Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




segunda-feira, 30 de agosto de 2010

a maior distância possível

"Ao construir esta casa, Sir Ferdinando estava realmente preocupado apenas por um pensamento - a situação adequada das instalações sanitárias. A higiene era o grande interesse da sua vida. Em 1573 chegou mesmo a publicar sobre este assunto, um livrinho - agora extremamente raro - chamado Alguns Conselhos Privados da Autoria de um dos mais Distintos Conselheiros Privados de Sua Majestade, F. L., Knight, em que todo o assunto é tratado com grande conhecimento e elegância. O seu princípio básico na construção dessas instalações numa casa era o de assegurar a maior distância possível entre as casas de banho e os esgotos.

Daqui resultava, inevitavelmente, que as casas de banho deviam situar-se na parte mais alta da construção, ligadas por canos a fossos ou canais cavados na terra. Não se pense que Sir Ferdinando actuava apenas movido por considerações puramente materiais e sanitárias; para colocar as instalações sanitárias moviam-no também algumas boas razões de ordem espiritual. Visto que, como argumenta no terceiro capítulo dos seus Conselhos Privados, as necessidades naturais são tão brutais e primitivas, que ao obedecer-lhes chegamos a esquecer que somos as criaturas mais nobres do Universo."

Aldous Huxley, Férias em Crome, p. 88, Livros do Brasil, Lisboa, s/data

a ponte dos imortais

The Immortal Bridge Originally uploaded by Hesspoint

Taishan, Shandong, China

Taishan é mais sagrada das cinco montanhas sagradas da China. É a montanha do grande poder.

Após a subida ao trono os Imperadores iam lá em peregrinação e faziam sacrifícios para que a montanha lhes fosse propícia.

Poetas e literatos, incluindo Confúcio, também lá foram e deixaram belos textos escritos com bela caligrafia, que lá permanecem.

Em chinês diz-se de algo muito firme ou importante que é estável ou de peso como a montanha Tai.

O seu ponto mais alto é o pico do Imperador de Jade, 1.545 m.

Da ponte dos imortais dizem os cientistas que é uma formação rochosa.

domingo, 29 de agosto de 2010

cântico do irmão Sol

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,

a ti o louvor, a glória,

a honra e toda a bênção.

A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar

e nenhum homem é digno de te nomear.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

com todas as tuas criaturas,

especialmente o meu senhor irmão Sol,

o qual faz o dia e por ele nos alumias.

E ele é belo e radiante,

com grande esplendor:

de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pela irmã Lua e as Estrelas:

no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pelo irmão Vento

e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno,

e todo o tempo,

por quem dás às tuas criaturas o sustento.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água,

que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pelo irmão Fogo,

pelo qual alumias a noite:

e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

pela nossa irmã a mãe Terra,

que nos sustenta e governa,

e produz variados frutos,

com flores coloridas, e verduras.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

por aqueles que perdoam por teu amor

e suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados aqueles

que as suportam em paz,

pois por ti, Altíssimo, serão coroados.

.

Louvado sejas, ó meu Senhor,

por nossa irmã a Morte corporal,

à qual nenhum homem vivente pode escapar.

Ai daqueles que morrem em pecado mortal!

Bem-aventurados aqueles

que cumpriram a tua santíssima vontade,

porque a segunda morte não lhes fará mal.

.

Louvai e bendizei a meu Senhor,

e dai-lhe graças

e servi-o com grande humildade.

.

S. Francisco de Assis

(Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

à dor do mundo

"Mamã e Filho"
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Toma, filho, a mão da mamã
O caminho para o Céu ainda está escuro
E nós iremos contigo juntos sempre em frente
Lá precisas ainda dos meus cuidados.
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Tenho medo mamã!
A tua mão não está lá
E não voltarei a ver o Sol
A parede caída está a ficar mais pesada
E a centelha de uma curta vida apaga-se
.
Vai filho, calmamente, eu estou contigo,
A dor do mundo desapareceu para sempre,
Lembra-te apenas da família que te acompanha
Agora isso é especialmente importante
.
Tenho medo mamã!
A tua mão não está lá
E não voltarei a ver o Sol
A parede caída está a ficar mais pesada
E a centelha de uma curta vida apaga-se
.
Agora peço-te que não chores, mamã,
Ama e cuida das crianças vivas!
E nós vamos com os amigos sempre em frente
Ilumina o nosso caminho com o teu coração
.
A memória conservará a tua imagem, mamã!
O meu coração está a bater mais devagar
Claro que a esperança derrotará a morte,
E o filho voltará para ti na próxima vida!
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Tenho medo mamã!
A tua mão não está lá
E não voltarei a ver o Sol
A parede caída está a ficar mais pesada
E a centelha de uma curta vida apaga-se
.
VITAS
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Ver aqui com legendas (inglês e vietnamita)
Ver aqui com legendas (espanhol e inglês)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

já não havia morte, tristeza que é deste mundo

VIVOS!!!!!

