Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Prece não atendida

"-Lembras-te daquele ponto de exame que tivemos na semana passada? - perguntou a Clara. - Uma das perguntas era onde ficava o rio Amazonas e eu escrevi que era na Itália, quando afinal é numa das Américas. Por isso, pedi a Deus que transferisse o rio para a Itália porque era a única resposta que eu tinha errado.

A Margarida fitou a Clara com surpresa. - Mas Clara, um pedido desses não se faz! Pensa o que teria acontecido se a tua prece fosse atendida. Imagina o rio Amazonas a correr, inesperadamente, pela Itália. Não estás boa da cabeça!"

Enid Blyton, "Os Novos Amigos", Editora Meridiano, Lisboa, 1978, p.139

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Vista da janela

É de manhã e a cor do

mundo ganha contornos

É de manhã e acordo

o mundo ganha contornos

É de tarde e estou acordada

o mundo perde contornos

Faz frio e chamo mundo ao que está para lá

desta casa aquecida

É inverno e chamo mundo ao que está

lá fora

sábado, 20 de dezembro de 2008

Os dias

Após um dia tristonho

De mágoas e agonias

Vem outro alegre e risonho

São assim todos os dias

*

Fui polícia, fui soldado,

estive fora da nação;

vendo jogo, guardo gado,

só me falta ser ladrão.

*

Os meus versos o que são?

Devem ser, se os não confundo,

pedaços do coração

que deixo cá neste mundo.

*

Para não fazeres ofensas

e teres dias felizes,

não digas tudo o que pensas,

mas pensa tudo o que dizes.

*

António Aleixo, "Este livro que vos deixo"

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

"É porque eu o quis que fui feliz hoje"

"Talvez a minha alma desejasse sentir-se triste, mas eu não a autorizei. É porque eu o quis que fui feliz hoje."

Mircea Eliade, "O Romance do Adolescente Míope", p. 147, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1993

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Tiblissi, capital da Geórgia, 2005

Esta fotografia, de Cyril Horiszny, fotógrafo franco-ucraniano, faz parte de um conjunto que vos convido a conhecer carregando aqui.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O primeiro segundo

Medida por relógios atómicos de alta precisão a velocidade diária de rotação da Terra, que não é uniforme, está a diminuir. Como nos regulamos por uma coordenação de duas formas de medir o tempo: atómica e astronómica – Tempo Universal Coordenado – não convém que a diferença entre ambas aumente. Para que isso não aconteça vai ser introduzido um segundo a seguir à meia-noite de 31 de Dezembro de 2008.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Constelação de Orionte

No inverno há muitas noites nubladas e chuvosas mas nas noites em que não há nuvens vale a pena vestir um casaco e ir ver o céu. De todas as constelações que no inverno (no hemisfério norte) se vêem durante toda a noite Orionte é a mais facilmente observável, mesmo em cidades com muita luz. As "três Marias" - ou o "cinturão" do gigante - são muito facilmente reconhecíveis. Deste "cinturão" pende uma "espada" na qual a mancha rosada que se vê na fotografia corresponde a uma nebulosa (M42) que se revela muito interessante quando observada com binóculos (ou telescópio). A estrela vermelha Betelgeuse, no "ombro" direito, e a estrela Rigel, azul, no "pé" esquerdo são também facilmente identificáveis. Prolongando as "três Marias" para a esquerda encontra-se a estrela Sírio, a mais brilhante de todo o céu (não aparece na fotografia nem no desenho mas é inconfundível).

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O space shuttle "Endeavour"

O space shuttle "Endeavour" a ser transportado de regresso ao Centro Espacial Kennedy, na Florida, às costas de um Boeing 747 modificado para o efeito. O "Endeavour", que levou sete toneladas de equipamento e mantimentos para a Estação Espacial Internacional, iniciou o regresso a 28 de Novembro mas foi obrigado a aterrar na Califórnia devido ao mau tempo em Cape Canaveral no dia 30 de Novembro. Esteve 12 dias acoplado à Estação Espacial para que os sete astronautas que transportou acrescentassem novos equipamentos na cozinha e na sala de exercícios e fizessem reparações e melhoramentos na Estação.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ambivalências temporais

A História começa com a escrita, mas a escrita não terá sido inventada para fazer História e sim para determinar o futuro através da Lei.

Esta ambivalência entre o registo do passado e a determinação do futuro mantém-se. Marx julgava que o comunismo ia acontecer por determinismo histórico, os marxistas resolveram construir o socialismo.

Não parece bem acreditar no destino. Acredita-se na vontade de poder, que cada pessoa faz o seu futuro, que a humanidade é responsável pelos seus actos.

Prever o futuro é uma ocupação séria a que se dedicam muitos cientistas. Os jornais não trazem apenas notícias do que já aconteceu mas também previsões do que está para vir.

O boletim meteorológico e os horóscopos são muito procurados. Queremos, ao mesmo tempo, estar preparados para o inevitável e poder modificar o que há-de vir.

Talvez não haja diferença entre crer e querer.

O futuro pode não ser o previsto mas a História é a que queremos contar. E quem conta um conto acrescenta um ponto.

sábado, 6 de dezembro de 2008

A mesma ideia, diferentes imagens

No "Dicionário das Ideias Feitas" à palavra Viagem segue-se: Deve ser feita rapidamente. Tendo em conta que Flaubert (1821-1880) é do tempo das carruagens puxadas por cavalos podemos imaginar que a mesma ideia feita já não evoca a mesma imagem.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O canto de vitória de Kepler

"É em 1605 que Kepler descobre que a órbita de Marte é elíptica. Ele enuncia as duas primeiras leis no Astronomia nova (publicado em 1609) e a terceira nos seus Harmonices Mundi (1618). Podemos dizer sem exagero que se tratou da maior descoberta científica de todos os tempos. Kepler oferece uma resposta completa a questões que mobilizaram durante séculos os melhores espíritos da humanidade, Eudoxo de Cnido, Aristarco de Samos, Ptolomeu, Copérnico. Escutemos o canto de vitória de Kepler (Harmonices Mundi, no prefácio):

«Nos últimos tempos fui iluminado, no seio de uma muito admirável contemplação, há dezoito meses por um primeiro luar, há três meses por uma distinta claridade e há muito poucos dias pelo próprio Sol. Nada impede de me abandonar a um transporte sagrado e afrontar os mortais, confessando ingenuamente que roubei os vasos de ouro dos Egípcios para erguer um altar ao meu Deus, tão longe das fronteiras do Egipto. Se acreditais em mim, regozijar-me-ei; se vos indignardes, tolerar-vos-ei. A sorte está lançada, escrevi o meu livro, que ele seja lido agora ou na posteridade, pouco importa: bem pode esperar cem anos pelo seu leitor, se o próprio Deus esperou seis mil anos por um contemplador da sua obra.»"

