Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




sábado, 14 de novembro de 2009

ler muitos livros

"Era uma sensação estranha - não surpreendente, supunha, porque agora tudo me parecia estranho - sentir-me natural em alguma coisa. Como humana, nunca fora a melhor em coisa alguma. (...) Nunca ninguém me atribuíra um prémio por ler muitos livros. Ao fim de dezoito anos de mediocridade, estava mais do que habituada a ser uma criatura mediana. Agora apercebi-me de que pusera de lado, há muito tempo, a aspiração a ser brilhante em algo. Limitara-me a fazer o melhor que podia, com o que tinha e sem nunca me adaptar totalmente ao meu mundo."

Stephenie Meyer, Amanhecer, p. 522, Gailivro, Alfragide, 2009

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

por aí fora...

  • as percepções e as ideias fluem, relacionam-se intimamente. acontecimentos reais e (i)maginários concatenam-se numa realidade bem mais vasta que aquela à qual achámos por bem reduzir-nos e que convém, sobretudo, às mentes circunscritas e quanto mais se circunscrevem. e, no entanto, todos participamos de uma realidade absolutamente vasta e inextinguível. da qual ignoramos tudo excepto que é dela que provimos, é nela que vivemos e a ela que regressamos. nada desconhece, porque tudo lhe pertence. chamamos-lhe natureza, mas alguns seres destacam-se no nosso sentimento de... há palavras para isto noutras línguas que nos provocam o mesmo sentimento. as palavras são poderosos acontecimentos. acontecimentos poderosos. completamente fluídas, fluem sem deixar rasto, ou deixando-o demasiado profundo na paisagem mental. roubam-se palavras, aqui e ali, deformam-se, são postas a dizer o que não dizem e mil e um outros jogos de linguagem.
  • para quê? porque vivemos aí. a realidade é tão, oh, mais vasta, sem limites, nem que a possas saber infinita ou finita. nenhumas palavras lhe convêm porque é dela que todas provêm e nela que são esquecidas. este útero infinito, de onde provimos já no para cá. para cá de algo que não deixámos de saber e nos proporciona acesso a linguagens tão variadas quantas se podem imaginar.
  • uma boa história é a que nos transporta, não apenas sem esforço mas com deliciosa e profunda antecipação. o medo é profundo mas ela é mais profunda ainda e muito, muito mais vasta, porque o contém. a ferocidade existe. mas é ela que a produz. o sentimento de reverência, a reverência profunda é também ela que a produz. nada desconhece, nada retém e tudo regressa como se fosse para a frente. que sabemos nós de frente e verso do universo? que é e ainda não é tão vasto como ela, a fonte de toda a luz e todas as trevas.
  • chama-lhe andar. chama-lhe caminho. eis que descobres o fundamental? é provável que a tua mente se abra, vá abrindo, como a flor que pode vir a ser fruto, semente, árvore que se eleva sobre os muros ou cresce em densas e vastas assembleias que inspiraram os pilares com que construímos não tão vastos abrigos comunitários.
  • das florestas viemos, fomo-las destruindo, primeiro devagarinho, elas não tinham fronteiras, era tudo floresta, excepto onde secava em vastos desertos, se humedecia em mares ou gelos... infinitas maravilhas. rios onde o ouro brilhava.
  • as nossas histórias são todas sagradas, sobretudo as profanas. escatologia e sublime brotam do mesmo chão. chão, água, água, chão. navegar em mares sem fim, encalhar em canais estreitos, tudo é navegar.
  • voar em sonhos faz parte da vida. tudo faz parte da vida, no lado de cá, e brota do lado de lá e lá existe e lá deixa ou não deixa marcas visíveis e invisíveis, e para lá regressa.
  • palavras que criam, destroem, matam, ou amparam, confortam, maravilham. palavras para tudo o que nos conseguirmos lembrar, tudo o que nos ocorrer e conforme ocorre. o país das maravilhas não é ainda suficientemente onírico. limita-se a subverter a lógica, não a libertar-se dela. a lógica é uma grelha, uma estrutura, um esqueleto. e tudo se resume aí, esquecendo que as maravilhas da carne, como as suas podridões, não são mais nem menos reais. tudo é real de maneiras diferentes. mil e uma é ainda uma metáfora para o que não vale a pena contar, a areia no deserto, as estrelas no céu, os brilhos do mar.
  • os campos de gelo, os pântanos intermináveis, tudo é real.
  • mas as tuas crenças limitam-te. não sabes interpretar o canto dos pássaros, nem a direcção do vento, não conheces o perigo eminente da caçada. desdobras-te em eu e tu, em ti e ele, em ti e ela, em nós, em vós, e neles. Nós, escondido, no meio, é o mais vasto. Aqui, lá, além e mais além. "até onde levar a força humana".

