Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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quarta-feira, 21 de maio de 2014

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

caminho-de-ferro sazonal

instalação da linha de caminho-de-ferro na salina do lago Sasyk-Siwash (Сасык-Сиваш) - o maior lago de sal na península da Criméia - a recolha do sal é feita todos os anos no outono, a linha de caminho-de-ferro é instalada no início dos trabalhos e removida no final

fotografia de Алексей Голубцов (Alexei Golubcov) aqui

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Pináculo de Catedral

Pináculo da Catedral da Ressurreição do Salvador do Sangue Derramado, São Petersburgo.
Uma das fotografias tiradas por jovens russos que treparam até ao cimo, aqui.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

analema 2013

Analemma em Kumagaya, Saitama, Japão, às 7 horas da manhã. 

Fotografada por Masayuki Shiraishi de 18 de Janeiro de 2013 a 22 de Dezembro de 2013. 

Ver aqui

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

um belo jogo dura pouco

Joãozinho e Serenella brincavam às guerras, no leito seco dum regato, de margens cobertas de canas e chão cinzento e amarelo. Não havia inimigos, na verdade, nem sequer batalhas com princípio e fim; seguiam simplesmente pelo leito do rio abaixo, uma cana na mão, simulando cenas de guerra, conforme lhes vinham à cabeça.

As canas representavam toda a espécie de armas: uma baioneta, e Joãozinho atirava-se ao assalto sobre o leito arenoso, soltando um ronco gutural; metralhadora, e assentava-a entre duas pedras, fazendo-a girar à volta, em rajadas que a faziam estremecer; bandeira, e erguia-a ao alto, feito alferes, cravando-a numa lomba e a seguir caía, levando as mãos ao coração.

-Cruz Vermelha! - chamou. - Tu és a Cruz Vermelha. Vem cá, não vês que estou ferido?

Serenella, que até ali fora metralhadora inimiga, correu para ele e aplicou-lhe na testa uma folha de hortelã, à laia de adesivo.

Joãozinho deu um salto, segurou a cana horizontalmente, e escapuliu-se, de braços estendidos.

-Os bombardeiros! Os bombardeiros sobre o objectivo! Viiiiiiiiiiii! Boum! - e deixou cair uma mão cheia de cascalho em cima de Serenella.

-Agora és uma coluna motorizada inimiga em marcha e eu vou bombardear-te!

-Que é que devo fazer? - perguntou Serenella.

-Rasteja pelo chão e vê se escapas às bombas. Viiiiiiiiiiii! Boum! Não, agora vocês espalham-se pelo terreno aberto!

Serenella correu por entre as canas, mas Joãozinho chamou-o de novo, gritando:

-O caça inimigo! Tu és o caça inimigo! Vá, ataca!

Mas como Serenella não sabia bem o que fazem os caças, Joãozinho decidiu fazer ele de caça inimigo e deixar a Serenella o papel de esquadrilha de bombardeiros.

-Agora sou o piloto que se precipita em chamas, olha! - disse Joãozinho.

-E eu? E eu? - perguntou Serenella.

-Tu, tu és a que abraça os que tombam na guerra!

-Quem? Quem?

-A glória! Não sabes como é a glória? Vens como se fosses um anjo e debruças-te sobre mim.

Serenella tentou fazer de glória e saiu-se muito bem.

Depois, imitaram o lançamento de V-2, atirando as canas como dardos. As canas acabaram por ir boiar numa poça cheia de água esverdeada. Travaram então uma batalha naval com as canas-contratorpedeiros fazendo fogo sobre Serenella-couraçado e Serenella-porto invadido pelas canas-comandos e as canhonadas de Serenella contra Joãozinho-porta-aviões e as mãos-submarinos de Joãozinho contra os cruzadores-canas e as mãos-náufragos de Joãozinho na baleeira-Serenella.

Molhados da cabeça aos pés, rebolaram-se na areia e Joãozinho decidiu ser carro de assalto, quer dizer, ele carro blindado e Serenella minas anti-carro. Explodiram e saltaram pelo ar, tornaram  a pegar nas canas e, montando-as como se fossem cavalos, travaram recontros entre patrulhas de cavalaria. Para fazer uma carga era preciso cornetim, e Joãozinho, arrancando uma bainha à sua cana, segurou-a entre os dedos e soprou, fazendo-a vibrar num assobio áspero. Ante aquele som apareceram três soldados de verdade.

