Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




segunda-feira, 30 de agosto de 2010

a maior distância possível

"Ao construir esta casa, Sir Ferdinando estava realmente preocupado apenas por um pensamento - a situação adequada das instalações sanitárias. A higiene era o grande interesse da sua vida. Em 1573 chegou mesmo a publicar sobre este assunto, um livrinho - agora extremamente raro - chamado Alguns Conselhos Privados da Autoria de um dos mais Distintos Conselheiros Privados de Sua Majestade, F. L., Knight, em que todo o assunto é tratado com grande conhecimento e elegância. O seu princípio básico na construção dessas instalações numa casa era o de assegurar a maior distância possível entre as casas de banho e os esgotos.

Daqui resultava, inevitavelmente, que as casas de banho deviam situar-se na parte mais alta da construção, ligadas por canos a fossos ou canais cavados na terra. Não se pense que Sir Ferdinando actuava apenas movido por considerações puramente materiais e sanitárias; para colocar as instalações sanitárias moviam-no também algumas boas razões de ordem espiritual. Visto que, como argumenta no terceiro capítulo dos seus Conselhos Privados, as necessidades naturais são tão brutais e primitivas, que ao obedecer-lhes chegamos a esquecer que somos as criaturas mais nobres do Universo."

Aldous Huxley, Férias em Crome, p. 88, Livros do Brasil, Lisboa, s/data

a ponte dos imortais

The Immortal Bridge Originally uploaded by Hesspoint

Taishan, Shandong, China

Taishan é mais sagrada das cinco montanhas sagradas da China. É a montanha do grande poder.

Após a subida ao trono os Imperadores iam lá em peregrinação e faziam sacrifícios para que a montanha lhes fosse propícia.

Poetas e literatos, incluindo Confúcio, também lá foram e deixaram belos textos escritos com bela caligrafia, que lá permanecem.

Em chinês diz-se de algo muito firme ou importante que é estável ou de peso como a montanha Tai.

O seu ponto mais alto é o pico do Imperador de Jade, 1.545 m.

Da ponte dos imortais dizem os cientistas que é uma formação rochosa.

domingo, 29 de agosto de 2010

cântico do irmão Sol

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,

a ti o louvor, a glória,

a honra e toda a bênção.

A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar

e nenhum homem é digno de te nomear.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

com todas as tuas criaturas,

especialmente o meu senhor irmão Sol,

o qual faz o dia e por ele nos alumias.

E ele é belo e radiante,

com grande esplendor:

de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pela irmã Lua e as Estrelas:

no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pelo irmão Vento

e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno,

e todo o tempo,

por quem dás às tuas criaturas o sustento.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água,

que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pelo irmão Fogo,

pelo qual alumias a noite:

e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pela nossa irmã a mãe Terra,

que nos sustenta e governa,

e produz variados frutos,

com flores coloridas, e verduras.

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Louvado sejas, ó meu Senhor,

por aqueles que perdoam por teu amor

e suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados aqueles

que as suportam em paz,

pois por ti, Altíssimo, serão coroados.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

por nossa irmã a Morte corporal,

à qual nenhum homem vivente pode escapar.

Ai daqueles que morrem em pecado mortal!

Bem-aventurados aqueles

que cumpriram a tua santíssima vontade,

porque a segunda morte não lhes fará mal.

.

Louvai e bendizei a meu Senhor,

e dai-lhe graças

e servi-o com grande humildade.

.

S. Francisco de Assis

(Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

à dor do mundo

"Mamã e Filho"
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Toma, filho, a mão da mamã
O caminho para o Céu ainda está escuro
E nós iremos contigo juntos sempre em frente
Lá precisas ainda dos meus cuidados.
.
Tenho medo mamã!
A tua mão não está lá
E não voltarei a ver o Sol
A parede caída está a ficar mais pesada
E a centelha de uma curta vida apaga-se
.
Vai filho, calmamente, eu estou contigo,
A dor do mundo desapareceu para sempre,
Lembra-te apenas da família que te acompanha
Agora isso é especialmente importante
.
Tenho medo mamã!
A tua mão não está lá
E não voltarei a ver o Sol
A parede caída está a ficar mais pesada
E a centelha de uma curta vida apaga-se
.
Agora peço-te que não chores, mamã,
Ama e cuida das crianças vivas!
E nós vamos com os amigos sempre em frente
Ilumina o nosso caminho com o teu coração
.
A memória conservará a tua imagem, mamã!
O meu coração está a bater mais devagar
Claro que a esperança derrotará a morte,
E o filho voltará para ti na próxima vida!
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Tenho medo mamã!
A tua mão não está lá
E não voltarei a ver o Sol
A parede caída está a ficar mais pesada
E a centelha de uma curta vida apaga-se
.
VITAS
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Ver aqui com legendas (inglês e vietnamita)
Ver aqui com legendas (espanhol e inglês)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

já não havia morte, tristeza que é deste mundo

VIVOS!!!!!

