Vladimir Kush

Vladimir KUSH, Ripples on the Ocean, (Ondulações no Oceano)

Rumi

A vela do navio do ser humano é a fé.
Quando há uma vela, o vento pode levá-lo
A um lugar após outro de poder e maravilha.
Sem vela, todas as palavras são ventos.

Jalāl-ad-Dīn Muhammad RUMI




sábado, 30 de julho de 2011

o refeitório

Fotografia de Alexey Sergeev.

A legenda diz: "Trapeznaya (Refeitório) do Mosteiro de Uspensky em Velha Ladoga (Staraya Ladoga). Região de Leningrado, Rússia, 18 de Julho de 2004."

Uspensky significa Adormecimento (da Mãe de Deus). Chamam-se assim as Igrejas e Mosteiros Ortodoxos que lhe são dedicados. Na Igreja Católica celebra-se a Ascenção da Virgem ao Céu.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

balões

Balões de Igreja, David Lane (não consigo trazer a imagem para aqui, convido-vos a carregar no link)

A legenda diz: "Balões cobrindo janelas de velha igreja redundante, agora convertida no espaço de galeria pública Margem Esquerda (Left Bank), Leeds."


A Igreja de Santa Maria de Antioquia, em Leeds, foi construída no início do séc. XX e declarada redundante em 1995.

A história de Santa Maria de Antioquia pode ser lida aqui.

A imagem vem de um blog onde o autor diz que conhece bem a rua mas não sabia nada do "esplendor arquitectural" do interior da grande fachada de tijolos vermelhos que se vê de fora.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Lenda histórica de Sun Bu-er

Este excerto lendário é retirado de "Sete Mestres Taoistas: Uma Novela Popular da China" (Seven Taoist Masters: A Folk Novel of China), escrita anonimamente no séc. XVI e traduzida por Eva Wong (Shambala 1990).

A Irmã Imortal Sun Bu-er (Sun Pu-erh) foi uma figura histórica do séc. XII assim como a heroína de muitas lendas chinesas. Casou e teve três filhos antes de se dedicar completamente às práticas Taoistas com a idade de 51 anos.

1
Sun Bu-er viveu doze anos na cidade de Loyang. Alcançou o Tao e adquiriu capacidades mágicas muito poderosas. Um dia disse para si mesma, "Vivi muito tempo em Loyang. Agora alcancei o Tao, devo demonstrar os poderes do Tao às pessoas." Sun Bu-er apanhou dois ramos secos e soprou-os suavemente. Instantaneamente os dois ramos foram transformados num homem e numa mulher. A mulher parecia-se com Sun Bu-er, e o homem parecia um belo homem dos seus trinta anos. O casal foi para as ruas mais movimentadas da cidade e começaram a rir-se, a abraçar-se e a arreliar-se um ao outro. Loyang era o centro de altos estudos e cultura nesse tempo, e um comportamento tão vergonhoso em público entre um homem e uma mulher não era tolerado. No entanto apesar das repreensões das autoridades e dos professores da comunidade, o casal continuou os seus jogos e brincadeiras dia após dia. Mesmo depois de os guardas os terem levado para fora da cidade foram de novo encontrados nas ruas mais movimentadas no dia seguinte.

2
Quando os membros proeminentes da comunidade viram que os seus esforços para banir o casal para fora da cidade eram em vão reuniram-se em conselho e foram ter com o presidente dizendo, "Há muitos anos uma mulher louca refugiou-se numa casa abandonada à beira da cidade. Tivemos pena dela e demos-lhe comida quando pedia. Agora não só está a esquecer a nossa bondade para com ela mas tornou-se uma
perturbação da paz pública e da decência. Gostaríamos de pedir-lhe que prendesse este casal sem vergonha e os queimasse em público. Chegámos a este último recurso porque eles ignoraram os nossos pedidos e as nossas ameaças." Um dos chefes mais poderosos da comunidade acrescentou: "Senhor, como presidente da nossa cidade é responsável pelo comportamento dos nossos cidadãos. Tem que fazer alguma coisa acerca deste casal desavergonhado." Não querendo ofender os cidadãos poderosos da comunidade, o presidente fez um decreto e mandou afixá-lo por toda a cidade. Dizia:

