Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




sábado, 25 de dezembro de 2010

um ciclo infinito

Acabo de receber este aviso na internet ao carregar num link: "A página solicitada tentou redireccioná-lo para a mesma página, o que pode provocar um ciclo infinito."

Suponho que o perigo do "ciclo infinito" seja bloquear o computador ... !?

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

o sangue dele

uma papoila floriu-lhe na boca e eu queria

que queria eu?

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o Sol iluminou-a

e eu desviei os olhos para ocultar o desejo

que se cristalizou em permanente "deja vu"

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foi sobre a alta fortaleza

e junto à santa

que a beleza do sangue se fez flor de luz

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

amor

"Não somente dá vida aos mal feridos, Mas põe em vida os ainda não nascidos."

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Luís de Camões, Lusíadas, Canto IX, 32, 7 e 8

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

o mel e o alho, o velho e o novo

Seguindo o calendário Juliano a Igreja Ortodoxa celebra o Natal no dia 7 de Janeiro. Entre as tradições encontrei esta: «A Mãe da família abençoa cada pessoa presente com mel em forma de cruz na testa, dizendo: "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, possas tu ter doçura e muitas coisas boas na vida e no novo ano." Depois todos partilham o pão, molhando-o primeiro em mel e depois em alho picado. O mel é símbolo da doçura da vida, o alho da amargura.» Na imagem frasco russo de mel com alho.

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Ainda segundo o calendário Juliano a noite de ano novo é de 13 para 14 de Janeiro, de modo que os russos chamam a esta festa "velho ano novo".

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

domingo, 12 de dezembro de 2010

reconhecer a abundância

"A Abundância do Universo" é o nome de um vídeo no youtube - está em inglês, eis a tradução: quantos grãos de areia podemos contar na mão? quantos grãos de areia podemos contar na praia? quantos grãos de areia podemos contar no deserto? quantas gotas de água podemos contar? no copo de água? na piscina? no oceano? no planeta terra? uma simples semente pode originar uma nova planta completa. uma planta tem uma infinidade de sementes. quantos peixes podemos contar no oceano? quantas folhas podemos contar numa árvore? vivemos num Universo Próspero e Abundante. reconhece a Abundância. (carregar aqui para ver)

noite sem fim


Alexander Gronsky - Noite sem fim, Noite Polar, Murmansk, Russia, 2007

Endless Night, Polar Night in Murmansk, Russia, 2007

domingo, 5 de dezembro de 2010

agradecer o desejo

Não Quero Mais que o Dado

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Do que quero renego, se o querê-lo

Me pesa na vontade. Nada que haja

Vale que lhe concedamos

Uma atenção que doa.

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Meu balde exponho à chuva, por ter água.

Minha vontade, assim, ao mundo exponho,

Recebo o que me é dado,

E o que falta não quero.

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O que me é dado quero

Depois de dado, grato.

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Nem quero mais que o dado

Ou que o tido desejo.

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Ricardo Reis, "Odes"

sábado, 4 de dezembro de 2010

uma estrela sem nome

Uma Estrela Sem Nome

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Quando um bebé é desmamado,

facilmente esquece e começa a comer comida sólida.

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... As sementes alimentam-se no chão,

depois levantam-se para o Sol.

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Assim tu deves provar a luz filtrada

e fazer o teu caminho para a sabedoria

sem protecção pessoal.

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Foi assim que chegaste aqui,

como uma estrela sem nome.

Move-te pelo céu nocturno

com essas luzes anónimas.

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RUMI

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

o cobertor barulhento

Numa noite de inverno, enquanto Nasruddin estava a dormir ouviu de repente barulho na rua. Embrulhado num cobertor saiu para saber a causa do barulho. De repente um ladrão esperto roubou-lhe o cobertor e fugiu. Por isso ele voltou para casa sem o cobertor. Respondendo à mulher que lhe perguntou a causa do barulho, Nasruddin disse, "Aquele barulho todo era por causa do meu cobertor."

domingo, 28 de novembro de 2010

o especialista das narinas direitas

"Já não se encontram médicos à moda antiga, que tratavam todas as doenças. Agora só há especialistas. Temos uma doença de nariz? Enviam-nos para um grande especialista parisiense. O homem examina-nos o nariz. «Não posso», diz ele, «curar-lhe a narina esquerda, pois não é a minha especialidade; só trato das narinas direitas. Vá a Viena, onde há um especialista das narinas esquerdas.»"

Dostoievski, Os Irmãos Karamazov, p. 553, Estúdios Cor, Lisboa, 1958

Escrito em 1879 :)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Chuváchia

A República Chuvache faz parte da Federação Russa, a sua capital é Cheboksary. Tem duas línguas oficiais: o chuvache e o russo.

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A língua chuvache é de origem turca. Já foi escrita com runas e com os alfabetos árabe e latino. Agora escreve-se unicamente em cirílico porque a Rússia não permite que as línguas minoritárias usem o alfabeto latino.