Mais adiante Ivar Ekeland volta a citar Kepler:

"Quanto ao próprio Kepler, a Astronomia nova mostra as diversas fases do seu pensamento: começa por atribuir aos planetas (diferentes da Terra) órbitas perfeitamente circulares, depois complica-as com um epiciclo antes de chegar à elipse. Damos-lhe a palavra:

«O meu primeiro erro foi ter admitido que a órbita dos planetas era uma circunferência perfeita. Este erro custou-me tanto mais tempo quanto é certo ter ele sido sustentado por todos os filósofos, sendo metafisicamente plausível de todo.»"

Ivar Ekeland, A Matemática e o Imprevisto, Gradiva, Lisboa, 1993, p. 16 e 24

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Portugal está em qualquer lado

Manoel de Oliveira, excertos da entrevista à Revista Visão, Edição de 04-Dez-2008:

"A única coisa eterna é o presente."

"Eu acho que não há país no mundo mais internacional, mais universal, do que Portugal. Portugal está aqui, mas está também em qualquer lado."

A fotografia tirei do blog de Ana Luandina a quem agradeço, antecipadamente, a permissão - se ela não autorizar retiro-a.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

expressões diferentes

"todas as coisas são como um rato e um insecto no centro de um queijo. Um rato e um insecto: não há duas coisas que pudessem ser mais diferentes. Ficam lá, estão uma semana, ou estão lá um mês; passam ambos a ser apenas transmutações do queijo. Penso que somos todos insectos e ratos, e somos apenas expressões diferentes de um queijo abrangente."

Charles Hoy Fort, O Livro dos Danados, Via Óptima, Porto, 2000, p. 4

domingo, 30 de novembro de 2008

Filmes

"O ser humano pode não ser mais real que um filme de cinema. Quando a luz projectada se desliga tudo o que permanece é o écran branco. Aquilo que foi projectado pela luz foi uma série de imagens paradas. Assim também é o que é projectado pela 'vida'. Quanto mais consideras a analogia, mais perfeita ela parece ser: pode ajudar-nos a compreender." - Wei Wu Wei

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Os machos dominantes são muito susceptíveis

O livro "No Reino do Urso Polar" é a tradução portuguesa de "Kingdom of the Ice Bear" publicado em 1985 por Hugh Miles e Mike Salisbury, na sequência de dois anos de filmagens para a realização de três programas para televisão, sobre a vida selvagem no Ártico. É um livro notável sob muitos pontos de vista.

A partir da pág 177 descrevem-nos as tentativas de filmar bois almiscarados a lutar pelas fêmeas: eles carregam um sobre o outro de uma distância de 60 metros até chocarem de cabeça, fazendo ressoar os espessos cornos e os crâneos, uma e outra vez, até um deles se afastar. Isto acontece em meados de Agosto, no breve período em que o gelo dá lugar à erva. Para desespero de Hugh e Mike todos os animais que encontravam estavam a pastar tranquilamente. Anne Gunn, bióloga da vida selvagem, grande conhecedora de bois almiscarados, explicou-lhes o ciclo das lutas:

"As condições climáticas são a influência natural dominante sobre as populações de bois almiscarados. Invernos e Primaveras muito severos afectam não só o número de crias nascidas mas também o número de adultos que chegam ao Verão. (...) Os machos dominantes são particularmente susceptíveis pois, se são em grande número nesta altura do ano (período do cio), o nível de agressões por causa das fêmeas, é muito elevado. A actividade sexual e as lutas deixam-lhes muito pouco tempo livre para se alimentarem."

Isto é: os machos que se envolvem em lutas não se alimentam o suficiente e são os primeiros a morrer, se o Inverno for muito prolongado. No ano seguinte há tão poucos machos que não há lutas.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Que daqui em diante não se faça como dantes se fazia

"A cal é usada em operações mágicas. No mês de Janeiro, mês evocativo de Jano, o deus de duas caras e do dinheiro, a avidez da cal por água converte-se magicamente em avidez monetária. Se lançada junto das portas atrai dinheiro para casa. Tal é confirmado pelo preâmbulo da carta régia de 1385, destinada a expurgar a idolatria para agradar a Deus, pode ler-se: «esguardando alguns graves pecados que se em esta cidade de Lisboa de mui longos tempos acá faziam, e estremadamente pecados de idolatria e costumes danados dos gentios, que em ela de grandes tempos guardavam».

Na mesma carta se dispõe a seguir: «nenhuma pessoa use nem obre de feitiços, nem de legamentos, nem de chamar os diabos, nem de escantações, nem de obra de vedeira, nem obre de carântulas, nem de agoiros, nem de sonhos, nem de encantamentos, nem lance roda, nem meça cinta, nem se cante olhado nem guem, nem lance água per joeira, nem faça remédio outrossim algum per a saúde de algum homem ou animália, qual não conselhe a arte da física. Outrossim estabelecem que, daqui em diante, em esta cidade e em seu termo, não se cantem Janeiras nem Maias, nem a outro nenhum mês do ano, nem se lance cal às portas sob título de Jano, nem se furtem águas, nem se lancem sortes, nem se britem águas, nem se faça alguma outra obra nem observância, como se dantes faziam».

Oliveira Martins, A Sociedade Medieval Portuguesa. Aspectos de Vida Quotidiana , 4.ª ed., Lisboa, Editora Sá da Costa, 1981, p. 171.

Citado em EXERCÍCIO SOBRE A CAL, Maria Teresa Gonçalves dos Santos, Universidade de Évora - 2004

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A Estação Espacial

A Estação Espacial fez 10 anos.

É o resultado da cooperação da NASA, das Agências Espaciais da Rússia e do Canadá, da Agência de Prospecção Aeroespacial do Japão e de 11 membros da Agência Espacial Europeia.

Para a construção da Estação Espacial foi preciso superar diferenças linguísticas, geográficas e tecnológicas.

No dia 20 de Novembro de 1998 foi posto em órbita, a cerca de 400 km da Terra, o modelo russo “Zarya” que constituiu a base sobre a qual começou a crescer o que é agora a Estação Espacial Internacional.

A primeira pessoa a habitar a Estação Espacial chegou no ano 2000. Desde então já lá viveram 167 pessoas por períodos que variam de alguns dias a alguns meses.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Santa Catarina

Hoje é dia de Santa Catarina de Alexandria, padroeira dos estudantes de filosofia.

A canção é popular e tem diversos tons de voz, a negrito está a muito grave, a itálico a aguda e a azul a muito aguda.

.

..

A Santa Catarina, perlim, perlim, pompé

A Santa Catarina, perlim, perlim, pompé

Era filha de re-e-ei

Era filha de re-e-ei

Era filha de re-e-ei, PUM

.

Seu pai era pagão, perlim, perlim, pompé

Seu pai era pagão, perlim, perlim, pompé

Sua mãe não era nã-ã-ão

Sua mãe não era nã-ã-ão

Sua mãe não era nã-ã-ão, PUM

.

Um dia a rezar, perlim, perlim, pompé

Um dia a rezar, perlim, perlim, pompé

Seu pai foi-a encontra-a-ar

Seu pai foi-a encontra-a-ar

Seu pai foi-a encontra-a-ar, PUM

.

