Segunda-feira, Novembro 23, 2009
Sexta-feira, Novembro 20, 2009
a paixão de ler
ler grandes textos no écran do computador torna a leitura difícil e desagradável e por isso dificilmente teria acreditado que havia de ler 264 páginas tão de seguida quanto possível e lamentando amargamente cada interrupção - mas a capacidade de me surpreender a mim mesma continua a existir.
o que me fez perder a cabeça de tal maneira que praticamente tudo o mais deixou de existir, foi "o sol da meia noite" escrito por Stephenie Meyer.
ela andava a escrever o texto para vir a ser um livro mas alguém o publicou na internet sem o seu consentimento e a partir de então ela resolveu pô-lo no seu próprio site, para que os leitores não se sentissem mal de o lerem noutros, e desistiu de continuar a escrever "o sol da meia noite" - o que lá está é o que há e ela diz que não vai haver mais, nem vai haver livro.
está em inglês e deixo aqui o link, sem mais comentários.
Quinta-feira, Novembro 19, 2009
a paixão pelos livros
As pessoas que gostam de livros devem trabalhar em bibliotecas? As pessoas que trabalham em bibliotecas não devem gostar de ler? Tentamos descobrir a verdade e traduzi-la em frases, mas ela não se deixa apanhar, nem se importa com o que dizemos.
O maior ladrão de livros terá sido o conde italiano Guglielmo Libri (1803-1869) e "libri" quer dizer "livros" em italiano, mas era um dos seus nomes de família e não uma alcunha.
Excelente matemático, Guglielmo Libri estudou na universidade de Pisa onde foi nomeado professor aos 20 anos. Provavelmente não gostou de ensinar porque no ano seguinte pediu uma licença sabática e foi para Paris.
Escreveu uma história matemática para a qual se apropriou de livros e manuscritos de Galileu, Fermat, Descartes e Leibniz na Biblioteca de Florença.
Em França foi nomeado inspector das Bibliotecas Públicas e terá levado mais de trinta mil livros consigo quando fugiu para Inglaterra antes que o prendessem.
Membro da Academia das Ciências Francesa e detentor de uma Legião de Honra imagina-se que o processo não tenha sido simples.
Depois da sua morte a maioria dos livros voltou para as Bibliotecas de onde os tinha levado.
Segunda-feira, Novembro 16, 2009
simplificar a linguagem: Toki Pona
Toki Pona = linguagem simples ou linguagem boa, foi criada para dizer o máximo usando o mínimo: 123 palavras e 14 sons.
Toki Pona baseia-se na tradição espontânea de criar uma língua comum por pessoas que falam línguas diferentes.
Foca-se nos elementos universais da vida: pessoa, comida, água, bom, dar, dormir, ... e elimina todos os conceitos que ultrapassem as necessidaes básicas de sobrevivência e comunicação.
O conceito fundamental é Pona = bom, simples.
É uma linguagem que em vez de desligar da experiência directa através de conceitos abstratos e complexos, religa o falar ao ambiente em que ocorre, ao agora da comunicação.
As suas 123 palavras têm origens muito diversas.
Sábado, Novembro 14, 2009
ler muitos livros
"Era uma sensação estranha - não surpreendente, supunha, porque agora tudo me parecia estranho - sentir-me natural em alguma coisa. Como humana, nunca fora a melhor em coisa alguma. (...) Nunca ninguém me atribuíra um prémio por ler muitos livros. Ao fim de dezoito anos de mediocridade, estava mais do que habituada a ser uma criatura mediana. Agora apercebi-me de que pusera de lado, há muito tempo, a aspiração a ser brilhante em algo. Limitara-me a fazer o melhor que podia, com o que tinha e sem nunca me adaptar totalmente ao meu mundo."
Stephenie Meyer, Amanhecer, p. 522, Gailivro, Alfragide, 2009
Sexta-feira, Novembro 13, 2009
por aí fora...