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Esta imagem é um calendário relacionado com a cerveja e as festas tradicionais chuvaches.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ando no mundo a ler

Fanatismo Florbela Espanca Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida Meus olhos andam cegos de te ver! Não és sequer razão de meu viver, Pois que tu és já toda a minha vida! Não vejo nada assim enlouquecida... Passo no mundo, meu Amor, a ler No misterioso livro do teu ser A mesma história tantas vezes lida! Tudo no mundo é frágil, tudo passa..." Quando me dizem isto, toda a graça Duma boca divina fala em mim! E, olhos postos em ti, vivo de rastros: "Ah! Podem voar mundos, morrer astros, Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

domingo, 21 de novembro de 2010

uma cena barulhenta

A senhora Koklakova:

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"Entretanto, eu pensava, estendida como estou agora: «Devo ou não expulsar Mikail Ivanovich pela forma descomedida como falou a este rapaz que veio visitar-me?» Conservava-me de olhos fechados, sem conseguir decidir-me, aflitíssima, de coração palpitante. «Grito ou não grito?» Uma voz dizia-me: «grita», e a outra: «não grites». Mal ouvi esta outra voz desatei a gritar. Depois, desmaiei. Já se sabe, foi uma cena barulhenta."

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Dostoievski, Os Irmãos Karamazov, p. 500, Estúdios Cor, Lisboa, 1958

sábado, 20 de novembro de 2010

um súbito vislumbre

"A qualidade peculiar da "alegria" na Fantasia conseguida pode assim ser explicada como um súbito vislumbre da realidade subjacente ou verdade."

JRR Tolkien, "The Notion Club Papers"

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

à procura

À procura de conhecimento a ciência conta uma história: a origem do Universo aconteceu há 13,7 biliões de anos com o Big Bang, a partir de então desenvolveram-se progressivamente as condições que tornaram possível a vida e a inteligência que procura o conhecimento.

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À procura de outros mundos e de outras vidas a Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, através da Ciência Viva, promove um concurso de Astrobiologia destinado a professores e alunos do Ensino Secundário.

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Serão critérios de avaliação a clareza do texto e da apresentação oral, a correcção científica, a objectividade e a correcção linguística.

domingo, 14 de novembro de 2010

presumo

Presumo que seja o Dr. Livingstone,

Que sai da selva escura,

Para o Sol do meio-dia.

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Que é que encontrou lá,

Parou um pouco e ficou a olhar,

Encontrou alguém?

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Vi imensas borboletas,

Vi pessoas grandes e pequenas,

Ainda não encontrei o que procuro.

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Andamos todos à procura de alguém.

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Capitão Scott, era tão corajoso,

Agora parece bastante frio,

Aí fora na neve.

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Vi ursos polares e focas,

Vi enguias gigantes na Antártida,

Ainda não encontrei o que procuro.

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Colombo, a que está ligado,

Então pensa que o mundo é redondo,

Vá navegar no azul.

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Há tantos índios,

Vi-os em tantos lugares,

Ainda não encontrei o que procuro.

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Andamos todos à procura de alguém.

Andamos todos à procura de alguém.

Andamos todos à procura de alguém...

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Moody Blues - Dr. Livingstone, I Presume (1968)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

mudanças

Um dia um ladrão, entrando em casa do Cogia (Nasredinn), agarrou em tudo o que lá estava e pondo as coisas às costas foi-se embora. Nasredinn, no entanto, vendo que alguém saía, seguiu o ladrão que foi para a sua própria casa. O Cogia que o seguia de perto chegou-se à porta quando ele estava para entrar. Então o ladrão disse: "Que queres Cogia Efendi?" "O que quero?" disse Nasredinn. "Não é hoje o dia da mudança para aqui?"

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

incredulidade

Mulla Nasrudin tinha ido a outra aldeia. À noite quando voltou para casa descobriu que tinha perdido a sua cópia favorita do Corão. Bastantes dias depois chegou uma cabra a sua casa trazendo o Corão na boca. Nasrudin não podia acreditar no que via. Tirou o sagrado Corão da boca da cabra, levantou os olhos ao céu e exclamou "É um milagre!"

"Nem por isso." disse a cabra "O teu nome está escrito na primeira página."

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

criar obstáculos

O homem que forja na alma

O Sim e Não

Cria os obstáculos

Do Ser e do Nada.

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Como poderiam detê-lo

Actos e Qualidades

Se, criado livre,

Ele próprio os cria?

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Rubaiyat de Jalal Al-Din Rumi

traduzido da tradução para inglês de A.J. Arberry, 1949

poema 4 de "Loucura" (Folly)

a imagem é de Demakersvan

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Damasco

Syrie, 2010 Upload feito originalmente por gerard michel
Devo dizer que escolhi este desenho entre os muitos de Gerard Michel porque a casa inclinada me tocou especialmente, mas convido-vos a ver todos os desenhos que ele tem no flickr porque os considero incrivelmente bons.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

completamente importante

perturbação inexplicável ... o coração salta no peito, um aperto por dentro ... é medo? não é medo? que é? é o mistério ... hipnotiza-nos ainda antes de olhar ... atracção, desejo de proximidade ... não, nada disso ... não se sabe o que é, nem o que se quer ... é uma inquietação, uma perturbação e também ... adoração ... enfim ... é uma distância que atrai e uma proximidade que assusta ... um estado intenso e completamente importante, porque tudo o mais desaparece, perde valor ... é inquietação, desassossego e timidez ... talvez nada disto mas qualquer coisa para a qual não pode haver nome ...

