Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




sábado, 31 de outubro de 2009

comer e brincar

牛車水 佛牙寺 Originally uploaded by Prometheus1021

As preferências do divino

Um sacerdote passava frente a uma humilde aldeia. Ouviu uns risos alvoroçados e aproximou-se para ver a que se deviam. Havia uma mãe a dar de comer aos seus quatro filhos, mas o que surpreendeu o sacerdote foi ver que também dava de comer a uma imagem da divindade. O sacerdote irritou-se e gritou: «Mulher blasfema, como te atreves a brincar com a imagem de Deus?» Pegou na imagem e levou-a. Não podia permitir que fizessem dela um brinquedo. As crianças ficaram muito tristes e a mulher envergonhada. O sacerdote colocou a imagem sagrada no templo. Essa noite, em sonhos, Deus apareceu-lhe e disse: «Insensato! Quem te manda meter o nariz onde não és chamado? Não aceitarei nenhum sacrifício nem qualquer oferenda dos sacerdotes, porque onde eu era realmente feliz era naquela casa, com aqueles meninos. Portanto, assim que acordares amanhã, leva-me a eles. O templo é escuro e triste.»

Ramiro Calle, Os melhores contos espirituais do oriente, p. 63, A esfera dos livros, Lisboa, 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

o futuro atrás das costas

atirámos o Futuro para trás das costas e afundámo-nos tranquilamente no Presente, disfarçando em sonhos o néscio mundo que nos rodeava.

Edgar Allan Poe (1842), O Mistério de Maria Roget, p. 10, Relógio d'Água, Lisboa, 1988

Frase original: "we gave the Future to the winds and slumbered tranquilly in the Present, weaving the dull world around us into dreams."

As pessoas dos Andes que falam a língua Aymara apontam para trás de si quando falam do futuro. A palavra futuro é "qhipa" que quer dizer atrás ou nas costas. Pelo contrário apontam para a frente quando falam do passado e a palavra é "nayra" que quer dizer olho, à vista ou à frente.

O futuro não se vê, mas o passado está à vista.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

homens e passarinhos

Fui ao café à hora de almoço e ouvi contar esta história que se passou cá:

Andava um homem no campo a montar uma rede para caçar passarinhos, veio a guarda, prendeu-o e levou-o ao tribunal.

Ele disse ao juiz:

-Aqui há uns anos obrigaram-me a ir para África matar pessoas que eu nem sequer conhecia! Agora estava a apanhar passarinhos para dar de comer aos meus filhos e prendem-me!?

O juiz libertou-o.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

a neve ladroa

Não era desta neve que doba mansa do céu e parece, bailando, o esflorar das pereiras na Primavera; era a neve ladroa - como para aí lhe chamam - a neve das moscas brancas que voltejam, giram, rodopiam, vêm de trás, de diante, de baixo, dos lados, metem-se por todas as fisgas e grelhas à busca de coiro vivo em que ferrar. Soprava-lhes o nordeste, o grande bufador, e era vê-las de asas ligeiras, enchendo o céu, a voar, a voar umas atrás das outras, ora muito juntas, ora desenrodilhadas, num vira sem fim.

Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas, p. 94, Bertrand Editora, 1985

terça-feira, 20 de outubro de 2009

a maior felicidade

Conversando a sós contigo,

Desfruto o prazer imenso

De não pensar no que digo

E de dizer o que penso.

.

E mais uma vez

Afirmo

Sem receio que seja desmentido:

- A maior felicidade

É ser-se compreendido.

.

António Botto, As canções de António Botto, p. 100, Edições Ática, Lisboa, 1975

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

mel de azinho

Comprei mel de azinho a um apicultor que me explicou que no Outono de 2007 choveu muito e houve tempestades que derrubaram ramos das Azinheiras. Onde os ramos se partiram escorreu a seiva, que é doce, e as abelhas fizeram com ela um mel muito escuro, quase preto, que foi o que eu comprei.

A fotografia fui buscá-la ao blog A Sombra Verde.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

o que te surpreende?

O Talmud conta a história de um imperador romano que condenou os judeus à morte. Ele interpelou um dos sábios, antes de o entregar ao carrasco, e perguntou-lhe:

-Não compreendo como os judeus podem acreditar na ressurreição dos mortos.

Foi a filha mais nova do sábio que respondeu em seu lugar. Ela disse ao romano:

-Tu não existias no passado e agora existes. Isso não te espanta, mas a mim intriga-me a cada instante. Hoje existes e espanta-te que um dia possas voltar a existir? Pois a mim não me surpreende.

Documentário "Talmud" escrito e realizado por Pierre-Henry Salfati, ARTE, 2006

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Formigas com asas

Todos os anos por esta altura aparecem formigas com asas e são muitas. Lembro-me de ter aprendido quando era criança que os homens e os rapazes as apanhavam e punham como isco nas armadilhas para caçar passarinhos. Julgo lembrar-me que lhes chamavam aguídas (leia-se também o "u"). Os passarinhos comiam-se.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

a idade do avô

-O teu avô é diferente dos teus pais?

-É.

-Em quê?

-No cabelo. O cabelo dele é cinzento.

-O teu avô é velho?

-É.

-Quantos anos tem?

-Não sei. (Grande pausa) Talvez 14.

Diálogo com uma menina de três anos no documentário "The grandparent diaries" de Jo Abel.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

arco-íris transformado em pedra

Arco-íris transformado em pedra (Nonnezoshe) é o nome que os índios Paiute e Navajo deram a esta ponte natural e sagrada. Os índios andam a tentar proteger a ponte do arco-íris e já conseguiram que o Serviço de Parques Nacionais dos EUA apele aos turistas para que se aproximem com respeito religioso.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

as leis do seu ser

Não cabe ao homem colocar-se em oposição à sociedade, mas manter-se em atitude compatível com as leis do seu ser, que não estarão em oposição às leis governamentais se ele tiver a sorte de se defrontar com um governo justo.

Henry David Thoreau, Walden ou a vida nos bosques, p. 350, Antígona, Lisboa, 1999

Desenho a lápis de Henry David Thoreau feito por Samuel Worcester Rouse em 1854