Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




quinta-feira, 18 de março de 2010

cariátide

a cariátide suporta

de pé

impávida e serena

suporta o peso

como se nada fosse

assim se suporta o desprezo

a hostilidade

o ódio

como se nada fosse

assim se suporta a tempestade

a tormenta

pelos séculos dos séculos

para sempre

se necessário for

sorrindo

fingindo que se é de pedra

mesmo sentindo demasiadamente

ou até já nem sentindo

nada

porquê?

que pergunta!

porque sem a cariátide o edifício desaba

quarta-feira, 17 de março de 2010

terça-feira, 16 de março de 2010

bênçãos

se não lêssemos nos livros que as crianças pediam frequentemente a bênção aos adultos e estes as abençoavam já não saberíamos que podemos abençoar-nos uns aos outros...

as bênçãos fazem-nos tanta falta!

deixo-vos aqui a minha bênção e desejo que abençoeis também

espalhemos bênçãos...

frequentemente, sem limites, em silêncio... ;)

(ilustração de Roque Gameiro)

segunda-feira, 15 de março de 2010

adivinha-me

A oscilar

a oscilar

entre o desejo e a frustração

querer e temer

sim ou talvez não

a oscilar

a oscilar

oh, dá-me a mão...

leva-me daqui...

diz-me que tomarás conta de mim...

que não me hás-de censurar

nem exigir

diz-me que posso confiar

que me posso abrir

diz-me que não serás como toda a gente

e que seja tudo verdade, tudo verdade

o que me disseres

que não me mintas

não me enganes

nem por medo, nem por piedade...

mas oh, quem

quem poderás tu ser?

Quem?

Se não sou digna

se não mereço

que ninguém me ame assim...

oh, diz-me, diz-me...

que não importa que seja parva, estúpida, feia, velha...

diz-me que não importa que me engane, que me esqueça...

que me cale, que emudeça...

que chore...

diz-me, diz-me

quando te aprouver...

não porque te peça.

Adivinha-me, adivinha-me

e não me esqueças...

deixa-me ser teimosa e muda

deixa que nunca te diga o que realmente quero.

Nunca, nunca te diga: diz-me que me amas.

sexta-feira, 5 de março de 2010

a imortalidade dos sonhos

"Serão os sonhos que sobreviverão porque um sonho é imortal."

Marin Zimmer Bradley, "A Senhora de Avalon", p. 481, Rocco-Temas e Debates, Lisboa, 2002

quinta-feira, 4 de março de 2010

vícios e virtudes geométricas

o que é mau nunca acaba porque faz parte de um ciclo vicioso e temos que acabar com ele

o que é bom é recto e está em vias de extinção se não for preservado

o ciclo que se mantém e a recta que desaparece ressoam em todos os níveis do pensamento

pensamos na vida como segmento de recta com princípio e fim

no entanto aprendemos que as rectas não têm princípio nem fim: há dois infinitos que infinitamente se afastam

abstracção pura

a pureza é virtude

mas a ideia de recta, por mais pura e virtuosa que seja, é extensão imaginária de linhas com princípio e fim

ora os princípios e os fins são grandes problemas filosóficos com os quais o pensamento se debate...

em ciclos

concordo que é difícil acompanhar este raciocínio

também sinto dificuldades em me fazer entender

chamar vicioso ao ciclo é, em si mesmo, encerrar o pensamento em pecado

considerar que o recto é virtuoso é também impossibilitar a compreensão

as espirais são modelos de compromisso que permitem manter a evolução e os ciclos naturais, evitando a repetição

o tal vício do ciclo

sim, o dia e a noite sucedem-se mas não exactamente iguais

queremos que o amanhã seja mais evoluído que o ontem

hoje cremos que o passado foi uma evolução que vai continuar no futuro

não cremos no retorno

não queremos o retorno

queremos mesmo acabar de vez com os males e não permitir que os bens desapareçam

mas porque, então, não se extinguem os males e não fazem os bens ciclos virtuosos?

porque é que o bom é raro e o mau abundante?

ou será que detestamos o que é abundante e amamos o que é raro?

mas se não há rectas

se os segmentos de recta são segmentos de círculos tão vastos que não nos apercebemos da curvatura

se tudo regressa

ao que foi

se a vida é a parte emergente de um círculo que não contemplamos na totalidade

se a virtude for também cíclica

e o vício uma recta imaginária

talvez o sentido esteja sempre presente

e o absurdo seja... absurdo

a geometria da liberdade não se aprende nas escolas

quarta-feira, 3 de março de 2010

acessíveis apenas por internet

Sabe onde ficam as Ilhas Chagos?

Os habitantes foram todos evacuados, no final dos anos 60 do século passado, e até agora não conseguiram voltar.

A não ser que uma pessoa pertença às Forças Armadas do Reino Unido ou dos EUA e seja enviada para lá, o único acesso é a internet.

terça-feira, 2 de março de 2010

distorcer o transcendente

"Foi Taliesin, talvez, quem mais se aproximou da verdade quando relatou à grã-sacerdotisa o que tinha acontecido, porque era suficientemente sensato e sábio para saber que as palavras humanas apenas conseguiam distorcer a realidade, quando algo de transcendente acontecia no mundo."

Marion Zimmer Bradley, "A Senhora de Avalon", p. 386, Rocco-Temas e Debates, Lisboa, 2002