"Loucura é o resultado de perder a razão. Sem razão todas as acções se tornam irracionais. Que um homem e uma mulher se abracem e brinquem em público é quebrar as regras do que é próprio. Se exibem um tal comportamento durante o dia não há nada que não possam fazer à noite. As ruas da cidade não são lugares para brincadeiras. Ter um tal comportamento em público é abominável. Pedimos-lhes que se fossem embora, mas recusaram. Levámo-los para fora da cidade mas voltaram. Só nos resta fazer uma coisa. Vamos prendê-los e queimá-los em público. Assim podemos livrar-nos destas más personagens."

3
Com os guardas da cidade, chefes da comunidade e uma grande multidão, o presidente dirigiu-se à casa abandonada à beira da cidade onde fora relatado que estavam o homem e a mulher. Quando se aproximavam da casa o presidente disse, "Que todos tragam alguma lenha seca e galhos. Faremos um pilha com eles em torno da casa e queimamos este lugar abominável, assim como a mulher louca e o homem sem vergonha." A multidão fez a pilha de ramos secos em torno da casa e pegou-lhes fogo. Chamas e fumo engoliram o edifício.

4
Subitamente o fumo cinzento transformou-se em névoa de muitas cores e a mulher louca foi vista sentada na abóbada de nuvens, rodeada pelo homem e pela mulher que as pessoas tinham visto a brincar nas ruas. Sun Bu-er disse à multidão lá em baixo: "Procurei o Tao. A minha casa é na Provincia de Shantung e o meu nome é Sun Bu-er. Há doze anos cheguei a Loyang. Disfarcei-me de mulher louca para que pudesse prosseguir em paz no caminho do Tao. Finalmente atingi-o e hoje serei levada para os céus pelo fogo e pelo fumo. Transformei dois paus num homem e numa mulher para que as circunstâncias vos trouxessem aqui e conhecessem o mistério e poderes do Tao. Em troca da vossa bondade e hospitalidade para comigo através dos anos vou dar-vos este casal. Eles serão os vossos guardiães, e eu zelarei para que as vossas colheitas sejam abundantes e a vossa cidade protegida de pragas e desastres naturais." Sun Bu-er empurrou o homem e a mulher e eles caíram sobre a multidão lá em baixo. Instantaneamente o casal se transformou novamente na sua forma original.


5
A multidão apanhou os dois paus, mas quando voltaram a olhar para o céu tudo o que viram foi uma pequena figura negra a ficar cada vez mais pequena à medida que voava mais e mais alto. A figura tornou-se um ponto, e finalmente o ponto desapareceu. A multidão inclinou o pescoço em respeito e dispersou. Nos cinco anos seguintes, Loyang gozou de uma prosperidade nunca igualada em nenhuma cidade da China. Os seus campos produziram colheitas fartas e o gado era saudável e abundante. As chuvas chegaram no tempo próprio e a cidade e os terrenos à volta pareciam imunes aos desastres naturais. Gratos a Sun Bu-er os cidadãos construíram-lhe um santuário. Nele estava uma estátua como ela, e com ela estavam estátuas do homem e da mulher que ela tinha criado de dois paus. O santuário foi chamado Santuário dos Três Imortais. Foi dito que aqueles que apresentavam ofertas com sinceridade receberam bênçãos dos três imortais.

tradução do texto inglês publicado aqui e imagem aqui

quinta-feira, 21 de julho de 2011

vida de caracol

alguns caracóis sobrevivem depois de comidos por aves, viajando assim para longe

"Caracóis minúsculos podem realmente beneficiar por serem comidos por pássaros, segundo um novo estudo que descobriu que cerca de 15 por cento dos caracóis comidos por duas espécies de aves sobreviveu à viagem através das vísceras das aves até saír na outra extremidade."