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Louvor da Srª Conceição

Com fermento e água

e com as mãos

fecundava a farinha.

Os punhos

cavavam, possuíam

a massa borbulhante

e ainda amarga.

Por fim

antes do fogo

cobria os filhos que fizera.

António Osório, A Raiz Afectuosa, 1965-1971

in António Osório por Eduardo Lourenço, p.54, Presença, Lisboa, 1984

A fotografia veio daqui, onde se podem ver fotografias recentes e antigas de Dogueno, um monte alentejano perto de Almodôvar.

domingo, 8 de novembro de 2009

aqui é domingo

são cinco da tarde, está de chuva e é quase de noite, que bom!

estamos tão habituados ao domingo que nem reparamos que é uma convenção, que a natureza não tem domingos, nem a maior parte das culturas

a globalização do domingo é recente, ainda há muitos lugares no mundo onde não é domingo mas onde as pessoas sabem exactamente qual é o dia lunar - a imagem é do calendário hindu

qual de nós sabe qual é hoje a fase da lua?

o domingo é o herdeiro cristão do sábado judaico: "o Criador descansou no sétimo dia"

os muçulmanos respeitam a sexta-feira pelo mesmo motivo e devido à mesma herança

os chineses e japoneses tinham e têm divisões do mês de dez dias

aos 30 anos escrevia assim

Se pudesses assegurar-me

cada vez que me sinto insegura!

Amparar-me a cada

amargura! Embalar-me quando

choro... Retomar-me cada vez

que fujo! Chamar-me quando

ensurdeço. Amar-me

quando me enamoro. Amar-me

cada vez que me esqueço!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A história de =

Até ao séc. XVI era preciso escrever sempre "é igual a" na língua vernácula ou em latim "aequalis" ou a sua abreviatura "ae".

No séc. XVI alguns matemáticos lembraram-se de criar um símbolo. Usaram primeiro duas rectas verticais.

Robert Recorde escreveu no seu livro "The Whetstone of Witte" (a pedra de afiar do espírito), que foi publicado em 1557: "para evitar a entediante repetição destas palavras: é igual a: estabelecerei, como faço habitualmente no meu trabalho, um par de paralelas ou linhas gémeas da mesma largura, isto é: =, porque não há nada que possa ser mais igual que duas linhas"

terça-feira, 3 de novembro de 2009

as pessoas cheias de vontade

Ocupam-te a mente. Não te permitem saber quem és, obrigam-te a ser o que elas querem. Se lhes obedeces ficas em dívida, se não obedeces castigam-te. Desprezam-te ou lisonjeiam-te conforme lhes convém, enganam-te com mentiras e verdades. Se te deixas enganar escravizam-te, se não te deixas enganar vingam-se. A felicidade delas depende da tua dependência. Ensinam-te a agradecer quando não te maltratam. As pessoas cheias de vontade são muito susceptíveis: ofendem-se facilmente, facilmente caluniam, mas também te perdoam se reconheceres os teus erros: precisam sempre de escravos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

o esquecimento das sensações

Os acontecimentos são fáceis de recordar, mas o mesmo não se passa com as sensações que os mesmos acontecimentos nos causaram. Tudo quanto sei é que, à medida que estes acontecimentos se produziam, parecia-me que a natureza humana era incapaz de suportar uma dor maior.

Edgar Allan Poe (1838), Aventuras de Arthur Gordon Pym, p.145, Estampa, Lisboa, 1988