Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




sábado, 10 de julho de 2010

estabelecer e transcender limites

"Como Kant é um dos filósofos modernos mais difíceis, não posso ter a pretensão de apresentar ao leitor não especialista todos os aspectos do pensamento kantiano de forma suficientemente clara. Não se sabe se todos esses aspectos são inteligíveis a toda a gente, incluindo o próprio Kant. A profundidade e a complexidade da sua filosofia são de tal ordem que só depois de uma completa imersão se pode entender a importância das questões postas e a capacidade imaginativa das respostas apresentadas. Kant tinha a esperança de estabelecer os limites do entendimento humano; ele próprio foi impelido a transcendê-los."

Roger Scruton, Londres, Maio, 1981

in: Roger Scruton, Kant, Prefácio, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1983

sexta-feira, 9 de julho de 2010

o desejo de ser cigana

"Estava deitada, isso estava, e obcecada pelo desejo de ser cigana. De viver dentro de uma carroça, no campo, e não pôr nunca os pés numa casa autêntica, viver alheia a paróquias e sem ter à frente dos olhos uma igreja. Endurecera o coração com a sua repulsa pelo reitorado. Tinha nojo das casas de banho com banheiras e retretes ocultas atrás de portas, pelo que havia nelas de extraordinariamente repulsivo. Odiava o reitorado e tudo o que lhe estava implícito. A sua estagnante e canalizada forma de vida onde ninguém falava de esgotos mas cheirava a eles, cheiro que parecia vir do íntimo dos seres com duas pernas que o habitavam, desde a Vovó às criadas, e a contaminava. Os ciganos, ao menos, não tinham casas de banho mas também não tinham esgotos. Viviam ao ar puro. E o ar, no reitorado, nunca era puro.Poluía-se na alma das pessoas e cheirava mal."

D. H. Lawrence, A Virgem e o Cigano, p. 60, Assírio & Alvim, Lisboa 1986

quinta-feira, 8 de julho de 2010

o motivo que impele o autor a escrever

"Embora ser lido não seja o motivo que impele o autor a escrever, uma vez que tenha escrito deseja ser lido, e para conseguir isso, tem que dar o seu melhor para tornar os seus escritos legíveis."

traduzido de: W. Somerset Maugham, Collected Short Stories 1, Preface, p. 7, Penguin Books, 2000

segunda-feira, 5 de julho de 2010

a nova tradição

"Outro ponto que gostaria de realçar é que a mudança da tradição da matemática numa sala de aula pode não ser uma «revolução» que simplesmente deita fora o velho e adopta o novo. Em vez disso, pode ser um processo no qual algumas características novas se desenvolvem a partir da tradição anterior. Por outras palavras, as duas tradições podem não ser absolutamente antagónicas: pelo contrário, a nova tradição envolve a antiga - tal como um novo paradigma na investigação científica não exclui completamente um antigo e o inclui como um caso especial."

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Liping Ma, Saber e Ensinar Matemática Elementar, p. 259, Gradiva, Lisboa, 2009

sábado, 3 de julho de 2010

coisas que não se entendem

"Aconteceu a esse grande poeta persa a quem chamamos Rumi e que, expulso pelas invasões mongóis, passou grande parte da sua vida na Turquia, em Konya, um encontro extraordinário com outro poeta mais velho que ele, Chams de Tabriz.

Dois homens muito diferentes, quase opostos. Rumi apresentava-se como uma espécie de académico, de professor e comentador oficial, rico, considerado, rodeado de discípulos (entre os quais por vezes se encontrava o próprio sultão).

Chams, pelo contrário, era um homem pobre, errante, inflamado, imprevisível.

Quando viu Rumi pela primeira vez, estava este absorto na leitura de um poema que parecia apreciar e estudar com paixão.

-Que fazes tu? O que vem a ser isto? - perguntou Chams.

-Nada que tu entendas - respondeu-lhe Rumi.

Chams agarrou o poema e atirou-o para a lareira.

-Que fizeste? - exclamou Rumi. - Que vem a ser isto?

-Nada que tu entendas - respondeu-lhe Chams."

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Jean-Claude Carrière, Nova Tertúlia de Mentirosos, p. 180-181, Teorema, Lisboa, 2009

quinta-feira, 1 de julho de 2010

lágrimas

porque elas se formam e deslizam e é possível reprimi-las às vezes e outras vezes não...

porque nada dói mais que ser abandonada

e essa dor maior é a pedra, é o chão

é a realidade indesmentível

inquestionável, impossível e real no mais alto grau.

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chegadas e partidas da vida...

não poder confiar nunca mais no amor, na protecção...

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estranha entre estranhos cujas palavras e acções são surpreendentes

e convencionais

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há sílabas que fazem chorar

sílabas que nos dão prazer e alegria

mas o abandono... o chão frio da ausência... está sempre lá

nada é mais confiável

que a dor

sempre absolutamente real

e sempre cá

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apenas os milagres abrem subitamente percepções mais vastas

para lá da dor...

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e esses milagres...

de raros e maravilhosos

são estrelas no escuro

estrelas...

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como alcançá-las senão com o amor?

o mais vasto de todos os estados de espírito?

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a palavra amor é ao mesmo tempo bela e envilecida pelo uso

não sagrado

.

a falta de respeito torna infame...

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lágrimas... regatinhos... Chuva

cai sobre as faces tristes todas... lava, alivia, salva...!

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ou tu Sol seca-as... leva-as, dissolve-as no ar... que chovam noutro lugar

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lágrimas, gotas de orvalho, bálsamo, prazer

.

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viajar pelos caminhos rectos e paralelos da escrita habitua a mente à geometria das formas regulares

e claramente distintas do fundo

.

a estética das formas geométricas pode ser bela contra um fundo selvagem,

como algumas plantas num espaço geométrico

na individualidade dos seus vasos

são ainda assim belas selvagens

.

oh, mas as lágrimas... sem cor, sem forma, sem nada de definido...

selvagens lágrimas das florestas húmidas

das existências desmesuradas... estrelas... e nuvens...

noites caladas

dias muito lentos...

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lentas lágrimas

.

límpidas e invisíveis agonias gritantes mas caladas...

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espaços secretos nos corações não visíveis

prazeres indesmentíveis... milagres...

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e uma vasta escuridão suave e profunda para onde a água vai

seguindo a linha do menor esforço,

que num mundo em relevo raramente é recta

mas sempre cai

excepto quando se eleva ao céu... cheia das lágrimas

.

que alguém ainda não chorou

mas vão revelar sagradas e divinas as dores humanas

e os seus prazeres na Terra...

...

celestes!

o que não pode ser subjugado

Lao Tse, Tao Te King, capítulo 32

"O Tao é eterno e não tem nome.

Embora a sua natureza seja ser pequeno não pode ser subjugado pelo mundo inteiro.

Se os vassalos e os reis puderem conservá-lo, todos os seres virão espontaneamente submeter-se a eles.

O céu e a terra unir-se-ão para juntos fazer descer um doce orvalho, e os povos pacificar-se-ão sem que ninguém os obrigue.

Desde que o Tao foi dividido, teve nome.

Esse nome uma vez estabelecido é preciso saber retê-lo.

Quem sabe reter-se nunca corre perigo.

O Tao está espalhado no universo.

(Todos os seres retornam a ele) como os ribeiros e regatos das montanhas

regressam aos rios e aos mares."

Tradução da tradução para francês de Stanislas Julien publicada em meados do séc. XIX

Imagem do capítulo 32 do Tao Te King em antiga escrita chinesa (seal script)