Que fazes Catarina, perlim, perlim, pompé

Que fazes Catarina, perlim, perlim, pompé

Ajoelhada aí-í-í?

Ajoelhada aí-í-í?

Ajoelhada aí-í-í? PUM

.

Eu rezo a Deus meu pai, perlim, perlim, pompé

Eu rezo a Deus meu pai, perlim, perlim, pompé

Que não conheces tu-u-u

Que não conheces tu-u-u

Que não conheces tu-u-u, PUM

.

Ou tu paras de rezar, perlim, perlim, pompé

Ou tu paras de rezar, perlim, perlim, pompé

Ou eu vou-te mata-a-ar

Ou eu vou-te mata-a-ar

Ou eu vou-te mata-a-ar, PUM

.

Tu podes-me matar, perlim, perlim, pompé

Tu podes-me matar, perlim, perlim, pompé

Que eu não paro de reza-a-ar

Que eu não paro de reza-a-ar

Que eu não paro de reza-a-ar, PUM

.

Seu pai num turbilhão, perlim, perlim, pompé

Seu pai num turbilhão, perlim, perlim, pompé

Ergueu um facalhã-ã-ão

Ergueu um facalhã-ã-ão

Ergueu um facalhã-ã-ão, PUM

.

E os anjinhos do céu, perlim, perlim, pompé

E os anjinhos do céu, perlim, perlim, pompé

Cantaram-lhe as hossa-a-anas

Cantaram-lhe as hossa-a-anas

Cantaram-lhe as hossa-a-anas...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O vento anda a despir as árvores

O vento

anda a despir as árvores

devagarinho

impaciente

com ternura

com alegria...

As árvores meias nuas

deixam ver para lá de si

a torre e as muralhas do castelo

No chão há tapetes

que se levantam

e dançam

como damas

e dourados cavaleiros

Quando se abrem

os vidros da janela

a porta bate

e as folhas entram

e vão esconder-se

debaixo dos móveis

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

escravizados e perturbados por situações objectivas

"Amigos, quero dizer-lhes isto: não existe nenhum Buda, nenhum caminho espiritual para seguir, nenhuma formação nem realização. Correm tão fervorosamente atrás de quê? Querem colocar uma cabeça em cima da vossa própria cabeça, seus cegos idiotas? A vossa cabeça está exactamente onde deve estar. O problema reside em não acreditarem o suficiente em vocês próprios. Porque não acreditam em vocês próprios ficam encurralados aqui e ali por todas as condições nas quais se encontram. Sendo escravizados e perturbados por situações objectivas, não têm nenhuma liberdade, não se dominam a si mesmos. Deixem de se virar para o exterior e não se prendam nem sequer às minhas palavras. Deixem de se agarrar ao passado e de aspirar ao futuro. Isto será melhor do que dez anos de peregrinação."

Lin-chi Yi-sen ou Lin-chi I-hsuan, conhecido no Japão como Rinzai ou Rinzai Gigen, foi um dos iniciadores do budismo Zen. Viveu na China entre os sécs. VIII e IX

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Zero à esquerda

Apropriaram-se de tudo o que ela era, fazia e dizia.

Convenceram-na de que não tinha nenhum valor.

Ela sentia-se um zero à esquerda.

Foi então que procurando na internet descobriu isto!

E se riu! :)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Geleia de milho

Há muitos anos que descobri e gostei muito da geleia de milho produzida pela senhora Hortense Won. Este nome, meio português meio coreano, fazia-me sonhar com tentar encontrá-la na vida real o que, na verdade, nunca tentei.

Entretanto apareceram outras geleias de milho no mercado e não me tem sido nada fácil encontrar esta.

Procurando na internet pude ficar a saber muito sobre Hortense Won e a sua família e encontrei o site dos produtos Won. Se já gostava muito desta geleia de milho agora ainda gosto mais! :)

Aborrece-me que a publicidade se tenha apropriado dos discursos de apreço.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O imaginário

O filme "Sobreviver com os lobos" conta a história de uma menina que procura os pais que os nazis mandaram para leste. Ela tem uma bússola, uma boneca e uma grande vontade de os encontrar. Da Bélgica à Ucrânia ela sobrevive ao frio, à fome e à crueldade humana graças, também, à ajuda dos lobos.

A realizadora do filme, Véra Belmont, viveu uma realidade parecida, embora não tenha partido à procura dos pais e, por isso, realizou o filme. Pode dizer-se que é uma história de fadas com um final realista.

Este filme é baseado num livro que foi apresentado como história real pela autora que veio recentemente confessar que, na verdade, é uma ficção. Alguns leitores não lhe perdoam a traição outros congratulam-se pela beleza da ficção.

domingo, 16 de novembro de 2008

Quando negro valia ouro

"Fazia alguns anos, desde a lei de 1850 que proibira no Brasil o ingresso de novos escravos, negro valia ouro. Com a suspensão do tráfico e a crescente necessidade de braços para as lavouras do Sul, muitos senhores de engenho do Norte faziam fortuna exportando seus negros para as províncias meridionais. Os senhores do Engenho do Meio, não. Respeitando uma tradição que remontava a várias gerações passadas, até muito recentemente os Ribeiro jamais haviam transacionado com escravos. Não compravam nem vendiam. Os que ali estavam eram todos descendentes dos trazidos pelo bisavô de Ioiô Gonçalo, aquando da instalação do engenho, anos e anos atrás. Negros vez por outra enxertados com sangue novo de branco, de mestiço ou mesmo de escravos de outras propriedades, porém, em crcunstância alguma comercializados. Era uma espécie de acordo tácito, vantajoso para ambas as partes. Bem tratados e sem o fantasma da dilaceração familiar a lhes atormentar, os escravos do Engenho do Meio procriavam mais. Com isso, aumentavam a riqueza dos senhores, e os resguardavam dos prejuízos provocados por fugas, motins e sabotagens. Um arranjo simplista em sua concepção, mas que funcionara perfeitamente bem por muito mais tempo do que qualquer um ali podia se lembrar. Contudo, com a morte do Dr. Deocleciano, a pretexto de saldar débitos inadiáveis contraídos pelo finado, os novos senhores haviam quebrado a tradição. Violando a lei consuetudinária, venderam dois jovens escravos."

Aydano Roriz, Diamantes não são eternos, p. 60 e 61, Eurobest, Funchal, 2008

sábado, 15 de novembro de 2008

A coexistencia pacífica da ciência e da religião

Hoje é dia de Santo Alberto Magno (1193-1280), padroeiro dos estudiosos das ciências naturais.

Alberto Magno lia árabe e hebraico. Trouxe Aristóteles e as idéias da ciência e da filosofia judaica, árabe e neoplatónica, para as universidades europeias onde ensinou lógica, física, metafísica, psicologia, antropologia, ética, política e teologia.