Eu tinha dois avós que morreram.

Um dia, fui ao cemitério e ouvi um pássaro a

cantar ----------a cantar ----------a cantar

E já não havia morte, tristeza que é deste

mundo.

Ei! Eles estavam outra vez vivos ----------vivos

vivos ----------vivos ----------vivos

vivos

vivos ----------VIVOS!!!!!

Filipe Manuel, 7 anos

Maria Rosa Colaço, A Criança e a Vida, Ed. Itau, s/d (anos 60, séc. XX)

in: Matilde Rosa Araújo, "A Estrada Fascinante", p. 31, Livros Horizonte, Lisboa, 1988

terça-feira, 24 de agosto de 2010

técnica e tradição

"Para que o antepassado de uma pessoa seja particularmente benéfico, ele (pois isto aplica-se sobretudo a antepassados masculinos) deve ser enterrado no lugar correcto. Isto tinha que ser feito por um perito em geomancia. Ele teria em atenção a configuração do terreno, a relação entre elevações, cavidades e ribeiros, para decidir qual seria o lugar mais propício. O mais famoso perito moderno em geomancia do Vietname do Sul era conhecido por fazer o seu exame do terreno de cima, num helicóptero, um exemplo de como a ciência e a tecnologia não fazem desaparecer as convicções religiosas, mas pelo contrário servem para as reforçar."

in: Religião no Vietname

A fotografia é das marionetas aquáticas. Este teatro de marionetas manipuladas com longos paus por baixo de água é tipica do Vietname, sendo razoável supor que terá começado nos lagos. Agora fazem digressões por todo o mundo. O espectáculo é realizado numa piscina transportável e as pessoas escondem-se atrás de uma esteira de bambu, disfarçada pelo cenário, que lhes permite ver os bonecos e as esconde do público. Usam botas de pescador, muito altas, porque elas próprias estão ajoelhadas dentro de água. Os espectáculos são extraordinários, felizmente tive oportunidade de ver um aqui em Portugal.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Lisboa, 1918

A JANELA DA MINHA INFÂNCIA

Estávamos em 1918. A minha rua era então uma pequena rua de província, situada quase fora de portas: de um lado, uma escassa correnteza de prédios que pouco ultrapassava a Rua Francisco Sanches. Do outro a fila ainda era menor: uns oito prédios dispersos erguiam-se sozinhos, desengonçados com a timidez da idade ingrata. Para "além" eram os campos do Areeiro, a "Perna de Pau", o cemitério...

Tudo quanto a imaginação de uma criança pode engendrar de tenebroso sobre o desconhecido estava para mim concretizado nesse "além".

À noite, o mistério adensava-se, por vezes ouviam-se gritos vindos daqueles lados (ouviam-se ou seria eu que os ouvia?). Cobria então o medo com o cobertor e suava copiosamente enquanto o coração galopava, galopava através do escuro sem fim. Até que o sono misericordioso tudo vinha aquietar. Mas, no dia seguinte, os campos lá estavam firmes e longínquos na sua hostilidade impenetrável.

Esta suposta hostilidade afastava-me das traseiras e lançava-me invariavelmente na sacada do 1º andar donde eu dominava a rua. Era por essa janela que eu espreitava o mundo e o recriava à minha maneira. A panorâmica não era muito alegre, antes pelo contrário, era até bastante trágica: os cortejos sucediam-se de manhã à noite sem interrupção numa debandada para o "além" o tal "além" que, para mim, mercê de um raciocínio pré-lógico, culminava no Alto de S. João*.

Pneumónica era a palavra que constantemente me soava aos ouvidos: "morreu com a pneumónica". "Está com a pneumónica", "Foi a pneumónica". Quem seria essa tal pneu-pneumónica? Tão má e com um nome tão esquisito?

