Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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segunda-feira, 9 de abril de 2018

quinta-feira, 22 de março de 2018

escreve, diz ela

Catálogo de manuscritos iluminados da Biblioteca Britânica.

Royal 10 E IV f. 307
Seated man taking dictation from a woman

Descrição da página de imagens «homis assis à la dictée d'une femme.
Origine: França, S. (Toulouse?)»

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

mundo flutuante

Estampa de Hokusai no site da Biblioteca Nacional de França. Link: aqui.

Mundo flutuante (Ukiyo) foi o nome que os japoneses deram à cultura urbana que se desenvolveu no Japão entre os séc. XVII e XIX. O nome é uma alusão irónica ao triste mundo budista. As estampas japonesas são retratos do mundo flutuante. 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

adorar um tracinho

"THE temporary decline of theology had involved the neglect of philosophy and all fine thinking, and Bernard Shaw had to find shaky justifications in Schopenhauer for the sons of God shouting for joy. He called it the Will to Live -- a phrase invented by Prussian professors who would like to exist but can't. Afterwards he asked people to worship the Life-Force; as if one could worship a hyphen."


G.K. Chesterton: "George Bernard Shaw."

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Pestana do Mundo

Qvando às vezes ponho diante dos olhos os muitos & grãdes trabalhos & infortunios que por mim passarão, começados no principio da minha primeira idade, & continuados pella mayor parte, & milhor tẽpo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da vẽtura que parece que tomou por particular tenção & empreza sua perseguirme, & maltratarme, como se isso lhe ouuera de ser materia de grande nome, & de grande gloria, porque vejo que não contente de me por na minha patria logo no começo da minha mocidade, em tal estado que nella viui sempre em miserias, & em pobreza, & não sem alguns sobresaltos & perigos da vida me quis tambẽ leuar às partes da India, onde em lugar do remedio que eu hia buscar a ellas, me forão crecendo com a idade os trabalhos, & os perigos. Mas por outra parte quãdo vejo que do meyo de todos estes perigos & trabalhos me quis Deos tirar sempre em saluo, & porme em seguro, acho que não tenho tanta razão de me queixar por todos os males passados, quãta de lhe dar graças por este só bẽ presente, pois me quis conseruar a vida, paraque eu pudesse fazer esta rude & tosca escritura, que por erança deixo a meus filhos (porque só para elles he minha tenção escreuella) paraque elles vejão nella estes meus trabalhos, & perigos da vida que passei no discurso de vinte & hũ ãnos em que fuy treze vezes catiuo, & dezasete vendido, nas partes da India, Etiopia, Arabia felix, China, Tartaria, Macassar, Samatra, & outras muitas prouincias daquelle oriental arcipelago, dos confins da Asia, a que os escritores Chins, Siames, Gueos, Elequios nomeão nas suas geografias por pestana do mũdo.

Fernão Mendes Pinto, Peregrinação. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Quem sabe por onde vai

leva sua conta feita,
nunca do caminho sai,
nunca olha a quem diz: «tomai
à esquerda ou à direita.»

Francisco Sá de Miranda (1481?-1558)
in «Sá de Miranda, poesia e teatro», p. 101, Biblioteca Ulisseia de autores portugueses.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Herder



Da praia longínqua, na areia doirada,
O Cisne pensava, fitando a Alvorada:

– «Que imensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fosse cantar uma vez!

Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hinos mais altos à glória do Sol...

Não é das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;

É quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minha alma de luto.

Se a Aurora se lança do cume dos montes,
Até de alegria murmuram as fontes;

Só eu, passeando o meu tédio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.

O Sol, que já vejo surgindo do Mar,
Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!» –

E o Cisne, em silêncio, chorava, escutando
A orquestra das aves que passam em bando.

Das águas rompia a quadriga de Apolo,
E o pobre a cabeça escondia no colo...

Mas Febo detém-se nas nuvens ao vê-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabelo,

E diz-lhe, sorrindo, num halo de fogo:
– «No Olimpo sagrado ouviu-se o teu rogo...» –

E nesse momento a Lira Sem Par
Da mão luminosa deixou resvalar...

O Cisne, orgulhoso da graça divina,
Da Lira de Apolo as cordas afina,

E rompe cantando... Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves... As urzes dos montes

Tremiam de gozo a ouvi-lo cantar...
E o vento sonhava na espuma do Mar.

O Cisne cantava, tirando da Lira
Um hino que nunca na terra se ouvira;

Não pára, nem sente, na sua emoção,
Que a vida lhe foge naquela canção.

Mas quando, entre nuvens, a tarde caía
no enlevo do canto que a essa hora gemia,

E Apolo no seio de Tétis desceu,
O pobre do Cisne, cantando, morreu...

Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,

E o mar soluçava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.

Solícita espera-o, das águas à beira,
Do Cisne, já morto, fiel companheira;

Espera que o Esposo de pronto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite já desce...

As águas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
Um pano de enterro picado de estrelas.

Então, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;

Mergulha nas águas, coleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,

Que ao longe parece que vão a voar...
E o Cisne não volta, não pode voltar!

Chorosa viúva, nas águas desliza,
Levada na fresca salsugem da brisa...

