Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

as árvores que fugiram a rir

«-Sim, Toby. É um recurso engenhoso para o qual apelam os ladrões quando se vêem perseguidos de perto. Ocultam as roupas que vestem num ervaçal e colocam-se, como vês, erguendo os braços, depois de empunhar alguns ramos. Os perseguidores passam longe, tomando-os por verdadeiras árvores.
-Parece incrível! - confessou Toby, admirado
-Conta-se a tal propósito uma anedota deveras engraçada. Encarregaram um oficial, teu compatriota [inglês], de exterminar certo bando de malfeitores que infestava o Bheel. Uma tarde em que seguia as pegadas dos bandidos, encontrou-se inopinadamente, com os soldados que comandava, ante um grupo de árvores de ramos secos e nus. Um tanto surpreendido ao ver árvores secas entre outras de verde e esplêndida ramaria, mandou fazer alto e, para limpar o suor, pendurou o capacete num dos galhos de tais árvores. E sabes o que era?
-Não...
-O braço de um bandido!
-Essa é dura de roer!
-É absolutamente verídico. Os ladrões foram descobertos, porque não puderam sofrear o riso ao verificar a boa fé do oficial, que ficou estarrecido de assombro ao ver fugir as árvores com o capacete!»

Emílio Salgari, a "montanha de luz", Nº1 Colecção SALGARI, 6ª Edição, Romano Torres, Lisboa, 1981

A montanha de luz (La montagna di luce) faz parte das Aventuras na Índia e foi publicado pela primeira vez em 1902. A imagem é de um filme italiano de 1965 inspirado neste livro e com o mesmo nome. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ataque português a Jeddah (Judá), 1517

«Em 1517, uma frota portuguesa inteira. com mais de 3.000 soldados e marinheiros, partiu para a Índia para controlar o Mar Vermelho. A invasão andou anos a ser preparada, mas a ocasião não podia ter sido mais propícia. O sultão otomano, Selim, o Taciturno tinha acabado de conquistar o Egito e as respetivas colónias, Síria e Arábia, mas os antigos territórios mamelucos continuavam agitados. Por breves momentos, o objetivo de D. Manuel parecia facilmente concretizável: do Suez, eram só uns dias de caminho até à cidade de Jerusalém.

A frota chegou a Aden, onde os cruzados foram inesperadamente recebidos de braços abertos. Aden estava completamente em pânico por causa dos invasores otomanos, que há muito eram conhecidos pelo tratamento atroz que davam aos Árabes. Se os Portugueses tivessem dito que queriam a cidade, relatou um mercador alemão, chamado Lazarus Nürnberger, a cidade ter-lhes-ía sido entregue no mesmo instante. Mas, em vez de aceitarem a chave de entrada no Mar Vermelho, os indecisos comandantes seguiram para Jeddah (Judá). Lançaram âncora, reuniram-se e decidiram que a passagem para Meca estava tão fortemente defendida que seria arriscado atacar. Em vez disso regressaram a Aden, mas, desta vez, o governador tinha perdido a fé nos irresolutos cristãos e a frota foi às voltas até à Índia. Quando lá chegou, muitos dos homens que ainda não tinham desertado tinham-se perdido em violentas tempestades.»

Guerra Santa, As Viagens Épicas de Vasco da Gama e o Ponto de Viragem em Séculos de Confrontos Entre Civilizações
Por NIGEL CLIFF

ver aqui

a imagem está na Wikipedia como provindo do livro The Ottoman Age of Exploration mas encontrei-a também como proveniente de Gaspar Corrêa, Lendas de Índia, 1858, no site da Newberry Library, Chicago: Greenlee Collection

terça-feira, 29 de julho de 2014

apetites insaciáveis

Caricatura de James Gillray, 1805

William Pitt e Napoleão.

A legenda está em inglês e francês: «O pudim de ameixas em perigo; _ ou _ Epicuristas do Estado ao Jantarzinho
____ "o próprio grande Globo, e tudo o que ele herda", é demasiado pequeno para tais insaciáveis apetites»

 "o próprio grande Globo, e tudo o que ele herda" (the great globe itself—Yea, all which it inherit) é uma citação de A Tempestade, de Shakespeare, Acto 4, cena 1

A caricatura está na Wikimedia


quarta-feira, 9 de julho de 2014

verosímil

"PRECISA-SE DE HOMENS
para viagem arriscada, salários baixos, frio intenso, longos meses de completa escuridão, perigo constante, regresso em segurança duvidoso. Honra e reconhecimento em caso de sucesso."