Aquele movimento da minha rua, se bem que triste e muito repetido, tinha um certo aparato e tenho que confessar que me distraía bastante. Às vezes porém acontecia passarem cortejos com fardas de militares, crepes e música. Então talvez devido à música, sentia-me triste e vontade de chorar. Era nessa altura que sentia pregados em mim os olhos muito brilhantes de D. Angelina.

A D. Angelina era a vizinha que morava numa cave mesmo em frente da minha janela: alta, muito magra, calçando uns sapatos de saltos cambados e usando sempre (se a memória não me atraiçoa) o mesmo casaco de cor indefinida e a mesma gola de pele como traço de suprema elegância: um pequeno chapéu preto adornado com uma peninha vermelha e um véu que lhe dissimulava o rosto e lhe escondia a idade.

Quem era a D. Angelina ninguém o sabia. Havia quem aventasse que ela já tinha sido uma grande senhora, mas a maioria afirmava que não passava de uma toleirona, de uma pelintra, de uma pindérica...

Adjectivos tão variados iam alargando os meus conhecimentos do vocabulário de mal-dizer e aumentando a minha secreta simpatia por essa figura misteriosa que mantinha sempre a mesma calma olímpica perante aquelas que a miravam de soslaio. Pontualmente saía todas as manhãs e voltava com uns pequenos embrulhos que deveriam ser as suas reduzidas compras.

A pouco e pouco foi-se travando uma espécie de diálogo mudo entre a minha sacada e a cave da D. Angelina. Muitas vezes surpreendia o seu olhar fixo em mim, eu então acenava-lhe um adeus e ficava com a impressão de que ela me correspondia por detrás das cortinas.

Outra das minhas distracções era o observar as "bichas".: logo de manhã começava a "bicha" do pão e do leite, depois era a do azeite, do bacalhau, etc. Era divertido vê-las formarem-se muito direitinhas, com muita ordem e depois irem engrossando, engrossando. Até que rebentava um grande burburinho com as cestas a voarem pelo ar. Pouco depois aparecia a guarda que metia tudo na ordem...

Um dia calhou-me a mim o ser protagonista de um incidente de "bichas": ficara no lugar de minha mãe para guardar a vez. Esta responsabilidade fez-me sentir muito importante e, então do alto dos meus quatro anos exibia vaidosamente uma bolsinha de malha de prata que me tinha sido oferecida como prenda de aniversário. Eis que de repente senti um esticão e a bolsinha desapareceu como por arte mágica. Desatei a chorar e mais uma vez se levantou o burburinho do costume: "Eu não fui, Deus me livre se eu roubava um anjinho destes." "Oh sr. Guarda pode levar-me para a esquadra, mas juro-lhe por tudo que não fui eu!"

Entretanto a D. Angelina aproximou-se de mim, pegou-me na mão e disse-me baixinho: "Vem comigo que eu tenho lá em casa uma boneca muito linda para te mostrar e, com grande espanto de todos eu segui a minha vizinha." Entrámos. Lá dentro havia uma penumbra fria, cor de pérola e um cheiro bastante activo e indefinível que talvez se assemelhasse muito ao do bolor, mas isso não me desagradava nada, antes pelo contrário, aguçava-me o gume do mistério. A boneca lá estava em lugar de honra, sentada numa almofada entre volumes confusos (trapos? papéis?). Era de facto uma linda boneca, quase da minha altura, vestida de cetim azul e com um mantelete prateado; a palidez da sua cara de cera e a cor do cabelo quase branca davam-lhe um aspecto irreal como se se tratasse de uma imagem desfocada.

É a Mimi, disse-me. - Recebi-a das mãos de S. Majestade - ao pronunciar "Sua Majestade" fez uma profunda reverência, o que me deixou bastante admirada, pois julgava a minha amiga feita de uma só peça. "Sim, essa gentinha aí da rua é que não me conhece, mas eu vim de muito alto." De mim para mim, eu perguntava-me porque estaria ela agora ali a morar tão baixo."

Sílvia Soares

Publicado no jornal "República", 12-01-1968

in: Matilde Rosa Araújo, "A infância lembrada", p. 215 a 217, Livros Horizonte, Lisboa, 1986

*Alto de S. João, cemitério de Lisboa: "foi construído por ocasião da epidemia de cólera morbus que assolou a cidade de Lisboa em 1833, ficando destinado a servir os moradores da zona oriental da cidade. Durante mais de um século foi a maior necrópole de Lisboa, razão que explica o seu carácter ecléctico, apresentando construções de cariz popular misturadas com outras mais elaboradas. A Primeira República escolheu este espaço para homenagear os seus heróis."

domingo, 22 de agosto de 2010

as qualidades do silêncio

Mozart terá dito: "Aquilo que me faz mais feliz é a aprovação silenciosa."