- as percepções e as ideias fluem, relacionam-se intimamente. acontecimentos reais e (i)maginários concatenam-se numa realidade bem mais vasta que aquela à qual achámos por bem reduzir-nos e que convém, sobretudo, às mentes circunscritas e quanto mais se circunscrevem. e, no entanto, todos participamos de uma realidade absolutamente vasta e inextinguível. da qual ignoramos tudo excepto que é dela que provimos, é nela que vivemos e a ela que regressamos. nada desconhece, porque tudo lhe pertence. chamamos-lhe natureza, mas alguns seres destacam-se no nosso sentimento de... há palavras para isto noutras línguas que nos provocam o mesmo sentimento. as palavras são poderosos acontecimentos. acontecimentos poderosos. completamente fluídas, fluem sem deixar rasto, ou deixando-o demasiado profundo na paisagem mental. roubam-se palavras, aqui e ali, deformam-se, são postas a dizer o que não dizem e mil e um outros jogos de linguagem.
- para quê? porque vivemos aí. a realidade é tão, oh, mais vasta, sem limites, nem que a possas saber infinita ou finita. nenhumas palavras lhe convêm porque é dela que todas provêm e nela que são esquecidas. este útero infinito, de onde provimos já no para cá. para cá de algo que não deixámos de saber e nos proporciona acesso a linguagens tão variadas quantas se podem imaginar.
- uma boa história é a que nos transporta, não apenas sem esforço mas com deliciosa e profunda antecipação. o medo é profundo mas ela é mais profunda ainda e muito, muito mais vasta, porque o contém. a ferocidade existe. mas é ela que a produz. o sentimento de reverência, a reverência profunda é também ela que a produz. nada desconhece, nada retém e tudo regressa como se fosse para a frente. que sabemos nós de frente e verso do universo? que é e ainda não é tão vasto como ela, a fonte de toda a luz e todas as trevas.
- chama-lhe andar. chama-lhe caminho. eis que descobres o fundamental? é provável que a tua mente se abra, vá abrindo, como a flor que pode vir a ser fruto, semente, árvore que se eleva sobre os muros ou cresce em densas e vastas assembleias que inspiraram os pilares com que construímos não tão vastos abrigos comunitários.
- das florestas viemos, fomo-las destruindo, primeiro devagarinho, elas não tinham fronteiras, era tudo floresta, excepto onde secava em vastos desertos, se humedecia em mares ou gelos... infinitas maravilhas. rios onde o ouro brilhava.
- as nossas histórias são todas sagradas, sobretudo as profanas. escatologia e sublime brotam do mesmo chão. chão, água, água, chão. navegar em mares sem fim, encalhar em canais estreitos, tudo é navegar.
- voar em sonhos faz parte da vida. tudo faz parte da vida, no lado de cá, e brota do lado de lá e lá existe e lá deixa ou não deixa marcas visíveis e invisíveis, e para lá regressa.
- palavras que criam, destroem, matam, ou amparam, confortam, maravilham. palavras para tudo o que nos conseguirmos lembrar, tudo o que nos ocorrer e conforme ocorre. o país das maravilhas não é ainda suficientemente onírico. limita-se a subverter a lógica, não a libertar-se dela. a lógica é uma grelha, uma estrutura, um esqueleto. e tudo se resume aí, esquecendo que as maravilhas da carne, como as suas podridões, não são mais nem menos reais. tudo é real de maneiras diferentes. mil e uma é ainda uma metáfora para o que não vale a pena contar, a areia no deserto, as estrelas no céu, os brilhos do mar.
- os campos de gelo, os pântanos intermináveis, tudo é real.
- mas as tuas crenças limitam-te. não sabes interpretar o canto dos pássaros, nem a direcção do vento, não conheces o perigo eminente da caçada. desdobras-te em eu e tu, em ti e ele, em ti e ela, em nós, em vós, e neles. Nós, escondido, no meio, é o mais vasto. Aqui, lá, além e mais além. "até onde levar a força humana".
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
Louvor da Srª Conceição
Com fermento e água
e com as mãos
fecundava a farinha.
Os punhos
cavavam, possuíam
a massa borbulhante
e ainda amarga.
Por fim
antes do fogo
cobria os filhos que fizera.
