Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




sexta-feira, 30 de julho de 2010

a luz do coração

Escrever porque falta qualquer coisa de que as palavras talvez possam distrair, já que não podem descrever nem substituir.

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Como é fácil darmo-nos bons conselhos e como é difícil segui-los. Porque a essa sabedoria e serenidade que nos falta preferimos o desassossego das tempestades apaixonadas da mente sob o império magnético do corpo que não a compreende.

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Nem a distância nem a ausência acalmam o vento e os trovões da imaginação. Nenhuma realidade por mais dura ou obscura extingue a luz do coração que bate ainda.

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E tudo é coração...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

a todo o passo errar

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Minibiografia

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Não me quero com o tempo nem com a moda,

Olho como um deus para tudo de alto,

Mas, zás! do motor corpo o mau ressalto

Me faz a todo o passo errar a coda.

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Porque envelheço, adoeço, esqueço

Quanto a vida é gesto e amor é foda;

Diferente me concebo e só do avesso

O formato mulher se me acomoda.

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E, se a nave vier do fundo espaço

Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:

Logo me leve, subirei sem medo

À cena do mais árduo e do mais escasso.

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Um poema deixo, ao retardador:

Meia palavra a bom entendedor.

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Luiza Neto Jorge

quarta-feira, 21 de julho de 2010

alma e luz pela primeira vez

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Porta do Silêncio, Ney Matogrosso

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"Meti as mãos na madrugada

Abri os olhos junto com o céu

Banhei-me nu na luz da alvorada

E a própria luz despiu-se e estremeceu

Banhei-me na luz da alvorada

Abri os olhos com o céu

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Assim nos olhamos as duas

Alma e luz pela primeira vez

O mundo nos vê cada vez mais nuas

Nós esquecemos a nossa nudez

O mundo nos vê cada vez mais nuas

Alma e luz pela primeira vez

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Raios me vestem e me despem

Perfumando meu corpo como incenso

São as gotas de orvalho que reflectem

Os meus olhos à porta do silêncio

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Só tu podes ver o sol brilhante

Na manhã da sua primeira luz

Se abrires os olhos nesse instante

Vais ver que os dois não podem estar mais nus

Se abrires os olhos nesse instante

Na manhã da primeira luz

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Raios me vestem e me despem

Perfumando meu corpo como incenso

São as gotas de orvalho que reflectem

Os meus olhos à porta do silêncio."

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Tiago Torres da Silva

terça-feira, 20 de julho de 2010

os quatro amigos harmoniosos

A imagem dos quatro amigos harmoniosos (Thuenpa Puen Zhi) é comum em países como o Tibete e o Butão. Atribui-se-lhe a virtude de conservar a harmonia numa casa, entre as pessoas da família, ou onde quer que seja colocada, além de ser considerada bonita.

A história ou a explicação da imagem podem variar, mas a imagem é sempre muito parecida.

Há uma história atribuída a Buda:

"Uma vez, numa floresta em Varanasi (Índia) um elefante, um coelho, um macaco e um pássaro (perdiz) discutiram sobre a posse de uma árvore onde todos vinham alimentar-se. O elefante dizia que era dele porque a tinha visto primeiro.

O macaco dizia que era dele porque se tinha alimentado dos frutos da árvore. O coelho argumentava que se tinha alimentado das folhas quando a árvore ainda era pequenina. A perdiz que tinha estado a observar a discussão disse que a árvore lhe pertencia porque a árvore não teria crescido se ela não tivesse cuspido o caroço quando tinha comido o fruto.

Elefante, macaco e coelho, todos se inclinaram perante a perdiz e olharam-na como seu irmão mais velho. Os quatro animais tornaram-se amigos e decidiram partilhar a árvore juntos em harmonia pacífica desfrutando a fragrância da árvore, o alimento dos frutos da árvore e a recompensa da sombra da árvore.