O regato alargava-se ali e o vale era um prado cavado em concha, cortado por tufos de arbustos. Dois soldados, com ramos verdes no capacete, encontravam-se deitados de barriga no chão, as solas das botas ferradas verticais sobre o terreno. Um deles, com auscultadores nas orelhas, fazia funcionar um rádio de campanha, de antena recurva.

Em silêncio, arrastando as canas pelas pontas, as duas crianças, abeiraram-se de um dos soldados. Estendido na relva, a espingarda apontada, tinha às costas capacete, mochila, bornal, granadas de mão, cantil e máscara antigás, como se tudo aquilo lhe tivesse caído em cima, numa avalancha de objectos. Sobre tudo isto, ramos arrancados a uma mimosa, com lanhos que punham à mostra o cerne vermelho da madeira bem como a casca dilacerada. O soldado, do chão, voltou a cara para os garotos, quase sem mexer o capacete, virando-se de tal maneira que uma das faces ficou encostada à terra. Tinha olhos cinzentos e tristes e uma folha de cerejeira nos lábios.

Os garotos acocoraram-se a seu lado. Apontaram as canas para a frente, paralelas à espingarda do soldado. Joãozinho perguntou-lhe:

-Andas na guerra?

O soldado arrastou o queixo no chão, abriu os lábios e cuspiu a folha de cerejeira, sem dizer nada. Agarrou na cana de Joãozinho com uma das mãos na intenção de a partir, mas a cana era tão nova e esguia, que se dobrava toda sem quebrar; o soldado teve de a torcer e desfazê-la fibra a fibra. A Joãozinho desagradava-lhe ver-se assim roubado daquela arma que lhe merecia toda a afeição, mas o soldado punha nos seus gestos tanto afinco que não ousou dizer-lhe nada.

-Olha, lá em baixo - apontou Serenella.

Avistara, na vertente oposta do vale, um outro soldado, a agitar bandeirolas coloridas.

-Desculpe: podemos ir até lá abaixo? - perguntou Joãozinho.

O soldado devia ter feito um movimento como que um encolher de ombros, porque os objectos que trazia às costas chocalharam uns nos outros e o cantil bateu no capacete.

Os garotos afastaram-se, na ponta dos pés.

Sobre o valado, uma amoreira dava sombra e junto do tronco, sentado numa cadeira desmontável, estava sentado um general. Era um sujeito gordo em mangas de camisa, que olhava por um binóculo, levantando os óculos escuros para a testa e baixando-os em seguida para enxugar o suor com um lenço. Limpava depois com o lenço os óculos também húmidos de suor. Ao passar as mãos sobre uma carta topográfica que tinha aberta sobre os joelhos, ia falando, resfolgante, com o seu estado-maior: oficiais sentados na erva, a seus pés, de pernas encolhidas, as mãos pousadas nos bornais ou segurando binóculos.

Joãozinho e Serenella conservaram-se por momentos ali ao lado do general, segurando as canas direitas, como se apresentassem armas.

-Uf!... o tiroteio inimigo - dizia o general - cai mesmo em cheio sobre os nossos... uf!... - depois, outras palavras que não se percebiam! Os seus dedos curtos, semeados duma penugem avermelhada, iam percorrendo o mapa, como enormes lagartos. - Que dolorosa perda de homens, mas... uf!... as posições...

Os oficiais do estado-maior, sentados naquelas incómodas posições, apoiando-se nas mãos e outras vezes nos cotovelos e só com muita dificuldade resistindo à tentação de se estenderem ao comprido na erva e adormecerem ao sol, reagiam, mostrando-se muito activos à volta do general: escreviam notas nos canhenhos, seguiam as operações na carta topográfica e demonstravam interesse por um deles, que se contorcia às voltas com um goniómetro; pareciam estudar um a um os elementos da paisagem e as tropas escondidas, que disparavam continuamente, com impassível resignação, como se os sinais do lápis do general sobre o mapa as apagassem da própria face da terra.

-Naturalmente, além, nas vinhas - dizia o general - os nossos tiros fazem terra queimada... além, a descoberto... uf!... estão a ver o observatório inimigo?

-Está assinalado no mapa, meu general - disse um oficial, muito zeloso -, como «habitação rústica»...

O general, porém, não olhou para o mapa e continuava a indicar no morro a casa que Joãozinho e Serenella sabiam ser a do velho Paulo, criador de bichos-da-seda.

-É o primeiro objectivo a abater - disse o general.

O oficial do goniómetro forneceu os números.

As crianças olhavam para a casa do criador dos bichos-da-seda, depois para o lápis do general, que desenhava uma cruz no mapa.

