Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




terça-feira, 29 de setembro de 2009

sabemos dormir

Fomos educados para acreditar que a ciência explica tudo mas duvidamos, de modo que pocuramos aquilo que a ciência não explica com um misto de esperança e desespero. De facto o que a ciência não explica são coisas muito simples, por exemplo: porque é que queremos ou não queremos acreditar que a ciência explica tudo... :)

O assunto deste post não é esse, o assunto deste post é "dormir". Toda a gente dorme, os animais dormem, as plantas... nem sequer acordam? Que sabemos nós?

Sabemos dormir.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

banksia

Banksia pode ser desde um arbusto rasteiro e até meio enterrado, a uma árvore, as maiores das quais chegam a atingir 30 metros. As banksias vivem na Austrália e produzem flores muito grandes e coloridas cheias de néctar do qual se alimentam insectos, aves e mamíferos. Alguns insectos depositam os ovos nas Banksias e as larvas também são muito apreciadas pelas aves e mamíferos.

Foi chamada Banksia porque o botânico da primeira expedição de James Cook, em 1770, se chamava Sir Joseph Banks e foi o primeiro ocidental a estudá-la e descrevê-la.

Naturalmente os aborígenes australianos conhecem-na há milhares de anos por outros nomes. Com água e banksias produzem bebidas doces.

A árvore foi pintada por Margaret Preston em 1939: velha árvore banksia no final da floração na propriedade dos Preston em Berowra.

O desenho botânico não está identificado.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

o que as mulheres realmente querem

Um dia o Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda foram à caça na floresta de Inglewood mas, com o entusiasmo da caçada, o Rei Artur afastou-se dos companheiros e acabou por se perder na floresta. De repente descobriu que o seu corpo estava completamente congelado e não conseguia mover um músculo. Um cavaleiro com uma armadura toda negra aproximou-se e disse:

"Artur, estás em meu poder. Deste injustamente as minhas terras a Sir Gawain e por isso vais morrer, a não ser que descubras a resposta a uma pergunta que te vou fazer."

Artur descobriu que podia falar e perguntou: "Quem és tu e que pergunta é essa?"

"Eu sou Gromer Somer Joure [O Homem do Meio Dia]. Se quiseres salvar a tua vida tens doze meses para me trazer a resposta a esta pergunta: O que é que as mulheres realmente querem?" Repentinamente, assim como tinha aparecido, desapareceu e o Rei Artur descobriu que já se podia mover.

Voltou para a sua corte com o coração pesado. A única pessoa que lhe perguntou porque estava perturbado foi Sir Gawain e o Rei Artur contou-lhe o que tinha acontecido na floresta. Sir Gawain propôs que perguntassem a todas as mulheres o que é que elas mais desejavam e que recolhessem as respostas num livro. Fizeram isso e as respostas encheram um livro enorme mas nenhuma lhes parecia a verdadeira resposta.

Pouco antes do dia em que o Rei Artur tinha que ir ter com Gromer Somer Joure, montou no seu cavalo e embrenhou-se na floresta de Inglewood onde encontrou uma mulher terrivelmente feia e que além de parecer terrível, com ranho a pingar do nariz, orelhas de burro, e uma boca aberta com dentes amarelos, também cheirava muito mal. Ela parou ao pé do Rei Artur e disse que sabia a resposta certa e que podia salvar-lhe a vida, se ele concordasse com as condições dela. Dalguma maneira ela sabia o que se passava. Ele perguntou-lhe quais eram as condições e ela respondeu:

"Eu sou a Dama Ragnell e quero casar com um dos teus cavaleiros: Sir Gawain." O Rei Artur ficou horrorizado. Disse-lhe que não podia prometer-lhe Gawain sem o seu consentimento e que voltaria depois de falar com ele.

Sem hesitar, Gawain, o mais nobre dos cavaleiros, respondeu que casava com ela imediatamente, mesmo que ela fosse o diabo, se com isso salvava a vida de Artur. Artur voltou à floresta onde a Dama Ragnell estava à espera. Disse-lhe que Gawain concordava em se casar com ela, se a resposta dela fosse a certa, mas se fosse uma das outras que tinham recolhido não mantinha a promessa. Satisfeita com isto, ela deu a resposta a Artur.