"Demorou 30 a 40 minutos para que os caracóis, todos adultos com conchas de cerca de 2,5 milímetros de altura, passassem completamente através dos sistemas digestivos das aves. (...) Os caracóis que não se mexeram nas 12 horas seguintes foram considerados mortos."

"Caracóis dos charcos que conseguem sobreviver à passagem através de peixes ou patos que os comem são os únicos outros exemplos conhecidos de animais adultos que se dispersam deste modo, escrevem os autores no Jornal de Biogeografia (Journal of Biogeography).

Pesquisa dirigida por Shinichiro Wada na Universidade de Tohoku no Japão.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

o caminho

sinais pintados nas pedras do caminho para o templo taoista

Tian Chi (Lago Celeste) perto de Ürümqi, na Região Autónoma Uigur de Xinjiang, China

fotografia de Simply Tina Setembro de 2008

julgo que o templo seja este

terça-feira, 19 de julho de 2011

sábado, 16 de julho de 2011

bitartarato de potássio

lembro-me tão bem de estar entusiasmadíssima por ir ter aulas de química e da desilusão que tive logo na primeira aula ... já uns anos antes me tinha acontecido o mesmo com a botânica ... e, mais ou menos ano sim ano não, acontecia-me com a matemática ...

vem isto a propósito do bitartarato de potássio, soubesse eu mais de química e poderia compreender melhor, mas julgo perceber que os sarros e as borras do vinho têm propriedades muito mais interessantes do que alguma vez imaginei e são subprodutos do vinho muito valiosos, ver aqui.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

uma cadeira no sul

na ilha grega de Gavdos há uma cadeira gigante, é o ponto mais a sul na Europa e convida a sorrir :)

Gavdos fica a cerca de 3 horas de barco de Creta, a ilha mais próxima, e durante todo o ano tem cerca de 40 a 50 habitantes

no verão tem milhares de turistas

quinta-feira, 14 de julho de 2011

relações

ao ver as fotografias do blog le photograph aveugle chat_de_mer recordei a frase de Heraclito "só há uma inteligência para todos mas cada um pensa que tem uma inteligência particular"

terça-feira, 12 de julho de 2011

os mercados

Os mercados querem dinheiro para cocaína e prostitutas. Estou a ser mortalmente sério.
A maioria das pessoas não percebe que "os mercados" são na realidade licenciados em gestão entre os 22-27 anos, a cozinhar freneticamente estratégias de negócios caóticas em folhas excel e a fazer relatórios para chefes talvez 5 anos mais velhos que eles. Além disso, geralmente têm a mentalidade e provavelmente a inteligência dos estudantes do primeiro ciclo da escola secundária. Sem conhecer estes factos básicos, nada faz sentido acerca dos mercados - e sabendo, percebe-se tudo.

O que os mercados, obrigações e especuladores, etc., querem agora é que a Irlanda lhes dê o que querem para se sentirem bem, mais nada. Um único orçamento rápido e decisivo faria isso; um plano de quatro anos não. Ou já se terão reformado ou terão sido promovidos a posições em que já não querem saber da Irlanda. Quem quer que se importe será um grande especulador procurando espremer o país para tirar grande lucro.
Em vez de um orçamento como deve ser, o que o país pode fazer - e que vai funcionar - é subornar os sócios gerentes e os administradores das agências de "rating" para darem uma avaliação mais alta ao país. Mesmo alguns milhões gastos para aumentar o "rating" da Irlanda salvariam milhões e possivelmente salvavam o país.
Pão e circo para as massas, cocaína e prostitutas para os mercados. Isto pode obviamente ser considerado anti-ético, mas uma vez que todo o sistema é anti-ético, sem princípios e de qualquer modo já está caótico, porque não explorar o facto para fazer algum bem à nação em vez de levá-la à bancarrota no esforço de comprar novos BMWs para solteiros de 25 anos.

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tradução do Comentário (em inglês) de "ObsessiveMathsFreak" deixado no post "O que querem os mercados" (What do markets want) do website "A Economia Irlandesa" (The Irish Economy) no dia 28 de Outubro de 2010 às 5.40h da tarde e publicado dois dias depois no "The New York Times"

a imagem veio daqui

sexta-feira, 8 de julho de 2011

a ponte na floresta

depois de caçar um elefante, e garantir assim comida para muito tempo, pigmeus controem uma ponte suspensa sobre um rio onde vivem crocodilos

carregar aqui para ver o filme "Emoções dos Pigmeus Africanos, anos 30"

(African Pygmy Thrills, 1930s)

duração: 9.36 min.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

HISTÓRIA DO JOÃO SOLDADO QUE METEU O DIABO NUM SACO

Era uma vez um rapaz bem nascido, mas sem leira nem beira, a quem tocou a sorte de ser soldado. Terminado o tempo de praça, que foram oito anos, alistou-se por mais oito e, terminados estes, por mais oito.

Quando completou os últimos oito anos, já era velho e como nem para andar com as marmitas servia, deram-lhe baixa e entregaram-lhe tudo o que restava do soldo: um pão e quatro vinténs.

Era tudo isto que vos estou narrando no tempo em que o dinheiro se contava por vinténs e por patacos, valendo cada pataco dois vinténs, no tempo em que “ir à tropa” era “ir às sortes” e o soldado era soldado porque recebia um soldo mas tão pequeno que, como aconteceu ao nosso herói, ao fim de tantos anos só lhe restavam quatro vinténs.

João Soldado pôs-se a caminho e ia dizendo para consigo:

“Sempre te declaro que tiraste um lucro de arregalar o olho! Depois de servires o Rei durante vinte e quatro anos, ficas com um pão e quatro vinténs! Mas é andar com Deus e nada ganhas em desesperar senão criares mau sangue.”

E pôs-se a cantarolar:

Não há vida mais rendosa
Do que a vida de soldado.
É rancho, mochila e arma,
E morrendo está arrumado!

Era também esse o tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo andava pelo mundo e trazia por moço a São Pedro. Encontrou-se com eles João Soldado e São Pedro, que era o do saco, pediu-lhe esmola.

-Eu que lhe hei-de dar – disse João Soldado – se, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, não fiquei com mais do que um pão e quatro vinténs?

São Pedro era teimoso e insistiu.

-Enfim – disse João Soldado – ainda que, depois de servir o Rei vinte e quatro anos só tenha por junto um pão e quatro vinténs, repartirei o pão com vossemecês.

E puxando da navalha, cortou o pão em três bocados, deu-lhes dois e ficou com um.

Daí a duas léguas, encontrou-se outra vez com São Pedro que tornou a pedir-lhe esmola.

-Quer parecer-me – disse João Soldado – que lá adiante vi vossemecês e que conheço essa calva. Mas enfim… é andar com Deus ainda que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, só tenha um pão e quatro vinténs e do pão não me reste senão este bocado que vou repartir com vossemecês.

Assim o fez e, em seguida, comeu a sua parte para que não tornassem a pedir-lha.

Ao pôr do sol, terceira vez se encontrou com o Senhor e São Pedro, que lhe pediram esmola.

-Ia jurar que já lha dei – disse João Soldado. – Mas enfim… é andar com Deus ainda que, ao fim de servir o Rei vinte e quatro anos, me vi só com um pão e quatro vinténs. E vou repartir com vossemecês estes quatro vinténs como já reparti o pão.

Pegou nas duas moedas de pataco, deu uma a São Pedro e ficou com a outra.

“Que hei-de fazer com um pataco?” disse João Soldado para os seus botões. “O remédio é deitar-me a trabalhar, se quero ter de comer.”

-Mestre! – dizia entretanto São Pedro ao Senhor – Faça Vossa Majestade alguma coisa em favor desse desgraçado que serviu vinte e quatro anos o Rei e não tirou outro proveito mais do que um pão e quatro vinténs que repartiu connosco.

-Está bem – concordou o Senhor. – Chama-o e pergunta-lhe o que quer ele.

Assim fez São Pedro, e João Soldado, depois de muito pensar, respondeu que o que queria era que, no bornal que levava vazio, se metesse tudo o que ele quisesse meter nele. Isso lhe foi concedido. E João Soldado seguiu caminho.