O ar e o pensamento são invisíveis, mas as suas acções tornam-se visíveis.

Chamamos acções ao que surge do silêncio invisível por um salto que atravessa a ignorância.

Platão (Fedro, 242 c) atribui a Sócrates: "A alma tem, camarada, um poder incontestável de adivinhação."

Será possível regressar à primordial disponibilidade de aprender? É preciso esquecer tudo... é preciso morrer...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

ó fadas minerais

EXORCISMO PARA AS MÃES VOLTAREM DOS MONTES

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Cesse o ímpio desterro, ó Mães, e redivivo

Restaure o rito as torres das primeiras crenças!

Vossa espectral ausência foi-nos tempo perdido

Em factícias ciências.

.

Fomos nós que fugimos ou vós as foragidas

De um descarnado credo? e em vagos horizontes

Do nosso sangue errais, a prantear-nos longínquas...

Ó Mães, descei dos montes!

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Estorcem-se em batalhas os campos dolorosos

E, numa correria por sonhos maus, em trânsito,

De uma guerra em guerra, somos um vaguear de autómatos

Numa névoa de sangue.

.

Perdulários perdemos os nossos nomes próprios

E nas cinzas do verbo os números ensinam

A lógica mais triste de sermos uns para os outros

Motivos de chacina.

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Antes que as flores expirem numa lenta agonia,

Passe um bando de mísseis e nos leve nas garras,

De iluminar o nada a luz fique vazia

E apodreçam as águas.

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Antes que o tempo venha morrer nos nossos olhos,

Voltai do monte, ó nácar das madrugadas rústicas!

Ó Mães! Se os próprios deuses são vossos filhos pródigos,

Perdoai nossas culpas!

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Das moradas do ser éreis o muro e a telha,

Lençol tecido por mistérios femininos;

Numa inocência agrária, a lenha, o linho e a ideia

Segura dos caminhos.

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Éreis, de madrepérola, os pilares dos deuses claros,

A pureza do pão e a limpeza dos ventos.

Foi isto há tanto tempo. Para que estrela mudastes

As colunas do templo?

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Onde cantam as aves que emudeceis nos ecos?

Nascem e morrem os deuses. Só vós que os procriais

E lhes fiais os fados sois por cima dos séculos

Puramente imortais.

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Vinde, sábias de novo, inspirar os oráculos,

Expulsar dos vaticínios os restos funerários.

Apressai-vos, ó Mães! que as pestes já estão prontas

Nos nossos calendários.

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No tráfego da ira, semáforos nucleares

Já impedem o trânsito para as últimas esperanças.

Vinde, meigas e mágicas ó fadas minerais

De perdidas lembranças!

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Com a frescura da origem voltai e novamente

Brilhe o ovo de prata de que somos nascidos,

A paz entre nos sonhos; e à casta nascente

Retrocedam os rios.

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Cesse o nosso castigo, Mães, despregai da cruz

A estampa triste deste agonizar infindo.

O deus prostrado e tétrico que ensanguentou a luz

Também é vosso filho.

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Que pomba nos trará notícias do armistício,

Que rosa nos trará um perfumado rasto

Quando um deus condenado à lição do suplício

Diviniza o holocausto?

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Libertai-o e entre os deuses dai-lhe o lugar sadio

De filho humilde às vossas sentenças naturais.

Adorar só um deus é um orgulho sacrílego

Que não nos perdoais.

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Vinde fartas e férteis, claras vogais do verbo

Formosíssimas ânforas de bondade uterina!

Esconjurai, ó frutíferas!, os senhores dos ponteiros

Que marcam a chacina.

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Natália Correia, O Armistício, Col. Autores de Língua Portuguesa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1985

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in: Matilde Rosa Araújo, A infância lembrada, Livros Horizonte, Lisboa, 1986

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

imediatez em mudança

"A história é para este pensar não a sucessão de eras, mas uma única proximidade do mesmo que despoleta o pensar, em incalculáveis modos de destino e a partir de uma imediatez em mudança."