Escreveu mais de vinte obras em latim sobre química, física, astronomia, meteorologia, mineralogia, zoologia e botânica, além de inúmeros tratados sobre artes práticas: tecelagem, navegação e agricultura.

Foi, sobretudo, um profundo observador e amante da natureza que defendeu a coexistência pacífica da ciência e da religião.

Seguindo as prescrições da ordem dos dominicanos, à qual pertencia, viajava a pé e pedindo esmola.

A imagem é do monumento a Alberto Magno do escultor Gerhard Marcks, na Universidade de Colónia.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Beijinho

Quando acordo a meio da noite, pelas 4h ou 5h da manhã, fico sempre um par de horas a pensar, ou num estado entre o pensar e o não pensar, mas nunca falo com ninguém. Esta semana, no entanto, as pessoas de quem mais gosto estão em Beijing e, lá, é meio-dia ou uma da tarde, por isso posso telefonar-lhes e mandar-lhes beijings! É mesmo bom! :)

A imagem tirei da net. É uma estátua do templo taoísta em Pequim.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Astronomia e Hora Legal

A Assembleia da Organização das Nações Unidas declarou 2009 como o Ano Internacional da Astronomia. Em Portugal o lema é: "DESCOBRE O TEU UNIVERSO"; no Brasil: "O UNIVERSO PARA VOCÊ DESCOBRIR".

O Observatório Astronómico de Lisboa (OAL) vai lançar um curso de Iniciação à Astronomia e Astrofísica, a começar no dia 10 de Janeiro de 2009, sábado, pelas 10h00. Pretende, entre outros objectivos, familiarizar os interessados com as grandes questões que se colocam aos astrónomos.

O Observatório Astronómico de Lisboa é também a instituição que tem a incumbência de manter e distribuir a Hora Legal em Portugal que pode ser visualizada nas suas páginas na internet. Disponibiliza ainda o serviço de sincronização com a Hora Legal .

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O que é o infinito?

Algumas respostas de alunas e alunos de uma escola secundária:

"o infinito não sei, porque o infinito ainda não acabou"

"é um fim que nunca acaba"

"todas as coisas têm o seu infinito"

"o infinito é uma coisa maravilhosa!"

"gosto de pensar no infinito; fico deslumbrada ao achar que é impossível"

"é mais ou menos um pesadelo, é um grande monte de perguntas para nós humanos: eu acho que as pessoas não devem pensar no infinito porque ficamos todos embrulhados"

"uma imensidão cada vez mais complicada"

"uma indeterminação usada em grandes quantidades"

"o infinito é um sempre, sempre, sempre"

"é sempre a andar, sempre a andar, sem nunca se cansar mas sem nunca lá chegar"

Teresa Vergani, O ZERO E OS INFINITOS, uma experiência de antropologia cognitiva e educação matemática intercultural, p. 35 a 41, Editorial Minerva, Lisboa, 1991

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A ficção oferece-se como realidade

Comunicamos por fora e por dentro. Com o corpo, a linguagem e os sentimentos. Chamamos “eu” ou “consciência” à unidade de todas as relações numa percepção global centrada. Mas esta integração é tão vasta que pode incluir a auto-reflexão a que se chama pensar e que usa as palavras. Assim, comunicamos por dentro com tudo, absolutamente, e por fora sobretudo com as outras pessoas. O que pode acontecer, e acontece, é julgar que a comunicação exterior, por palavras, é a única forma de comunicação.

Esta redução do todo a uma parte é característica da ciência. Não é possível investigar tudo, mas quem gosta de investigar e descobrir “coisas” (que são sobretudo relações) devido à própria coerência do pensamento, mas também à íntima relação que as partes têm com o todo, dirá sempre, com alguma razão, que o todo é como a parte que conhece. Se continuar a investigar vai sempre revendo a sua “visão geral” de uma forma mais vasta e então as primeiras ideias surgem-lhe como erros, embora não o sejam senão parcialmente.

De algum modo pode afirmar-se que não há Deus mas não pode negar-se a sua ausência, a sua falta, nem o nosso desejo d’Ele. Porque Lhe daríamos um nome se não estivesse em nós? Se não compreendêssemos o que a palavra nomeia? Porque, enfim, tudo nos é dado e é preciso dar graças por isso. Agradecemos a Deus. Precisamos de agradecer-Lhe porque isso é a alegria! A única verdade.

No entanto, tem que haver convenções básicas para nos entendermos por palavras, exteriormente, mas também no pensamento. Essas convenções são as bases – muito pouco firmes – em que assentam as construções culturais a que chamamos civilizações e atingem uma complexidade inabarcável. É claro que elas não são tão verdadeiras como a Natureza selvagem mas são-nos adaptadas, por isso as prezamos. O que não faz sentido, porém, é julgar que as ilusões que construímos são mais verdadeiras que a Natureza que as torna possíveis, que as permite. E ainda faz menos sentido negar à Natureza selvagem, que fundamenta tudo, o estatuto Divino. Ou negar à existência a pertença à possibilidade incompreensível a que chamamos Deus.

A razão é um nome para uma forma de pensar equilibrada em perpétua adaptação, não é um método. Um método é um molde que adapta a si o que investiga. Por isso é necessário conhecer o método para compreender os resultados. O que não vale é julgar que o que o método não pode adaptar a si não é conhecimento. (É por isto que há tanto insucesso escolar: o que os alunos sabem ou querem saber não é avaliado, apenas o que “devem” saber. Ora aprender é querer, não é dever. É querer e é prazer. Mas este assunto fica para outro dia.)

As civilizações tendem a esquecer que manifestam vontade colectiva, sobretudo quando há alguém que impõe a sua vontade e assim parece destruir ou, pelo menos, negar essa vontade colectiva, que é de toda a gente e não é de ninguém e sustenta a civilização. Que não está mais neste ou ali que naquela ou aqui, ainda que a algumas pessoas seja dado exprimi-la de forma mais clara ou mais profunda ou mais bela ou mais aterrorizadora... etc., etc.

A multiplicidade não cabe num texto. A verdade também não, embora nunca falte, em nada, a verdade. Precisamos de partilhar e valorizar os dons uns dos outros, isso é comunicar. Aquilo a que agora se chama comunicação é circulação de informações escolhidas: espectaculares, que se oferecem como realidade que não são.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

"Gaki"

Em Thimphu, a capital do Butão (Terra do Dragão), o novo rei, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, de 28 anos, recebeu ontem a coroa das mãos do seu pai Jigme Singye Wangchuck, de 52 anos, que criou em 1972, e tem aplicado desde então, o índice de avaliação da Felicidade Interna Bruta (FIB).

A FIB contempla nove dimensões: bom padrão de vida económica; bom governo; educação de qualidade; saúde; vitalidade comunitária; protecção ambiental; acesso à cultura; gestão equilibrada do tempo e bem estar psicológico.

Os bons resultados no Butão chamaram a atenção da Organização das Nações Unidas (ONU) que estuda a aplicação prática de uma versão internacional da FIB como alternativa ao Produto Interno Bruto (PIB) que é um índice que não avalia os custos ambientais, sociais e psicológicos da produção económica.