No dia marcado, Artur montou para se encontrar com Gromer Somer Joure. Gromer apareceu de repente, como da primeira vez, exigindo a resposta à sua pergunta. Arthur deu-lhe o livro com as respostas que tinham recolhido. Gromer leu o livro, riu com um riso profundo, e disse a Artur que se preparasse para morrer.

Artur disse: "Espera, tenho mais uma resposta" e deu-lhe a resposta da Dama Ragnell. Gromer urrou de frustração! "Só a minha irmã é que te poderia ter dito isso! Que ela seja queimada no fogo do inferno pela sua traição! Vai-te embora Rei Artur, estás livre!"

Então, Arthur foi buscar a Dama Ragnell e levou-a para a corte. Quando a viu pela primeira vez Gawain pareceu atordoado, mas corajosamente consentiu casar-se com ela no dia seguinte. As damas da corte choraram ao saber que um cavaleiro tão valente e tão belo se ia casar com uma mulher tão hedionda e os cavaleiros estavam contentes por nenhum deles ter de se casar com ela.

Ragnell exigiu uma grande festa no castelo com todos os nobres presentes. Tinha o mais caro dos vestidos, mas as suas maneiras eram repelentes. Comeu grandes quantidades de alimentos com altos sorvos e arrotos e por vezes a comida escorria-lhe pelo queixo. Grande foi a pena que todos sentiram de Gawain naquele dia!

Quando a festa do casamento acabou o casal foi para a sua câmara. Lá, Gawain olhou para o fogo, relutante em tocar na sua noiva, até que ela lhe pediu um beijo. Corajosamente, ele deu-lho e encontrou uma mulher linda nos seus braços. Ficou atónito e estupefacto e, quando finalmente recuperou a fala, perguntou-lhe como podia isto ser. A dama disse a Gawain que o seu próprio irmão, o gigante Gromer Somer Jure, a tinha enfeitiçado e que o feitiço só poderia ser quebrado se o melhor cavaleiro do mundo tivesse a coragem de se casar com ela e dar-lhe um beijo.

"Tenho esperado com aquele aspecto até encontrar um homem suficientemente gentil para casar comigo. Agora podes escolher: eu posso ser bela de noite e feia de dia, ou feia de noite, e bela de dia. O que preferes?"

Gawain pensou um pouco, ponderando os acontecimentos que conduziram a este momento, e então ocorreu-lhe a resposta que devia dar.

"Eu não posso fazer essa escolha, decide tu."

Ela gritou de alegria, "Meu senhor, és tão sábio quanto és nobre e verdadeiro, já que me deste o que uma mulher realmente deseja: poder decidir à sua vontade. Nunca mais voltas a ver a velha bruxa horrenda, porque eu escolho ser sempre bela a partir deste momento. Descobriste a resposta para o enigma do meu irmão: o maior desejo de qualquer mulher é poder tomar as suas próprias decisões."

Assim, Gawain e a Dama Ragnell geraram Gyngolyn da Távola Redonda, um cavaleiro cheio de força e de bondade.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

um salgueiro jovem

Há um passeio que gosto de fazer: saio da vila por uma estrada e vou até onde se encontra com outra estrada que volta para a vila. Ambas são pequenas estradas secundárias quase sem trânsito. A mais pequena e menos frequentada está a ser atravessada por uma circunvalação que também vai destruir os restos de uma fortaleza de pedra cuja idade é calculada em cerca de 5.000 anos.

Hoje à hora de almoço fiz este passeio e reparei num salgueiro jovem muito bonito. O verde claro das folhas e dos ramos que caem era agitado pelo vento, fazia lembrar água. Uma videira trepa pelo tronco. As folhas da videira são maiores e mais escuras e fazem lembrar vinho.

É extraordinário: escolher palavras para dizer isto é um exercício difícil, o que fica dito é uma possibilidade entre muitas e nenhuma delas vos mostra o que eu vi.

Não tenho máquina fotográfica mas, se tivesse, nenhuma fotografia possível vos mostraria o movimento dos ramos e das folhas do salgueiro. Um filme poderia mostrar, mas em nenhum filme poderiam sentir o calor do Sol. Foi o calor do Sol que me chamou para este passeio.

Não sei a quem pertence o salgueiro, há-de pertencer a alguém, estava dentro de uma propriedade com muros.

A beleza do salgueiro, que se me revelou quando passei, ainda não tinha visto. Sim, eu passei e parei um pouco mais à frente à sombra de uma oliveira, que o Sol estava forte, para olhar um pouco mais para o salgueiro. Não era preciso. Revelou-me toda a sua beleza quando passei.