Verosímil mas provavelmente forjado (honra "honor" está escrito à americana; à inglesa seria "honour", embora não seja a prova decisiva de que foi forjado é uma das mais fáceis de indicar e reconhecer).

Fontes (em inglês): $100 anúncioO mito do anúncio de Sir Ernest Shakleton - um exemplo de verosimilhança

sexta-feira, 2 de maio de 2014

não temos nenhum filho Sebastião

«Bernardino Machado tinha uma prole numerosa. Conta-se que, estando um dia a trabalhar, no seu escritório, chamou um dos seus filhos :
— Sebastião !
Ninguém respondeu e ele voltou a chamar : 
— Sebastião ! 
Após um pequeno silêncio, apareceu a esposa que interrogou o distraído catedrático : 
— Por quem é que tu chamas ? 
— Pelo meu filho Sebastião. 
— Mas nós não temos nenhum filho Sebastião.
— Então manda-me outro qualquer.»

Caricatura na biografia de Bernardino Machado: aqui.

Bernardino Machado e Elzira Dantas tiveram 18 filhos. 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

antepassados

1 (eu) - 2 (pai e mãe) - 4 (avós) - 8 (bisavós) - 16 (trisavós) - 32 (tetravós) - se continuarmos chegaremos em breve a um número superior à totalidade dos habitantes da Terra nessa altura. Se continuarmos sempre o número dos nossos antepassados será infinito e nenhum deles morreu antes de se reproduzir. Lógica estrita e matemática aplicada. A ciência assenta nestes pilares - não em pilhas de tartarugas nem em ombros de Atlas.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

caminho-de-ferro sazonal

instalação da linha de caminho-de-ferro na salina do lago Sasyk-Siwash (Сасык-Сиваш) - o maior lago de sal na península da Criméia - a recolha do sal é feita todos os anos no outono, a linha de caminho-de-ferro é instalada no início dos trabalhos e removida no final

fotografia de Алексей Голубцов (Alexei Golubcov) aqui

terça-feira, 12 de novembro de 2013

recriar uma batalha

Está a tornar-se popular na Europa a recriação de batalhas, geralmente medievais ou romanas. Esta imagem é de uma dessas recriações.

O castelo é o de Peracense, perto de Teruel, em Espanha. O sítio onde o castelo foi construído é admirável. Há bastantes fotografias na internet.  

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Mazeppa

a imagem encontrei-a aqui - na exposição online sobre o teatro burlesco (Mulheres Soltas em Meias-calças) "Loose Women in Tights"

mas Mazeppa foi um guerreiro cossaco

Lord Byron escreveu um poema sobre ele que publicou em 1819; nesse poema Mazeppa conta que se apaixonou por uma jovem mulher casada e que o castigo que o marido dela lhe deu foi expulsá-lo da Polónia nu e atado a um cavalo selvagem; sofreu horrores e esteve quase à morte mas o cavalo levou-o para a Ucrânia onde foi socorrido pelos cossacos acabando por se tornar o melhor cavaleiro e guerreiro e, portanto, o chefe

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

um belo jogo dura pouco

Joãozinho e Serenella brincavam às guerras, no leito seco dum regato, de margens cobertas de canas e chão cinzento e amarelo. Não havia inimigos, na verdade, nem sequer batalhas com princípio e fim; seguiam simplesmente pelo leito do rio abaixo, uma cana na mão, simulando cenas de guerra, conforme lhes vinham à cabeça.

As canas representavam toda a espécie de armas: uma baioneta, e Joãozinho atirava-se ao assalto sobre o leito arenoso, soltando um ronco gutural; metralhadora, e assentava-a entre duas pedras, fazendo-a girar à volta, em rajadas que a faziam estremecer; bandeira, e erguia-a ao alto, feito alferes, cravando-a numa lomba e a seguir caía, levando as mãos ao coração.

-Cruz Vermelha! - chamou. - Tu és a Cruz Vermelha. Vem cá, não vês que estou ferido?

Serenella, que até ali fora metralhadora inimiga, correu para ele e aplicou-lhe na testa uma folha de hortelã, à laia de adesivo.