Heidegger, Caminhos da Floresta (Holzweg), p. 246, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002

terça-feira, 17 de agosto de 2010

do simbolismo realista

«A "coisa" que dura, o que é e se mantém, imagina-se como uma pedra, um "monolito", seja a "esfera" de presença de Parménides, da substância do monismo de Espinoza, ou mesmo do objecto de um dito "realismo ingénuo" adentro na pluralidade de coisas na leitura substancialista de matriz aristotélica. Esta simbolização, implícita no ente que se mantém, e que irá assim dar à Filosofia a sua disciplina de Ontologia, como teoria do ser (ente), faz hoje sorrir a ciência tanto Física, como Biológica..., pela ingenuidade de tal imaginação macroscópica do ser como "coisa", muito longe de outras possibilidades de escala em que tal noção de ser deixe de constituir motivo ingénuo. Não é apenas a base empírica convencional de certa coisa como tal, mas a "tridimensionalidade" da sua percepção, o suposto da realidade aquém desta e até o critério de identidade, de não-contradição..., que faz supor que o real seja coerente adentro da linguagem do senso comum, da representação habitual circunstante. Ou seja, que uma coisa, como ser, pode definir um "pronome pessoal", como ele, no ostensivo do isso, ou seja, de algo que se contrapõe à sua mesma captação pensante.»

Carlos H. do Carmo Silva, Da "pedra no sapato" à "pedra filosofal"... ou do simbolismo realista na filosofia

in: Revista Cais, Lisboa, Junho 2008

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

manuscrito de 24 de Setembro de 2001 (i)

As vontades e o acaso constituem padrões mutáveis de campos de força cuja evolução é previsível e imprevisível. Os ruídos, subtis ou penosos, ocultam o silêncio. A impotência e a perplexidade constituem o canto onde a inércia, encurralada, cria ferrugem e verdete. Lá longe - se é que ainda há distância - recomeça a guerra. Santa, como todas as guerras. As consciências baloiçam entre a preguiça e o medo. O momento arrasta-se. Empurrada para este posto de observação não sei que fazer com este olhar. Os movimentos humanos são pouco justificáveis, como os dos animais, o corpo tem necessidade de movimento e move-se pelo simples prazer de existir. Quem observa porém está, por definição, em repouso. Assim se limita a um só ponto de vista como se fora máquina fotográfica ou de filmar. O fascínio pelas máquinas é como o fascínio pela razão - a humanidade julga transcender-se quando se afasta da Vida. Enleada e alheada em palavras arrogantes dirige-se para o desastre sempre com a mesma crença na invencibilidade!

manuscrito de 24 de Setembro de 2001 (ii)

Não é no relógio que encontras o momento

Embora ele também aí esteja.

Não é em ti que te encontras

Embora também aí estejas.

O mistério está sempre presente

Eis porque não se sente

E o que sentimos muda-se

Como o Sol ao longo do dia e

Ao longo do ano - devagar

Para os nossos sentidos dormentes.

A Vida, porém, de onde vêm os seres

E os momentos, oculta pelo Tudo,

Nem muda nem pára nem tem

Momento

(a tinta acabou nesta última palavra)

manuscrito de 24 de Setembro de 2001 (iii)

Estava a tirar macacos do nariz e a aperceber-se da sua cor translúcida amarelada antes de, com um piparote, os atirar pelo ar. O Sol brilhava nos edifícios e no empedrado do chão. Tudo muito humano. Os velhos, de pé aos cantos da praça ou sentados nos bancos debaixo dos plátanos, conversavam. Mulheres e crianças passavam a pé. Os carros, esses novos animais metálicos, contornavam a praça batida pelo Sol. Tudo muito humano, até mesmo os plátanos cujas podas anuais lhes deram as formas baixas e bojudas que dão sombra aos bancos cinzentos. Três manchas de verde nos brancos das paredes. Suspensas as nuvens arrastam-se entre nós e a luz. Alimentada a peixe congelado e batatas calibradas eu esperava que os ponteiros do relógio alcançassem aquele lugar determinado que me libertava.

Todo este passado é inventado. É agora que espero que escrevo. É na previsão da leitura – minha ou alheia – que as formas verbais no passado se tornarão verdade.