Ao passar por uma aldeia, avistou numa tenda umas broas de pão mais alvo que jasmins e umas linguiças que estavam mesmo a dizer: comei-me.

-Salta para o bornal! – ordenou João Soldado em voz de comando.

E era coisa de pasmar ver as broas dando voltas como rodas de carreta e as linguiças arrastando-se como cobras a encaminharem-se para o bornal.

João Soldado, que comia mais do que um cancro e naquele dia tinha mais fome do que Deus tem paciência, apanhou um fartote, daqueles de dizer “não posso mais”.

Ao anoitecer chegou ele a outra aldeia. Como era soldado com baixa, tinha direito a alojamento, a que lhe dessem boleto. Por isso se dirigiu ao regedor a quem disse:

-Senhor, eu sou um pobre soldado que, ao fim de ter servido o Rei 24 anos, achei-me só com um pão e quatro vinténs que se gastaram no caminho.

O regedor respondeu-lhe que, se ele quisesse, o alojaria numa herdade próxima, para onde ninguém queria ir habitar porque nela havia morrido um condenado e, desde então, andava lá coisa ruim. Mas que se ele era animoso e não tinha medo de coisas ruins, podia ir lá e encontraria lá tudo do bom e do melhor pois o condenado tinha sido riquíssimo. Falou João Soldado:

-Senhor! João Soldado não deve nem teme e portanto posso encaixar-me lá enquanto o diabo esfrega um olho.

Na tal herdade, achou-se João Soldado no centro da abundância. A adega era das mais excelentes, a dispensa das mais providas e os madureiros estavam atestados de fruta.

A primeira coisa que fez, como prevenção para o que desse e viesse, foi encher uma cântara de vinho porque considerou que aos bêbados costuma tapar-se a veia do medo. A seguir, acendeu uma vela e sentou-se a fazer umas migas de toucinho.

Mal se tinha sentado, ouviu uma voz que vinha pela chaminé abaixo e dizia:

-Caio?

-Pois cai, se tens vontade – respondeu João Soldado que já estava meio pitosga com as emborcações daquele vinho precioso. – Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não deve nem teme.

Ainda não tinha acabado de falar e já caía pela chaminé abaixo a exacta perna de um homem. João Soldado sentiu tal arrepio que se lhe eriçaram os cabelos como a um gato assanhado. Pegou na cântara e bebeu um trago.

Mais animoso, perguntou à perna:

-Queres que te enterre?

A perna fez sinal de que não com o dedo gordo do pé.

-Pois apodrece para aí – disse João Soldado.

Daí a nada, tornou a ouvir a mesma voz, que vinha da chaminé, a perguntar:

-Caio?

-Pois cai, se tens vontade – respondeu ele dando outro beijo na cântara. – Quem serviu vinte e quatro anos o Rei, não teme nem deve.

Caiu então a outra perna, ao lado da companheira que já lá estava. Para rematar em poucas palavras: como caíram as pernas, caíram os quatro quartos de um homem e, por último, a cabeça, que se uniu aos quartos, e então se pôs em pé uma peça, não um cristão, mas um assombroso espectro que parecia dever ser o próprio condenado em corpo e alma.

-João Soldado – disse ele com um vozeirão capaz de gelar o sangue nas veias – vejo que és um valente.

-Sim, senhor. Sou um valente, não há dúvida. Pela vida de Cristo, nunca João Soldado conheceu nem fartura nem medo. Apesar disso, saberá Vossa mercê que, ao fim de ter servido vinte e quatro anos o Rei, o proveito que tirei foi um pão e quatro vinténs.

-Não te entristeças por isso. Porque se fizeres o que eu te vou dizer, salvarás a minha alma e serás feliz. Aceitas fazê-lo?

-Sim senhor, sim senhor.

-O pior – observou o espectro – é que me parece que tu estás bêbedo…

-Não senhor, não senhor. Estou assim “tem-te não caias”. Pois saberá Vossa Mercê que há três classes de bebedeira. A primeira é “tem-te não caias”, a segunda é de fazer SS e RR e a terceira é de cair. Ora eu, senhor, não passei do “tem-te não caias”.

-Se assim é, vem comigo.

João Soldado levantou-se. Ficou a balouçar como um santo num andor. Mas lá conseguiu pegar na vela. O espectro, porém, estendeu o braço como uma garrocha e apagou a luz. Não era precisa porque os olhos dele alumiavam como duas forjas acesas,

Quando chegaram à adega disse o espectro:

João Soldado, pega numa enxada e abre aqui uma cova.

-Abra-a Vossa Mercê com toda a força que tem, se faz gosto nisso. Eu não servi o Rei vinte e quatro anos, sem outro proveito que um pão e quatro vinténs, para me pôr agora a servir outro amo que pode ser que nem isso me dê.

O espectro pegou na enxada, cavou e tirou três talhas. Disse a João Soldado:

-Esta primeira talha está cheia de cobre, que repartirás pelos pobres. Esta segunda talha está cheia de prata, que empregarás em mandar rezar missas pela minha alma. E esta terceira talha está cheia de ouro, que será para ti se me prometeres entregar as outras conforme acabo de dispor.

-Fique Vossa Mercê descansado – afirmou João Soldado. – Vinte e quatro anos passei cumprindo as ordens que me davam sem tirar outro proveito que um pão e quatro vinténs. Já vê Vossa Mercê se o não farei agora que tão boa recompensa me promete.

E na verdade, João Soldado cumpriu tudo o que lhe recomendou o espectro e, de contente, ficou metido num sino. Quem não ficou nada contente foi o Diabo-Mor, Lúcifer, o qual perdeu a alma do condenado pelo muito que por ela rezaram a igreja e os pobres. Mas não sabia como vingar-se de João Soldado.

Ora havia no Inferno um Satanás pequeno, astuto e ladino, que garantiu a Lúcifer ser capaz de lhe trazer João Soldado. Causou isto muita alegria ao Diabo-Mor. E prometeu ao diabinho que, se ele conseguisse fazer o que dizia, o presentearia com um molho de enfeites e de ditos para seduzir e perder as filhas de Eva e com uma porção de baralhos de cartas e garrafas de vinho para tentar e perder os filhos de Adão.

Estava João Soldado sentado no seu quintal, quando vê chegar junto de si, todo lépido, o diabinho, que o saúda:

-Bons dias, Senhor Dom João!

-Estimo ver-te macaquinho. Que feio que tu és! Queres uma fumaça?

-Não fumo, Dom João, senão palhas.

-Vai um copo?

-Não bebo senão água-forte.

-Pois, então, que vens tu cá fazer?

-Venho levar Vossa Mercê comigo.

-Em boa hora seja. Não servi vinte e quatro anos o Rei, para bater em retirada diante de um macaquito de má morte como tu. João Soldado não deve nem teme, percebes? Olha, sobe a essa figueira que está cheia de belos figos, enquanto eu vou pelos alforjes porque me parece que a o caminho que temos a andar é comprido.

O Satanás pequeno, que era guloso, subiu à figueira e pôs-se a comer figos. João Soldado foi buscar o bornal que deitou às costas, voltou para junto do diabrete e gritou-lhe:

-Salta para o bornal!

Dando gritos de assombrar o diabrete não teve outro remédio senão enfiar-se dentro do bornal.

João Soldado fechou o saco, e pôs-se a desancar o diabrete até lhe deixar os ossos num feixe. Depois, mandou-o ir-se embora. Quando, chegado ele à sua presença, o Diabo-Mor viu o seu benjamim naquele estado, e partido, pôs-se vermelho de fúria e desatou aos gritos:

-Irra! Três mil vezes irra! Juro que esse descarado do João Soldado mas há-de pagar todas de uma vez! Eu mesmo lá vou em pessoa!

João Soldado já esperava esta visita. Estava prevenido e tinha o bornal às costas. Logo que Lúcifer se apresentou, deitando lume pelos olhos e foguetes pela boca, avançou para ele muito tranquilo e disse-lhe:

-Compadre Lúcifer! Fizeste bem em vir. Mas é preciso que saibas que João Soldado não deve nem teme!

-Tu, meu fanfarrão das dúzias é que vais saber. Meto-te no inferno num abrir e fechar de olhos.

-Tu a mim? Tu, Lúcifer, a João Soldado? Não há-de ser fácil … tem cuidado.

O Diabo bufava: “Vil guzano terrestre!”

E João Soldado a rir-se:

-Grande estafermo! Vou enfiar-te no meu bornal. A ti, ao teu rabo e aos teus cornos.

-Basta de bravatas! – rugiu o Diabo, estendendo o enorme braço e mostrando as unhas tremendas e negras.

-Salta para o bornal! – ordenou João Soldado na voz de comando que aprendera na tropa.

E por mais que Lúcifer se torcesse, por mais que se arrepelasse e pusesse num novelo, foi direitinho de cabeça para dentro do bornal.

João Soldado fechou o saco e foi buscar um masso. Pôs-se a descarregar cada pancada que onde batia fazia uma cova. Lúcifer ficou mais chato que uma folha de papel.

Quando sentiu os braços cansados abriu o bornal, deixou cair o miserável e disse-lhe:

-Por agora contento-me com isto. Mas se te atreves a voltar a aparecer diante de mim, grande desavergonhado, arranco-te o rabo, os cornos e as unhas, e nunca mais metes medo a ninguém.

O Diabo lá se arrastou como pôde até ao Inferno. Quando a corte infernal o viu chegar naquele estado, derrubado, encolhido, transparente, com o rabo entre as pernas, todos aqueles farricocos se puseram a vomitar sapos e cobras.

-Que havemos de fazer depois disto, Senhor? – perguntavam eles.

-Mandar vir serralheiros para que façam ferrolhos para as portas, mandar vir pedreiros para taparem todos os buracos e fendas das paredes, a fim de que não entre, não surja, nem aporte ao Inferno o grande insolente do João Soldado!

E assim se fez com toda a pontualidade.

Quando João Soldado viu aproximar-se a hora da sua morte, pegou no bornal e encaminhou-se para o céu. À porta encontrou São Pedro.

-Ora viva! Seja benvindo! – disse-lhe São Pedro – Onde é a ida, amigo?

-Aonde vê – respondeu João Soldado muito ancho e emproado.

E ia entrando.

-Alto lá, compadre! No céu não entra assim qualquer um como se entrasse em sua casa. Vejamos. Que merecimentos traz Vocemecê?

-Pois diga-me, Senhor São Pedro… Pois diga-me se lhe parece regular que eu, depois de lá em baixo ter servido o Rei vinte e quatro anos sem tirar outro proveito mais do que um pão e quatro vinténs, diga-me se, depois disso, não há no céu um lugar para mim?

São Pedro sorriu e João Soldado entrou.

HISTÓRIA DO JOÃO SOLDADO QUE METEU O DIABO NUM SACO, Edições Ledo, s/ data, mas possivelmente 1989

quarta-feira, 6 de julho de 2011

o guarda-florestal

O guarda florestal estava surpreendido por um homem com o aspecto de Nasrudin estar a pedir o trabalho de lenhador.
'Vou dar-te uma oportunidade,' disse ele 'embora não me pareças capaz de derrubar árvores. Toma este machado e corta todas as árvores que puderes naquela plantação.'
Ao fim de três dia Nasrudin apresentou-se.
'Quantas árvores derrubaste?'
'Todas as árvores da plantação.'
O guarda-florestal foi ver e realmente já não havia árvores, Nasrudin tinha feito o trabalho que se esperaria de trinta homens.
'Mas onde é que aprendeste a cortar árvores tão depressa?'
'No deserto do Sahara.'
'Mas não há árvores no deserto do Sahara!'
'Não, não há agora.'

Moral: Se podes derrubar árvores, podes derrubar árvores.