Joãozinho deu um salto, segurou a cana horizontalmente, e escapuliu-se, de braços estendidos.

-Os bombardeiros! Os bombardeiros sobre o objectivo! Viiiiiiiiiiii! Boum! - e deixou cair uma mão cheia de cascalho em cima de Serenella.

-Agora és uma coluna motorizada inimiga em marcha e eu vou bombardear-te!

-Que é que devo fazer? - perguntou Serenella.

-Rasteja pelo chão e vê se escapas às bombas. Viiiiiiiiiiii! Boum! Não, agora vocês espalham-se pelo terreno aberto!

Serenella correu por entre as canas, mas Joãozinho chamou-o de novo, gritando:

-O caça inimigo! Tu és o caça inimigo! Vá, ataca!

Mas como Serenella não sabia bem o que fazem os caças, Joãozinho decidiu fazer ele de caça inimigo e deixar a Serenella o papel de esquadrilha de bombardeiros.

-Agora sou o piloto que se precipita em chamas, olha! - disse Joãozinho.

-E eu? E eu? - perguntou Serenella.

-Tu, tu és a que abraça os que tombam na guerra!

-Quem? Quem?

-A glória! Não sabes como é a glória? Vens como se fosses um anjo e debruças-te sobre mim.

Serenella tentou fazer de glória e saiu-se muito bem.

Depois, imitaram o lançamento de V-2, atirando as canas como dardos. As canas acabaram por ir boiar numa poça cheia de água esverdeada. Travaram então uma batalha naval com as canas-contratorpedeiros fazendo fogo sobre Serenella-couraçado e Serenella-porto invadido pelas canas-comandos e as canhonadas de Serenella contra Joãozinho-porta-aviões e as mãos-submarinos de Joãozinho contra os cruzadores-canas e as mãos-náufragos de Joãozinho na baleeira-Serenella.

Molhados da cabeça aos pés, rebolaram-se na areia e Joãozinho decidiu ser carro de assalto, quer dizer, ele carro blindado e Serenella minas anti-carro. Explodiram e saltaram pelo ar, tornaram  a pegar nas canas e, montando-as como se fossem cavalos, travaram recontros entre patrulhas de cavalaria. Para fazer uma carga era preciso cornetim, e Joãozinho, arrancando uma bainha à sua cana, segurou-a entre os dedos e soprou, fazendo-a vibrar num assobio áspero. Ante aquele som apareceram três soldados de verdade.

O regato alargava-se ali e o vale era um prado cavado em concha, cortado por tufos de arbustos. Dois soldados, com ramos verdes no capacete, encontravam-se deitados de barriga no chão, as solas das botas ferradas verticais sobre o terreno. Um deles, com auscultadores nas orelhas, fazia funcionar um rádio de campanha, de antena recurva.

Em silêncio, arrastando as canas pelas pontas, as duas crianças, abeiraram-se de um dos soldados. Estendido na relva, a espingarda apontada, tinha às costas capacete, mochila, bornal, granadas de mão, cantil e máscara antigás, como se tudo aquilo lhe tivesse caído em cima, numa avalancha de objectos. Sobre tudo isto, ramos arrancados a uma mimosa, com lanhos que punham à mostra o cerne vermelho da madeira bem como a casca dilacerada. O soldado, do chão, voltou a cara para os garotos, quase sem mexer o capacete, virando-se de tal maneira que uma das faces ficou encostada à terra. Tinha olhos cinzentos e tristes e uma folha de cerejeira nos lábios.

Os garotos acocoraram-se a seu lado. Apontaram as canas para a frente, paralelas à espingarda do soldado. Joãozinho perguntou-lhe:

-Andas na guerra?

O soldado arrastou o queixo no chão, abriu os lábios e cuspiu a folha de cerejeira, sem dizer nada. Agarrou na cana de Joãozinho com uma das mãos na intenção de a partir, mas a cana era tão nova e esguia, que se dobrava toda sem quebrar; o soldado teve de a torcer e desfazê-la fibra a fibra. A Joãozinho desagradava-lhe ver-se assim roubado daquela arma que lhe merecia toda a afeição, mas o soldado punha nos seus gestos tanto afinco que não ousou dizer-lhe nada.

-Olha, lá em baixo - apontou Serenella.