O Butão é um dos poucos países asiáticos que nunca foram colonizados.

Em butanês (dzongkha), felicidade diz-se “gaki”.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Aceitar tudo de livre vontade

  • "Uma vez que o mundo inteiro será necessariamente destruído
  • procuro um refúgio inexpugnável.
  • Encaro o familiar e o estranho do mesmo modo,
  • pois o desejo e o ódio já não estão em mim.
  • Vivo onde quer que me encontre,
  • debaixo de uma árvore, num templo ou numa colina.
  • Procuro o bem sem laços nem expectativas,
  • aceitando tudo o que me é dado de livre vontade."
Ashvagosha

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Incompreensão

Acontecem-nos coisas que não compreendemos. Não compreendemos o que nos dizem, ou porque dizem o que estão a dizer, ou porque o dizem nesse momento... Não conseguimos interpretar os motivos porque falam connosco ou porque não falam... Enfim... acontecem-nos coisas que não compreendemos.

Hoje aconteceu-me uma coisa que não compreendi. Possivelmente há-de haver uma explicação que talvez venha a encontrar no futuro. Prefiro não compreender que convencer-me que a explicação é x, ou y, ou z, sem provas. É que quando nos convencemos que alguma coisa é x, ou y, ou z, podemos vir a fazer com que seja isso... Assim, não compreendendo, mantenho-me aberta ao que o futuro possa trazer de esclarecedor. Se não trouxer... bem, fica como acontecimento inexplicável... Nem x, nem y, nem z...

Sei que não se compreende nada deste post. É que eu também não compreendo... A minha incompreensão é tão grande que me apetece perguntar se é possível, alguma vez, compreender seja o que for... É a mania de generalizar - que também não compreendo... :)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O inesperado

"Quem não espera o inesperado não o achará"

Heraclito, fragmento 18

citado na revista Teoremas de Filosofia, 3, p. 35, Porto, Primavera de 2001

no artigo de Fernando Bastos, "Para uma hermenêutica da Mensagem"

esta revista é editada por Joaquim Domingues

domingo, 2 de novembro de 2008

Agradecer

Agradecer é tão bom! Às vezes não compreendo porque não estamos permanentemente a agradecer... (outras vezes não compreendo o que acabo de escrever...)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O lastro da alma

"O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento"

O conto de Machado de Assis, p. 30, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1981

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Diferentes para nos reconhecermos

Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros.

Alcorão, 49. (Os Aposentos) 13

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O que não passa pela cabeça dos jovens

"A nossa missão é chamar as pessoas à realidade das dúvidas que a ciência tem. A ciência observa alguns fenómenos, estabelece teorias e mantém um permanente convívio com a ignorância, com aquilo que não sabe.

A princípio os jovens sentem uma certa desilusão, porque não lhes passa pela cabeça que os cientistas não saibam tudo."

Máximo Ferreira, Astrónomo

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A fonte do esperado e do inesperado

O que aparece na televisão é mais real. O argumento "mostraram na televisão" termina definitivamente qualquer dúvida. Por outro lado o que não aparece na televisão é quase como se não existisse, pelo menos não tem a importância do que a televisão mostra. Aparecer na televisão é também sinal indiscutível de sucesso.

O que aparece na televisão constitui o grosso dos assuntos de conversa quotidianos. O resto é bisbilhotice. As pessoas cultas acompanham diariamente as notícias da televisão e são capazes de reproduzir as teses e os argumentos mais actuais e correctos.

A televisão e as pessoas que lá aparecem fazem companhia, são conhecidas e amigas. Que seria das instituições onde se acolhem idosos, jovens, crianças, doentes e outras pessoas carenciadas, sem a televisão para as entreter? O que seria de todas as pessoas que vivem sós sem a televisão para lhes fazer companhia? O que seria das famílias sem a televisão para lhes dizer o que hão-de comprar, pensar e fazer?

Além da televisão, também há a rádio e os jornais para ajudar: estão todos de acordo sobre o que é verdade e importante. As notícias e a publicidade repetem-se e reproduzem-se por todos os meios. A liberdade de expressão manifesta-se aí: aparecem as teses, as antíteses e as sínteses. E o que não aparece não tem importância, é como se não existisse.

Felizmente o que não aparece na televisão é quase tudo. Quem não vê televisão conhece o mundo alma a alma e corpo a corpo e alma a corpo. Contempla e desfruta a paisagem, o tempo e a solidão. Funde-se com a fonte dos dias sem mediação: imediatamente.

Os "mass media" são a mediação que cria, reproduz e mantém as "massas". Os "mass media" põem as pessoas a saber o que é preciso saber e ignorar o que é correcto ignorar.

A oportunidade de aparecer na televisão está democraticamente ao alcance de todos. Há concursos e outros programas para que cada espectadora ou espectador possa gozar os minutos de fama a que tem direito.

Claro que a televisão não é perfeita e se pode dizer mal dela, não lhe prestar atenção, desligá-la e tudo. O que ainda a torna melhor. Por outro lado, é claro, a verdade manifesta-se em todo o lado, até na televisão. Pode aprender-se com tudo, até com a televisão. Pode fazer-se muita coisa e também televisão.

Omnipresente, omnipotente e omnisciente é que ela não é, ainda que o pareça. A internet, sua séria concorrente, também não. Nem a literatura ou os outros livros. Nem nenhum Estado, organização, lei, técnica, método ou estratégia. Tudo isto surge da fonte do esperado e do inesperado.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

As coisas mais importantes do mundo

"Rama arranjava sempre maneira de se ocupar: a cozinhar, a coser, a cuidar das crianças, a limpar a casa, coisas que lhe pareciam as mais importantes do mundo; muito mais do que aquilo que os homens faziam."

John Steinbeck, A Um Deus Desconhecido, p.36, Livros do Brasil, Lisboa, 1989

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Monopólio

Uma menina ucraniana que estava a jogar Monopólio pela primeira vez perguntou aos companheiros de jogo: «É para ficar rico ou para ficar pobre?» Achei graça. Julgo ter percebido o raciocínio: há jogos em que ganha quem ficar sem cartas. Neste caso podia ser que ganhasse quem ficasse sem dinheiro... :)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Diário da Viagem de Vasco da Gama

(De Lisboa ao Cabo da Boa Esperança: os Bochimanes-Hotentotes, a fauna e a flora da baía de Santa-Helena, 8 a 16 de Novembro de 1497)

“Nesta terra há homens baços (...) e têm muitos cães como os de Portugal e assim mesmo ladram.”

(Do Cabo da Boa Esperança a Moçambique: Relações com os Hotentotes da Angra de S. Brás, 1(?) de Dezembro de 1497)

“(...) e nós como os vimos fomos logo em terra, e eles começaram logo de tanger quatro ou cinco flautas e uns tangiam alto e outros baixo em maneira que concertavam muito bem para negros de que se não espera música e bailavam como negros. E o capitão-mor mandou tanger as trombetas e nós em os batéis bailávamos e o capitão-mor também de volta connosco e depois de acabada a festa, nos fomos em terra (...)”

