Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




segunda-feira, 31 de agosto de 2009

navegar num mar transparente

Júlio Verne escreveu muitíssimas Viagens Extraordinárias que foram todas ilustradas. Aqui encontra as mais de quatro mil gravuras de todos os seus livros.

Em "Aventuras do Capitão Hatteras" Verne descreve um mar transparente onde os heróis navegam vendo todos os seus habitantes e relevos até ao fundo do abismo. Navegar assim seria certamente uma experiência muito diferente da navegação habitual!

Esta é a gravura da viagem no mar transparente, que fica perto do Pólo Norte. Foi desenhada por Édouard Riou, um desenhador famoso, e Henri de Montaut fez a gravura em madeira. A assinatura de Riou é facilmente legível, uma outra mais pequena, à direita, será a de Montaut? Não parece, pois não?

sábado, 29 de agosto de 2009

o desfile da árvore dourada

O Gouden Boom stoet, (o desfile da Árvore Dourada) realiza-se em Bruges de cinco em cinco anos, desde 1958. Comemora e recria, se assim se pode dizer, o casamento de Carlos o Calvo, de Burgundy, e Margarida de York, em 1468. Participam no desfile cerca de duas mil pessoas com trajes inspirados nas gravuras e descrições que se conservaram desde o século XV. O último Gouden Boomstoet foi em Agosto de 2007. Vale a pena fazer uma pesquisa de imagens.

Esta fotografia é de um site só com fotografias de Bruges - Brugge, em flamengo - cujas legendas são em inglês, felizmente! ;)

Saudades da Bélgica...

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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A beleza do Alhambra

Já não sei há quantos anos fui a Granada.

Lembro-me que fui no Verão e desejei poder voltar lá no Inverno.

Esta é a cúpula da Sala das Duas Irmãs, no Alhambra. Vista ao vivo é ainda mais extraordinária, vêmo-la e custa-nos a crer que possa existir.

Victor Hugo escreveu sobre o Alhambra: "é um sonho petrificado pela varinha de um feiticeiro".

Em bela caligrafia árabe e incrível trabalho decorativo há poemas nas paredes que fazem deste edifício um livro de poesia. Na Sala das Duas irmãs há também um poema, na intrincada decoração geométrica das paredes, no qual se lê:

"A clara abóbada brilha de uma forma única, com belezas patentes e escondidas."

Vi a abóboda iluminada pelo Sol através das janelas que a rodeiam, mais ou menos como está aqui. A sala não tem outras janelas e estava na penumbra e fresca. Tentei imaginar como será com a luz da Lua.

Encontrei esta imagem aqui.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O Charles Morgan no Faial

"Após seis semanas de travessia, o Charles-Morgan fizera escala pelos Açores, ancorando no Faial. Embarcou laranjas, cebolas, batatas, frangos. Os homens foram a terra, beberam vinho generoso, que acharam extraordinariamente barato; alguns discutiram, brigaram com os Portugueses, enfim o usual. O respeitável capitão Sampson transformou-se, durante algumas horas, em contrabandista. Uma noite, o Charles-Morgan mudou discretamente de ancoradouro; uma barca silenciosa veio buscar a bordo vinte pacotes com cento e dez libras de tabaco americano cada um. Os Portugueses davam novecentos dólares por pacote; em Nova Bedford, pela mesma quantidade, pagavam-se duzentos e sessenta dólares."

Georges Blond, A Grande Aventura das Baleias, p. 97, Editorial Aster, Lisboa, s/ data. O Copyright do original francês é de 1965

A acção, que não é inteiramente histórica nem inteiramente fictícia, decorre em 1849. O Charles-Morgan é um barco à vela de três mastros, que partiu de New Bedford para caçar cachalotes à volta do mundo numa viagem de quatro anos, com 32 homens a bordo, dos quais metade nunca tinham visto o mar. Depois de sair do Faial dirigiu-se ao Sul, passou o Equador e só então encontrou e matou o seu primeiro cachalote.

Este livro tem fotografias tiradas nos Açores de cachalotes a serem desmanchados: as legendas indicam Graciosa e Faial (Porto Pim).

Aqui encontra-se uma fotografia de um modelo do Charles Morgan no Museu de Angra do Heroísmo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

mais ou menos tudo o que pode acontecer a um homem

Ilustração do livro "Physicas" de Hildegard von Bingen (1098-1179). Esta ilustração é da primeira edição impressa: Argentorati, 1533. Encontra-se nas Colecções de História da Ciência da Biblioteca da Universidade de Oklahoma. Carregando aqui tem acesso à imagem, aqui tem acesso a todas as imagens digitalizadas deste livro e aqui tem acesso a todas as imagens digitalizadas das Colecções.