Avistara, na vertente oposta do vale, um outro soldado, a agitar bandeirolas coloridas.

-Desculpe: podemos ir até lá abaixo? - perguntou Joãozinho.

O soldado devia ter feito um movimento como que um encolher de ombros, porque os objectos que trazia às costas chocalharam uns nos outros e o cantil bateu no capacete.

Os garotos afastaram-se, na ponta dos pés.

Sobre o valado, uma amoreira dava sombra e junto do tronco, sentado numa cadeira desmontável, estava sentado um general. Era um sujeito gordo em mangas de camisa, que olhava por um binóculo, levantando os óculos escuros para a testa e baixando-os em seguida para enxugar o suor com um lenço. Limpava depois com o lenço os óculos também húmidos de suor. Ao passar as mãos sobre uma carta topográfica que tinha aberta sobre os joelhos, ia falando, resfolgante, com o seu estado-maior: oficiais sentados na erva, a seus pés, de pernas encolhidas, as mãos pousadas nos bornais ou segurando binóculos.

Joãozinho e Serenella conservaram-se por momentos ali ao lado do general, segurando as canas direitas, como se apresentassem armas.

-Uf!... o tiroteio inimigo - dizia o general - cai mesmo em cheio sobre os nossos... uf!... - depois, outras palavras que não se percebiam! Os seus dedos curtos, semeados duma penugem avermelhada, iam percorrendo o mapa, como enormes lagartos. - Que dolorosa perda de homens, mas... uf!... as posições...

Os oficiais do estado-maior, sentados naquelas incómodas posições, apoiando-se nas mãos e outras vezes nos cotovelos e só com muita dificuldade resistindo à tentação de se estenderem ao comprido na erva e adormecerem ao sol, reagiam, mostrando-se muito activos à volta do general: escreviam notas nos canhenhos, seguiam as operações na carta topográfica e demonstravam interesse por um deles, que se contorcia às voltas com um goniómetro; pareciam estudar um a um os elementos da paisagem e as tropas escondidas, que disparavam continuamente, com impassível resignação, como se os sinais do lápis do general sobre o mapa as apagassem da própria face da terra.

-Naturalmente, além, nas vinhas - dizia o general - os nossos tiros fazem terra queimada... além, a descoberto... uf!... estão a ver o observatório inimigo?

-Está assinalado no mapa, meu general - disse um oficial, muito zeloso -, como «habitação rústica»...

O general, porém, não olhou para o mapa e continuava a indicar no morro a casa que Joãozinho e Serenella sabiam ser a do velho Paulo, criador de bichos-da-seda.

-É o primeiro objectivo a abater - disse o general.

O oficial do goniómetro forneceu os números.

As crianças olhavam para a casa do criador dos bichos-da-seda, depois para o lápis do general, que desenhava uma cruz no mapa.

Soou um tiro. Joãozinho e Serenella sobressaltaram-se e as canas bateram uma na outra.

-Que é que estes miúdos andam aqui a fazer? - disse uma voz, e eles viram-se agarrados pelos colarinhos. - Quem é que deixou estes miúdos andarem pela zona de operações?

Num salto de gato Joãozinho e Serenella conseguiram desenvencilhar-se daquelas mãos.

Desataram a correr por um carreiro adiante, num trote certo, calados e sem se voltarem para trás, apertando nas mãos as suas canas em posição de ao alto arma.

Quando lhes faltou o fôlego, pararam. Viram-se num sítio onde o canavial formava uma barreira longa e densa, fazendo restolhar no ar as bainhas verde-vivo pelo lado de dentro e verde-pálido por fora.

-Aqui - disse Joãozinho - há muito material para fazermos espingardas.

Mas a alegria surgia agora um tanto velada. Deitaram fora as velhas armas e meteram-se pelo canavial adentro.

-Olha que rica arma que eu arranjei!

-A minha é mais alta!

A verdade é que nenhuma se parecia com as do princípio. Nenhuma valia o que valiam as outras e imaginá-las lanças, metralhadoras ou aeroplanos já não dava nenhuma satisfação. O canavial acabava de repente; depois das canas era o céu e o mar. A ribanceira descia em socalcos, preenchidos por estreitas faixas de terra cultivada, que esteiras ao alto protegiam do sol. Depois, começavam os seixos marinhos e o mar estendia-se, onda após onda, até ao fim do horizonte.