Diário da Viagem de Vasco da Gama, Vol. I, (Fac-simile e transcrição) p.3 e 8,

Texto Actualizado, p.7 e 16, Livraria Civilização Editora, Porto, 1945

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Mundos contemporâneos

"Telefonar ao meu pai ou à minha irmã é como atravessar uma ponte entre o mundo em que sou adulta com responsabilidade e algum poder e o enigmático mundo da infância onde estou à mercê dos fins de outras pessoas que não posso controlar nem compreender. A mana mais velha é a monarca absoluta nesse mundo crepuscular. Reina sem escrúpulos nem piedade."

LEWYCKA, Marina, Breve História dos Tractores em Ucraniano, p. 46, Civilização, Porto, 2006

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O prazer da sinceridade

O IDIOTA

Um idiota encontrou um dia uma cauda de carneiro. Cada manhã servia-se dela para pôr gordura no bigode. Depois ia ter com os amigos e dizia-lhes que acabava de chegar de uma recepção onde tinham feito uma grande festa e comido muito bem. A sua barriga vazia maldizia o seu bigode brilhante de gordura.

Oh desgraçado! Se não fosses mentiroso talvez um homem generoso te convidasse para comer!

Um dia, em que o estômago do nosso idiota se queixava a Deus, um gato roubou a cauda do carneiro. O filho do idiota tentou apanhar o animal mas em vão. Com medo que o pai o repreendesse pôs-se a chorar. Depois foi a correr ao lugar onde o pai estava com os amigos. Chegou no preciso momento em que o seu pai contava aos outros a sua refeição imaginária da véspera. Disse-lhe:

«Papá! O gato levou a cauda de carneiro com que punhas gordura no bigode todas as manhãs. Eu tentei apanhá-lo mas não consegui.»

A estas palavras os amigos começaram a rir e convidaram-no para uma refeição, desta vez real. E assim o nosso homem, abandonando as suas pretensões, conheceu o prazer de ser sincero.”

Djalâl Al-Dîn Rûmî, “Le Mesnevi, 150 contes soufis”, pp. 64-65, Albin Michel, Paris, 1988

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A via sinuosa

"A razão é justa mas a sua via é sinuosa."

Provérbios do Mundo, compilado e organizado por José Jorge Letria, p. 41, Editorial Notícias, Lisboa, 2004

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Angústias e avaliações

"Tive merdriocre"

Luís Lemos (PIPO)

Rasgos de profs e alunos do 11ºB recolhidos por Daniel

"Arauto", Jornal da Escola Secundária Manuel de Arriaga, Horta, Freguesia das Angústias, Junho 2008

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A Gaiola - parte II

(continuação de ontem)

O comerciante respondeu:

«Quando transmiti as tuas palavras aos teus amigos, um deles caiu no chão, sem vida. É por isso que estou triste.»

Nesse instante, o papagaio do comerciante também caiu na sua gaiola, inanimado. O comerciante, cheio de tristeza, começou a gritar:

«Oh meu papagaio de suave linguagem! Oh meu amigo! O que foi que aconteceu? Eras uma ave como nem Salomão conheceu outra igual. Perdi o meu tesouro!»

Depois de ter chorado muito tempo, o comerciante abriu a gaiola e atirou o papagaio pela janela. Nesse momento este voou e foi pousar no ramo de uma árvore. O comerciante, ainda mais surpreendido, disse-lhe:

«Explica-me o que se passa!»

O papagaio respondeu:

«Esse papagaio que viste na Índia explicou-me a maneira de sair da prisão. Com o seu exemplo, deu-me um conselho. Ele quis dizer-me: "Tu estás na prisão porque falas. Portanto faz-te morto." Adeus, oh meu dono! Agora vou-me embora. Também tu, um dia, regressarás à tua pátria.»

O comerciante disse-lhe:

«Que Deus te salve! Tu também me ensinaste. Esta aventura para mim é suficiente uma vez que o meu espírito e a minha alma tomaram parte nestes acontecimentos.»

Traduzido de "Le Mesnevi, 150 contes sufis", Djalâl Al-Dîn Rûmî, p. 36, Albin Michel, Paris, 1988

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A gaiola - parte I

Um comerciante tinha um papagaio cheio de dons. Um dia ele decidiu ir à Índia e perguntou a toda a gente da sua casa que presente queria que ele trouxesse da viagem. Quando ele perguntou ao papagaio, este respondeu:

"Na Índia, há muitos papagaios. Vai visitá-los por mim. Conta-lhes como é a minha situação, esta gaiola. Diz-lhes: «O meu papagaio pensa em vocês e tem muitas saudades vossas. Manda-vos cumprimentos. Será justo que ele seja prisioneiro enquanto vocês voam no jardim das rosas? Ele pede-vos que pensem nele quando esvoaçarem, alegres, entre as flores.»

Quando chegou à Índia, o comerciante foi a um lugar onde havia papagaios. Mas, quando ele lhes transmitiu os cumprimentos do seu próprio papagaio, um deles caiu no chão, sem vida. O comerciante ficou muito surpreendido e pensou:

«Isto é muito estranho. Causei a morte a um papagaio. Não devia ter transmitido esta mensagem.»

Depois, quando acabou de fazer as suas compras, regressou a sua casa, com o coração cheio de alegria. Distribuiu os presentes que trazia pelos seus criados e pelas suas mulheres. O papagaio pediu:

«Conta-me o que viste para que eu também fique contente.»

A estas palavras, o comerciante começou a lamentar-se e a exprimir o seu arrependimento.

«Diz-me o que aconteceu, insistiu a ave. Porque estás tão triste?»

(continua amanhã)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Sementes

"Quando o passarinho pousa num muro e vê as sementes que servem de isco na gaiola, o seu desejo atrai-o para as sementes. Ele olha para elas, depois olha para as vastas planícies. O passarinho que resiste a esta tentação voa para as planícies, cheio de alegria."

Traduzido de "Le Mesnevi, 150 contes sufis", Djalâl Al-Dîn Rûmî, p. 88, Albin Michel, Paris, 1988

domingo, 12 de outubro de 2008

A vaca e a ilha

"Numa ilha verdejante, uma vaca vivia em solidão. Ela pastava até cair a noite e assim engordava cada dia. À noite, como já não via a erva, ela inquietava-se sobre o que iria comer no dia seguinte e essa inquitação tornava-a tão magra como uma pena. De madrugada, a pastagem reverdecia e ela punha-se de novo a pastar com o seu apetite bovino até ao pôr do sol. Estava novamente gorda e cheia de força. Mas, na noite seguinte, recomeçava a lamentar-se e a emagrecer.

O tempo bem podia passar, nunca lhe ocorria que, uma vez que a pastagem não diminuia, não havia porque se inquietar daquele modo.