Estive a ver na net e creio que é salix babylonica, muito jovem. Talvez com o dobro da minha altura.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

um cavalo de várias cores

Reinaldo Ferreira foi a vibração excessiva e intensa de quem tinha pouco tempo para fazer o seu «voo cego a nada».

«Quero um cavalo de várias cores,

Quero-o depressa, que vou partir.

Esperam-me prados com tantas flores,

Que só cavalos de várias cores

Podem servir.

......

Deixem que eu parta, agora, já,

Antes que murchem todas as flores.

Tenho a loucura, sei o caminho,

Mas como posso partir sozinho

Sem um cavalo de várias cores?»

E foi ao mesmo tempo a contenção e o rigor seco, sem enfeites. Noutro dos seus poemas diz-nos:

«Se nunca disse que os teus dentes

São pérolas,

É porque são dentes.»

Esta juventude de fogo e este rigor colheu-os o vento cedo. A sua vida, meteórica, balizou-se entre 1922, quando nasceu em Barcelona e 1959, data da sua morte em Moçambique, com 37 anos! Sem tempo de rever e de publicar a sua obra, reunida e dada a lume por alguns amigos.

Luísa Dacosta, De mãos dadas, estrada fora... 3, pp. 115 e 116, Figueirinhas, Porto, 1980

terça-feira, 22 de setembro de 2009

entre o Sol e o Oceano

A andorinha-do-mar-árctica (Sterna paradisaea) é uma ave com uma esperança de vida de cerca de 30 anos. Viaja do verão do Pólo Norte, onde nasce, para o verão do Pólo Sul todos os anos. Demora cerca de três meses a fazer a viagem e nesta altura, com alguma sorte, pode ser avistada das costas portuguesas. No final do verão antárctico as andorinhas do mar regressam ao árctico. Percorrem assim cerca de 35.000 km por ano e são os seres que vivem mais tempo ao Sol. Vivem quase sempre no mar, excepto para fazer o ninho e criar os filhotes. Conhecem e são conhecidas em todos os oceanos da Terra.

No site Sila há uma enciclopédia sobre o Árctico, onde também se encontra informação sobre a andorinha-do-mar. Este site sobre o ambiente e a cultura Inuit é produzido pelos Inuit.

Sila é uma palavra intraduzível. Quer dizer, ao mesmo tempo, atmosfera, tempo e ambiente mas como unidade viva que integra, é dinâmica e interactiva. Esta tentativa de explicação está provavelmente ainda longe do que o povo Inuit entende por Sila...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

dons divinos

Hoje é dia de São Mateus. Estamos na época das colheitas e começam as feiras e mercados do outono. Perto do equinócio os dias e as noites duram sensivelmente o mesmo. No sábado comprámos à beira da estrada figos, castanhas, laranjas, vagens de feijões já não verdes e ainda não secos, tomates maduros. Esta é a época da cornucópia, da abundância.

São Mateus antes de ser discípulo de Jesus era cobrador de impostos: publicano. Abandonou o seu emprego bem remunerado para seguir o Mestre. Escreveu depois o evangelho que tem o seu nome. Mateus significa "dom de Deus".

A imagem é do Livro de Horas de Ana de Bretanha, pintado por Jehan Bourdichon e Jehan Poyet, em Tours no início do séc. XVI. Os Livros de Horas eram, ao mesmo tempo, calendários e livros de orações. Mais imagens deste livro aqui.

Lá de fora vem um cheirinho a marmelada...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

as regiões dos DVDs

Aprendi à minha custa que os DVDs estão regionalizados. Se comprarmos um DVD numa região que não seja a nossa o mais provável é que o leitor de DVDs não o consiga ler. Digo que aprendi à minha custa porque comprei dois DVDs da região 1, dos quais ainda tive que pagar direitos alfandegários, mais uma taxa à transportadora que foi mais que os direitos alfandegários e os direitos e a taxa foram muito mais que o preço dos DVDs, e agora o meu leitor de DVDs não os lê porque só lê DVDs da região 2. Aqui fica o mapa das regiões dos DVDs.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

arte agrícola

Em Inakadate, no Japão, plantam-se diferentes variedades de arroz de modo a criar desenhos que se vão tornando visíveis à medida que o arroz cresce e amadurece. No final do verão faz-se a colheita.

