sexta-feira, 31 de agosto de 2012

tão humilde o voo ergueu

   Quando voava uma garça,
abateu-se o nebri do céu,
e pra apanhá-la desceu,
preso ficou numa sarça.
   Pelas mais altas montanhas
o nebri Deus descia
a fechar-se nas entranhas
da santa Virgem Maria.
Tão alto gritou a garça
que «ecce ancilla» chegou ao céu
e o nebri logo desceu,
preso ficou numa sarça.
   Eram longas as correntes
que o nebri bem prenderam,
feitas dos panos potentes
que Adão e Eva teceram;
mas essa bravia garça
tão humilde o voo ergueu,
que Deus, ao descer do céu,
ficou preso numa sarça.

lírica espanhola de tipo tradicional, cancioneiro anónimo, selecção, tradução e notas José Bento, poema 59, p. 67, Assírio & Alvim, Lisboa, 1995

fotografia: aqui

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