Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Louvor da Srª Conceição

Com fermento e água

e com as mãos

fecundava a farinha.

Os punhos

cavavam, possuíam

a massa borbulhante

e ainda amarga.

Por fim

antes do fogo

cobria os filhos que fizera.

António Osório, A Raiz Afectuosa, 1965-1971

in António Osório por Eduardo Lourenço, p.54, Presença, Lisboa, 1984

A fotografia veio daqui, onde se podem ver fotografias recentes e antigas de Dogueno, um monte alentejano perto de Almodôvar.

domingo, 8 de novembro de 2009

aqui é domingo

são cinco da tarde, está de chuva e é quase de noite, que bom!

estamos tão habituados ao domingo que nem reparamos que é uma convenção, que a natureza não tem domingos, nem a maior parte das culturas

a globalização do domingo é recente, ainda há muitos lugares no mundo onde não é domingo mas onde as pessoas sabem exactamente qual é o dia lunar - a imagem é do calendário hindu

qual de nós sabe qual é hoje a fase da lua?

o domingo é o herdeiro cristão do sábado judaico: "o Criador descansou no sétimo dia"

os muçulmanos respeitam a sexta-feira pelo mesmo motivo e devido à mesma herança

os chineses e japoneses tinham e têm divisões do mês de dez dias

aos 30 anos escrevia assim

Se pudesses assegurar-me

cada vez que me sinto insegura!

Amparar-me a cada

amargura! Embalar-me quando

choro... Retomar-me cada vez

que fujo! Chamar-me quando

ensurdeço. Amar-me

quando me enamoro. Amar-me

cada vez que me esqueço!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A história de =

Até ao séc. XVI era preciso escrever sempre "é igual a" na língua vernácula ou em latim "aequalis" ou a sua abreviatura "ae".

No séc. XVI alguns matemáticos lembraram-se de criar um símbolo. Usaram primeiro duas rectas verticais.

Robert Recorde escreveu no seu livro "The Whetstone of Witte" (a pedra de afiar do espírito), que foi publicado em 1557: "para evitar a entediante repetição destas palavras: é igual a: estabelecerei, como faço habitualmente no meu trabalho, um par de paralelas ou linhas gémeas da mesma largura, isto é: =, porque não há nada que possa ser mais igual que duas linhas"

terça-feira, 3 de novembro de 2009

as pessoas cheias de vontade

Ocupam-te a mente. Não te permitem saber quem és, obrigam-te a ser o que elas querem. Se lhes obedeces ficas em dívida, se não obedeces castigam-te. Desprezam-te ou lisonjeiam-te conforme lhes convém, enganam-te com mentiras e verdades. Se te deixas enganar escravizam-te, se não te deixas enganar vingam-se. A felicidade delas depende da tua dependência. Ensinam-te a agradecer quando não te maltratam. As pessoas cheias de vontade são muito susceptíveis: ofendem-se facilmente, facilmente caluniam, mas também te perdoam se reconheceres os teus erros: precisam sempre de escravos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

o esquecimento das sensações

Os acontecimentos são fáceis de recordar, mas o mesmo não se passa com as sensações que os mesmos acontecimentos nos causaram. Tudo quanto sei é que, à medida que estes acontecimentos se produziam, parecia-me que a natureza humana era incapaz de suportar uma dor maior.

Edgar Allan Poe (1838), Aventuras de Arthur Gordon Pym, p.145, Estampa, Lisboa, 1988

sábado, 31 de outubro de 2009

comer e brincar

牛車水 佛牙寺 Originally uploaded by Prometheus1021

As preferências do divino

Um sacerdote passava frente a uma humilde aldeia. Ouviu uns risos alvoroçados e aproximou-se para ver a que se deviam. Havia uma mãe a dar de comer aos seus quatro filhos, mas o que surpreendeu o sacerdote foi ver que também dava de comer a uma imagem da divindade. O sacerdote irritou-se e gritou: «Mulher blasfema, como te atreves a brincar com a imagem de Deus?» Pegou na imagem e levou-a. Não podia permitir que fizessem dela um brinquedo. As crianças ficaram muito tristes e a mulher envergonhada. O sacerdote colocou a imagem sagrada no templo. Essa noite, em sonhos, Deus apareceu-lhe e disse: «Insensato! Quem te manda meter o nariz onde não és chamado? Não aceitarei nenhum sacrifício nem qualquer oferenda dos sacerdotes, porque onde eu era realmente feliz era naquela casa, com aqueles meninos. Portanto, assim que acordares amanhã, leva-me a eles. O templo é escuro e triste.»

Ramiro Calle, Os melhores contos espirituais do oriente, p. 63, A esfera dos livros, Lisboa, 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

o futuro atrás das costas

atirámos o Futuro para trás das costas e afundámo-nos tranquilamente no Presente, disfarçando em sonhos o néscio mundo que nos rodeava.

Edgar Allan Poe (1842), O Mistério de Maria Roget, p. 10, Relógio d'Água, Lisboa, 1988

Frase original: "we gave the Future to the winds and slumbered tranquilly in the Present, weaving the dull world around us into dreams."

As pessoas dos Andes que falam a língua Aymara apontam para trás de si quando falam do futuro. A palavra futuro é "qhipa" que quer dizer atrás ou nas costas. Pelo contrário apontam para a frente quando falam do passado e a palavra é "nayra" que quer dizer olho, à vista ou à frente.

O futuro não se vê, mas o passado está à vista.