O teu ego é essa vaca e a ilha, é o universo. A preocupação com o dia seguinte torna a vaca magra. Não penses no futuro. É melhor ver o presente. Tu comes há anos e os dons de Deus no entanto nunca diminuiram."

Traduzido de "Le Mesnevi, 150 contes sufis", Djalâl Al-Dîn Rûmî, p. 153, Albin Michel, Paris, 1988

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

o inteiro realismo do con-viver de universos com realeza interior

"Ora, o «mostrengo» não é o sempre outro a dominar politicamente, mas uma alma, por demais 'dobrada na cerviz' servil, de quem não descobriu a realeza interior de si mesmo. Ainda que da criança!... Donde que a filosofia, incoativo, assim capaz de convocar outro 'vento' do espírito, muito além do mesquinho da barca do poder e dos desencontrados lemes meramente humanos, liberte para outra viagem, outra governação (literal: kybernetiké...) mais de acordo com a relevância do real, mais no inteiro realismo do con-viver de universos assim..."

Carlos H. do C. Silva [Docente da UCP]

Revista "Cais", Fevereiro de 2008, pp. 14 e 15, ensaio o filósofo e as máscaras contemporâneas, "A filosofia e o político ou da histórica tirania de heróis e democratas"

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

as crianças ensinam muita coisa nova

" -Na verdade - comentou Maria - a tua mãe sabe imensas coisas.

-Ah! é como ela diz: «Uma mulher que cria doze filhos aprende alguma coisa mais que o seu á-bê-cê. As crianças, como a aritmética, ensinam muita coisa nova.»"

Frances Burnett, O Jardim Misterioso, p. 56, Editorial Pública, Lisboa, 1988

Esta imagem é de uma edição mais antiga deste livro.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Canto de união

Oração russa

"Ó Mãe por todos cantada,

Mãe do sol de suma justiça,

Mãe do povo cristão,

glorificada do Oriente ao Ocidente,

dá-nos a união fraterna,

a nós que superamos a discórdia.

Dá-nos a tua protecção materna,

para que todos possamos unir-nos

no corpo místico do teu Filho,

Cristo, nosso Deus.

E dá-nos que te cantemos,

nossa Alegria universal,

com uma só e única voz."

Sede de Deus, orações do Judaísmo, Cristianismo e Islã, p. 48, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 2002

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Porque é que os ciganos estão espalhados pelo mundo

Isto passou-se há muito tempo.

Um cigano e a sua família andavam em viagem. O seu cavalo estava pele e osso e pouco firme nas pernas e à medida que a família cigana ia aumentando era-lhe cada vez mais difícil puxar a pesada carroça. Em breve a carroça ficou tão cheia de crianças aos trambolhões que o pobre cavalo mal conseguia arrastar-se pelo caminho às covas.

A carroça lá ía aos tombos, ora tombando para a esquerda, ora para a direita, tachos e panelas a caír, e uma vez por outra uma criança descalça era atirada ao chão de cabeça.

Não era tão mau à luz do dia, pois podiam ir apanhar as panelas e as criancinhas; mas no escuro não se viam. Aliás, quem é que era capaz de fazer as contas a uma tribo daquelas? E o cavalo lá seguia, penosamente.

O cigano deu a volta à Terra e onde quer que fosse deixava ficar um filho: mais um, e mais um, e mais um.

E foi assim, estão a ver?, que os ciganos se espalharam pela Terra.

Contos Populares Ciganos, Diane Tong, Editorial Teorema, 1998

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

"Ma"

"Na arte e literatura japonesas sinto-me fascinada pelo uso do silêncio e da assimetria. Gosto do conceito de ma: o espaço intermédio que permite que haja percepção."

Lian Hearn, pseudónimo de Gillian Rubinstein

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A quem pertence o conhecimento?

Quem ensina as aves a voar e a cantar? Há uma resposta pronta para esta pergunta: é o instinto. O que é o instinto? Vamos enredar-nos em labirintos que, em lugar de aclarar a questão, a tornam impenetrável. Aparentemente há muitas maneiras de esconder o conhecimento. Platão, na alegoria da caverna, mostrou como a cultura serve este mesmo objectivo. Se as pessoas forem fechadas num lugar onde só lhes sejam mostradas representações julgarão conhecer. Se alguém conseguir sair da caverna e voltar para contar o que conheceu será desacreditado.

Como Marco Polo e Fernão Mendes Pinto o foram quando falaram da China: “Fernão, mentes? Minto.”

Aprendemos, adquirimos conhecimento, através do corpo e da mente. Quem já teve uma gata que pariu e viu os gatinhos bebés a aprender a andar, a correr e a saltar tem conhecimento disso. Quem só leu ou viu desenhos e imagens, em fotografias, na televisão ou no cinema, pode falar disso e julgar que tem esse conhecimento, mas não tem.

Até conhecer a neve já tinha lido sobre ela e já a tinha visto em imagens e sabia que era fria. Quando conheci a neve fiquei deslumbrada e gelada mas ainda não conheço a neve como as pessoas que vivem em lugares onde neva. Nenhuma escola, nenhum professor ou professora pode ensinar o que é a neve a quem nunca a viu. Pode-se ensinar, sim, muitas palavras e frases sobre a neve. De modo que é possível, a quem não conhece a neve, falar de tal modo sobre ela que convença uma plateia de que a conhece, enquanto alguém que a conheça pode não encontrar palavras. Será fácil, então, ao orador fazer com que a maioria das pessoas acreditem que quem conhece a neve mas não sabe falar sobre ela não a conhece. Este é o poder das palavras e é por causa deste poder que acreditamos em muitas coisas que não são verdade e não acreditamos em muitas outras que são. A quem pertence o conhecimento?

Se quisermos conhecer a Sibéria e tivermos que escolher um guia faremos asneira em escolher o orador em vez de escolher quem ele humilhou em público.

Santo Agostinho, em “O Mestre” escreveu que ninguém, senão Deus, é Mestre, porque só se aprende com o que Ele nos dá. Porém os seres humanos julgam que podem apropriar-se do que não lhes pertence. Dividem assim o que é de todos de modo a que seja apenas de alguns e privam-se mutuamente de conhecimento como se privam da terra e dos frutos da terra e de amor e de poder.

Alexandre julgava-se e tem sido dito poderoso mas quando perguntou a Diógenes o que queria que lhe desse este limitou-se a pedir-lhe que saísse da frente do Sol e não lhe tirasse o que não podia dar-lhe.

Quem nega o conhecimento alheio e pertence a uma comunidade em que as pessoas mutuamente se convencem que o conhecimento lhes pertence são como Alexandre: fazem sombra...