Eis-me assim chegada ao ponto em que me faltam as ideias para continuar – cento e setenta e oito palavras.

sábado, 14 de agosto de 2010

adorável suprema realidade

"Nós meditamos no esplendor espiritual dessa adorável suprema realidade divina

Que é a fonte das esferas física, astral e celeste da existência.

Possa esse ser supremo divino iluminar o nosso intelecto, para que possamos compreender a verdade suprema." .

Gayatri Mantra

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

problemas da lógica da não contradição

"Se justiça e paz fossem contrários, cavalaria, que concorda com justiça, seria contrária à paz; e se o é, então estes cavaleiros que agora são inimigos da paz e amam guerras e trabalhos são cavaleiros, e os que pacificam as gentes e fogem de trabalhos são injuriosos e são contra a cavalaria. Logo, se isto é assim, e se os cavaleiros que agora existem exercem o ofício de cavalaria, se são injuriosos e guerreiros e amadores de mal e de trabalhos, eu pergunto o que eram os primeiros cavaleiros que concordavam com justiça e com paz pacificando os homens pela justiça e pela força das armas? Se nos primeiros tempos era ofício de cavaleiro pacificar os homens pela força das armas, e se os cavaleiros guerreiros, injuriosos que existem no nosso tempo não estão na ordem de cavalaria nem têm ofício de cavaleiro, onde está então a cavalaria, e quais e quantos são os que estão na sua ordem?"

Ramon Llull, Livro da Ordem da Cavalaria, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992, Edição subsidiada pela Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas do Ministério da Cultura de Espanha

terça-feira, 10 de agosto de 2010

o que é improvável...

NASCIMENTO

.

Luz branca. Eu não sei se isso do nascimento corresponde a um conteúdo repetido dos sonhos, ou se de facto... o que é improvável... Em princípio ninguém se lembra do acto do nascimento. Parece que cientificamente não se pode confirmar que um indivíduo que nasce tenha a percepção do seu próprio nascimento. Agora que existe uma imagem persistente, uma luz muito difusa, translúcida, e que através dessa luz figuras mal definidas que se debruçam sobre mim e sobre a minha mãe... Tenho uma vaga ideia disso. Há muitos anos que tenho essa impressão. Tudo parte de uma luz indiferenciável, uma luz que invade tudo, que me penetra por todos os lados. Tudo parte de uma luz branca. Uma luz láctea. E não é uma luz do tipo hectoplasma ou transcendental, pelo contrário, é uma luz imanente, uma luz vital, como se fosse uma película, como se fosse um banho de leite, estás a perceber? Que me mergulhasse a mim ou que mergulhasse o universo. Uma larva branca.

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Da reportagem de José A. Salvador

Zeca, na primeira pessoa

Diário Popular

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in: Matilde Rosa Araújo, "A Estrada Fascinante", p. 14, Livros Horizonte, Lisboa, 1988

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

fenícios pós-modernos

O Phoenicia é uma réplica de um barco fenício. A tripulação está a tentar descobrir possíveis navegações fenícias cerca de 600 a.C.. Estiveram nos Açores porque estão a tentar dar a volta à África e os ventos os levaram para lá...

sábado, 7 de agosto de 2010

o mais além que procuro

"Queria que os portugueses

tivessem senso de humor

e não vissem como génio

todo aquele que é doutor

.

sobretudo se é o próprio

que se afirma como tal

só porque sabendo ler

o que lê entende mal

.

todos os que são formados

deviam ter que fazer

exame de analfabeto

para provar que sem ler

.

teriam sido capazes

de constituir cultura

por tudo que a vida ensina

e mais do que livro dura

.

e tem certeza de sol

mesmo que a noite se instale

visto que ser-se o que se é

muito mais que saber vale

.

até para aproveitar-se

das dúvidas da razão

que a si própria se devia

olhar pura opinião

.

que hoje é uma manhã outra

e talvez depois terceira

sendo que o mundo sucede

sempre de nova maneira

.

alfabetizar cuidado

não me ponham tudo em culto

dos que não citar francês

consideram puro insulto

.

se a nação analfabeta

derrubou filosofia

e no jeito aristotélico

o que certo parecia

.

deixem-na ser o que seja

em todo o tempo futuro

talvez encontre sozinha

o mais além que procuro."

.

Agostinho da Silva

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

estro

Veia, génio inventivo; entusiasmo artístico, engenho poético, inspiração. (Lat. oestrus, do gr. oistros, tavão, moscardo, porque a picada desse insecto excita, enfurece)

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira