Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Hikeda-no-Akaiko

-Agora, uma velha historia commovente; é a historia da camponeza Hikeda-no-Akaiko; e data do século V da nossa era.


O imperador Yuraku vagueava um dia ao longo das margens pittorescas do rio Miwa, quando, á borda do rio, deu fé de uma formosa rapariga, que alli lavava roupa. Ficou encantado. Dirigindo-lhe a palavra, o imperador perguntou-lhe pelo nome; e advertiu-a que nunca se casasse, que esperasse a occasião de ser chamada á corte imperial, onde elle a queria para si.

Hikeida-no-Akaiko, a humilde camponeza, fez a sua reverencia e acquiesceu; e o imperador, após o galanteio, retirou-se, continuando a vaguear por aquelles sitios.

E a humilde camponeza pôs-se a esperar a esperar, a esperar que a chamassem á corte do soberano. Esperou tanto, que esperou até aos oitenta annos, em virginal candura de donzella, recusando vários casamentos vantajosos. Mas, tendo chegado áquella idade, curvada ao peso dos invernos e com os cabellos cor de neve, pareceu-lhe que não deveria esperar mais tempo, dirigindo-se então ao palácio imperial, com alguns presentes para o soberano.

O imperador, que havia esquecido de toda a aventura, ficou surprezo e angustiado de remorsos, quando foi informado d'aquella estranha visitante. Encheu de afagos e benesses a decrépita amorosa, buscando assim consolal-a dos longos infortúnios; do seu punho, dedicou-lhe uma poesia. Mas a velha a nada respondia, nada queria; chorava, chorava e nada mais…



Wenceslau de Moraes, Cartas do Japão III, 2ª Serie - 1911-1913, Sociedade Editora Portugal Brasil, Arthur Brandão & C.ª, Lisboa

Carta de 15 de Novembro de 1912, p. 122 e 123

sábado, 29 de outubro de 2011

despercebido

A Revelação

Um poeta desocupado, aqui e ali,
   Olha à sua volta, mas, para todo o resto,
O mundo, incompreensivelmente belo,
   É mais aborrecido que a piada de um maçador.
O amor acorda os homens, uma vez em cada vida;
   Eles levantam as pesadas pálpebras, e olham;
E eis que o que uma página suave pode ensinar,
   Lêem com alegria, depois fecham o livro.
E às vezes agradecem, outros blasfemam,
   E muitos esquecem, mas, de qualquer modo,
Isso e o sonho despercebido da criança
   É toda a luz de todo o seu dia.

Coventry Patmore

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

multivário

O ROCHEDO

A nuvem de ouro dorme a noite inteira
no seio do gigântico rochedo.
Pela manhã levanta-se, bem cedo,
e descuidada vai-se pelos céus, ligeira.

Mas lá restou de orvalho um breve traço
nas rugas do penedo solitário.
E é como se ele ficara multivário
chorando suavemente ante o vazio espaço.

Mikhail Lermontov

tradução de Jorge de Sena

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

chão de terra batida

Contaram-me há uns anos que no tempo, nem por isso muito distante, em que em Portugal as pessoas faziam as suas próprias casas, quando acabavam de construir a casa e antes de começarem a habitá-la, convidavam parentes e vizinhos para um baile, para que os pés dos dançarinos compactassem bem o chão.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

um quadro histórico

Kakabadze, Manifestação em Imereti, 1942
















depois de contar brevemente como nos países soviéticos a classificação de "formalista" podia acarretar sanções e perseguições aos artistas, o autor do blog de onde trouxe esta imagem conta a história deste quadro do pintor georgiano Davit Kakabadze:

"Para satisfazer os requisitos, Kakabadze incluiu a imagem de uma central de energia eléctrica nas paisagens "atapetadas" de Imereti. Também não gostaram delas argumentando que os construtores do Socialismo não estavam lá representados. Numa das pinturas, sob a montanha de Imereti, pintou manifestantes com cartazes. Nos cartazes havia retratos de Lenine, Estaline e Beria. É um quadro histórico. Depois da morte de Estaline quando Krushchev anunciou a luta contra o "culto da personalidade" no depósito do museu onde estava o quadro de Kakabadze os retratos de Estaline e Beria foram pintados por cima."