Assim fazem os modernos com os antigos, os adultos com as crianças, os urbanos com os rurais, os colonialistas com os colonizados, etc. e vice-versa.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Um pequeno português de aspecto absolutamente insignificante

« Dès le premier moment de mes relations intimes avec des Portugais je me sentis perturbé par une profusion d’émotions jusqu’à présent encore inconnues de moi. Peu après je fus surpris par un dernier "disparate" (dans le sens espagnol du mot) qui fait typiquement, de toute la situation portugaise, une équation sans solution. Selon mon habitude, j’ai cherché une image concrète, parfaitement typique, qui, dans sa particularité, donne le caractère général. Je la découvris bien rapidement, dans la tradition suivante : quand le terrible duc d’Alba pénétra au Portugal, en 1580, avec un déploiement militaire exceptionnel, qui était alors le plus formidable d’Europe, il fit arrêter ses troupes à l’entrée d’un pont. On y voyait un petit Portugais d’aspect absolument insignifiant. Son chapeau à la main, il avança vers le duc d’Alba et lui donna à entendre qu’il ne devait pas s’arrêter à cause de lui : « Passez, passez, je ne vous ferai pas de mal.» Dans ce geste, fait certainement avec sérieux et sincérité, s’exprimait l’orgueil du nain. Tout ce qui est spécifiquement portugais porte la marque d’une tension similaire. »

Conde de Kayserling, (Count Hermann Keyserling) 1930

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Começou o ano 5769

Na passada segunda-feira, 29 de Setembro, ao pôr-do-sol, os judeus começaram a celebrar o Rosh Hashanah que dá início ao ano 5769 do calendário judaico. Foi o dia 1 de Tshiri, o sétimo mês do ano.

Ao Rosh Hashanah (Cabeça do Ano) que dura até ao pôr-do-sol de hoje, seguem-se dez dias de penitência, temor e arrependimento que culminam no Yom Kippur (Dia da Expiação) que terá início ao pôr-do-sol de 8 de Outubro.

Tocar e escutar o shofar, instrumento feito de chifre de carneiro, faz parte da celebração de Rosh Hashanah.

O calendário judaico é um calendário lunar e solar. O primeiro dia de cada mês começa ao pôr-do-sol do dia da lua nova.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O que é o dinheiro?

O valor do dinheiro não é material, é convencional. Agora os escudos não valem nada e com euros compra-se o que está à venda. Agora não vale nada o que se comprou ontem com um empréstimo que vai demorar anos a pagar. Quem não tem dinheiro julga que seria mais feliz se tivesse muito, quem tem dinheiro e não se sente feliz não sabe o que lhe falta. Há quem tenha dinheiro e se julgue pobre porque só repara em quem tem mais e quem não tenha dinheiro e se julgue rico porque só vê os que têm menos. Há finalmente mil e um outros assuntos que fazem esquecer este. Num mundo obcecado pelo dinheiro, no entanto, este não está nos currículos escolares. O que é o dinheiro? De quem é o dinheiro? Quem faz o dinheiro? Onde é feito? Onde são feitas as máquinas de fazer dinheiro? Quem trabalha nessas fábricas? Ninguém nas escolas sabe nada sobre isto. Porquê?

Esta é apenas uma das inúmeras coisas que não se aprendem na escola, onde, no entanto, se ensinam e aprendem tantas coisas desejadas e indesejadas.

sábado, 27 de setembro de 2008

rios de poesia

Antes de haver internet e blogs era muito complicado publicar. Agora há rios de poesia a correr para o oceano da net...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Como saber se o inverno vai ser frio

No outono os índios Blackfeet perguntaram ao Chefe se o inverno ia ser frio ou não. O Chefe não sabia realmente mas respondeu que sim, que o inverno ia ser frio, e que todos deviam ir apanhar e cortar lenha.

Como ele era um bom Chefe foi de seguida à cabine telefónica mais próxima, ligou para o Serviço Meteorológico Nacional e perguntou: “Este inverno vai ser frio?” O homem ao telefone respondeu, “Sim, com certeza que este inverno vai ser frio.”

Portanto o Chefe voltou para o seu povo e disse-lhes que se despachassem a apanhar ainda mais lenha.

Uma semana onde mais tarde ligou novamente para o Serviço Meteorológico Nacional “O inverno vai ser muito frio?”

“Sim,” respondeu o homem, “vai ser um inverno muito frio.”

Assim o Chefe voltou para o seu povo e disse-lhes que apanhassem cada bocadinho de madeira que conseguissem encontrar.

Duas semanas mais tarde telefonou outra vez para o Serviço Meteorológico Nacional e perguntou: “Tem a certeza absoluta de que o inverno vai ser muito frio?”

“Absoluta” respondeu o homem, “os Blackfeet andam a apanhar lenha que nem doidos!”

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

"O gosto de escrever que vou perdendo"

Hoje encontrei um site onde está todo o texto de Os Lusíadas e que permite pesquisar palavras no texto, o que pode ser um passatempo interessante. Foi assim que descobri esta frase de Luís de Camões:

“O gosto de escrever, que vou perdendo.” Canto X, estrofe 8, linha 8

E veio-me à memória uma frase batida: acontece aos melhores.

Obrigada também ao Sérgio Godinho porque não me ocorreu melhor que citá-lo :)

Que seria de nós sem os nossos poetas?

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Silêncio

Não basta não dizer nada, ou não escrever nada, para transmitir silêncio.

O silêncio não se transmite, está sempre aqui para nós - podemos ocultá-lo com barulho, ou brincar com ele com música, mas não podemos criá-lo nem destruí-lo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Um acordeão faz-se por três fases

José Domingos Horta, construtor de acordeões, Tavira

«Um acordeão faz-se por três fases: é a caixa, o fole e a mecânica. Isto antes de tocar, porque depois vem a música e os cepos. Faço tudo, está a ver? As peças, essas também as faço aqui. Cada cunho daqueles faz uma peça…».

«Aqui só se compram os botões, os fechos e os grampos. De resto, tudo é feito por mim».

«Ainda no outro dia deu uma reportagem, na televisão, a dizer que a única fábrica de acordeões estava em Ferreira do Zêzere. Mas só eu é que os faço do princípio ao fim! As outras pessoas montam peças ou reparam-nos.»

«Ainda quis ensinar a alguns jovens as técnicas, mas a verdade é que foi mais o tempo que demorei a preparar o material, do que o que eles estiveram na oficina. É preciso vagar para aprender e as pessoas não estão para isso»

sábado, 20 de setembro de 2008

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Acordar

Acordar é uma experiência quotidiana que nunca acontece da mesma maneira.

Quando acontece de manhã dá início áquilo a que chamamos um dia. Quando acontece a meio do dia dá início a um período de vigília. Quando acontece a meio da noite dá início a um período de insónia.

Lá, de onde acordamos, tivemos ou não tivemos sonhos de que nos recordamos ou não nos recordamos e nos fazem sentir o que sentimos ao acordar.

Cá, onde acordamos, há que estabelecer a relação com o onde, o quando e o como estávamos quando nos deixámos dormir - o que nem sempre é fácil - e ainda com o onde, o quando e o como estamos ao acordar - o que também pode ser difícil.

Ao acordar podemos sentir a realidade a reconstituir-se para nós.