Soou um tiro. Joãozinho e Serenella sobressaltaram-se e as canas bateram uma na outra.

-Que é que estes miúdos andam aqui a fazer? - disse uma voz, e eles viram-se agarrados pelos colarinhos. - Quem é que deixou estes miúdos andarem pela zona de operações?

Num salto de gato Joãozinho e Serenella conseguiram desenvencilhar-se daquelas mãos.

Desataram a correr por um carreiro adiante, num trote certo, calados e sem se voltarem para trás, apertando nas mãos as suas canas em posição de ao alto arma.

Quando lhes faltou o fôlego, pararam. Viram-se num sítio onde o canavial formava uma barreira longa e densa, fazendo restolhar no ar as bainhas verde-vivo pelo lado de dentro e verde-pálido por fora.

-Aqui - disse Joãozinho - há muito material para fazermos espingardas.

Mas a alegria surgia agora um tanto velada. Deitaram fora as velhas armas e meteram-se pelo canavial adentro.

-Olha que rica arma que eu arranjei!

-A minha é mais alta!

A verdade é que nenhuma se parecia com as do princípio. Nenhuma valia o que valiam as outras e imaginá-las lanças, metralhadoras ou aeroplanos já não dava nenhuma satisfação. O canavial acabava de repente; depois das canas era o céu e o mar. A ribanceira descia em socalcos, preenchidos por estreitas faixas de terra cultivada, que esteiras ao alto protegiam do sol. Depois, começavam os seixos marinhos e o mar estendia-se, onda após onda, até ao fim do horizonte.

-Aaaahuu! - gritou Joãozinho, desatando a correr em direcção à vereda. - Ao assalto...! Estamos debaixo de fogo inimigo...!

-Aaaaaahuuu! - imitou Serenella.

Desatou também a correr mas parou de repente: Joãozinho fizera o mesmo e quedara-se, entristecido. Acontecera-lhe, ao gritar, ouvir a sua voz como se fosse alheia.

-Terra queimada! - gritou, de novo. - Passam-lhe por cima os carros de assalto e depois já nem a erva cresce.

Rebolara-se pelo chão arenoso, mas Joãozinho pensou que era muito estúpido estarem para ali a amachucar os ossos numa brincadeira tão parva.

Embirrou com a outra:

-Serenella, se não sabes brincar também não tem piada nenhuma!

-Mas porquê? Que é que queres que eu faça?

-Fazaes de metralhadora! És um ninho de metralhadoras e eu tenho de tomar-te de assalto.

-Rat-ta-ta-ta-ta-ta! - fez Serenella, condescendente, atirando-se de rojo.

-Eu agora avanço para te atirar uma granada de mão, mas fico caído no chão. Olha como é!

Atirou-lhe uma folha de palmeira, depois levou as mãos ao peito e caiu por terra. Caiu bem. Mas já nem morrer em combate o satisfazia.

Serenella ainda insistiu umas tantas vezes:

-Rat-ta-ta-ta-ta-ta!

Depois percebeu que devia mudar. Aproximou-se do companheiro e disse:

-Cá estou. Agora sou a glória. A glória que abraça os que tombam no campo de batalha.

Debruçou-se sobre ele como um anjo, mas Joãozinho não se mexia e Serenella achou tudo aquilo muito estúpido.

Sentaram-se no chão, de cabeça baixa, arrancando, lentamente, tufos de erva. A princípio, brincar às guerras fora divertido, mas agora vinha-lhes à ideia o olhar triste daquele soldado com a folha nos lábios e os dedos peludos do general que apagavam vinhas e casais. Joãozinho procurava lembrar-se de qualquer outra brincadeira, mas, a meio de qualquer pensamento, surgiam-lhe sempre pela frente aqueles olhos tristes e aqueles dedos avermelhados.

Teve uma ideia:

-Um jogo novo! - e deu um salto.

Via-se um muro recamado por uma trepadeira de madressilvas. Joãozinho agarrou numa ponta e começou a puxá-la, procurando não a pisar e não a soltar do muro.

-Sabes o que isto é?

-Que é?

-É uma mina carregada, escondida debaixo do Estado-Maior do Exército.

-E depois, o que é que vamos fazer?

-Tapa os ouvidos! Pegamos fogo à mecha e em poucos segundos o exército vai pelos ares!

Serenella tapou os ouvidos. Joãozinho simulou o gesto de acender um fósforo e de o aproximar da mecha, depois fez pfft! e seguiu com o olhar a mecha imaginária, mordida pelas chamas.