No seu abandono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,

Chorando o perdido, desfeito casal...
Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,

Que o peito sentindo de dor estalar,
– De dor e de angústia começa a cantar!

E canta com tanta ternura e paixão,
Que a Vida lhe foge naquela canção.

As aves despertam; calaram-se as fontes
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;

A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora...

Na terra, no espaço, nos astros, no céu,
Mais alta harmonia ninguém concebeu;

E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cisne que expira a cantar...

Desde esse momento, no Olimpo onde entraram,
Em honra dos Cisnes que tanto se amaram,

Das almas que foram leais e sinceras,
se Vénus se mostra, surgindo da bruma,
São eles que tiram, nas altas esferas,
A concha de nácar, cercada de espuma...


António Feijó, Sol de Inverno, 1922


Mais poemas de António Feijó na página do Projecto Vercial, carregar aqui

terça-feira, 13 de setembro de 2016

amizade perpétua

Gazeta de Lisboa occidental, num. 29, 337, quinta-feira, 21 de Julho de 1740,

Italia, Napoles, 14 de Junho
Com a chegada de um correio extraordinário de Constantinopla se recebeu aviso que Monsenhor Finochetti, ministro desta Corte, tem acabado de ajustar entre este Reino e o Império Otomano, um tratado de amizade, comércio e navegação, pelo qual se comprometem ambas as partes de observarem uma paz e amizade perpétua entre as duas nações, as quais poderão comerciar livremente (...) link: carregar aqui

terça-feira, 26 de julho de 2016

o tigre riscadinho

o meu livro favorito quando era pequenina :)

mencionava tâmaras - eu não sabia o que era e nessa altura não se vendiam ou, pelo menos, não era fácil encontrá-las

desde que as tâmaras se tornaram acessíveis que gosto delas 

quarta-feira, 16 de março de 2016

25 de Abril, sempre

Os leitores, quase de certeza, associam o lema «25 de Abril, sempre», ao Partido Comunista! Porém, na verdade, fui eu que o inventei, embora nunca tenha reclamado direitos de autor nem tencione fazê-lo!

Jorge Sampaio, O Meu Livro de Política, p. 45, Editora Texto, Lisboa, Setembro de 2009

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

bruxelenses

Levantei-me então. Os viajantes queixam-se dos hotéis estrangeiros, da nudez dos quartos que se encontram e da falta de conforto; o meu pareceu-me soberbo e muito alegre. Tinha magnificas janelas, com grandes vidros, tão limpos e tão claros! Havia um lindo espelho sobre um toucador, outro, enorme, sobre a chaminé! O chão era tão brilhante! Saí do quarto logo que me vesti; os degraus da escada, todos de mármore, quase me inspiravam respeito. No primeiro andar encontrei uma criada; calçava tamancos, vestia um saiote vermelho muito curto, uma camisa de chita, possuía cara chata e um ar estúpido; falei-lhe em francês, respondeu-me em flamengo num tom rude mas correcto. Mas achei-a encantadora; não era, por certo, nem amável nem bonita, era pitoresca; lembrava-me certas figuras dos quadros holandeses que vira, outrora, em casa do meu tio Seacombe.

Entrei numa grande sala que me pareceu majestosa; o ladrilho era preto, assim como o fogão e quase todos os móveis; nunca me sentira tão disposto para a alegria como quando me sentei diante daquela mesa preta, coberta até meio com uma toalha, branca como uma mortalha, servindo-me do café que me trouxeram numa pequena cafeteira também preta. O fogão entristecer outros olhos que não fossem os meus, pela sua cor, mas espalhava um calor reconfortante. Dois cavalheiros estavam sentados perto dele e conversavam; impossível compreendê-los, de tal modo falavam com rapidez: no entanto, o francês, na sua boca, tinha, aos meus ouvidos, sons cheios de harmonia (não sentia ainda tudo o que tem de pavoroso a horrível pronúncia belga). Um daqueles senhores reconheceu imediatamente a que nação eu pertencia, provavelmente pelas palavras que disse ao criado, pois, ainda que inutilmente, eu persistia em falar francês com a execrável pronúncia do sul da Inglaterra. O senhor em questão, depois de me ter fixado uma ou duas vezes, chegou-se polidamente e dirigiu-me a palavra em inglês. Eu daria bastante para me exprimir em francês com a mesma facilidade. A sua frase correcta e fácil, a sua excelente pronúncia, fizeram nascer no meu espírito uma ideia bastante justa do carácter cosmopolita da capital da Bélgica, e, pela primeira vez, tive a evidência da aptidão para as línguas que reconheci, mais tarde, em quase todos os bruxelenses.

Charlotte Brontë, O Professor, p.75 e 76, Inquérito, Lisboa.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

caso as mulheres dedicassem sonetos às sobrancelhas dos homens amados

(...) as sobrancelhas finamente desenhadas e excessivamente arqueadas - sobrancelhas que poderiam ter dado um soneto, caso as mulheres dedicassem sonetos às sobrancelhas dos homens amados (...)

Henry James, Os Europeus, p. 13, Contexto, Lisboa, 1990