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

um norueguês na Nazaré

Jan Brøgger (1936-2006)
Pescadores e Pés - calçados
Livraria Susy, 1ª Edição, Nazaré, 1992
Tradutor: José Maria Trindade
Título original: Pre-bureaucratic Europeans
A Study of a Portuguese Fishing Community

As tensões e a gestão da vida comunitária

Um dos traços essenciais da vida comunitária da Nazaré é a ausência de privacidade. Isto não significa que a casa esteja aberta a todos, mas há sempre um número exagerado de visitas para poder ser considerada um lugar de retiro para os seus membros. Por outro lado, marido e mulher orientam as suas vidas mais em função dos compromissos sociais que em função um do outro.

Grande parte da vida familiar dos nazarenos decorre na rua, junto à porta ou no pátio. A família que se refugia na privacidade do lar torna-se objecto de censura e suspeita. A existência de uma vida privada, ou secreta, tal como ela é vista pelos nazarenos, é-lhes completamente estranha. A porta deve estar sempre aberta, o que não acontecendo pode dar azo a suspeitas de bruxaria.

Foi o que aconteceu a uma velha que vivia sozinha. Circulavam rumores de que ela tinha relações com o diabo. Rumores confirmados por duas vizinhas que se diz, terem-na surpreendido durante o insólito coito. Ela era ainda acusada com frequência dos infortúnios inexplicáveis ocorridos na comunidade.

Bacalhoeiros diziam tê-la visto durante uma campanha na Terra Nova. Este relato ilustra não só a atmosfera criada pela vida comunitária, mas também a sobrevivência das ideias clássicas de bruxaria e feitiçaria na Nazaré.

Dado desconhecerem o privilégio de um espaço privado de recolhimento, inacessível a outras pessoas, os nazarenos não podem ter, obviamente, consciência da sua necessidade. Apreciam porém as situações que lhes permitem fingir (sic) às pressões de uma comunidade demasiado envolvente. Um passatempo muito apreciado pelos pescadores mais ricos é a organização de excursões às aldeias rurais do interior. A partida cria neles um sentimento de liberdade inebriante e um estado de espírito dionisíaco.

Uma visita aos bares mais famosos de Amesterdão ou de Banguecoque não seria acompanhada de maior excitação e entusiasmo que a excursão à pacata aldeia da Maiorga. (...)

Aparentemente, para ser aceite pela comunidade piscatória, um homem deve embriagar-se pelo menos em algumas ocasiões, e dar mostras da sua vulnerabilidade por palavras e por actos. Felizmente ao fazer uma demonstração um tanto dionisíaca de uma dança norueguesa, tive a sorte de quebrar uma lâmpada de néon na cave de uma taberna. O bacanal dessa noite serviu como ritual de iniciação eficaz.

(p. 97-100)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Nivkh

Nivkh, povo da Sibéria e da ilha de Sacalina cujo nome antigo era Guiliaks

"Ivanov, um negociante de Nikolaievsk, já falecido, ia todos os verões a Sacalina para cobrar uma dízima, que impusera aos guiliaks, sob pena de sujeitar os maus pagadores à tortura e à forca." (escrito em 1890 por Tchekov)

Tchékhov, A Ilha de Sacalina, p. 18, Relógio d'Água, Abril, 2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Triste Viuvinha

Olha a triste viuvinha
Qu'anda na roda a chorar
Anda a ver se encontra noivo
Para com ela casar

Casadinha há três dias
Ela ali vai a chorar
Pela vida de solteira
Não a torna a encontrar

***

Estes são os versos que cantávamos quando eu andava na escola primária e fazíamos rodas, na imagem a letra é outra e não tenho conhecimentos musicais para saber se a música é ou não a mesma...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011