-Atira-te para o chão, Serenella, depressa! - gritou ele tapando os ouvidos.

-Ouviste? Mas que grande estrondo! Acabou-se o exército!

Serenella riu-se:

-Isto agora já é uma brincadeira divertida!

Joãozinho puxou para si mais umas hastes.

-Sabes para quem é esta mecha? Agora é para o Estado-Maior da Armada!

Serenella já tinha os dedos nos ouvidos. Joãozinho fingiu que botava fogo.

-Atira-te para o chão depressa, Serenella! - gritou ele, dando-lhe um empurrão.

O Estado-Maior da Armada também tinha ido pelo ar.

Esta agora é para o Estado-Maior da Aviação!

Aquilo era uma brincadeira deveras emocionante.

-E agora que é que vais fazer saltar pelo ar? - perguntou Serenella, mal se levantou.

Joãozinho não sabia o que é que havia de seguir-se à aviação.

-Parece-me que já não há mais nada - rematou. - Foram todos pelo ar.

E desceram, em direcção ao mar, a construir castelos de areia.

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Italo Calvino, "Os Idílios Difíceis", p. 69-77, Editora Arcádia Lda., Lisboa, 1964 (primeira publicação em italiano em 1958)

imagem aqui, infelizmente o livro que estou a ler já não tem esta linda sobrecapa...

terça-feira, 1 de outubro de 2013

No céu da meia-noite um anjo voava

Citação do poema de Lermontov "O Anjo" (1831) que abre o prólogo do livro "As Bagas Silvestres da Sibéria" publicado por Evguéni Evtouchenko na Rússia em 1981, traduzido de uma tradução francesa e publicado pela Presença em Lisboa em 1985.

Prólogo

"Esta frase veio ao espírito do astronauta, que sorriu tristemente e pensou, para consigo: «É bonito, o anjo...»

Voltado para a vigia da sua nave espacial, o rosto do astronauta estava fatigado, prematuramente envelhecido, mas cheio de uma viva curiosidade infantil. Ainda nunca tinha ido ao estrangeiro e eis que, de súbito, o seu olhar abarcava todos os países ao mesmo tempo. As fronteiras tinham desaparecido. Todos os postos fronteiriços bicolores, essas no man's lands cuidadosamente arranjadas, o arame farpado, os comités fronteiriços com os seus pastores alemães, os postos alfandegários, tudo soçobrara no nada. Vista do cosmos, a existência de todos esses seres, de todas essas instituições parecia de um absurdo contranatural. Um termo como o de propiska, pelo qual se designa o registo obrigatório de todos os cidadãos soviéticos no posto de milícia do seu bairro, tornava-se subitamente grotesco, totalmente inconcebível...

Abaixo dele, punhado de poalha de ouro semeada num campo de veludo negro, Paris cintilava com miríades de luzes."


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Cascais, 2013

Um dos jovens é ucraniano, os outros são russos e gostam de subir a lugares vertiginosos (ou descer a lugares subterrâneos de difícil acesso) e tiram fotografias. Este verão conseguiram patrocínio de uma empresa de telemóveis - para testar o roaming e a cobertura - e vieram viajar na Europa: da Suécia até Portugal.

Vale a pena ver as fotografias, as da Catedral da Sagrada Família em Barcelona são espectaculares.

Esta é uma das fotografias de V. Raskov em Portugal. Ver aqui "Urban Exploration 2013: Europa"

terça-feira, 10 de setembro de 2013

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

domingo, 21 de julho de 2013

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Astronomia Imperial

pag. 47 de Astronomicum Caesareum 
Petrus Apianus viveu sobretudo no séc. XVI na Alemanha. Filho de um sapateiro próspero estudou, tornou-se professor e impressor universitário e cientista da corte de Carlos V.

Casou com 31 anos. A mulher deu-lhe cinco filhas e nove filhos, um dos quais preservou e continuou a sua obra.

Um dos livros que Petrus Apianus escreveu, ilustrou e publicou foi o "Astronomicum Caesareum" (1540) que está digitalizado e pode ser visto gratuitamente no site e-rara - onde as bibliotecas suíças digitalizam livros raros.

Algumas ilustrações contêm partes móveis e fios que servem para encontrar a posição dos astros em diferentes datas - a página seguinte está colada de modo a permitir o movimento. É também o primeiro livro onde se encontra que a cauda dos cometas se estende sempre no sentido oposto ao Sol.