Eu tinha dois avós que morreram.

Um dia, fui ao cemitério e ouvi um pássaro a

cantar ----------a cantar ----------a cantar

E já não havia morte, tristeza que é deste

mundo.

Ei! Eles estavam outra vez vivos ----------vivos

vivos ----------vivos ----------vivos

vivos

vivos ----------VIVOS!!!!!

Filipe Manuel, 7 anos

Maria Rosa Colaço, A Criança e a Vida, Ed. Itau, s/d (anos 60, séc. XX)

in: Matilde Rosa Araújo, "A Estrada Fascinante", p. 31, Livros Horizonte, Lisboa, 1988

terça-feira, 24 de agosto de 2010

técnica e tradição

"Para que o antepassado de uma pessoa seja particularmente benéfico, ele (pois isto aplica-se sobretudo a antepassados masculinos) deve ser enterrado no lugar correcto. Isto tinha que ser feito por um perito em geomancia. Ele teria em atenção a configuração do terreno, a relação entre elevações, cavidades e ribeiros, para decidir qual seria o lugar mais propício. O mais famoso perito moderno em geomancia do Vietname do Sul era conhecido por fazer o seu exame do terreno de cima, num helicóptero, um exemplo de como a ciência e a tecnologia não fazem desaparecer as convicções religiosas, mas pelo contrário servem para as reforçar."

in: Religião no Vietname

A fotografia é das marionetas aquáticas. Este teatro de marionetas manipuladas com longos paus por baixo de água é tipica do Vietname, sendo razoável supor que terá começado nos lagos. Agora fazem digressões por todo o mundo. O espectáculo é realizado numa piscina transportável e as pessoas escondem-se atrás de uma esteira de bambu, disfarçada pelo cenário, que lhes permite ver os bonecos e as esconde do público. Usam botas de pescador, muito altas, porque elas próprias estão ajoelhadas dentro de água. Os espectáculos são extraordinários, felizmente tive oportunidade de ver um aqui em Portugal.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Lisboa, 1918

A JANELA DA MINHA INFÂNCIA

Estávamos em 1918. A minha rua era então uma pequena rua de província, situada quase fora de portas: de um lado, uma escassa correnteza de prédios que pouco ultrapassava a Rua Francisco Sanches. Do outro a fila ainda era menor: uns oito prédios dispersos erguiam-se sozinhos, desengonçados com a timidez da idade ingrata. Para "além" eram os campos do Areeiro, a "Perna de Pau", o cemitério...

Tudo quanto a imaginação de uma criança pode engendrar de tenebroso sobre o desconhecido estava para mim concretizado nesse "além".

À noite, o mistério adensava-se, por vezes ouviam-se gritos vindos daqueles lados (ouviam-se ou seria eu que os ouvia?). Cobria então o medo com o cobertor e suava copiosamente enquanto o coração galopava, galopava através do escuro sem fim. Até que o sono misericordioso tudo vinha aquietar. Mas, no dia seguinte, os campos lá estavam firmes e longínquos na sua hostilidade impenetrável.

Esta suposta hostilidade afastava-me das traseiras e lançava-me invariavelmente na sacada do 1º andar donde eu dominava a rua. Era por essa janela que eu espreitava o mundo e o recriava à minha maneira. A panorâmica não era muito alegre, antes pelo contrário, era até bastante trágica: os cortejos sucediam-se de manhã à noite sem interrupção numa debandada para o "além" o tal "além" que, para mim, mercê de um raciocínio pré-lógico, culminava no Alto de S. João*.

Pneumónica era a palavra que constantemente me soava aos ouvidos: "morreu com a pneumónica". "Está com a pneumónica", "Foi a pneumónica". Quem seria essa tal pneu-pneumónica? Tão má e com um nome tão esquisito?

Aquele movimento da minha rua, se bem que triste e muito repetido, tinha um certo aparato e tenho que confessar que me distraía bastante. Às vezes porém acontecia passarem cortejos com fardas de militares, crepes e música. Então talvez devido à música, sentia-me triste e vontade de chorar. Era nessa altura que sentia pregados em mim os olhos muito brilhantes de D. Angelina.