The Subtleties of the Inimitable Mulla Nasrudin, Idries Shah, Octagon Press

terça-feira, 5 de julho de 2011

o filho do tempo presente

ao ler uma história que Rumi escreveu no séc. XIII, "O Príncipe e a Criada", (The Prince and the Handmaid), encontrei na nota 6 que "o filho do tempo presente" é "um Energúmeno, ou instrumento passivo movido pelo impulso divino do momento"

surpreendida, porque a palavra "energúmeno" me sugeria um brutamontes e não um sábio, consultei a internet, enciclopédias e dicionários para saber, se possível, a etimologia da palavra e que significados se lhe atribuem

"O Principe e a Criada" foi escrito em persa, de modo que seria interessante saber que palavra persa foi traduzida como energúmeno, se alguém souber agradeço que deixe comentário, se eu conseguir descobrir ponho aqui ...


Parece então que a palavra "energúmeno" é de origem grega, ενεργούμενος (energoúmenos) e, claro, tem a ver com a palavra "energia" (trabalho, obra, acção)

descobri também que este assunto é mais actual e importante do que eu pensei, em 2006 o JN publicou esta notícia: O que quer dizer "energúmeno" que muito me divertiu :)

a seguir alguns apontamentos retirados de livros:
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Tomo VIII, p. 3282, Temas e Debates, Lisboa, 2005

'que está a ser influenciado, dirigido', já no séc. IV 'que está possuído pelo demónio'
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Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, I Volume, p. 1408, Academia das Ciências de Lisboa, Verbo, 2001
do latim energumême-, do grego ενεργούμενος

Pessoa que se supõe estar possessa do demónio = ENDEMOINHADO, POSSESSO
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. IX, p. 698, Editorial Enciclopédia, Lda.; Lisboa, Rio de Janeiro, s/ data mas posterior a 1942 e anterior a 1960

   Por este nome se designaram, primeiro, certas pessoas cuja ideia fixa lhes perturbava a razão e aquelas cujo espírito, demasiadamente esclarecido, ofendia as crenças ou superstições religiosas do seu tempo. Os escritores da antiguidade cristã consideravam os pecadores endurecidos ou incrédulos contumazes sob a influência especial dum espírito maligno, geralmente o Diabo.
   Outros aplicavam esta designação a simples doentes, em atenção ao número extraordinário de energúmenos que apareceram nos primeiros tempos do Cristianismo. Actualmente consideram-se energúmenos não só os fanáticos e exaltados de todos os sistemas políticos e religiosos, mas ainda aquêles que se entregam a entusiasmos excessivos, falam com arrebatamento e cólera, gesticulam com veemência, etc. Na sequência do seu apostolado a Igreja determinou organizar uma disciplina especial para energúmenos, cujos principais pormenores nos foram conservados. Êsses energúmenos eram, umas vezes como catecúmenos, outras como baptizados, inscritos numa lista pelos exorcistas, a quem se confiavam, depois de severamente examinados àcerca do seu estado e principalmente da posse diabólica.  (...)

domingo, 3 de julho de 2011

Na República de Komi

Na República de Komi, Federação Russa, no cimo de uma colina, estão sete pilares como este. Eram a fonte de poder dos xamãs. Encontra-se muito pouca informação em português sobre esta região do mundo. A fotografia está no Google Earth, carregar aqui.

Pode ler-se alguma coisa (em inglês) sobre as histórias locais aqui.

sábado, 2 de julho de 2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

a libração da Lua

Embora, devido à sincronia dos movimentos, vejamos sempre a mesma face da Lua e nunca o outro lado, ao longo dos dias a Lua deixa ver um pouco mais do que apenas a metade que está virada para nós. À oscilação que nos permite ver um pouco mais de metade da Lua chama-se libração e podem ler a explicação na Infopédia
A Lua também não está sempre à mesma distância de nós, de modo que umas vezes parece um pouco maior ou um pouco mais pequena - não confundir com o facto de parecer maior quando está próxima do horizonte, isso é outro assunto ...

A Nasa fez uma animação que mostra a alteração das fases da Lua, do tamanho e da libração, carregar aqui.