Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sílvia e Túlio

Naquele tempo o casamento entre pessoas da mesma cor era muito mal visto. A política de homogeneização - a palavra era tão difícil de dizer que pronunciá-la correctamente distinguia a elite - valorizava as famílias mestiças e arco-íris. Uma família sem misturas era considerada anti-social e qualquer palerma lhes apontava o dedo e gritava injúrias com a arrogância de quem sabe que está com a maioria. Nesta época ser branco era o pior que se podia ser. Por tudo isto, Sílvia e Túlio, que eram brancos e já estavam à partida em desvantagem, reprimiam o seu amor e não queriam ter filhos um do outro.

Casaram convenientemente, tiveram filhos convenientes que não os poderiam acusar de egoísmo, como eles tinham feito aos seus pais, mas amavam-se. Este amor era, para ambos, dolorosamente incompreensível. Estavam anos sem se ver, cumpriam os seus deveres e eram felizes na medida certa. Convenciam-se até de que se tinham esquecido mutuamente. Até que se viam, de longe, de relance, e se enchiam de calor e de frio, tinham vertigens, perdiam a fala. Só descansavam quando se viam nos braços um do outro, correndo riscos que nem imaginavam, em lugares que não lhes ficava bem frequentar. A angustia, é certo, desvirtuava a alegria, mas apenas antes, apenas depois. Quando se encontravam fundiam-se na liberdade e no amor eterno. Porquê? Porquê? Não sabiam.

O tempo foi passando. Os filhos afastaram-se. Sílvia e Túlio enviuvaram. Naturalmente o destino juntou-os no mesmo lar de terceira idade onde puderam, finalmente, enlouquecer.

8 comentários:

Silvio Feitosa disse...

Muito belo este texto, somente posso diser isto.

Nivaldete disse...

O amor, o amor, o amor..., sempre. Esse foi triste. E o mais triste é ver que as convenções sociais podem levar à loucura...

teresa disse...

O desenrolar desta trama narrativa não se traduz num mero exercício de escrita, texto bonito e a fazer pensar ao olharmos os que vivem penosamente os dias (muitos de nós incluídos, mesmo que em acontecimentos do quotidiano), projectando-se no futuro em felicidade(s) adiada(s): 'um dia...quando chegar o bom tempo...quando eu ganhar a lotaria...', etc. Obrigada pela partilha:)

almariada disse...

obrigada pelos vossos comentários, é sempre bom ter leitores e saber como é que interpretam o que escrevemos...

WOLKENGEDANKEN disse...

:)) Adoro ! Uma utopia com um pequeno toque de cinismo ?

almariada disse...

isso, wolkengedanken, é o que tu lês...

gin-tonic disse...

Passar. Ler. Voltar atrás. Ter qualquer coisa para dizer e não saber bem o quê: gostar é pouco.
Se não sabes despedir-te, diz que já voltas.
É isso...

almariada disse...

muito obrigada! :)
até já gin-tonic!