António Osório, A Raiz Afectuosa, 1965-1971
in António Osório por Eduardo Lourenço, p.54, Presença, Lisboa, 1984
A fotografia veio daqui, onde se podem ver fotografias recentes e antigas de Dogueno, um monte alentejano perto de Almodôvar.
Domingo, Novembro 08, 2009
aqui é domingo
são cinco da tarde, está de chuva e é quase de noite, que bom!
estamos tão habituados ao domingo que nem reparamos que é uma convenção, que a natureza não tem domingos, nem a maior parte das culturas
a globalização do domingo é recente, ainda há muitos lugares no mundo onde não é domingo mas onde as pessoas sabem exactamente qual é o dia lunar - a imagem é do calendário hindu
qual de nós sabe qual é hoje a fase da lua?
o domingo é o herdeiro cristão do sábado judaico: "o Criador descansou no sétimo dia"
os muçulmanos respeitam a sexta-feira pelo mesmo motivo e devido à mesma herança
os chineses e japoneses tinham e têm divisões do mês de dez dias
aos 30 anos escrevia assim
Se pudesses assegurar-me
cada vez que me sinto insegura!
Amparar-me a cada
amargura! Embalar-me quando
choro... Retomar-me cada vez
que fujo! Chamar-me quando
ensurdeço. Amar-me
quando me enamoro. Amar-me
cada vez que me esqueço!
Sexta-feira, Novembro 06, 2009
Quinta-feira, Novembro 05, 2009
A história de =
Até ao séc. XVI era preciso escrever sempre "é igual a" na língua vernácula ou em latim "aequalis" ou a sua abreviatura "ae".
No séc. XVI alguns matemáticos lembraram-se de criar um símbolo. Usaram primeiro duas rectas verticais.
Robert Recorde escreveu no seu livro "The Whetstone of Witte" (a pedra de afiar do espírito), que foi publicado em 1557: "para evitar a entediante repetição destas palavras: é igual a: estabelecerei, como faço habitualmente no meu trabalho, um par de paralelas ou linhas gémeas da mesma largura, isto é: =, porque não há nada que possa ser mais igual que duas linhas"
Quarta-feira, Novembro 04, 2009
Terça-feira, Novembro 03, 2009
as pessoas cheias de vontade
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
o esquecimento das sensações
Os acontecimentos são fáceis de recordar, mas o mesmo não se passa com as sensações que os mesmos acontecimentos nos causaram. Tudo quanto sei é que, à medida que estes acontecimentos se produziam, parecia-me que a natureza humana era incapaz de suportar uma dor maior.
Edgar Allan Poe (1838), Aventuras de Arthur Gordon Pym, p.145, Estampa, Lisboa, 1988
Sábado, Outubro 31, 2009
comer e brincar
牛車水 佛牙寺
Originally uploaded by Prometheus1021As preferências do divino
Um sacerdote passava frente a uma humilde aldeia. Ouviu uns risos alvoroçados e aproximou-se para ver a que se deviam. Havia uma mãe a dar de comer aos seus quatro filhos, mas o que surpreendeu o sacerdote foi ver que também dava de comer a uma imagem da divindade. O sacerdote irritou-se e gritou: «Mulher blasfema, como te atreves a brincar com a imagem de Deus?» Pegou na imagem e levou-a. Não podia permitir que fizessem dela um brinquedo. As crianças ficaram muito tristes e a mulher envergonhada. O sacerdote colocou a imagem sagrada no templo. Essa noite, em sonhos, Deus apareceu-lhe e disse: «Insensato! Quem te manda meter o nariz onde não és chamado? Não aceitarei nenhum sacrifício nem qualquer oferenda dos sacerdotes, porque onde eu era realmente feliz era naquela casa, com aqueles meninos. Portanto, assim que acordares amanhã, leva-me a eles. O templo é escuro e triste.»
Ramiro Calle, Os melhores contos espirituais do oriente, p. 63, A esfera dos livros, Lisboa, 2009
Sexta-feira, Outubro 30, 2009
o futuro atrás das costas
atirámos o Futuro para trás das costas e afundámo-nos tranquilamente no Presente, disfarçando em sonhos o néscio mundo que nos rodeava.