a fotografia é do filme Jesus Christ Superstar, o link é para um site que tem a letra da canção de Andrew Lloyd Webber, com texto de Tim Rice, "I don't know how to love him" que também se pode ouvir.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

HIBERUS

Cavalo (o link é para um fórum sobre sítios arqueológicos em Portugal, é preciso descer na página até 12 de Março de 2006) Mosaico dos Cavalos, Vila Romana, Sítio arqueológico de Torre de Palma, Vaiamonte, Monforte, Alentejo

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

imaginações

"As pessoas da sociedade dividem a humanidade em duas categorias opostas. A primeira, turba insípida, estúpida e, sobretudo, ridícula, imagina que os maridos devem ser fiéis à mulher, as raparigas puras, as mulheres castas, os homens corajosos, firmes e sóbrios, que é preciso educar os filhos, ganhar a vida, pagar as dívidas, e outras frioleiras; são os fora de moda. A segunda, pelo contrário - a «alta-roda» -, a que todos se gabam de pertencer, preza a elegância, a generosidade, a audácia, o bom humor, abandona-se sem pudor a todas as paixões, e não quer saber de mais nada."

Leão Tolstoi, Ana Karenine (1873-77), tradução de José Saramago, p. 124, Estúdios Cor, Maio de 1969

Retrato de Leo Tolstoy, 1887, por Ilya Repin

sábado, 23 de outubro de 2010

amor do coração da erva

A linha na mão gentil de uma mãe

Faz o casaco para as costas do viajante.

Antes dele partir ela apertou as costuras

Com secreto receio de que ele tardasse a regressar.

Quem diria que um centímetro de erva tem no coração

Amor suficiente para toda a luz do Sol da primavera?

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tradução da tradução inglesa do poema Canção do Viajante de Meng Jiao (Meng Chiao) 孟郊 Mèng Jiaō (751-814)

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pintura de Anna Hsu

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

luz

A ciência procura constâncias: o que nunca muda. A mais enigmática das constantes físicas é provavelmente a velocidade da luz no espaço. Não importa onde nem quando nem se a luz vem para cá ou vai para lá, a física mede sempre a mesma velocidade da luz. Em relação a este movimento constante qualquer outro movimento é relativo: depende da velocidade do que é medido e daquilo que mede.

A constância da velocidade da luz depende de duas outras (não tão constantes) relacionadas: o espaço e o tempo - que não são tão constantes porque as massas os deformam. Apesar disto a velocidade da luz continua constante.

A velocidade da luz é tão elevada que até ao séc. XVII se pensava que era instantânea - o que acontece à superfície da Terra e na vida quotidiana é que se faz fogo aqui e a luz é vista imediatamente a quilómetros de distância. Mas já não é assim quando se observa a luz no espaço. Que a luz se move foi descoberto usando o telescópio para observar as luas de Júpiter.

A luz demora, portanto, um certo tempo a viajar no espaço, o que a torna mais material - diz-se que é composta por partículas a que se chama fotões.

Vem tudo isto a propósito de João Magueijo, um físico português que propõe que, embora a velocidade da luz seja constante agora, talvez não o tenha sido no início do Universo. O seu livro "Mais rápido que a luz" é sobre isto mas também sobre as condições em que a ciência é realizada e as suas descobertas estabelecidas como verdades.

Certo é que procuramos constantemente a iluminação do conhecimento ;)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

mens agitat molem

mens agitat molem* é uma citação de Virgílio (70 aC - 19 aC): Eneida, capítulo VI (No Mundo dos Mortos). Eneias encontra o pai, Anquises, a quem pergunta quem são os que bebem as águas do Lethes, o rio do esquecimento, ao que o pai lhe responde que são as almas que hão-de vir a ter corpos e esquecem as suas vidas passadas. Eneias não compreende que as almas sublimes queiram voltar à vida. O pai explica-lhe então que "a mente (espírito) agita a matéria (mole)".

Na única tradução em português que encontrei na internet - Manuel Odorico Mendes (1799-1864) - a frase está diluída:

"Desde o princípio intrínseco almo espírito

(745) Céus e terra aviventa e o plaino undoso,

O alvo globo lunar, titâneos astros,

E nas veias infuso a mole agita,

E ao todo se mistura: homens e brutos,

Voláteis gera e anima, e o que de monstros

(750) O cristal fluido esconde. Há nas sementes

Ígneo vigor divino, enquanto a nóxia

Matéria o não retarda, nem o embotam

Órgãos terrenos, moribundos membros.

Daqui vêm dor, prazer, cobiça e medo;

(755) E à clara alteza os míseros não olham,

Em cega negregura encarcerados."

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A imagem é de Vladimir Kush, Partida do Navio Alado

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*é preciso carregar em "Mystic Verse" e depois em "Virgil's mens agitat molem" para aceder ao PDF (em inglês) que vos convido a ler.