O livro "Physicas" está traduzido em inglês. É um livro sobre a Natureza (Physica): plantas, animais, pedras, e os seus usos medicinais. Hildegard escreveu-o em latim, embora alguns dos nomes das espécies a que ela se refere sejam de origem local e difíceis de identificar, conforme explica Priscilla Throop, a tradutora, na introdução.

O livro foi impresso na tipografia de Johann Schott, em França, mas não sei se é possível descobrir quem terá desenhado as ilustrações.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Como será Tomsk?


Será Tomsk, porém, uma cidade interessante? Convém notar que sobre este ponto não se mostram de acordo os viajantes. Madame de Bourboulon, que se demorou em Tomsk na sua viagem de Xangai para Moscovo, faz dela uma descrição pouco lisonjeira. A guiarmo-nos pelas suas impressões, Tomsk é uma cidade insignificante, orlada de velhas casas de tijolo e pedra, ruas estreitas, muito diferentes das que se observam nas grandes cidades siberianas, e bairros imundos, habitados particularmente por tártaros; finalmente, uma cidade na qual avultam os ébrios em estado de apatia, que é comum a todos os povos do Norte sob os efeitos da embriaguês.
O viajante Henrique Russel Killough, esse, pelo contrário, tece grandes elogios a tudo que observou em Tomsk. Dependerão estas diferentes apreciações de o segundo ter visto a cidade no Inverno envolta no seu lençol de neve, enquanto Madame de Bourboulon só lá esteve no Verão?
Júlio Verne, Miguel Strogoff, 2º vol., p.56, Livraria Bertrand, s/ data
Júlio Verne publicou Miguel Strogoff em 1876
Tchekov passou por Tomsk na viagem que fez à ilha de Shakalina, a norte do Japão. A 20 de Maio de 1890 escreveu numa carta à irmã: "Tomsk é uma cidade muito enfadonha. A julgar pelos bêbados que conheci, e pelos intelectuais que vieram ao hotel apresentar-me os seus cumprimentos, os habitantes também são enfadonhos."

Parece que, na Primavera, Tomsk já não estava no seu melhor...
Para se vingarem de Tchekov os habitantes de Tomsk fizeram uma colecta e erigiram-lhe um monumento em bronze, em 2004. Foi feito a partir da estátua em cedro do escultor Leonti Usov (1998) e a legenda diz: «Tchekov visto por um bêbado deitado na valeta que nunca leu "Kashtanka"». Para dar sorte os turistas esfregam a mão no nariz. Conhecendo o sentido de humor de Tchekov estou certa de que gosta.
Com a grafia "Katchanka" o conto de Tchekov (cuja heroína é uma cadela e não digo mais para não vos estragar o prazer de o ler) foi publicado em Portugal:
Contos e narrativas de Tchekov, (1887), vol. IV, p. 270, Estúdios Cor, s/ data

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

No estrangeiro nem sempre é preciso falar estrangeiro

No estrangeiro nem sempre é preciso falar estrangeiro. Quando não conhecemos nenhuma língua comum o melhor é cada pessoa utilizar a sua própria língua apenas como veículo de expressão - para lá do sentido das palavras. Quando há boa vontade funciona muito melhor do que se poderia pensar. Quando não há boa vontade não funciona pior do que quando se fala a mesma língua. Descobri isto na Hungria. Há uns anos, na Bélgica, lidei durante alguns dias com ciganos que não falavam francês e com quem eu falava em português apenas para dizer alguma coisa, porque o essêncial era comunicado pelas situações e gestos. Uma vez passei por um grupinho de crianças e, só para não passar calada, disse: "estão a brincar os meninos?" e um deles arremedou-me de tal modo que compreendi que me estava a imitar. Para surpresa deles isto deu-me vontade de rir.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O perfume da viagem

Te Pirongia Te Aroaro o Kahu (a presença perfumada de Kahu) é uma montanha na ilha do norte da Nova Zelândia. Em 2003 Mike Judge pintou este mural na escola primária. Vê-se a montanha e a cidade de Pirongia, o rio Waipa e ao longe a montanha Kakepuku.

A montanha de Pirongia é a viagem de Kahu quando chora a morte do seu marido Uenga.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Vos compriendeis?

"Inclinou suavemente a cabeça e pronunciou algumas palavras que nem o major nem o seu amigo conseguiram compreender.

Então, o patagónio, depois de ter observado atentamente os estranhos, mudou de linguagem; mas, fizesse ele o que fizesse, este novo idioma não foi melhor compreendido que o primeiro. Contudo, algumas expressões de que o indígena se serviu impressionaram Glenarvan. Pareceram-lhe pertencer à língua espanhola, de que conhecia algumas palavras usuais.

