apontando para a América. Foi achada sem vestígio de que jamais ali habitasse pessoa humana. Devo a um grande do nosso reino, fidalgo eruditíssimo, a espécie de que se conserva uma história desta estátua manuscrita, obra do nosso imortal João de Barros.
(12) Selvagem. — Não supomos único o selvagem, que o padre Anchieta achou em o estado que aqui se descreve. Muitos teólogos se persuadem que Deus por meios extraordinários instruíra a quem vivesse na observância da lei natural.
(13) Tupá. — Os selvagens do Brasil têm expressa noção de Deus na palavra Tupá, que vale entre eles excelência superior, coisa grande que nos domina.
(14) Suspendo. — Até aqui são os limites do lume natural, e como ele somente o alcança a filosofia; porém o remédio de natureza humana, ferida pela culpa, não pode constar-nos senão pela revelação.
(15) Um arco. — As memórias desta estátua concordam em ser o seu trajo desconhecido; toma daqui ocasião o poeta para o representar arbitrariamente.
CARAMURU: POEMA ÉPICO
Frei Santa Rita Durão, 1781
A Wikipédia tem um artigo chamado "Estátua equestre do Corvo". Tem também um artigo chamado "Moedas cirenaicas do Corvo (Açores)" sobre moedas do séc. IV a. C. que ali surgiram no séc. XVIII, cerca de trinta anos antes da publicação do poema "Caramuru" de Frei Santa Rita Durão.
Recentemente o historiador Joaquim Fernandes publicou "O Cavaleiro da ilha do Corvo", um romance histórico sobre o tema.
A Biblioteca Nacional de Portugal disponibiliza a «Chronica do Principe D. Joam» de Damião de Gois em formato digital. A referência à estátua está na página 35, carregar aqui.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Os mais ricos
"Aqueles que seguem o caminho do amor, são os mais ricos dos viventes: São ousados, francos e destemidos, não têm aflições nem preocupações, pois o Espírito Santo carrega todos os seus fardos."
Ruysbroeck (1293-1381), "As doze béguines"
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Aceitar o inexplicável
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Nas traseiras do museu
"Nas traseiras do museu*, no Henry Crown Space Centre, modelos de planetas estavam pendurados do tecto e fatos espaciais dispostos dentro de vitrinas, juntamente com outras recordações do programa espacial das décadas de 1960 e 1970. Parti do princípio de que nas traseiras do museu veria as insignificâncias que não chegavam às exposições principais, na parte da frente. Um dos mostruários consistia numa cápsula espacial já gasta, que se podia contornar e espreitar lá para dentro. Não parecia significativa; era demasiado pequena e improvisada para ser alguma coisa realmente importante. O letreiro era estranhamente formal e tive de o ler várias vezes antes de perceber: ali estava o Módulo de Comando original da Apollo 8, a nave verdadeira que transportara James Lovell, Frank Borman e William Anders na primeira viagem da humanidade de ida e volta à Lua. Aquela era a nave cuja rota eu seguira nas férias do Natal, quando estava na terceira classe, e ali estava eu, trinta e oito anos mais tarde, com o meu próprio filho, a olhar para ela. Claro que estava danificada. Podia ver as cicatrizes da viagem e subsequente regresso à Terra. Nathaniel não demonstrou o mínimo interesse por ela, por isso agarrei-o e tentei explicar-lhe o que era. Mas não fui capaz de falar; a minha voz ficou de tal forma estrangulada pela emoção que mal consegui proferir uma única palavra. Passados alguns minutos recuperei a compostura e contei-lhe a história da viagem do homem à Lua."
*Museu da Ciência e Indústria de Chicago
Neil Shubin, Quando Éramos Peixes, Uma viagem pelos 3,5 mil milhões de anos de história do corpo humano, p.185 e 186, Estrela Polar, Cruz Quebrada, 2008
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Contos de fadas
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
FELIZ ANO NOVO
Filhos do Sol e da Água
engarrafados em pele suave
caminhamos sobre a Terra
como sonhos de uma árvore
.
Brincar é o nosso lema
e o que fazemos melhor
quando caímos na lama
não é com grande fragor
.
E assim somos felizes
pequenos seres do amor
despenteados de risos
ficamos cheios de calor
.
A mamã Água nos lava
e o Sol com o seu esplendor
ensina-nos uma palavra
e não o faz por favor
.
Mas como quem não quer a coisa
debruça-se do céu e olha
e nós vemos a nossa sombra
longa como uma toalha
.
que não podemos pisar
E se queremos que encolha
só temos que nos baixar
Se lhe cairmos em cima
.
ficamos no seu lugar
A vida é uma menina
que connosco quer brincar
e é sempre pequenina
.
Ah, faz a sombra saltar
abre os braços p'ra voar
canta a plenos pulmões
põe a voz a viajar
.
Brotam as flores da erva
são cores que estavam escondidas
e agora que as podes ver
já se chamam margaridas
.
Ou então amores-perfeitos
ou outros nomes assim
que são todos tão bonitos
como o teu amor por mim
.
É Janeiro, está tanto frio
e está tão cinzento o céu
que corre molhado no rio
do nevoeiro que é véu
.
Lindo, lindo, canta o bicho
escondido não sabes onde
tudo o que vês é lixo
de horizonte a horizonte
.
Porque tu foste à lixeira
e ouviste cantar paraste
se ficares à minha beira
não há quem de mim te afaste
.
Anda vamos para ali
que ali já não há lixo
as vacas pastam o verde
e ficam pretas e brancas
.
Tudo isto que tu viste
esqueceste nas tuas mangas
e agora que não tens frio
também já te não zangas
.
E é tudo muito mais fixe
quando te montas nas andas
pareces ave pernalta
quando no céu te levantas
.
Oh, vamos p'lo sonho fora
em plena madrugada
é bela a luz desta hora
ainda que seja gelada
.
E assim continuava
quadra após quadra
mas vai-me faltando a tinta
que à tinta dá a palavra
.
E não quero que ela minta
nem diga coisas de sobra
por isso o que aqui fica
e tu leste ninguém te rouba.