Outros animais da floresta muitas vezes os viram juntos com a perdiz sobre o coelho que era suportado pelo macaco que viajava sobre o elefante. Por isso todos lhes chamavam os quatro irmãos harmoniosos. Os quatro animais eram vistos como exemplo e a paz regressou à floresta.

domingo, 18 de julho de 2010

um único riso de múltipla consciência

"E na terceira manhã surgiu um grupo de golfinhos precedendo o navio. Conservaram-se sempre abaixo da superfície, pelo que não houve tumulto humano para os ver. Apenas Gethin Day os viu. E que alegria! que alegria de viver! que alegria maravilhosamente pura de se ser um golfinho dentro do grande mar, de se ser muitos golfinhos, precedendo o navio e troçando, numa investida translúcida, da investida ameaçadora mas fútil de um enorme navio!

Era o espectáculo da mais pura e mais perfeita alegria de viver que Gethin Day tinha visto em toda a sua vida. Os golfinhos eram uns dez ou doze, com corpos arredondados em forma de torpedo, e mantinham-se junto do barco como se não se movessem, sempre ali, sem movimento aparente, sob a água puramente diáfana, e, no entanto, seguindo a uma velocidade igual à do navio, sem o mínimo sinal de movimento, mas conservando uma miraculosa precisão de velocidade. Parecia que as barbatanas da cauda do último golfinho tocavam a proa do navio, por baixo da água, com um toque muito ligeiro, embora exacto e permanente. Parecia que nada se movia, apesar de tanto o navio como os golfinhos estarem a avançar através do oceano tropical. E os animais moviam-se, estavam sempre a mudar de lugar. Moviam-se numa pequena nuvem, e, como numa maravilhosa brincadeira, subiam, desciam, tomavam a dianteira, mas sempre à mesma velocidade, sempre a mesma para todos, e sempre com o último golfinho quase a tocar com as barbatanas caudais o talha-mar de ferro do navio. Alguns conservavam-se em baixo, na sombra, mas horizontalmente imóveis na mesma velocidade. Depois, com uma estranha rotação, subiam esses à água verde-clara, e os outros desciam. Até mesmo o que fazia contacto, tocando com a cauda no navio, era trocado num abrir e fechar de olhos. E sempre, sempre, a mesma velocidade horizontal pura, por vezes um dorso escuro a razar a luz da superfície da água, por baixo, sem que nunca a superfície se rompesse. E sempre o último peixe a tocar o navio, e sempre os outros a avançar, sem movimento, sem esforço, e trocando de lugares com estranha perícia à medida que avançavam, trocando de lugar entre eles, perdendo-se na sombra azul e escura, e emergindo estranhamente, de novo, entre os outros animais silenciosos e rápidos, na água verde-clara. Sempre tão rápidos, que pareciam estar a rir.

Gethin Day observou-os, enfeitiçado, minuto após minuto, durante uma hora, duas horas, e era sempre o mesmo, o navio a avançar rapidamente, cortando a água, e os peixes, de corpos fortes precedendo-o, em perfeito equilíbrio de velocidade, por baixo de água, misturando-se entre si num estranho e único riso de múltipla consciência, libertando a alegria de viver, a pura alegria de viver, a união no puro e completo movimento, muitos peixes de corpos vigorosos, gozando uma gargalhada de vida, uma pura união, perfeita como uma paixão. Transmitiam à água a sua maravilhosa alegria de viver, uma alegria que o homem jamais encontrara. E deixava-o assombrado.

«Mas eles conhecem a alegria, eles conhecem a alegria pura!» disse a si próprio, com espanto. «Esta é a alegria mais risonha que eu já vi, pura e isenta. Sempre achei que as flores tinham conseguido alcançar a mais bela perfeição da natureza. Mas estes peixes, estes peixes carnudos, de corpos quentes, alcançam mais do que as flores, no seu movimento. Esta é a mais pura concretização da alegria que já vi em toda a minha vida: estes peixes fortes: descuidados. Os homens não aprenderam com eles o segredo de estarem vivos e juntos, e fazer dessa união uma única gargalhada de alegria, embora cada peixe tenha a sua própria marcha. É a alegria pura... e os homens perderam-na, ou nunca chegaram a alcançá-la. Os melhores desportistas do mundo não passam de mochos ao pé destes peixes. E a união do amor não é nada, comparada com a união rodopiante dos golfinhos a brincar debaixo de água. Seria maravilhoso conhecer uma alegria como a que estes peixes conhecem. A vida nas águas profundas está mais avançada do que a nossa, contém a pura união e a pura alegria. Nós nunca lá chegámos...»