-Aaaahuu! - gritou Joãozinho, desatando a correr em direcção à vereda. - Ao assalto...! Estamos debaixo de fogo inimigo...!

-Aaaaaahuuu! - imitou Serenella.

Desatou também a correr mas parou de repente: Joãozinho fizera o mesmo e quedara-se, entristecido. Acontecera-lhe, ao gritar, ouvir a sua voz como se fosse alheia.

-Terra queimada! - gritou, de novo. - Passam-lhe por cima os carros de assalto e depois já nem a erva cresce.

Rebolara-se pelo chão arenoso, mas Joãozinho pensou que era muito estúpido estarem para ali a amachucar os ossos numa brincadeira tão parva.

Embirrou com a outra:

-Serenella, se não sabes brincar também não tem piada nenhuma!

-Mas porquê? Que é que queres que eu faça?

-Fazaes de metralhadora! És um ninho de metralhadoras e eu tenho de tomar-te de assalto.

-Rat-ta-ta-ta-ta-ta! - fez Serenella, condescendente, atirando-se de rojo.

-Eu agora avanço para te atirar uma granada de mão, mas fico caído no chão. Olha como é!

Atirou-lhe uma folha de palmeira, depois levou as mãos ao peito e caiu por terra. Caiu bem. Mas já nem morrer em combate o satisfazia.

Serenella ainda insistiu umas tantas vezes:

-Rat-ta-ta-ta-ta-ta!

Depois percebeu que devia mudar. Aproximou-se do companheiro e disse:

-Cá estou. Agora sou a glória. A glória que abraça os que tombam no campo de batalha.

Debruçou-se sobre ele como um anjo, mas Joãozinho não se mexia e Serenella achou tudo aquilo muito estúpido.

Sentaram-se no chão, de cabeça baixa, arrancando, lentamente, tufos de erva. A princípio, brincar às guerras fora divertido, mas agora vinha-lhes à ideia o olhar triste daquele soldado com a folha nos lábios e os dedos peludos do general que apagavam vinhas e casais. Joãozinho procurava lembrar-se de qualquer outra brincadeira, mas, a meio de qualquer pensamento, surgiam-lhe sempre pela frente aqueles olhos tristes e aqueles dedos avermelhados.

Teve uma ideia:

-Um jogo novo! - e deu um salto.

Via-se um muro recamado por uma trepadeira de madressilvas. Joãozinho agarrou numa ponta e começou a puxá-la, procurando não a pisar e não a soltar do muro.

-Sabes o que isto é?

-Que é?

-É uma mina carregada, escondida debaixo do Estado-Maior do Exército.

-E depois, o que é que vamos fazer?

-Tapa os ouvidos! Pegamos fogo à mecha e em poucos segundos o exército vai pelos ares!

Serenella tapou os ouvidos. Joãozinho simulou o gesto de acender um fósforo e de o aproximar da mecha, depois fez pfft! e seguiu com o olhar a mecha imaginária, mordida pelas chamas.

-Atira-te para o chão, Serenella, depressa! - gritou ele tapando os ouvidos.

-Ouviste? Mas que grande estrondo! Acabou-se o exército!

Serenella riu-se:

-Isto agora já é uma brincadeira divertida!

Joãozinho puxou para si mais umas hastes.

-Sabes para quem é esta mecha? Agora é para o Estado-Maior da Armada!

Serenella já tinha os dedos nos ouvidos. Joãozinho fingiu que botava fogo.

-Atira-te para o chão depressa, Serenella! - gritou ele, dando-lhe um empurrão.

O Estado-Maior da Armada também tinha ido pelo ar.

Esta agora é para o Estado-Maior da Aviação!

Aquilo era uma brincadeira deveras emocionante.

-E agora que é que vais fazer saltar pelo ar? - perguntou Serenella, mal se levantou.

Joãozinho não sabia o que é que havia de seguir-se à aviação.

-Parece-me que já não há mais nada - rematou. - Foram todos pelo ar.

E desceram, em direcção ao mar, a construir castelos de areia.

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Italo Calvino, "Os Idílios Difíceis", p. 69-77, Editora Arcádia Lda., Lisboa, 1964 (primeira publicação em italiano em 1958)

imagem aqui, infelizmente o livro que estou a ler já não tem esta linda sobrecapa...