Edgar Allan Poe (1842), O Mistério de Maria Roget, p. 10, Relógio d'Água, Lisboa, 1988
Frase original: "we gave the Future to the winds and slumbered tranquilly in the Present, weaving the dull world around us into dreams."
As pessoas dos Andes que falam a língua Aymara apontam para trás de si quando falam do futuro. A palavra futuro é "qhipa" que quer dizer atrás ou nas costas. Pelo contrário apontam para a frente quando falam do passado e a palavra é "nayra" que quer dizer olho, à vista ou à frente.
O futuro não se vê, mas o passado está à vista.
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
homens e passarinhos
Fui ao café à hora de almoço e ouvi contar esta história que se passou cá:
Andava um homem no campo a montar uma rede para caçar passarinhos, veio a guarda, prendeu-o e levou-o ao tribunal.
Ele disse ao juiz:
-Aqui há uns anos obrigaram-me a ir para África matar pessoas que eu nem sequer conhecia! Agora estava a apanhar passarinhos para dar de comer aos meus filhos e prendem-me!?
O juiz libertou-o.
Terça-feira, Outubro 27, 2009
a neve ladroa
Não era desta neve que doba mansa do céu e parece, bailando, o esflorar das pereiras na Primavera; era a neve ladroa - como para aí lhe chamam - a neve das moscas brancas que voltejam, giram, rodopiam, vêm de trás, de diante, de baixo, dos lados, metem-se por todas as fisgas e grelhas à busca de coiro vivo em que ferrar. Soprava-lhes o nordeste, o grande bufador, e era vê-las de asas ligeiras, enchendo o céu, a voar, a voar umas atrás das outras, ora muito juntas, ora desenrodilhadas, num vira sem fim.
Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas, p. 94, Bertrand Editora, 1985
Terça-feira, Outubro 20, 2009
a maior felicidade
Conversando a sós contigo,
Desfruto o prazer imenso
De não pensar no que digo
E de dizer o que penso.
.
E mais uma vez
Afirmo
Sem receio que seja desmentido:
- A maior felicidade
É ser-se compreendido.
.António Botto, As canções de António Botto, p. 100, Edições Ática, Lisboa, 1975
Segunda-feira, Outubro 19, 2009
a começar a aprender
Quinta-feira, Outubro 15, 2009
mel de azinho
Comprei mel de azinho a um apicultor que me explicou que no Outono de 2007 choveu muito e houve tempestades que derrubaram ramos das Azinheiras. Onde os ramos se partiram escorreu a seiva, que é doce, e as abelhas fizeram com ela um mel muito escuro, quase preto, que foi o que eu comprei.
A fotografia fui buscá-la ao blog A Sombra Verde.
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
o que te surpreende?
O Talmud conta a história de um imperador romano que condenou os judeus à morte. Ele interpelou um dos sábios, antes de o entregar ao carrasco, e perguntou-lhe:
-Não compreendo como os judeus podem acreditar na ressurreição dos mortos.
Foi a filha mais nova do sábio que respondeu em seu lugar. Ela disse ao romano:
-Tu não existias no passado e agora existes. Isso não te espanta, mas a mim intriga-me a cada instante. Hoje existes e espanta-te que um dia possas voltar a existir? Pois a mim não me surpreende.
Documentário "Talmud" escrito e realizado por Pierre-Henry Salfati, ARTE, 2006
Quinta-feira, Outubro 08, 2009
Formigas com asas
Formiga-de-asas ou Agúdia // Harvester Ant (Messor barbarus)
Originally uploaded by Valter Jacinto Algarve - PTTerça-feira, Outubro 06, 2009
a idade do avô
-O teu avô é diferente dos teus pais?
-É.
-Em quê?
-No cabelo. O cabelo dele é cinzento.
-O teu avô é velho?
-É.
-Quantos anos tem?
-Não sei. (Grande pausa) Talvez 14.
Diálogo com uma menina de três anos no documentário "The grandparent diaries" de Jo Abel.
Sexta-feira, Outubro 02, 2009
arco-íris transformado em pedra