Inclinado sobre o gurupés, sentia-se fascinado por uma única coisa, pela alegria, pela alegria de viver dos peixes a nadar, brincando com alegria. Não era de admirar que o oceano continuasse a ser misterioso, quando nele batiam corações vermelhos como aqueles! Não era de admirar que o homem, com a sua tragédia, parecesse uma coisa pálida e doentia, em comparação com aquilo! Que civilização conseguirá trazer-nos um tal espírito de união, rápida, alegre, como o que aqueles peixes tinham alcançado?"

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D.H. Lawrence, "St. Mawr e outros contos", (O Peixe-Voador) p, 281 a 283, Livros do Brasil, Lisboa, 1990

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(Notas) p. 290 - Enquanto se recuperava de uma gripe e de um ataque de malária em princípios de Fevereiro de 1925, no México, que quase o mataram, Lawrence ditou a abertura de «O Peixe-Voador», provavelmente entre 11 e 19 de Março, a Frieda Lawrence; ele próprio deverá ter acrescentado mais algumas páginas. Quando os Lawrence regressaram, em 29 de Março, ao seu rancho na região de Taos, ele pôs a obra de parte e nunca mais voltou a pegar-lhe.

sábado, 17 de julho de 2010

começa com o sol

"o meu individualismo é realmente uma ilusão. Sou uma parte do grande todo, e nunca posso fugir. Mas posso negar as minhas conexões, quebrá-las, e tornar-me um fragmento. Então sou desgraçado.

O que nós queremos é destruir as nossas conexões falsas, inorgânicas... e re-estabelecer as conexões orgânicas vivas com o cosmos, o sol e a terra, com a humanidade e a nação e a família. Começa com o sol e o resto, devagar, devagar, há-de acontecer."

D. H. Lawrence

in: Paul Poplawski, John Worthen, "D.H. Lawrence: a reference companion", p. 82

"my individualism is really an illusion. I am a part of the great whole, and I can never escape. But I can deny my connections, break them, and become a fragment. Then I am wretched.

What we want is to destroy our false, inorganic connections ... and re-establish the living organic connections, with the cosmos, the sun and the earth, with mankind and nation and family. Start with the sun, and the rest will slowly, slowly happen."

sexta-feira, 16 de julho de 2010

quando se transcende a aparência de conhecimento que o nome produz

"Ali estava sozinho, e o mundo era todo feito de uma estranha e esbranquiçada luz solar, alva, e de água, água morna e brilhante, absolutamente pura, de um verde delicado e frágil. Erguia-se em asas fulgurantes aos lados da proa do navio, e lançava uma espuma de penas brancas dos seus rebordos verdes. E havia sempre, sempre, sempre, aquela fonte duplamente alada, enquanto o navio avançava entre as suas asas, como a vida, e a espuma saltava sempre, derramando-se do arco verde das duas asas de água. E lá em baixo, ainda intocado, um momento mais adiante, sempre um momento mais adiante, e absolutamente intacto, estava o belo verde profundo da água, a profundidade imensa, de um claro tom de esmeralda, a pouca altura, e de um verde-safira por baixo, escuro e claro, azul e verde tremeluzente, duas águas, muitas águas, uma só água, em perfeita união, um momento à frente da proa do navio, tão serena, insondável e pura e intemporal. Era algo muito belo, e no gurupés, que se elevava suavemente, do navio longo e rápido, o corpo era embalado no balanço da vida intemporal, a alma suspendia-se no momento colorido como uma gema, a eternidade pura da gema daquele golfo de parte alguma."

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DH Lawrence, St. Mawr e outros contos, (O Peixe Voador) p. 279, Livros do Brasil, Lisboa, 1990