-Español? - disse.

O Patagónio abanou a cabeça de cima para baixo, movimento alternado que tem o mesmo significado afirmativo em todos os povos.

-Bom - disse o major - este assunto é para o nosso amigo Paganel. Está feliz por ter tido a ideia de aprender espanhol!

Chamaram Paganel. Acorreu imediatamente e cumprimentou o patagónio com uma delicadeza muito francesa, da qual este provavelmente nada entendeu. O sábio geógrafo foi posto ao corrente da situação.

-Perfeito - disse.

E, abrindo muito a boca a fim de melhor articular, disse:

-Vos sois um homem de bem.

O indígena escutou e nada respondeu.

-Não compreende - disse o geógrafo.

-Talvez não acentue bem! - respondeu o major.

-Tem razão. Que diabo de sotaque!

E de novo Paganel recomeçou o seu cumprimento. Obteve o mesmo resultado.

-Mudemos de frase - disse e, pronunciando com uma lentidão magistral, deu a ouvir estas palavras:

-Sem duvida, um patagão?

O outro continuou mudo com antes.

-Dizeime! - acrescentou Paganel.

O patagónio continuou a não responder.

-Vós compriendeis? - gritou Paganel tão violentamente que quase despedaçava as cordas vocais.

Era evidente que o índio não compreendia, porque respondeu, mas em espanhol:

-No comprendo.

Foi a vez de Paganel ficar aturdido, e tirou depressa os óculos da testa para os olhos, como um homem irritado.

-Que eu seja enforcado - disse - se percebo uma palavra deste dialecto infernal! É araucaniano, sem dúvida!

-Não, não - respondeu Glenarvan - este homem respondeu certamente em espanhol.

E voltando-se para o patagónio:

-Español? - repetiu.

-Si, si! - respondeu o indígena.

A surpresa de Paganel transformou-se em estupefacção. O major e Glenarvan olhavam um para o outro pelo canto do olho.

-Ora esta!, meu sábio amigo - disse o major, enquanto um meio sorriso se lhe desenhava nos lábios - não terá cometido uma dessas distracções de que me parece ter o monopólio?

-Quê! - disse o geógrafo, prestando ouvidos.

-Sim! É evidente que este patagónio fala espanhol...

-Ele!

-Ele! Será que, por acaso, aprendeu uma outra língua, julgando estudar...

Mac Nabbs não terminou. Um «Oh!» vigoroso do sábio, acompanhado de um erguer de ombros, interrompeu-o.

-Major, está a ir longe de mais - disse Paganel com um tom bastante seco.

-Enfim, como não compreende! - respondeu Mac Nabbs

-Não compreendo porque este indígena fala mal! - replicou o geógrafo que começava a perder a paciência.

-Quer dizer que ele fala mal porque você não compreende - respondeu tranquilamente o major.

-Mac Nabbs - disse, então, Glenarvan - essa é uma suposição inadmissível. Por muito distraído que seja o nosso amigo Paganel, não podemos supor que as suas distracções tenham chegado ao ponto de aprender uma língua em vez de outra!

-Então, meu caro Edward, ou antes o senhor, meu bom Paganel, explique-me o que se passa aqui.

-Não explico - respondeu Paganel - constato. Tenho aqui o livro onde me treino diariamente nas dificuldades da língua espanhola! Examine-o, major, e verá se o estou a enganar!

Dito isto, Paganel, revistou os seus enormes bolsos; após alguns minutos de buscas, tirou um volume em muito mau estado e apresentou-o com um ar seguro. O major pegou no livro e observou-o:

-Pois bem, que obra é esta? - perguntou.

Os Lusíadas - respondeu Paganel - uma admirável epopeia que...

-Os Lusíadas! - exclamou Glenarvan.

-Sim, meu amigo, Os Lusíadas do grande Camões, nem mais nem menos!

-Camões - repetiu Glenarvan - mas, infeliz amigo, Camões é português! É português que aprende há seis semanas!

-Camões! Lusíadas! Português!

Paganel não conseguiu dizer mais nada."

Júlio Verne, Os filhos do Capitão Grant, vol. 1, pp. 106 a 108, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1987

O mais engraçado é que as frases em português têm notas de rodapé onde estão traduzidas como se segue:

-Vós sois um homem de bem. (É um homem de bem.)

-Sem dúvida, um patagão? (Um Patagónio, sem dúvida.)

-Dizei-me! (Responda!)

-Vos compriendeis? (Compreende?)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

um mar de gente

Encontrei esta fotografia aqui. No tempo do "Grande Calor" (Dashu) os pescadores de Taizhou, na província chinesa de Zhejiang, levam para o mar um barco feito de papel e cheio de ofertas.