A D. Angelina era a vizinha que morava numa cave mesmo em frente da minha janela: alta, muito magra, calçando uns sapatos de saltos cambados e usando sempre (se a memória não me atraiçoa) o mesmo casaco de cor indefinida e a mesma gola de pele como traço de suprema elegância: um pequeno chapéu preto adornado com uma peninha vermelha e um véu que lhe dissimulava o rosto e lhe escondia a idade.

Quem era a D. Angelina ninguém o sabia. Havia quem aventasse que ela já tinha sido uma grande senhora, mas a maioria afirmava que não passava de uma toleirona, de uma pelintra, de uma pindérica...

Adjectivos tão variados iam alargando os meus conhecimentos do vocabulário de mal-dizer e aumentando a minha secreta simpatia por essa figura misteriosa que mantinha sempre a mesma calma olímpica perante aquelas que a miravam de soslaio. Pontualmente saía todas as manhãs e voltava com uns pequenos embrulhos que deveriam ser as suas reduzidas compras.

A pouco e pouco foi-se travando uma espécie de diálogo mudo entre a minha sacada e a cave da D. Angelina. Muitas vezes surpreendia o seu olhar fixo em mim, eu então acenava-lhe um adeus e ficava com a impressão de que ela me correspondia por detrás das cortinas.

Outra das minhas distracções era o observar as "bichas".: logo de manhã começava a "bicha" do pão e do leite, depois era a do azeite, do bacalhau, etc. Era divertido vê-las formarem-se muito direitinhas, com muita ordem e depois irem engrossando, engrossando. Até que rebentava um grande burburinho com as cestas a voarem pelo ar. Pouco depois aparecia a guarda que metia tudo na ordem...

Um dia calhou-me a mim o ser protagonista de um incidente de "bichas": ficara no lugar de minha mãe para guardar a vez. Esta responsabilidade fez-me sentir muito importante e, então do alto dos meus quatro anos exibia vaidosamente uma bolsinha de malha de prata que me tinha sido oferecida como prenda de aniversário. Eis que de repente senti um esticão e a bolsinha desapareceu como por arte mágica. Desatei a chorar e mais uma vez se levantou o burburinho do costume: "Eu não fui, Deus me livre se eu roubava um anjinho destes." "Oh sr. Guarda pode levar-me para a esquadra, mas juro-lhe por tudo que não fui eu!"

Entretanto a D. Angelina aproximou-se de mim, pegou-me na mão e disse-me baixinho: "Vem comigo que eu tenho lá em casa uma boneca muito linda para te mostrar e, com grande espanto de todos eu segui a minha vizinha." Entrámos. Lá dentro havia uma penumbra fria, cor de pérola e um cheiro bastante activo e indefinível que talvez se assemelhasse muito ao do bolor, mas isso não me desagradava nada, antes pelo contrário, aguçava-me o gume do mistério. A boneca lá estava em lugar de honra, sentada numa almofada entre volumes confusos (trapos? papéis?). Era de facto uma linda boneca, quase da minha altura, vestida de cetim azul e com um mantelete prateado; a palidez da sua cara de cera e a cor do cabelo quase branca davam-lhe um aspecto irreal como se se tratasse de uma imagem desfocada.

É a Mimi, disse-me. - Recebi-a das mãos de S. Majestade - ao pronunciar "Sua Majestade" fez uma profunda reverência, o que me deixou bastante admirada, pois julgava a minha amiga feita de uma só peça. "Sim, essa gentinha aí da rua é que não me conhece, mas eu vim de muito alto." De mim para mim, eu perguntava-me porque estaria ela agora ali a morar tão baixo."

Sílvia Soares

Publicado no jornal "República", 12-01-1968

in: Matilde Rosa Araújo, "A infância lembrada", p. 215 a 217, Livros Horizonte, Lisboa, 1986

*Alto de S. João, cemitério de Lisboa: "foi construído por ocasião da epidemia de cólera morbus que assolou a cidade de Lisboa em 1833, ficando destinado a servir os moradores da zona oriental da cidade. Durante mais de um século foi a maior necrópole de Lisboa, razão que explica o seu carácter ecléctico, apresentando construções de cariz popular misturadas com outras mais elaboradas. A Primeira República escolheu este espaço para homenagear os seus heróis."

domingo, 22 de agosto de 2010

as qualidades do silêncio

Mozart terá dito: "Aquilo que me faz mais feliz é a aprovação silenciosa."

O ar e o pensamento são invisíveis, mas as suas acções tornam-se visíveis.

Chamamos acções ao que surge do silêncio invisível por um salto que atravessa a ignorância.

Platão (Fedro, 242 c) atribui a Sócrates: "A alma tem, camarada, um poder incontestável de adivinhação."

Será possível regressar à primordial disponibilidade de aprender? É preciso esquecer tudo... é preciso morrer...