Começaram a fazer isto em 2002. A ideia pegou e agora há mais campos de arroz desenhados no Japão.

Mais fotografias aqui.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

o lago e o poço

É bom ter um pouco de água na vizinhança, a dar sustentação à terra e a fazê-la flutuar. O menor poço, quando olhamos para dentro dele, mostra-nos que a terra não é continente, mas insular.

Henry David Thoreau, Walden ou a vida nos bosques, p. 104, Antígona, Lisboa, 1999

A tradução é da poetisa brasileira Astrid Cabral, adaptada ao português de Portugal por Júlio Henriques

Uma tradução alternativa da segunda frase seria: Dá-se muito valor mesmo ao mais pequeno poço porque quando olhamos para dentro dele vemos que a terra não é continente mas insular.

Walden é o nome do lago que inspirou esta reflexão.

O original (1854): It is well to have some water in your neighbourhood, to give buoyancy to and float the earth. One value even of the smallest well is that when you look into it you see that earth is not continent but insular.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

carbono camponês

As florestas, agrosilviculturas e agricultura de subsistência são sumidouros de carbono, de modo que as indústrias que poluem a atmosfera, como forma de compensação, subsidiam estas actividades. Esta imagem veio do blog de Douglas Sibbiondo e faço minhas as suas palavras: gosto da ideia mas, sobretudo, da imagem!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Revista "Fagulha"

No final dos anos 60 a minha mãe foi trabalhar para o Ministério da Educação. Eu passava o dia numa instituição para crianças ali ao lado mas a minha mãe levava o almoço e eu almoçava todos os dias na secretária dela. Àquela hora não estava lá mais ninguém.

No mesmo corredor, mais ao fundo, havia uma sala com prateleiras cheias de números atrasados da revista "Fagulha" para onde eu gostava de ir. Lembro-me que havia tantas revistas diferentes que nunca acabaria de as ler.

Quando a minha mãe voltou a dar aulas tornei-me assinante e recebia a revista pelo correio. A chegada da "Fagulha" era um grande acontecimento.

Aqui há tempos lembrei-me disto e procurei a "Fagulha" na net mas não encontrei nada.

Encontrei hoje. Fiquei a saber que era publicada pelo Comissariado Nacional da Mocidade Portuguesa Feminina (julgava que era publicada pelo Ministério da Educação mas, claro, faz todo o sentido), que a Directora e Editora era Maria Alice Andrade Santos e que, naturalmente, deixou de ser publicada a seguir ao 25 de Abril. Dois anos antes tínhamos ido viver para Macau e nessa altura a minha mãe deve ter cancelado a assinatura.

Fiquei também a saber que era uma revista de Banda Desenhada. É claro que me lembro que tinha muitos desenhos mas a esta distância diria que era uma revista que tinha muitas histórias... :) Algumas eram em verso.

Deixo aqui esta capa desenhada por Guida Ottolini. É o nº 183, de 15-08-1965.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

uma enseada que se chama Portugal

Há uma enseada na Terra Nova, Canadá, que se chama Portugal.

No verão de 1857 William Grey fez uma viagem e uma série de esboços, entre os quais este, de Portugal Cove, onde ele já tinha estado, em 1850, a construir a casa paroquial.

Mais para Sul há outra enseada que também se chama Portugal: Portugal Cove South onde Gaspar Corte-Real terá deixado um padrão (?) em 1501.

Seja como for esta aldeia de pescadores (253 habitantes em 2001) parece ser muito interessante: foi aqui que chegou o apelo de socorro do Titanic e existem nas proximidades fósseis com mais de 500 milhões de anos. Além disso continuam a pescar e secar bacalhau. Lembro-me muito bem de quando o bacalhau vinha da Terra Nova e era pescado por portugueses.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Leviatã

Detalhe de um mapa ilustrado e manuscrito para a relação da viagem de Sir Francis Drake às Índias Ocidentais em 1589. A viagem foi realizada por uma frota de 23 navios. Neste mapa o Norte está à direita. Para ver o mapa completo carregue aqui (Biblioteca Digital Mundial). Para mais informações carregue aqui (American Memory, Biblioteca do Congresso, EUA)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

à saída do bar

Ainda há tempo para ver o planeta Vénus? perguntou o Jorge que achava que o seu fato era bonito demais para voltar já para casa.